Manifestação contra a direita em Stuttgart, na Alemanha / Imagem: Zinnmann, Wikimedia Commons

Alemanha: nada será como antes

Nas eleições parlamentares de fevereiro, não foi a esmagadora derrota do social-democrata SPD (16% dos votos) para os conservadores do bloco CDU-CSU (28%) o elemento surpresa na Alemanha. O que muitos não esperavam era que a extrema-direita ficasse em segundo lugar (20%). O inédito foi que, desde a Segunda Guerra Mundial, um partido vitorioso nas eleições não conseguiu aprovar a indicação de seu primeiro-ministro no parlamento. A crise, impensável até pouco tempo, entre os governantes da Alemanha é mais um sintoma da situação que se abriu com a ofensiva do imperialismo americano sobre o mundo. E, neste caso, destituiu a Alemanha de sua posição de fiadora das burguesias europeias.

Desde a Guerra Fria, a então Alemanha Ocidental batalhou pela criação de um espaço de livre comércio europeu que permitisse escoar suas mercadorias. Com isso, em aliança com a França, a Alemanha Ocidental tornou-se a principal economia da Europa Ocidental. Com a queda do Muro de Berlim (1989) e a reunificação alemã, a quantidade monstruosa de recursos disponíveis tornou o país o principal motor da transformação da Comunidade Econômica Europeia na atual União Europeia (1992). Depois de destruir os sistemas previdenciário e trabalhista herdados da Alemanha Oriental nas décadas de 1990 e 2000, e com o rebaixamento dos salários, a Alemanha conseguiu alguma estabilidade interna. Tudo isso culminou no cenário em que a crise de superprodução dos EUA, em 2008, permitiu à gestão da conservadora Merkel ditar, para as economias europeias de importância secundária, como a Grécia e Portugal, o seu receituário de austeridade fiscal.

Desde a pandemia de Covid-19, estava claro que a política dos conservadores não seria capaz de garantir o apaziguamento da luta de classes. Assim, Merkel (CDU) foi substituída por seu ministro das Finanças, Olaf Scholz (SPD). Mas foi a guerra na Ucrânia que demonstrou que a Alemanha não era mais capaz de proteger as burguesias europeias.

A guerra na Ucrânia, por um lado, obrigou a Alemanha a finalmente aumentar seu orçamento militar em 100 bilhões de euros, algo que Trump já reivindicava em seu primeiro governo. Por outro lado, o bloqueio à Rússia retirou da Alemanha um dos principais recursos que tornavam sua indústria competitiva: o gás russo barato. Com o conhecimento prévio do governo Biden, a Ucrânia atacou os gasodutos Nord Stream, que forneciam 55% do gás consumido pela Alemanha. Os efeitos disso foram a alta nos preços da energia e, portanto, de todas as mercadorias, acompanhada de inflação e desindustrialização do país. Os EUA, por sua vez, além de passarem a recepcionar fábricas alemãs, tornaram-se eles próprios os fornecedores de energia para a Europa. Isso demonstra que os interesses dos EUA na Europa estão acima de qualquer governo. Contudo, Trump se mostrou o mais eficaz para os interesses do imperialismo americano.

Do ponto de vista da classe trabalhadora, toda essa disputa desigual interimperialista gera uma insatisfação que se expressa de diferentes maneiras. Num país em que, apesar do arrocho permanente, havia certa estabilidade com inflação controlada graças ao domínio exercido sobre outros países, a passagem da Alemanha para uma economia de segunda grandeza no arranjo mundial faz a classe trabalhadora buscar saídas para si. A social-democracia teve seu pior resultado da história, e a extrema-direita teve o melhor desempenho desde a era nazista. Mas também os partidos que se reivindicam de esquerda obtiveram seu melhor resultado.

A polarização de classes, que sempre existiu no capitalismo, agora tem tomado uma expressão política radical. E, apesar de o governo Trump ter sido bem-sucedido em impor sua agenda sobre outras economias, isso não significa que não haverá resistência, pelo contrário. Um exemplo são as manifestações contra sua política migratória, iniciadas na Califórnia em junho. A tarefa urgente da classe trabalhadora é se organizar e se preparar para atuar nas rachaduras que o capitalismo está produzindo em sua própria estrutura.