“O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. […] os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos (irônico) gostavam da escravidão.” (Machado de Assis no conto “Pai contra Mãe”, 1906)
A cena acima é descrita por Machado de Assis em seu doloroso conto “Pai contra Mãe”, publicado 18 anos após a abolição da escravidão. Ele é marcado pela sentença final do personagem Cândido Neves, que atravessa o peito e demonstra como o capitalismo é um horror sem fim: “nem todas as crianças vingam”.
Como um quadro da miséria do Rio de Janeiro do século XIX, em “Pai contra Mãe” Machado também apresentou essa imagem cauterizada no imaginário brasileiro: o escravizado acorrentado e o fujão. Contudo, a complexidade do capitalismo desenvolvido sob o regime da escravidão no Brasil construiu outras modalidades de extração de mais valor pelas classes dominantes e, ao mesmo tempo, de luta e resistência, como as conhecidas Kitandeiras. Mulheres trabalhadoras e negras, que nada tinham a perder a não ser seus literais grilhões, produziam o sustento alimentar e a base econômica das grandes capitais do país.
Não bastassem os papéis produtivos e comerciais, as kitandeiras eram também uma espécie de “agentes da inteligência” nas fugas de escravizados, por exemplo, ao guiá-los e orientá-los em busca das saídas dos seus cativeiros. Um dos ícones dessa explícita face libertadora das kitandeiras foi a maranhense Adelina, a Charuteira. Grande abolicionista, ela circulava por toda São Luís realizando, simultaneamente, a produção e venda de charutos e a organização de revoltas que conquistaram a abolição.
As Kitandeiras e seus significados
O que hoje escrevemos como “Quitanda” tem origem na palavra “Kitanda”, inventada pelos Bantus: tronco com cerca de 400 povos, línguas e etnias ao sul do Saara. Essa palavra já descrevia um sistema comercial aberto com feiras livres, no continente africano, ao menos desde o século XVI.
Principalmente entre os Iorubás, que com a ação imperialista se expressam hoje, majoritariamente, na Nigéria, essas Kitandas eram justamente os postos de produção e trabalho das mulheres. Em toda essa região africana, antes e durante a diáspora, já havia associações de mulheres mercadoras, comerciantes, interessadas nos negócios comunitários e com eleições representativas para as relações com os poderes locais. Porém, centenas de milhares destas mulheres foram pegas e trazidas à força nos navios negreiros portugueses, tornando-se escravizadas.
Os trabalhos destas mulheres no Brasil foram proficuamente registrados pelos viajantes e artistas europeus em seus famosos diários, como Jean-Baptiste Debret. Infectados pelo racismo científico, esses intelectuais chocavam-se com essas mulheres trabalhadoras, que vestiam-se de muitas cores, tecidos bonitos (principalmente o “ganga azul”, o atual “jeans”) e relativa independência urbana, descrevendo-as como, “apesar de negras”, “elegantes e inteligentes”, e que os ambulantes europeus não “chegavam aos seus pés”.1
Seja nestes trabalhos ou em outras fontes, vemos como estas kitandeiras tinham diversas funções, tanto no pré quanto no pós-independência. Mas podemos destacar que, até o começo do século XIX, eles eram realizados essencialmente pelas escravas de ganho, as ganhadeiras, que deviam trabalhar para seus senhores vendendo seus produtos ou alugadas à terceiros. Ao fim de cada dia, as ganhadeiras tinham de dar a cota exigida pelo seu dono, mas poderiam ficar com uma hipotética sobra destes lucros. Além de vendas, elas também exerciam trabalhos variados para outros trabalhadores livres ou mesmo ao Estado.
Vale ressaltar que “ceder” às ganhadeiras o dinheiro “extra” significava também um drible dos senhores de escravos, especialmente da classe média urbana, na lei de trabalho que passou a vigorar após a instalação da Coroa portuguesa no Brasil, em 1808. Nesse novo contexto, o Estado passou a determinar que alimentação e vestimentas aos escravizados deveriam ser de responsabilidade de seus donos. Portanto, permitir a apropriação desta sobra às ganhadeiras era a forma destes proprietários não ter tais “despesas” com seus escravizados.
Pensando além deste prático, em um país colonial como o Brasil, com economia orientada para a exportação e integrado ao mercado mundial capitalista, era necessário um tipo de “economia auxiliar”, que contribuísse para o abastecimento das cidades. É isso que vemos no papel econômico das ganhadeiras e kitandeiras. Uma introdução de formas mais avançadas (trocas comerciais, relação comercial mediada pelo dinheiro e não escambo) numa economia baseada no trabalho escravizado, uma amálgama entre o arcaico (escravização) e o moderno (introdução de uma relação semi-livre, mediada pelo dinheiro), mesmo que um moderno atrasado, porque pela inexistência do assalariamento.
Os escravistas não contavam, porém, com a habilidade e astúcia das ganhadeiras em conseguirem acumular lucros suficientes para comprar as liberdades suas e de familiares. Algumas chegaram até mesmo a adquirir terrenos e casas com essas “sobras”. Destes exemplos impressionantes temos a história da conhecida Tia Ciata, que conseguiu comprar uma casa na chamada Pequena África, zona portuária da capital federal, que se tornou o espaço central para o desenvolvimento da cultura e do gênero do Samba.
Neste processo, para termos uma ideia, no fim do século XVIII, apenas no Rio de Janeiro, haviam oficialmente 322 registros de quitandas, o dobro de outros estabelecimentos comerciais, como tavernas ou mercadores das fazendas, fora as centenas de barracas, pontos e tabuleiros2 informais não contabilizados. A proliferação dessa figura de mulher negra trabalhadora para além da escravização rural e que cumpria não apenas esse papel econômico, mas, como dito, social e político nas fugas de escravizados, fez com que as instituições do Estado e as forças de repressão recrudecessem o controle às quitandeiras. Nos decretos, não escondiam a justificativa deste freio pelo o perigo da incitação às revoltas e perturbação da ordem “cortesã” e “higiênica” das cidades.
Contudo, assim como o trabalho livre capitalista forja a classe que irá destruí-lo, o assombroso aumento do trabalho escravizado capitalista tornou impossível qualquer “higienização” de negros nas capitais brasileiras, em especial, no Rio de Janeiro. Escravizados, libertos ou fugidos, os trabalhadores negros estavam por toda parte, em especial as kitandeiras. Para “piorar”, a partir do 24-25 de janeiro de 1835, com a explosiva Revolta de Malês, em Salvador, as classes dominantes luso-brasileiras tremiam frente a estas cidades inundadas de pretos e mestiços em luta e trabalho.
Com isso, a partir da década de 1830, legislações, declarações parlamentares e reclamações das elites das grandes capitais passaram a apontar para a tentativa das “limpeza” das ruas com a repressão às kitandeiras e a grande circulação de negros. Tudo isso aumentou as contradições entre o controle e a repressão e as necessidades dos diversos trabalhos manuais realizados e a economia produzida pelas kitandeiras.
Como excelentes negociadoras, elas conseguiram se manter no espaço público para o trabalho e suas ações sociais e políticas. Não eram passivas frente às determinações dos senhores e do Estado. Assim, mesmo com a tentativa de regulamentar grandes e concentrados mercados públicos nas capitais, como conhecemos até hoje, as kitandeiras, que alimentavam estas mesmas cidades não apenas com comidas, mas com todo tipo de serviço elementar, sobreviveram com seus comércios informais até o início do século XX.
Nos jornais, os colunistas das elites condenavam as kitandeiras, chamando-as de sujas, barulhentas e baderneiras. Mas um dos casos mais célebres dessa autonomia e papel desempenhados por estas trabalhadoras pode ser visto na nota de resposta, publicada no Diário do Rio de Janeiro, em 20 de novembro de 1873. Escrita pela kitandeira Mãe Maria, que vocalizou um grupo destas trabalhadoras da capital do país, lemos: “Nós também somos gente; por sermos pretas, não pensem que havemos de nos calar. […] Vamos também fazer nossa revolução”.
Este foi um dos primeiros momentos que estas mulheres trabalhadoras conseguiram se expressar na imprensa para além da chacota contra elas e das páginas policiais. Sabedoras do papel lucrativo que possuíam por comercializarem gêneros de primeira necessidade para a sociedade urbana, essa categoria da classe trabalhadora brasileira, àquela altura ainda escravizada, possuía seus “projetos revolucionários”, como afirmou Mãe Maria.3

Pouco mais de uma década depois desta nota no Diário do Rio de Janeiro, as kitandeiras colocaram em prática o principal método de luta da classe trabalhadora internacional: a greve. Em 5 de outubro de 1885, novas barracas de venda de legumes e hortaliças foram inauguradas na Praça das Marinhas, na capital brasileira, a partir de um contrato entre a Câmara Municipal e o consórcio Oliveira & C.SA. Estas construções despejavam pessoas e determinavam que cada comerciante deveria pagar uma diária de $400 réis para permanecer no seu trabalho.
Contra mais esse ataque, as kitandeiras e demais barraqueiros da área lançaram mão de dias de greve, barrando a venda de comida na região, além do desembarque de produtos no porto e a formação dos piquetes da greve em todas as barracas. Na declaração ao Ministério do Império, os grevistas deixaram explícito que o contrato estava transformando o espaço acanhado destes trabalhadores em “possessão de empresários”.
Em 8 de outubro, os grevistas realizaram uma marcha pela cidade, recorreram à José do Patrocínio e transformaram a greve das quitandas na grande pauta do Rio de Janeiro. O Ministro do Império, Barão de Mamoré, ordenou que o contrato fosse suspenso até que chegassem em um acordo com os grevistas, o que não deteve os atos dos trabalhadores.
No dia 10, as kitandeiras e barraqueiros negros e mestiços foram até o Imperador, denunciando à Pedro II os interesses pessoais de vereadores com o contrato das barracas, especificamente do vereador Augusto Nunes de Souza, que era pai do dono da empresa contratada naquela espécie de Parceria Público-Privada. Ao Jornal do Commercio, disseram que a rua era pública e não para enriquecer empresários privados, além de registrarem que a polícia se aglomerava no local de trabalho delas apenas para reprimi-las.
O fim da greve deu-se apenas em 24 de outubro, quando, em um acordo com o Império, os grevistas conseguiram outros espaços públicos para aqueles trabalhadores montarem suas barracas, sem a necessidade de pagar o ponto para empresários. Entretanto, a Praça das Marinhas seguiu com a espúria “Parceria Público-Privada” do século XIX com o filho do vereador municipal.
Importante afirmar que esta greve demonstrou a unificação destes trabalhadores urbanos, escravizados ou livres, negros e brancos. Não restringiu-se às kitandeiras, que tiveram papel crucial para justamente unificar o movimento.
Lições ao presente
Esta greve é apenas mais um símbolo das kitandeiras negras como lutadoras históricas da classe trabalhadora no Brasil. Um país que de 1539 e 1888 possuiu como força de trabalho central para toda a produção de riqueza, a escravidão. Um país que recebeu a maior diáspora da história da humanidade. Por mais de 300 anos, centenas de milhares de humanos foram comercializados e geraram a acumulação primitiva do capital para o Brasil e a Europa. Aos comunistas, é incontornável conhecer e se apropriar desta história e seus reflexos no presente para combater o sistema que produziu esse complexo de horror, o capitalismo.
Como vimos, as mulheres trabalhadoras negras foram pilares da economia nacional na Colônia, no Império e seguem sendo na República sob o trabalho livre. Ao mesmo tempo que ocupam os postos de trabalho com menor remuneração, com trabalho igual e salário desigual perante aos homens e marcadas diariamente pela violência física e psicológica.

A história das kitandeiras possui ainda muitos outros aspectos e expressões, que devem estar na formação dos comunistas no presente e nos papéis da mulher e do homem trabalhadores pela emancipação da humanidade contra o regime da propriedade privada. Assim como Trotsky explicou o papel crucial das mulheres russas nas revoluções do início do século XX por serem a camada da classe trabalhadora mais oprimida pela guerra e a fome, sem nada a perder, podemos ver a função desempenhada na produção, comércio e política destas kitandeiras no Brasil colonial e nas mulheres trabalhadoras no presente.
Cabe aos revolucionários, se nutrir destas histórias e ajudar decididamente na organização de nossa classe em todas suas categorias, rompendo nossa fragmentação gerada pela burguesia e suas ideologias. Para isso, organize-se na Organização Comunista Internacionalista e seu Movimento Negro Socialista e Mulheres pelo Socialismo!
Notas
- “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, por Jean-Baptiste Debret, de 1834.
↩︎ - “Quitandeiras ou negras de tabuleiro era a denominação dessas mulheres que transplantaram da África para o Brasil o comércio ambulante em tabuleiros. Essas negras, por sua vez, vendiam principalmente “gêneros da terra”, tais como aguardente, bolos, leite, broas, biscoitos e fumo. Mulheres negras, empobrecidas, libertas ou forras que adotaram a venda em tabuleiros não só como forma de resistir à pobreza e à escravidão, mas também como forma de sobrevivência diante das poucas oportunidades para a mão-de-obra feminina na época” – Juliana Resende Bonomo, mestre em Memória Social, em seu artigo: “O tabuleiro afro-brasileiro: o abastecimento alimentar e a resistência das quitandeiras negras no Brasil do século XVIII” (2014). ↩︎
- Acessar jornal Diário do Rio de Janeiro do dia 20.11.1873, em: https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/094170/per094170_1873_00319.pdf.
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Referências
- “As negras quitandeiras no Rio de Janeiro do século XIX pré-republicano: modernização urbana e conflito em torno do pequeno comércio de rua”, de Fernando Vieira de Freitas, para a revista Tempos Históricos • Volume 20 • 1º Semestre de 2016 • p. 189-217 • 1983-1463 (versão eletrônica).
- “O tabuleiro afro-brasileiro: abastecimento alimentar e a resistência das quitandeiras negras no Brasil do século XVIII”, de Juliana Bonomo, 2014.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional