A Revolução Permanente

Reunimos a seguir a introdução ao livro “A Revolução Permanente”, de Leon Trotsky, e as teses com as conclusões essenciais sobre o tema. Esses textos fazem parte do programa de formação básica da OCI, a Universidade Vermelha, e são indicados a todos aqueles que buscam compreender os fundamentos do marxismo.

Esta obra é consagrada a uma questão estritamente ligada à história das três revoluções russas, mas ainda vai além. No decurso destes últimos anos, essa questão teve um papel imenso nas lutas internas do Partido Comunista da União Soviética. Colocada, em seguida, na Internacional Comunista, desempenhou papel decisivo no desenvolvimento da revolução chinesa, determinando uma série de resoluções extremamente graves, relacionadas com a luta revolucionária nos países do Oriente. Trata-se da chamada teoria da “Revolução permanente”, que, segundo os epígonos1 do leninismo (Zinoviev, Stalin, Bukharin e outros), constitui o pecado original do “trotskysmo”. 

Após longa trégua, a questão da Revolução permanente foi novamente levantada em 1924, de uma forma que à primeira vista poderia parecer completamente inesperada. Não havia nenhum motivo político para recomeçar a discussão: eram controvérsias há muito tempo esquecidas. Em compensação, existiam graves razões psicológicas. O grupo dos chamados “velhos bolcheviques”, ao empreender a sua ofensiva contra mim, opôs-me inicialmente o seu título de “velhos”. Mas um grande obstáculo surgia em seu caminho: o ano de 1917. Por mais importante que tenha sido a história das lutas ideológicas precedentes e da preparação revolucionária, essa primeira fase, para o conjunto do Partido e para os indivíduos, encontrou sua justificação mais alta e irrevogável na Revolução de Outubro. Nenhum dos epígonos conseguiu passar nesse exame. 

No momento da Revolução de Fevereiro de 1917, todos sem exceção, ocuparam as posições vulgares da esquerda democrática. Nenhum deles formulou a palavra de ordem de luta do proletariado pelo poder. Todos eles consideravam a orientação rumo à revolução socialista como absurda ou, pior ainda, como “trotskysta”. 

Foi nesse espírito que dirigiram o partido até o regresso de Lênin do estrangeiro e até a publicação de suas célebres teses de 4 de abril de 1917. Depois disso, Kamenev,2 já em luta direta contra Lênin, procurou organizar abertamente a ala democrática do bolchevismo. Zinoviev, que chegara com Lênin, dá-lhe logo depois sua adesão. Stalin, muito comprometido por sua posição social-patriótica, pôs-se a margem. Deixando ao partido tempo para esquecer os lamentáveis artigos e discursos de sua autoria durante as semanas decisivas de março, Stalin foi se aproximando, pouco a pouco, do ponto de vista de Lênin. De tudo isso, surgiu, naturalmente, a pergunta: que aprenderam do leninismo esses dirigentes “velhos bolcheviques”, uma vez que, no momento histórico mais grave e mais cheio de responsabilidades, nenhum deles foi capaz de utilizar, por si, toda a experiência teórica e prática do partido? Foi preciso, porém, evitar a todo custo a questão e substituí-la por outra. Isso explica por que se decidiu concentrar o fogo sobre a teoria da revolução permanente. É natural que os meus contraditores não tenham, então, podido prever que, depois de criarem um eixo artificial de luta, se veriam forçados, em seguida, a girar insensivelmente ao redor desse eixo e a formar, assim, uma concepção nova por método inverso. 

Os pontos essenciais da teoria da revolução permanente foram por mim formulados antes dos acontecimentos decisivos do ano de 1905. A Rússia caminhava para uma revolução burguesa. Entre os sociais-democratas russos da época (trazíamos todos, então, o nome de sociais-democratas), ninguém duvidava que marchássemos precisamente para uma revolução burguesa isto é, para uma revolução provocada pela contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade capitalista e as anacrônicas relações de classe e de condição legadas pela época de servidão e da Idade Média. Lutando, nessa época, contra os narodniki (populistas) e os anarquistas, consagrei numerosos artigos e discursos à interpretação marxista do caráter burguês da revolução iminente. 

Esse caráter burguês da revolução não deixava, porém, prever que classes deveriam realizar as tarefas da revolução democrática e que forma tomariam então, as relações entre as classes. Era esse, no entanto, o ponto de partida de todos os problemas estratégicos fundamentais. 

Imagem: Domínio Público

Plekhanov,3 Axelrod, Zassulitch, Mártov4e, com eles, todos os mencheviques russos, partiam do ponto de vista de que o papel dirigente numa revolução burguesa só podia pertencer à burguesia liberal, na qualidade de pretendente natural do poder. Segundo esse esquema, cabia ao partido do proletariado o papel de ala esquerda da frente democrática: a social-democracia devia sustentar a burguesia liberal na luta contra a reação, mas defender, ao mesmo tempo, os interesses do proletariado contra a burguesia liberal. Por outras palavras, os mencheviques consideravam a revolução burguesa, sobretudo, como uma reforma liberal e constitucional. 

Lênin formulava o problema de modo inteiramente diverso. A libertação das forças produtivas da sociedade burguesa do jugo da servidão significava antes de tudo, para ele, a solução radical do problema agrário, no sentido de uma liquidação definitiva da classe dos grandes proprietários fundiários e de uma transformação revolucionária no domínio da propriedade fundiária. Tudo isso estava indissoluvelmente ligado à abolição da monarquia. Lênin colocara o problema agrário, que tocava nos interesses vitais da enorme maioria da população e que constituía, ao mesmo tempo, a base do problema do mercado capitalista, com uma audácia verdadeiramente revolucionária. 

Uma vez que a burguesia liberal, que se opunha aos operários, estava ligada à grande propriedade fundiária por laços numerosos, a libertação verdadeiramente democrática da classe camponesa só podia realizar-se pela cooperação revolucionária dos operários e camponeses. Em caso de vitória, essa revolta comum contra o antigo regime devia acarretar, segundo Lênin, a instauração da “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses”. 

Essa fórmula é, hoje, repetida na Internacional Comunista como um dogma geral, sem que se procure fazer a análise da experiência histórica viva do último quarto de século. Como se não tivéssemos sido atores e testemunhas da revolução de 1905, da revolução de março de 1917 e, finalmente, da reviravolta de outubro! No entanto, uma tal análise histórica é tanto mais necessária quanto o regime da “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” nunca existiu na realidade. Em 1905, Lênin falava, apenas, de uma hipótese estratégica que devia ainda ser verificada pelo curso real da luta de classes. A fórmula “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” tinha, sobretudo, e de caso pensado, um caráter algébrico. Lênin não resolvia, de antemão a questão das relações políticas entre as duas partes da ditadura democrática eventual: o proletariado e os camponeses. Não excluía a possibilidade de serem os camponeses representados na revolução por um partido especial, independente não só da burguesia, mas também do proletariado, e capaz de fazer a revolução democrática unindo-se ao partido do proletariado na luta contra a burguesia liberal. 

Como veremos em seguida, Lênin admitia até que o partido revolucionário camponês formasse a maioria no governo da ditadura democrática. Desde o outono de 1902, pelo menos, isto é, desde a época da minha primeira fuga para o estrangeiro, me considerei discípulo de Lênin no que concernia ao papel decisivo da transformação agrária no destino da nossa revolução burguesa. Ao contrário do que rezam as lendas absurdas dos últimos anos, estava então perfeitamente convencido de que a revolução agrária e, por conseguinte, a revolução democrática, só podia realizar-se no curso da luta contra a burguesia liberal, pelos esforços conjugados dos operários e dos camponeses. Opunha-me, porém, à fórmula da “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses”, por achar que tinha o defeito de deixar sem resposta à pergunta: a qual dessas duas classes pertencerá a ditadura real? Procurava demonstrar que, a despeito de sua enorme importância social e revolucionária, os camponeses não são capazes de formar um partido verdadeiramente independente e, muito menos, de concentrar o poder revolucionário nas mãos desse partido. Em todas as revoluções passadas, a partir da reforma alemã do século XVI e mais cedo ainda, os camponeses rebelados deram sempre seu apoio a uma das frações da burguesia das cidades, permitindo-lhe, muitas vezes, alcançar a vitória. Assim, também considerava eu que, em nossa revolução burguesa retardada, os camponeses, no momento supremo da luta, podiam prestar um auxílio análogo ao proletariado e ajudá-lo a tomar o poder. Cheguei, assim, à conclusão de que a nossa revolução burguesa só podia realizar de fato as suas tarefas no caso de o proletariado, apoiado pelos milhões de camponeses, concentrar em suas mãos a ditadura revolucionária. Qual seria o conteúdo social dessa ditadura? Antes de mais nada, sua missão consistiria em levar até o fim a revolução agrária e a reconstrução democrática do Estado. 

Em 1905, Lênin falava, apenas, de uma hipótese estratégica que devia ainda ser verificada pelo curso real da luta de classes. A fórmula “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” tinha, sobretudo, e de caso pensado, um caráter algébrico

Em outras palavras, a ditadura do proletariado tornar-se-ia a arma com a qual seriam alcançados os objetivos históricos da revolução burguesa retardatária. Mas esta não poderia ser contida aí. No poder, o proletariado seria obrigado a fazer incursões cada vez mais profundas no domínio da propriedade privada em geral, ou seja, empreender o rumo das medidas socialistas. 

“Mas realmente acreditais que a Rússia já esteja madura para uma revolução socialista?” objetaram-se muitas vezes Stalin, Rykov5 e outros Mólotov,6 dos anos 1905 a 1917. Sempre respondi: não, não creio. Contudo, a economia mundial e a economia europeia em particular estão perfeitamente maduras para esta revolução. A ditadura do proletariado na Rússia nos conduzirá ou não ao socialismo? Em que ritmos e por quais etapas? Tudo isso dependerá do comportamento futuro do capitalismo europeu e mundial. 

Eis aqui os traços essenciais da revolução permanente, tal como ela se constituiu nos primeiros meses do ano de 1905. Três revoluções ocorreram depois. O proletariado russo chegou ao poder, levado pela poderosa vaga de uma insurreição camponesa. A ditadura do proletariado tomou-se um fato consumado na Rússia antes de surgir em outros países, incomparavelmente mais desenvolvidos. 

Em 1924, sete anos após a fulgurante confirmação do prognóstico histórico da teoria da revolução permanente, os epígonos desencadearam contra ela uma furiosa campanha, destacando dos meus velhos escritos frases truncadas e réplicas polêmicas que eu mesmo já havia completamente esquecido depois de tanto tempo. 

A esta altura, é bom lembrar que a primeira Revolução Russa irrompe pouco mais de meio século após a época das revoluções burguesas na Europa e 35 anos depois da insurreição da Comuna de Paris. A Europa já havia perdido o hábito das revoluções. A Rússia as desconhecia completamente. Todos os problemas da revolução se formulavam em novos termos. É fácil compreender que a revolução que se aproximava representava então para nós uma massa de elementos desconhecidos ou duvidosos. As fórmulas de todos os grupos não passavam, em suma, de hipóteses, teses de trabalho. É preciso ser totalmente incapaz de fazer um prognóstico histórico e compreender seus métodos para considerar, hoje, as avaliações e análises de 1905 como se elas datassem de ontem. Não raro digo a mim mesmo e frequentemente repito aos meus amigos: sem dúvida nos meus prognósticos de 1905 houve grandes lacunas muito fáceis de perceber, agora, após o fato consumado. Por ventura, todos os meus críticos os previram melhor do que eu e com maior alcance? Não tendo tido oportunidade de reler meus antigos trabalhos, admitia, antecipadamente, que eles continham falhas muito graves e importantes do que na realidade apresentavam. Disso me convenci, em 1928, durante meu exílio em Alma-Ata, onde o repouso político forçado me deu o tempo necessário para reler e anotar meus velhos escritos consagrados ao problema da revolução permanente. Confio em que o leitor chegue à mesma conclusão após ler a exposição que se segue. 

Embora mantendo-me nos limites desta introdução, é necessário, contudo, caracterizar, tão exatamente quanto possível, os elementos componentes da teoria da revolução permanente e as principais objeções que lhe fazem. A discussão de tal forma se ampliou e se aprofundou que abarca, em suma, todas as questões mais importantes do movimento revolucionário mundial. 

A revolução permanente, na concepção de Marx, significa uma revolução que não transige com nenhuma forma de dominação de classe, que não se detém no estágio democrático e, sim, passa para as medidas socialistas e a guerra contra a reação exterior, uma revolução na qual cada etapa está contida em germe na etapa precedente, e só termina com a liquidação total da sociedade de classes. 

Para dissipar a confusão criada em relação à teoria da revolução permanente, é preciso distinguir três categorias de ideias que se unem e se fundem nela. De início, compreende o problema da passagem da revolução democrática à revolução socialista. Eis basicamente sua origem histórica. 

A ideia da revolução permanente foi formulada pelos grandes comunistas dos meados do século XIX, Marx e seus discípulos, para enfrentar a ideologia burguesa que, como se sabe, pretende que, após o estabelecimento de um Estado “nacional” ou democrático, todas as questões podem ser resolvidas pela via pacífica da evolução e das reformas. Marx não considera a revolução burguesa de 1848, senão corno o prólogo imediato da revolução proletária. Marx se “enganou”. Mas seu erro era um erro de fato, não um erro de metodologia. A revolução de 1848 não se transformou em revolução. socialista. Esta foi a razão pela qual não alcançou o triunfo da democracia. Quanto à revolução alemã de 1918, não era absolutamente o coroamento democrático de uma revolução burguesa: era uma revolução proletária decapitada pela social-democracia, para ser mais exato, pela contrarrevolução que, após sua vitória sobre o proletariado, foi obrigada a conservar as falaciosas aparências de democracia. 

Segundo o esquema da evolução histórica elaborado pelo “marxismo” vulgar, cada sociedade chega, cedo ou tarde, a um regime democrático, então, o proletariado se organiza e faz sua educação socialista nesse ambiente favorável. Entretanto, no que concerne à passagem ao socialismo, nem todos a concebiam de modo idêntico: os reformistas confessos a encaravam sob aspecto de reformas que dariam a democracia um conteúdo socialista (Jaurès); os revolucionários formais reconheciam o caráter inelutável da violência revolucionária no momento da passagem ao socialismo (Guesde). Mas, tanto uns como outros, consideravam a democracia e o socialismo, em todos os povos e em todos os países, como duas etapas não somente distintas, mas também muito distantes uma da outra na evolução social. Esta ideia predominava, de igual modo, entre os marxistas russos que, em 1905, pertenciam quase todos à ala esquerda da Segunda Internacional. Plekhánov, o brilhante fundador do marxismo russo, considerava como louca a ideia da possibilidade de uma ditadura proletária na Rússia contemporânea. Este ponto de vista era compartilhado não somente pelos mencheviques, mas também pela esmagadora maioria dos dirigentes bolcheviques, em particular pelos atuais condutores do partido. Eles eram então democratas revolucionários convictos, mas os problemas da revolução socialista lhes pareciam, tanto em 1905 como em véspera de 1917, o prelúdio obscuro de um futuro ainda longínquo. 

A teoria da revolução permanente, renascendo em 1905, declarou guerra a esta ordem de ideias e a essa disposição de espírito. Ela demonstrava que, em nossa época, o cumprimento das tarefas democráticas, proposto pelos países burgueses atrasados, conduzia diretamente à ditadura do proletariado, que coloca as tarefas socialistas na ordem do dia. Nisto consistia a ideia fundamental da teoria. Enquanto a opinião tradicional considerava que o caminho para a ditadura do proletariado passa por um longo período de democracia, a teoria da revolução permanente proclamava que, para os países atrasados, o caminho para a democracia passa pela ditadura do proletariado. Por conseguinte, a democracia era considerada não como um fim em si, que deveria durar dezenas de anos, mas como o prólogo imediato da revolução socialista, à qual se ligava por vinculo indissolúvel. Desta maneira, tornava-se permanente o desenvolvimento revolucionário que ia da revolução democrática à transformação socialista da sociedade. 

Manifestações em São Petersburgo, 1905

Em seu segundo aspecto, a “teoria da revolução permanente” caracteriza a própria revolução socialista. Durante um período, cuja duração é indeterminada, todas as relações sociais se transformam no transcurso de uma luta interior contínua. A sociedade não faz senão mudar de pele, sem cessar. Cada fase de reconstrução decorre diretamente da precedente. Os acontecimentos que se desenrolam guardam, necessariamente, caráter político, dado que assumem a forma de choques entre os diferentes grupos da sociedade em transformação. As explosões da guerra civil e das guerras externas se alternam com os períodos de reformas “pacíficas”. As profundas transformações na economia, na técnica, na ciência, na família, nos hábitos e nos costumes, completando-se, formam combinações e relações recíprocas de tal modo complexas que a sociedade não pode chegar a um estado de equilíbrio. Nisso se revela o caráter permanente da própria revolução socialista. 

Em seu terceiro aspecto, a teoria da revolução permanente implica o caráter internacional da revolução socialista, que resulta do estado da economia e da estrutura social da humanidade. O internacionalismo não é um princípio abstrato: é apenas o reflexo político e teórico do caráter mundial da economia, do desenvolvimento mundial das forças produtivas e da dinâmica mundial da luta de classes.

A revolução socialista começa no âmbito nacional, mas nele não pode permanecer. A revolução proletária não pode manter-se dentro de limites nacionais senão sob a forma de um regime transitório, ainda que este dure muito tempo, como demonstra o exemplo da União Soviética. No caso de existir uma ditadura proletária isolada, as contradições internas e externas aumentam inevitavelmente, à medida que seus êxitos se ampliam. Se o Estado proletário permanecer isolado, acabará sucumbindo, vítima dessas contradições. Sua salvação reside unicamente na vitória do proletariado dos países avançados.

Desse ponto de vista, a revolução nacional não constitui um fim em si mesma; representa apenas um elo da cadeia internacional. A revolução internacional, apesar de seus recuos e refluxos temporários, constitui um processo permanente.

A campanha dos epígonos dirige-se (ainda que nem sempre com o mesmo grau de clareza) contra os três aspectos da teoria da revolução permanente. Isso é natural, pois se trata de três partes indissoluvelmente ligadas, que formam um todo. Os epígonos separam mecanicamente a ditadura democrática da ditadura socialista, do mesmo modo que separam a revolução socialista nacional da revolução internacional. Para eles, a conquista do poder nos limites nacionais representa, na essência, não o ato inicial, mas o ato final da revolução; em seguida abrir-se-ia um período de reformas que culminaria na sociedade socialista nacional.

Em 1905, nem sequer admitiam a possibilidade de o proletariado russo conquistar o poder antes que o proletariado da Europa Ocidental o fizesse. Em 1917, defendiam a revolução democrática na Rússia como um fim em si mesmo e rejeitavam a ideia da ditadura do proletariado. De 1925 a 1927, na China, orientaram-se para uma revolução nacional sob a direção da burguesia. Em seguida, lançaram para a China a palavra de ordem da ditadura democrática dos operários e camponeses, opondo-se à ditadura do proletariado. Proclamavam ser perfeitamente possível construir na União Soviética uma sociedade socialista isolada, autossuficiente.

A revolução mundial, deixando de ser uma condição indispensável para o triunfo do socialismo, torna-se, para eles, apenas uma circunstância favorável. Assim, os epígonos chegam a uma ruptura profunda com o marxismo no curso de sua luta permanente contra a teoria da revolução permanente.

Essa luta, iniciada pela recuperação artificial de certos episódios históricos e pela falsificação do passado distante, levou a uma revisão completa das ideias do grupo dirigente da revolução. Já explicamos muitas vezes que essa revisão foi provocada pelas necessidades sociais da burocracia soviética: tornando-se cada vez mais conservadora, ela aspirava a uma ordem mundial estável; desejava que a revolução já concluída, tendo-lhe assegurado uma situação privilegiada, fosse suficiente para permitir a construção pacífica do socialismo; e reclamava a consagração dessa tese. Não retornaremos aqui a essa questão. Limitar-nos-emos a acentuar que a burocracia está perfeitamente consciente da ligação que existe entre suas posições materiais e ideológicas e a teoria do socialismo nacional.

E é precisamente agora que isso se torna ainda mais claro, talvez porque o aparelho stalinista, pressionado por contradições que não havia previsto, desloca-se cada vez mais para a esquerda e desfere golpes sensíveis contra seus inspiradores de ontem, pertencentes à direita.

Como se sabe, a hostilidade dos burocratas em relação à oposição marxista — da qual tomaram apressadamente palavras de ordem e argumentos — não diminuiu em nada. Quando os oposicionistas, desejando apoiar a política de industrialização, suscitam a questão de sua reintegração no partido, exige-se antes de tudo que reneguem a teoria da revolução permanente e reconheçam, ainda que indiretamente, a teoria do socialismo em um só país.

Com isso, a burocracia stalinista revela o caráter puramente tático de sua guinada à esquerda, mantendo intactas, contudo, as bases estratégicas de seu nacional-reformismo. A importância desse fato é evidente: em política, como na guerra, a tática, em última instância, subordina-se à estratégia.

A questão de que tratamos já ultrapassou, há muito tempo, os limites da luta contra o “trotskysmo”. Ampliando-se cada vez mais, envolve agora literalmente todos os problemas da ideologia revolucionária. Revolução permanente ou socialismo em um só país: esta é a alternativa diante da qual se colocam os problemas internos da União Soviética, as perspectivas das revoluções no Oriente e, finalmente, o destino de toda a Internacional Comunista.

Esta obra não aborda a questão em todos os seus diferentes aspectos, pois não é necessário repetir o que já foi dito em outros trabalhos do autor. Procurei demonstrar, do ponto de vista teórico, a falência econômica e política do nacional-socialismo em minha crítica ao Programa da Internacional Comunista. Os teóricos da Internacional Comunista não disseram uma única palavra a esse respeito. Aliás, era a única coisa que lhes restava fazer.

No presente livro, reconstituo, antes de mais nada, a teoria da revolução permanente tal como foi formulada em 1905, tendo em vista os problemas internos da revolução russa. Mostro, em seguida, em que diferia da de Lênin a minha maneira de colocar a questão e como e por que coincidiu com a sua nos momentos decisivos. Procuro demonstrar, por fim, a importância decisiva desse problema para o proletariado dos países atrasados e, consequentemente, para toda a Internacional Comunista.

Que acusações formularam os epígonos contra a teoria da revolução permanente? Deixando de lado as inúmeras contradições de meus críticos, podemos extrair, de sua enorme produção literária, os seguintes pontos essenciais:

  1. Trotsky desconhecia a diferença entre a revolução burguesa e a revolução socialista. Ainda em 1905, acreditava que o proletariado russo tivesse diante de si, como tarefa imediata, a revolução socialista;
  2. Trotsky esquecia completamente o problema agrário. Para ele, o camponês não existia. Imaginava a revolução como um duelo entre o proletariado e o czarismo;
  3. Trotsky não acreditava que a burguesia mundial toleraria por muito tempo a existência da ditadura do proletariado russo, cuja queda considerava inevitável caso o proletariado do Ocidente não conseguisse conquistar o poder no mais breve prazo para prestar-lhe apoio. Assim, Trotsky subestimava a pressão que o proletariado do Ocidente poderia exercer sobre sua própria burguesia;
  4. Trotsky, de modo geral, não tinha confiança nas forças do proletariado russo. Julgando-o incapaz de construir o socialismo com seus próprios recursos, fundava, e continua a fundar, todas as suas esperanças na revolução internacional.

Essas acusações repetem-se em inúmeros escritos e discursos de Zinoviev, Stalin, Bukharin e outros; chegam mesmo a aparecer nas resoluções mais importantes do Partido Comunista russo e da Internacional Comunista. Apesar disso, somos obrigados a constatar que seu único fundamento é a ignorância aliada à má-fé.

Como demonstrarei mais adiante, as duas primeiras afirmações dos críticos são fundamentalmente falsas. Eu partia do caráter burguês e democrático da revolução russa e chegava à conclusão de que a própria acuidade da crise agrária poderia levar ao poder o proletariado da Rússia atrasada. Era precisamente essa ideia que eu defendia nas vésperas da revolução de 1905.

Era essa a ideia contida na expressão revolução permanente, isto é, uma revolução ininterrupta, que passa imediatamente da fase burguesa à fase socialista. Para exprimir a mesma ideia, Lênin adotou mais tarde a excelente expressão transcrescimento da revolução burguesa em revolução socialista.

Stalin, considerando a revolução permanente como um salto único do reino da autocracia para o reino do socialismo, opôs-lhe, em 1924, e de forma retroativa, essa ideia de transcrescimento. O infortunado “teórico” nem sequer se deu ao trabalho de refletir sobre o que poderia significar a permanência, isto é, a continuidade ininterrupta da revolução, caso se tratasse de um salto único.

Quanto à terceira acusação, ela foi ditada pela esperança, de curta duração, que os epígonos depositavam na possibilidade de neutralizar a burguesia imperialista por tempo ilimitado, mediante a pressão “sabiamente” organizada do proletariado. Essa foi a ideia central de Stalin entre 1924 e 1927. O Comitê Anglo-Russo foi o seu resultado.

Decepcionados em sua esperança de poder amarrar a burguesia mundial com a ajuda de aliados como Purcell, Raditch, Lafollette e Chang-Cai-Chec, os epígonos entraram em pânico diante do perigo de uma guerra iminente. A Internacional Comunista atravessa, ainda hoje, esse período.

O quarto argumento contra a teoria da revolução permanente reduz-se, muito simplesmente, à constatação de que, em 1905, eu não era partidário da teoria do socialismo em um só país, teoria que Stalin só formulou, para uso da burocracia soviética, em 1924.

Revolução Russa de 1917

Essa acusação é uma verdadeira farsa histórica. A dar ouvidos a meus adversários, seria preciso acreditar que eles — se é que em 1905 eram capazes de reflexões políticas — pensassem, naquela época, que a Rússia já estava madura para uma revolução socialista independente.

Na realidade, durante todo o período de 1905 a 1917, não cessaram de me acusar de utopismo, justamente porque eu admitia a possibilidade de o proletariado russo conquistar o poder antes do proletariado da Europa Ocidental.

Em abril de 1917, Kamenev e Rykov acusaram Lênin de utopismo e procuraram ensinar-lhe, sob uma forma popular, que a revolução socialista deveria realizar-se primeiro na Inglaterra e em outros países avançados, e que a vez da Rússia só viria mais tarde.

Até 4 de abril de 1917, Stalin também compartilhava desse ponto de vista. Foi apenas com dificuldade e gradualmente que ele assimilou a fórmula de Lênin, que opunha a ditadura do proletariado à ditadura democrática.

Na primavera de 1924, Stalin ainda repetia, junto com os demais dirigentes, que a Rússia, considerada isoladamente, não estava madura para a construção de uma sociedade socialista. Mas, já no outono do mesmo ano, no curso de sua luta contra a teoria da revolução permanente, Stalin descobriu pela primeira vez que seria possível construir o socialismo isoladamente na Rússia.

Depois disso, os professores “vermelhos” elaboraram, para seu uso, uma coletânea de citações destinadas a provar que, em 1905, Trotsky afirmava — que horror! — que a Rússia não poderia chegar ao socialismo sem o auxílio do proletariado ocidental.

Mesmo que se tomasse toda a história das lutas ideológicas travadas ao longo de um quarto de século, se a recortasse com uma tesoura, triturasse depois os pedaços em um pilão e encarregasse um cego de colá-los novamente, ainda assim talvez não se conseguisse produzir uma mixórdia teórica e política tão monstruosa quanto aquela que os epígonos oferecem a seus leitores e ouvintes.

Para demonstrar com maior clareza a ligação existente entre os problemas de ontem e os de hoje, somos obrigados a recordar aqui, ainda que brevemente, o que os dirigentes da Internacional Comunista, isto é, Stalin e Bukharin, fizeram na China.

Em 1924 reconheceu-se o papel dirigente da burguesia chinesa, sob o pretexto de que a China estava às vésperas de uma revolução libertadora nacional. O partido da burguesia nacional, o Kuomintang,7 foi então oficialmente reconhecido como partido dirigente. Os próprios mencheviques russos, em 1905, não ousaram fazer concessões semelhantes ao Partido Constitucional Democrático, os “cadetes”, que era o partido da burguesia liberal.

Mas os dirigentes da Internacional Comunista foram ainda mais longe. Forçaram o Partido Comunista chinês a integrar o Kuomintang e a submeter-se à sua disciplina. Telegramas especiais de Stalin recomendavam que os comunistas chineses contivessem o movimento agrário. Proibiu-se que os operários e os camponeses revolucionários criassem sovietes, por medo de despertar suspeitas em Chiang Kai-shek, defendido por Stalin contra a Oposição ainda no começo de abril de 1927, poucos dias antes do golpe de Estado de Xangai, e proclamado por ele “aliado fiel” numa reunião do Partido em Moscou.

A subordinação oficial do Partido Comunista à direção burguesa e a proibição oficial de criar sovietes, com o argumento de Stalin e Bukharin de que o Kuomintang “substituía” os sovietes, constituem uma traição muito mais chocante e grosseira ao marxismo do que toda a atividade dos mencheviques entre 1905 e 1917.

Em abril de 1927, após o golpe de Estado de Chiang Kai-shek, uma ala esquerda liderada por Wang Jingwei desligou-se provisoriamente do Kuomintang. O Pravda não deixou de proclamar imediatamente que Wang Jingwei era um “aliado fiel”. Na realidade, Wang Jingwei representava, em relação a Chiang Kai-shek, a mesma coisa que Kerensky8 representava em relação a Miliukov, com a diferença de que, na China, Miliukov9 e Kornilov10 estavam reunidos na mesma pessoa de Chiang Kai-shek.

Em vez de preparar uma guerra aberta contra esse Kerensky chinês, ordenou-se que o Partido Comunista chinês, depois de abril de 1927, entrasse no Kuomintang de “esquerda” e se submetesse à disciplina de Wang Jingwei. Esse amigo “fiel” destruiu o Partido Comunista e, ao mesmo tempo, o movimento operário e camponês, nada ficando a dever aos métodos do bandido Chiang Kai-shek, também proclamado aliado fiel por Stalin.

Telegramas especiais de Stalin recomendavam que os comunistas chineses contivessem o movimento agrário. Proibiu-se que os operários e os camponeses revolucionários criassem sovietes, por medo de despertar suspeitas em Chiang Kai-shek, defendido por Stalin contra a Oposição ainda no começo de abril de 1927, poucos dias antes do golpe de Estado de Xangai

Ainda que em 1905 e mais tarde tenham apoiado Miliukov, os mencheviques não chegaram a entrar no partido liberal. Embora aliados de Kerensky em 1917, conservaram, no entanto, a sua própria organização. A política de Stalin na China não passou, portanto, de uma má caricatura do próprio menchevismo. Esse foi o primeiro e mais importante período da revolução chinesa.

Quando, posteriormente, as consequências dessa política se tornaram demasiado evidentes, isto é, o desaparecimento completo do movimento operário e camponês e a desmoralização e ruína do Partido Comunista, os dirigentes da Internacional Comunista lançaram uma nova ordem: “Meia-volta à esquerda!”, exigindo a revolta armada imediata dos operários e camponeses.

Foi assim que o jovem Partido Comunista, já meio esmagado e enfraquecido, tendo sido pouco antes apenas a quinta roda do carro de Chiang Kai-shek e de Wang Jingwei e, portanto, sem experiência política própria, recebeu a ordem inesperada de conduzir os operários e os camponeses, até então mantidos pela Internacional Comunista sob a bandeira do Kuomintang, à ofensiva contra esse mesmo Kuomintang, que tivera todo o tempo necessário para concentrar em suas mãos o poder e o exército.

No espaço de vinte e quatro horas, um soviete fictício foi improvisado em Cantão. Essa insurreição armada foi preparada previamente para coincidir com a abertura do XV Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Ela constituiu não apenas uma prova do heroísmo da vanguarda dos operários chineses, mas também o testemunho dos erros criminosos dos dirigentes da Internacional Comunista.

A insurreição de Cantão foi precedida e seguida por outras aventuras menos importantes. Esse foi o segundo capítulo da estratégia chinesa da Internacional Comunista, estratégia que se poderia definir como uma má caricatura do bolchevismo.

Por meio dessas duas orientações, uma de liberal-oportunismo e outra de aventureirismo, foi desferido um golpe no Partido Comunista chinês do qual ele só poderá recuperar-se depois de muitos anos, e ainda assim apenas se for adotada uma política correta.

Cabia ao VI Congresso da Internacional Comunista fazer o balanço de toda essa atividade. Ele a aprovou inteiramente, o que é bastante compreensível, pois havia sido convocado justamente para isso. Para o futuro, lançou a fórmula de “ditadura democrática dos operários e dos camponeses”. Nunca explicaram, porém, aos comunistas chineses que diferença poderia existir entre essa ditadura e a do Kuomintang de direita ou de esquerda, de um lado, e a ditadura do proletariado, de outro. De fato, essa diferença permanece inexplicável.

Ao mesmo tempo que lançou a palavra de ordem da ditadura democrática, o VI Congresso declarou inadmissíveis palavras de ordem democráticas como a Assembleia Constituinte, o sufrágio universal, a liberdade de imprensa e de reunião, deixando o Partido Comunista chinês completamente desarmado diante da ditadura da oligarquia militar.

No entanto, durante longos anos, os bolcheviques russos mobilizaram os operários e os camponeses em torno dessas palavras de ordem democráticas, que desempenharam em 1917 um papel imenso. Somente mais tarde, quando o poder soviético já era uma realidade e entrou em choque político aberto com a Assembleia Constituinte diante de todo o povo, é que o nosso partido suprimiu as instituições e palavras de ordem da democracia formal ou burguesa em favor da democracia real, soviética ou proletária.

O VI Congresso da Internacional Comunista embaralhou completamente essa experiência. Continuando a impor ao partido chinês a palavra de ordem de ditadura “democrática” em lugar da ditadura “proletária”, proibiu-lhe ao mesmo tempo o uso das palavras de ordem democráticas que serviriam para preparar essa ditadura. O partido chinês viu-se assim não apenas desarmado, mas completamente desprevenido.

Como consolo, permitiu-se finalmente que ele lançasse, no momento do domínio absoluto da contrarrevolução, essa mesma palavra de ordem de “sovietes” que lhe havia sido proibida quando o movimento revolucionário se desenvolvia.

O herói de um conto popular russo entoa alegres canções nupciais nos enterros e cantos fúnebres nas festas de casamento. Em ambos os casos acaba sempre apanhando. Se quem apanhasse fossem apenas os estrategistas que atualmente dirigem a Internacional Comunista, a situação não teria grande gravidade. O que está em jogo, porém, é algo muito maior. Trata-se nada menos que do destino do proletariado.

A tática da Internacional Comunista não foi outra coisa senão uma sabotagem inconsciente, mas bem organizada, da revolução chinesa. E isso se realizou de forma tanto mais segura quanto a Internacional Comunista cobriu, entre 1924 e 1927, toda a sua política menchevique de direita com a autoridade do bolchevismo, enquanto o poder soviético, por meio de seu poderoso mecanismo de repressão, a defendia contra as críticas da Oposição de Esquerda.

Temos assim diante de nós uma experiência completa da estratégia de Stalin, desenvolvida do começo ao fim sob o signo da luta contra a teoria da revolução permanente. É muito natural, portanto, que o principal teórico de Stalin encarregado de defender a submissão do Partido Comunista chinês ao Kuomintang nacional-burguês tenha sido Martinov, que também foi o principal crítico menchevique da teoria da revolução permanente durante o período de 1905 a 1923. A partir desse último ano, continuou a cumprir sua missão histórica, mas já então nas fileiras bolcheviques!11

Sobre a origem desta obra, encontra-se o essencial no primeiro capítulo. 

Em Alma-Ata comecei a preparar um livro teórico e polêmico contra os epígonos. Grande parte desse livro deveria ser dedicada à teoria da revolução permanente. No curso do meu trabalho recebi de Radek, sobre o mesmo assunto, um manuscrito no qual ele opunha a “revolução permanente” à linha estratégica de Lênin.

Radek precisava dessa saída, à primeira vista surpreendente, pela simples razão de que também se encontrava completamente atolado na política chinesa de Stalin. Não apenas antes, mas também depois do golpe de Estado de Chiang Kai-shek, Radek, do mesmo modo que Zinoviev, invocava a necessidade da submissão do Partido Comunista chinês ao Kuomintang.

Para justificar essa sujeição do proletariado à burguesia, Radek apelava, como era de esperar, para a necessidade de união com os camponeses e me censurava por ter “subestimado” essa necessidade. Seguindo o exemplo de Stalin, servia-se da terminologia bolchevique para defender uma política menchevique, procurando ocultar, com a fórmula da ditadura do proletariado e dos camponeses, o fato de que o proletariado chinês estava sendo desviado da luta pelo poder, luta que deveria travar à frente das massas camponesas.

Quando desmascarei toda essa mistificação de ideias, Radek12 sentiu a urgente necessidade de demonstrar que a minha luta contra o oportunismo disfarçado com citações de Lênin resultava, simplesmente, da contradição existente entre a teoria da revolução permanente e o leninismo. Transformou assim a defesa dos seus próprios erros em um libelo de promotor público contra a revolução permanente.

Essa intervenção serviu-lhe para preparar o caminho de sua própria capitulação. Desconfiei disso tanto mais porque, nos anos precedentes, ele mesmo havia se proposto a escrever uma brochura em defesa da teoria da revolução permanente. No entanto, ainda me abstive de considerá-lo um homem perdido.

Procurei então responder ao seu artigo de maneira clara e categórica, mas deixando-lhe aberta a possibilidade de recuar. Publico mais adiante minha resposta a Radek, tal como foi redigida na época, acrescentando apenas algumas notas explicativas e correções de estilo.

O artigo de Radek não foi publicado e duvido muito que ainda venha a sê-lo um dia, porque, em sua forma de 1928, não poderia passar pela censura de Stalin. Uma publicação desse tipo seria hoje, aliás, fatal para Radek, pois ofereceria um quadro muito expressivo de sua evolução ideológica, que lembra bastante a “evolução” de um homem que se precipita de um sexto andar até o chão.

O ponto de partida deste livro explica por que Radek ocupa aqui um lugar mais importante do que aquele que, em princípio, teria direito de reivindicar. Radek não foi capaz de apresentar um único argumento novo contra a teoria da revolução permanente. Sua posição é a de um epígono dos epígonos.

Recomendamos, portanto, que o leitor veja em Radek não apenas Radek, mas o representante de uma espécie de firma coletiva à qual ele se associou, com direitos limitados, ao preço de sua renúncia ao marxismo. Se Radek considerar excessiva a quantidade de cascudos com que o brindo, poderá distribuí-los livremente entre aqueles que mais os merecem. Trata-se de um assunto interno da firma. Quanto a mim, não vejo inconveniente nisso.

Vários grupos do Partido Comunista alemão chegaram ao poder13 ou lutaram por ele, demonstrando sua capacidade de direção por meio de exercícios críticos sobre a revolução permanente. Mas toda essa literatura, cujos autores são Maslov14, Thalheimer15 e outros, desceu a um nível tão lamentável que não vale sequer o esforço de uma réplica crítica.

Os Thälmann,16 os Remmele e outros caudilhos recentemente promovidos situam-se ainda mais abaixo. A única coisa que tais críticos conseguiram demonstrar é que nem sequer ultrapassaram o limiar do problema. Deixo-os, portanto, nesse limiar.

Quem quiser interessar-se pela crítica teórica de Maslov, Thalheimer e outros poderá recorrer, depois de ler este livro, aos escritos desses autores para convencer-se, por si mesmo, de sua ignorância e falta de escrúpulos. Esse resultado constituirá, por assim dizer, um produto acessório do trabalho que oferecemos ao leitor.

Leon Trotsky
Prínkipo, 30 de novembro de 1929

Espero que o leitor não ache inconveniente que, antes de concluir este trabalho, eu procure formular minhas conclusões essenciais de maneira concisa e sem receio de repetir.

  1. A teoria da revolução permanente exige, na atualidade, a maior atenção de todo marxista, uma vez que o desenvolvimento da luta ideológica e da luta de classes fez o problema sair definitivamente do domínio das recordações de antigas divergências entre os marxistas russos, para apresentá-lo em ligação com o caráter, os vínculos internos e os métodos da revolução internacional em geral.
  2. Para os países de desenvolvimento burguês retardatário e, em particular, para os países coloniais e semicoloniais, a teoria da revolução permanente significa que a solução verdadeira e completa de suas tarefas democráticas e nacional-libertadoras só é concebível por meio da ditadura do proletariado, que assume a direção da nação oprimida e, antes de tudo, de suas massas camponesas.
  3. Tanto a questão agrária quanto a questão nacional conferem ao campesinato, como enorme maioria da população dos países atrasados, um papel primordial na revolução democrática. Sem a aliança entre o proletariado e o campesinato, as tarefas da revolução democrática não podem ser resolvidas, nem mesmo colocadas seriamente. Essa aliança entre as duas classes, porém, só se realizará por meio de uma luta implacável contra a influência da burguesia nacional-liberal.
  4. Quaisquer que sejam as primeiras etapas episódicas da revolução nos diferentes países, a aliança revolucionária do proletariado com os camponeses só é concebível sob a direção política da vanguarda proletária organizada como partido comunista. Isso significa, por outro lado, que a vitória da revolução democrática só é concebível por meio da ditadura do proletariado, apoiada em sua aliança com os camponeses e destinada, em primeiro lugar, a resolver as tarefas da revolução democrática.
  5. Do ponto de vista histórico, a antiga palavra de ordem bolchevique de “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” exprimia exatamente as relações, acima caracterizadas, entre o proletariado, o campesinato e a burguesia liberal. Isso foi demonstrado pela experiência de outubro. No entanto, a antiga fórmula de Lênin não previa quais seriam as relações políticas recíprocas entre o proletariado e o campesinato dentro do bloco revolucionário. Em outras palavras, a fórmula admitia conscientemente certo número de elementos algébricos que, no curso da experiência histórica, deveriam dar lugar a elementos aritméticos mais precisos. A experiência demonstrou, em circunstâncias que excluem qualquer outra interpretação, que o papel do campesinato, por maior que seja sua importância revolucionária, não pode ser independente nem, muito menos, dirigente. O camponês segue o operário ou o burguês. Isso significa que a “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” só é concebível como ditadura do proletariado arrastando atrás de si as massas camponesas.
  6. Uma ditadura democrática do proletariado e dos camponeses, como regime diferente, quanto ao conteúdo de classe, da ditadura do proletariado, só seria realizável se pudesse existir um partido revolucionário independente que exprimisse os interesses da democracia camponesa e pequeno-burguesa em geral e, com o auxílio do proletariado, fosse capaz de conquistar o poder e determinar seu programa revolucionário. A experiência de toda a história contemporânea e, sobretudo, da história da Rússia ao longo dos últimos vinte e cinco anos, mostra qual é o obstáculo intransponível que se opõe à formação de um partido camponês. Esse obstáculo é a falta de independência econômica e política da pequena burguesia, isto é, do campesinato, e sua profunda diferenciação interna. Essa situação permite a aliança de suas camadas superiores com a grande burguesia nos momentos decisivos, sobretudo durante guerras e revoluções, enquanto as camadas inferiores se aliam ao proletariado, obrigando as camadas médias a escolher entre essas duas forças. Entre o regime de Kerensky e o poder bolchevique, entre o Kuomintang e a ditadura do proletariado, não há nem pode haver regime intermediário algum, isto é, nenhuma ditadura democrática dos operários e dos camponeses.
  7. Só pode ter um sentido reacionário a tendência da Internacional Comunista de impor hoje, aos países do Oriente, a palavra de ordem de ditadura do proletariado e dos camponeses, há muito superada pela história. Oposta à palavra de ordem da ditadura do proletariado, essa fórmula contribui politicamente para a dissolução e a decomposição do proletariado nas massas pequeno-burguesas, criando assim condições favoráveis à hegemonia da burguesia nacional e, consequentemente, à falência e ao desmoronamento da revolução democrática. Introduzir essa palavra de ordem no programa da Internacional Comunista só pode significar uma traição ao marxismo e às tradições bolcheviques de outubro.
  8. A ditadura do proletariado, que ascende ao poder como força dirigente da revolução democrática, será colocada inevitável e muito rapidamente diante de tarefas que a levarão a fazer incursões profundas no direito burguês de propriedade. No curso de seu desenvolvimento, a revolução democrática transforma-se diretamente em revolução socialista, tornando-se assim uma revolução permanente.
  9. Longe de pôr termo à revolução, a conquista do poder pelo proletariado apenas a inaugura. A construção socialista só é concebível quando baseada na luta de classes em escala nacional e internacional. Dada a dominação decisiva das relações capitalistas na arena mundial, essa luta não pode deixar de provocar erupções violentas: no interior, sob a forma de guerra civil; no exterior, sob a forma de guerra revolucionária. É nisso que consiste o caráter permanente da própria revolução socialista, quer se trate de um país atrasado que acaba de realizar sua revolução democrática, quer se trate de um velho país capitalista que já passou por um longo período de democracia e parlamentarismo.
  10. A revolução socialista não pode realizar-se nos limites nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de que as forças produtivas por ela engendradas tendem a ultrapassar os limites do Estado nacional. Daí decorrem, de um lado, as guerras imperialistas e, de outro, a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e termina na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista converte-se em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: ela só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o planeta.
  11. O esquema acima traçado do desenvolvimento da revolução mundial elimina a questão dos países “maduros” ou “não maduros” para o socialismo, segundo a classificação pedante e rígida estabelecida pelo programa atual da Internacional Comunista.

    Com a criação do mercado mundial, da divisão mundial do trabalho e das forças produtivas mundiais, o capitalismo preparou o conjunto da economia mundial para a reconstrução socialista.

    Os diferentes países chegarão ao socialismo em ritmos distintos. Em determinadas circunstâncias, certos países atrasados podem alcançar a ditadura do proletariado antes dos países avançados, mas somente depois destes chegarão ao socialismo.

    Um país atrasado, colonial ou semicolonial, cujo proletariado não esteja suficientemente preparado para conduzir o campesinato e conquistar o poder é, por isso mesmo, incapaz de levar a bom termo sua revolução democrática. Por outro lado, num país em que o proletariado chegue ao poder em virtude de uma revolução democrática, o destino ulterior da ditadura e do socialismo dependerá, em última instância, menos das forças produtivas nacionais do que do desenvolvimento da revolução socialista internacional.
  12. A teoria do socialismo num só país, brotada no estrume da reação contra outubro, é a única que se opõe de maneira consequente e definitiva à teoria da revolução permanente. Quando os epígonos, compelidos pela crítica, tentam limitar à Rússia a aplicação da teoria do socialismo num só país, alegando suas peculiaridades, como a extensão territorial e as riquezas naturais, acabam apenas agravando o problema em vez de resolvê-lo. A renúncia à atitude internacionalista conduz inevitavelmente ao messianismo nacional, isto é, ao reconhecimento de vantagens e qualidades peculiares a um país, capazes de lhe conferir um papel que os demais países não poderiam desempenhar.

    A divisão mundial do trabalho, a subordinação da indústria soviética à técnica estrangeira, a dependência das forças produtivas dos países avançados em relação às matérias-primas asiáticas etc. tornam impossível a construção de uma sociedade socialista autônoma e isolada em qualquer região do mundo.
  1. A teoria de Stalin e Bukharin não apenas opõe mecanicamente, e à revelia de toda a experiência das revoluções russas, a revolução democrática à revolução socialista, como também separa a revolução nacional da revolução internacional. Ao colocar diante das revoluções dos países atrasados a tarefa de instaurar o regime irrealizável da ditadura democrática, oposta à ditadura do proletariado, essa teoria cria ilusões e ficções políticas, paralisa a luta do proletariado do Oriente pelo poder e retarda a vitória das revoluções coloniais. 

    Do ponto de vista da teoria dos epígonos, a conquista do poder pelo proletariado constitui, por si só, a realização da revolução, em seus “nove décimos”, segundo a fórmula de Stalin, e inaugura a época das reformas nacionais. A teoria da integração do kulak no socialismo17 e a teoria da “neutralização” da burguesia mundial são, portanto, inseparáveis da teoria do socialismo num só país, equilibrando-se e caindo juntas.

    A teoria do nacional-socialismo degrada a Internacional Comunista, reduzindo-a ao papel de arma auxiliar na luta contra a intervenção armada. A política atual da Internacional Comunista, seu regime interno e a escolha de seus dirigentes correspondem perfeitamente a essa decadência e à sua transformação em um exército de emergência, que não se destina a resolver de maneira autônoma as tarefas que se lhe apresentam.
  1. O programa da Internacional Comunista, obra de Bukharin, é eclético do princípio ao fim. Trata-se de uma tentativa desesperada de ligar a teoria do socialismo num só país ao internacionalismo marxista, que, no entanto, não pode ser separado do caráter permanente da revolução mundial. A luta da Oposição de Esquerda por uma política justa e por um regime são na Internacional Comunista está indissoluvelmente ligada à luta por um programa marxista. A questão do programa, por sua vez, é inseparável da questão das duas teorias opostas: a teoria da revolução permanente e a teoria do socialismo num só país.

O problema da revolução permanente ultrapassou há muito tempo o limite das divergências episódicas entre Lênin e Trotsky, inteiramente esgotadas pela história. Trata-se agora da luta entre as ideias fundamentais de Marx e de Lênin, de um lado, e o ecletismo centrista, de outro.

  1. Epígonos: Assim Trotsky classifica os burocratas estalinistas, que dominam o governo soviético, após a morte de Lênin. ↩︎
  2. Kamenev (1883/1936) – Membro do Comitê Central do PC Soviético e executor testamentário de Lênin, por este designado. Dirige a bancada bolchevique da Duma (Parlamento) e a redação do Pravda em 1914. De volta de deportação na Sibéria, durante a Primeira Grande Guerra, assume a direção do Partido Bolchevique, ao eclodir a Revolução de Fevereiro, em 1917. Opõe-se à Revolução de Outubro, por considerá-la prematura. Vitoriosa esta, dirige, contudo, sem funções na cúpula governamental, o Soviete de Moscou. Participa da “troika”, de fato órgão máximo, com Stalin e Zinoviev. Rompendo com a política de Stalin, passa-se para a Oposição de Esquerda Unificada. É excluído do partido no XV Congresso. Em 1928, capitula. Expulso, outra vez, em 1932, é executado em 1936, depois de condenado no primeiro processo de Moscou. ↩︎
  3. Plekhanov, G. V. (1856/1918) – Introdutor do marxismo na Rússia e fundador do primeiro grupo marxista chamado “Emancipação do Trabalho”. Teórico de grande valor, deixa vasta bibliografia. Menchevique a partir do II Congresso do POSDR (1903) – Partido Social-Democrata Operário Russo, mais tarde Partido Comunista da URSS – e principal autor do programa dessa organização. Ao lado de Lênin, torna-se um dos diretores do primeiro Iskra, empenhando-se na luta contra o “economicismo”. Do bolchevismo, passa-se para o menchevismo. Partidário da defesa nacional na Primeira Grande Guerra (1914/1918), mostra-se irredutível social-chauvinista. Assume posição contrária à Revolução de Outubro sem, contudo, combater o Poder Soviético. ↩︎
  4. Martov, Y. (1873/1923) – Um dos fundadores da social-democracia russa e membro preeminente da redação do Islcra. Depois da cisão do POSDR, em 1903, torna-se um dos lideres do menchevismo. Nos anos da reação (1907/1910) apóia os “liquidadores”. Durante a Primeira Guerra Mundial, assume posição centrista. “Menchevique de esquerda” durante a Revolução de Outubro, participa do II Congresso dos Sovietes. Rompe, em seguida, com o regime soviético. Com permissão do governo, ruma para a imigração. ↩︎
  5. Rikov, Alexei (1881/1938) – “Velho bolchevique”. Um dos colaboradores mais chegados a Lênin, membro do Comitê Central bolchevique desde a cisão do POSDR. Torna-se presidente do Conselho Supremo da Economia, depois da Revolução de Outubro. Presidente do Conselho dos Comissários do Povo, de 1924 a 1929. É executado em 1938, sob acusação de “terrorismo”, no 39º processo de Moscou. ↩︎
  6. Molotov, (1890/1986) – “Velho bolchevique”, dirige o POSDR, em Petrogrado, antes da chegada de Lênin, em abril de 1917. Desde 1920, membro do Comitê Central do PC, ao lado de Stalin. Durante o chamado “terceiro periodo”, ultra-esquerdista, de “guerras e revoluções” que levou a IC ao aventureirismo na China (1928/1931), dirigiu a Internacional Comunista. Substitui, em 1939, Litvinov no Ministério das Relações Exteriores. Opondo-se à desestalinização, é afastado de seu cargo pelo grupo de Kruschev. ↩︎
  7. Kuomintang – Denominação do Partido Nacionalista chinês de que um dos fundadores foi Sun Yat-Sen (1866/1925), chamado o “pai da revolução chinesa”. Chang-Cai-Chec, que o sucede, sob a pressão das forças comunistas de Mao Tsé-Tung se transfere para a ilha de Formosa (Taiwan), protegido por uma esquadra dos EUA. Aí, vem a falecer. ↩︎
  8. Kerensky, Alexandre (1881/1970) – Advogado e brilhante orador, é eleito para a Duma (Parlamento Russo) em 1912. Ao eclodir a Primeira Grande Guerra, define-se pela defesa nacional, abjurando o internacionalismo. Filia-se ao Partido Social-Revolucionário em 1917. É eleito vice-presidente do Soviete de Petrogrado (depois Lêningrado). Ministro da Justiça, depois Ministro da Guerra do Governo Provisório, de que se torna presidente de julho a outubro do mesmo ano. ↩︎
  9. Miliukov (1859/1943) – Historiador russo e chefe do Partido liberal burguês, dos cadetes (constitucionais-democratas). Com a queda do czar Nicolau II, torna-se Ministro das Relações Exteriores do primeiro governo provisório, de fevereiro de 1917. Emigra, depois da guerra civil. ↩︎
  10. Kornilov, L. G. (1870/1918) – Comandante-chefe do Exército Russo, nomeado em 19 de agosto de 1917, por Kerensky, então presidente do governo provisório. Destituído, quando começou a manifestar oposição ao governo “centrista”, reclamando mais disciplina nas Forças Armadas. Preso e posto em liberdade após a Revolução de Outubro, procurou aglutinar a contrarrevolução para marchar rumo a São Petersburgo (Lêningrado) decidido a esmagar os “bolcheviques”. Morto pela explosão de uma granada. ↩︎
  11. A propósito da adesão de Martinov à Terceira Internacional, escreve Trotsky, no seu trabalho intitulado “Quem dirige, hoje, a Internacional Comunista?”, o seguinte: Em 1923, Martinov revelou-se inopinadamente, ao publicar um artigo na revista moscovita Krassnaia Nov. Numa sessão do Birô Político, na primavera de 1923, um pouco por gracejo e um pouco a sério, mas fazendo, em todo caso, um mau presságio, declarei, de passagem: ‘Tomem cuidado, para que Martinov não se meta ainda no Partido’. Lênin, com ambas as mãos circundando a boca, à guisa de porta-voz, ‘cochichou-me’ então, mas fazendo-se ouvir em toda a sala: ‘Já se sabe que é um imbecil’. Eu não tinha razão alguma para contestar essa breve caracterização feita num tom de absoluta convicção. Apenas observei que não é possível, evidentemente, construir um grande partido só com pessoas inteligentes, e que Martinov podia, por descuido, passar a uma outra categoria. Ora, a brincadeira tomou um tom sério. E Martinov não só se meteu no Partido, como se tornou também um dos principais inspiradores da Internacional“. ↩︎
  12. Radek, Karl (1885/1942) – Bolchevique de origem polonesa e jornalista de excepcionais dotes, participa do movimento social-democrata da Galícia, Polônia e Alemanha, colaborando nas publicações editadas pelos social-democratas alemães de esquerda. Um dos principais dirigentes da Internacional Comunista (1919/¬1923). Destaca-se como líder da Oposição de Esquerda (1923/1928). Excluído do Partido Soviético no XV Congresso, é deportado para a Sibéria. Capitula em 1929 e, de volta, torna-se redator do Pravda (“A Verdade”), submetendo-se às imposições de Stalin. Preso, novamente, e condenado, em 1937, a dez anos de trabalhos forçados, é morto, em 1942, por ordem de Stalin, no local onde se encontrava deportado. ↩︎
  13. Isto é, à direção da Terceira Internacional. ↩︎
  14. Maslov, A. – Dirigente comunista alemão. Membro do Comité Executivo da Internacional Comunista empenha-se na luta contra o “Trotskysmo”, para, pouco depois, aderir à Oposição de Esquerda. Expulso do PC em 1928, capitula. Retorna à Oposição em 1934. Emigra para Cuba, onde vem a falecer. ↩︎
  15. Thaihcirner, E. ( … /1952) – Um dos fundadores do PC da Alemanha e autor de obras teóricas, particularmente sobre o materialismo dialético. Membro da direção do partido, dela é excluído, em 1929, juntamente com Brandrer, líder da fração direitista. Contudo, até sua morte, mantém-se à testa dessa tendência. ↩︎
  16. Thaelrnann, Ernest (1886/1945) – Com a maioria do Partido Social-Democrata Independente, adere, em 1921, ao PC da Alemanha, tornando-se, pouco depois, dirigente da organização estalinista. Líder da fração comunista no Reichstag (Parlamento), de 1924 a 1933, candidata-se várias vezes à Presidência da República. Preso pelos nazistas em 1933, é assassinado por estes em 1945, no campo de concentração de Büchenwald. ↩︎
  17. Lançando a palavra de ordem de “Camponeses, enriquecei-vos!”, achava Bukharin que os kulaks, em lugar de se orientarem para o capitalismo, marchavam pacificamente para o socialismo. Essa política só foi abandonada pelo Partido Comunista da URSS em 1928, quando os kulaks, com a “greve do trigo”, fizeram à cidade o cerco da fome. ↩︎