Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico

O texto a seguir resume a obra Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, de Friedrich Engels, e faz parte do programa de formação básica da OCI, a Universidade Vermelha. Ele é indicado a todos aqueles que buscam compreender os fundamentos do marxismo.

Para destruir a sociedade existente, ou seja, a exploração capitalista do trabalho assalariado, não é suficiente o movimento espontâneo que leva as massas a entrar em conflito com a classe dominante e seu Estado. É preciso ainda que este movimento se dote de um partido revolucionário capaz de assegurar a direção da revolução proletária.

Com este objetivo, de criar um partido revolucionário, é preciso partir das lutas reais e daí extrair sua significação histórica; é precisamente isto que nos permite fazer o marxismo.

Na primeira metade do século XIX, após as reviravoltas sociais e políticas determinadas pela Revolução Francesa, historiadores como Thierry, Guizot e Mignet descobrem a importância da luta entre as classes sociais. Foram historiadores burgueses que compreenderam que sua classe havia tomado o poder graças a uma longa luta contra a classe dos nobres que até então dominava.

Karl Marx parte justamente dessa descoberta para estabelecer que a história de toda sociedade até nossos dias não foi mais “que a história da luta de classes”,1 com exceção das sociedades primitivas que não eram ainda divididas em classes. Com Engels, ele mostra que as oposições e os conflitos entre as classes de uma sociedade não são acontecimentos excepcionais ou marginais, nem são devidos a propagação das idéias revolucionárias por alguns indivíduos, mas são os efeitos historicamente normais, inevitáveis e necessários da divisão da sociedade em classes antagônicas sobre a base do desenvolvimento das forças produtivas.

A análise de Marx da sociedade moderna, ou seja, da sociedade capitalista, permite compreender que a história passada, presente e futura desta sociedade é inteiramente comandada pela luta que opõe o proletariado, classe dos trabalhadores modernos, e a burguesia, classe dos capitalistas, proprietários dos principais instrumentos de produção. Quanto às outras classes existentes, elas não têm os meios de jogar um papel independente destas outras duas classes.

Não é, então, o marxismo que engendrou a luta de classes, como uma espécie de aplicação prática de princípios doutrinários. É, ao contrário, a luta de classes, mais precisamente a luta do proletariado contra a burguesia, que engendrou, por volta da metade do século XIX, o marxismo, ou seja, a teoria científica do proletariado revolucionário.

A industrialização que se realizava, nesta época, na Europa Ocidental, arranca um número crescente de camponeses pobres e artesãos arruinados de suas antigas condições, para concentrá-los nos bairros mais miseráveis das aglomerações urbanas. Assim se forma o proletariado, no seio do qual não só o trabalho dos homens, mas também o das mulheres e o das crianças é implacavelmente explorado. As necessidades de sobrevivência dos trabalhadores determinam o surgimento do possante movimento cartista na Inglaterra, as revoltas em Lyon, na França, e a dos tecelões da Alemanha etc. Enfim, em junho de 1848, em Paris, os operários, para obter o direito ao trabalho, entram em insurreição e enfrentam o aparelho militar e policial da República burguesa. São os momentos de irrupção do proletariado sobre a cena histórica.

É na relação estreita com esse movimento que Marx e Engels constatam que a luta de classes constitui o fio condutor da história e que é necessário que a classe operária se organize, ou seja, que se transforme em partido, a fim de vencer essa luta. 

Da Liga dos Comunistas, em 1848, à fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1ª Internacional), em 1864, passando especialmente pela publicação do Manifesto do Partido Comunista, em 1848, Marx e Engels elaboram o marxismo como expressão consciente do processo histórico inconsciente, ou seja, como uma teoria científica da história, inseparável da atividade militante do proletariado revolucionário.

A análise de Marx da sociedade moderna, ou seja, da sociedade capitalista, permite compreender que a história passada, presente e futura desta sociedade é inteiramente comandada pela luta que opõe o proletariado, classe dos trabalhadores modernos, e a burguesia, classe dos capitalistas, proprietários dos principais instrumentos de produção / Imagem: Nikolai Kogout, 1920

A transformação do animal em ser humano durou dezenas de milênios. A partir da postura ereta, dos polegares que prensam (agarram como uma prensa) e do desenvolvimento superior do cérebro, o ser humano engendrou a si mesmo, enquanto tal, através das atividades coletivas sobre a natureza que o envolve, como a caça e a pesca, depois a criação e a agricultura e, enfim, o artesanato. É o trabalho social que permitiu à espécie humana se elevar progressivamente acima das condições animais, inteiramente subordinadas ao meio natural, para se tornar uma nova espécie, tendente a dominar o meio natural a partir de uma vida propriamente social.

Aristóteles sabia, já no século IV a.C., que o homem era um animal social. Marx descobriu que é pelo trabalho coletivo que esse animal se tornou efetivamente humano. A ideia fundamental do materialismo histórico consiste em admitir que, ao produzir bens materiais e os meios materiais de produção, os homens se produzem a si próprios como seres sociais nas condições determinadas. A produção é, então, uma autoprodução.

A partir daí, compreende-se que as primeiras sociedades humanas, desde a pré-história, produziram exatamente aquilo que era necessário para sua sobrevivência: é o que se chama de economia de subsistência. Algumas dessas sociedades viviam essencialmente da caça, outras da pesca, e é durante o fim da Era Pré-Histórica que as primeiras formas de criação e de agricultura fazem sua aparição.

As forças produtivas, ou seja, os seres humanos considerados como produtores, dispondo do saber-fazer e dos meios musculares e utilizando os instrumentos de trabalho fabricados por eles, continuam frágeis no quadro da economia de subsistência. Agrupados em clãs, depois em tribos com reduzidos efetivos, os indivíduos componentes das sociedades primitivas eram coletivamente proprietários dos meios de produção e dos próprios produtos destinados a assegurar a sobrevivência da comunidade.

As relações sociais de produção, ou seja, as relações constitutivas da sociedade, não tinham ainda a divisão em classes: só existia uma divisão do trabalho entre os sexos e uma divisão do trabalho e de responsabilidades entre as diversas gerações. É por isso que Marx qualifica de comuna primitiva a forma de existência dessas sociedades e de comunismo primitivo o seu modo de produção.

Convém precisar que, segundo o materialismo histórico, o modo de produção próprio de uma sociedade é a unidade dialética que existe entre suas forças produtivas e suas relações de produção. O que significa que, entrando praticamente em relação com a natureza pelo trabalho social (atividade das forças produtivas), os seres humanos se constituem em seres sociais entretecendo entre eles mesmos relações determinadas de pela natureza social.

No início do que se chama história, ou seja, durante o 3 milênio a.C., a utilização de metais (bronze, ferro etc.) determina um progresso considerável das forças produtivas. Um certo número de sociedades, no Vale do Nilo, na Mesopotâmia, na Índia, na China, etc., chegaram a produzir mais do que o estritamente necessário para a sobrevivência de seus membros. É essa produção a mais, produção de um excedente, que está na origem da divisão da sociedade em classes.

Antes da produção de um excedente, com efeito, o prisioneiro de guerra representava para o clã vencedor ou a tribo vitoriosa uma boca a mais para nutrir. Desde que aparece o excedente de produção, torna-se possível fazer do prisioneiro de guerra um escravo e constrangê-lo a produzir mais do que os bens estritamente necessários à sua subsistência. É o que de fato aconteceu.

No curso da Antiguidade (de 3.000 a.C. a 500 d.C.), as sociedades fundadas sobre a escravidão aparecem e se desenvolvem. A grande massa de produtores dessas sociedades eram os escravos que, com o rebanho e as terras, constituíam a propriedade de seus mestres. Mestres e escravos constituíam, então, as duas classes fundamentais das sociedades antigas, cujo modo de produção é qualificado por Marx como Modo de Produção Escravagista. 

As forças produtivas são, então, essencialmente agrícolas, pastoris e artesanais. As relações de produção, constituindo a base real da sociedade são as relações de produção existentes entre a classe dos mestres, proprietários dos principais instrumentos de produção, e a classe dos escravos, constituindo eles próprios o essencial dos instrumentos de produção e excluídos de toda a propriedade e de todos os direitos pessoais.

Imagem: Pascal Radigue, Wikimedia Commons

Entre os mestres e os escravos existiam outras classes sociais: os criadores e os cultivadores; proprietários coletivos ou individuais de pequenas tropas e de parcelas de terra; os artesãos proprietários de alguns instrumentos; os comerciantes proprietários de suas lojas. Mas estas classes ou camadas sociais intermediárias não podiam desempenhar um papel histórico independente dos mestres e escravos, as classes fundamentais da sociedade. Por outro lado, durante esse mesmo período, o Estado faz sua aparição e se desenvolve; são primeiro os grupos de homens armados, depois um aparelho administrativo, judiciário e diplomático, na cúpula do qual se encontra o governo.

A função fundamental desses aparelhos de Estado, como veremos mais à frente, é assegurar e manter a dominação da classe minoritária dos mestres sobre a massa de escravos.

Em suma, a passagem da pré-história à Antiguidade consistiu na substituição do modo de produção comunista primitivo pelo modo de produção escravagista, ou seja, pela substituição de sociedades produtivamente frágeis, sem classes nem Estado, por sociedades mais produtivas, divididas em classes (principalmente mestres e escravos) e dominadas pelos aparelhos de Estado, funcionando segundo o interesse da classe dirigente. O desenvolvimento das forças produtivas levou a essa primeira reviravolta revolucionária da história humana que, sobre a base da divisão social do trabalho e de condições objetivas de exploração do trabalho social, ou seja, da produção de um excedente, engendrou a divisão em classes.

Na Europa Ocidental e Central e em diversos países da bacia mediterrânea, a descoberta da cultura com o arado puxado por animais e as invenções relativas à utilização da água e do vento, que se somaram à dificuldade de procurar novos escravos no período de decadência do Império Romano, levam a que, por volta da metade do século V d.C., desmorone e desapareça o modo de produção escravagista e surja um novo modo de produção fundado sobre a servidão, chamado de modo de produção feudal, que será uma característica da Idade Média.

As duas classes fundamentais deste modo de produção são, de um lado, os servos, constituindo a massa de trabalhadores da agricultura e da criação de rebanhos e, de outra parte, os senhores feudais, onde cada um é, na origem, proprietário e soberano de seu domínio territorial, de seu feudo. A diferença em relação ao mestre antigo é que o senhor medieval não tem mais o direito de vida e morte sobre seus servos. Estes últimos podem mesmo ser proprietários, individuais ou coletivos, de algumas porções de terra.  Mas, a parte principal dessas terras pertence ao senhor feudal, que em virtude do modo de produção feudal, tem o direito de fazer trabalhar seus servos em seu benefício durante a maioria dos dias da semana.

Imagem: Hegodis, Wikimedia Commons

O modo de produção feudal é, portanto, fundado sobre  forças produtivas mais desenvolvidas que aquelas do modo de produção escravagista, e suas forças produtivas se desenvolverão mais e mais fortemente, sobretudo a partir dos séculos XII e XIII. Ele é ao mesmo tempo caracterizado pelas relações de produção existentes entre a classe dos senhores feudais ou nobres, proprietários dos principais instrumentos de produção, ou seja, do solo e dos meios de trabalhar, e a classe dos servos, obrigada a sentir a exploração e a dominação do senhor feudal.

Entre os senhores feudais e os servos existiam minorias de criadores e de cultivadores, de artesãos agrupados nas corporações onde os “companheiros”2 são explorados pelos mestres das corporações, enfim, os comerciantes. Estas classes, ou camadas intermediárias, continuam por muito tempo sem peso decisivo entre a minoria dominante dos senhores feudais e a massa de servos explorados. A partir do século XIII, os mestres das corporações e os comerciantes aumentarão seu poder econômico e engendrarão uma nova classe destinada a jogar um papel histórico considerável: a burguesia.

Marx sabia que fora da Europa Ocidental e Central não era cientificamente possível distinguir, em todo o mundo, com clareza suficiente, a sucessão de modos de produção escravagista e do modo de produção feudal de que estamos falando. Assim, a propósito, notadamente da China, da Índia e da Pérsia (hoje, Irã), ele indicou a existência do que ele chamou de modo de produção asiático.

Este modo de produção asiático que permite estudar hoje, cientificamente, não somente as sociedades antigas e medievais da Ásia, mas ainda as da África e das Américas (antes da conquista europeia), se caracteriza por sua vez por forças produtivas que, em geral, deram lugar a grandes obras civis, e por classes dirigentes cujos membros não eram sempre proprietários privados das terras, ao mesmo tempo que exploravam o trabalho de grandes massas camponesas por intermédio de um possante aparelho de Estado.

Assim, na China imperial, e também no Egito dos Faraós, o soberano, identificado a um deus pela ideologia religiosa, é reconhecido como o proprietário único das terras e dos rebanhos da região.  Não existe uma classe dominante  além daquela cujos membros são altos funcionários do aparelho de Estado; e é a este título que eles recebem o excedente de produção retirado da massa  de servos camponeses. Diversos estudos históricos contemporâneos  mostram que os grandes impérios da Idade Média africana (Gana, Mali, Songay) e os possantes Estados medievais indígenas dos Incas e dos astecas funcionavam de uma forma semelhante.

A existência do modo de produção comunista primitivo, saído da pré-história, é reconhecida hoje em dia como  um fato universal entre os povos da terra. A existência de modos de produção fundados, na Antiguidade e na Idade Média, sobre forças produtivas agrícolas, pastoris e artesanais, deve ser igualmente  considerado como um fato de caráter  universal, mesmo se persistiu, no interior destes novos modos de produção alguns traços do comunismo primitivo, por mais ou menos tempo. 

Portanto, o materialismo histórico nos mostra  que a evolução das relações de produção não é a mesma em todo o mundo e que ela seguiu principalmente duas vias: no Oeste do Mediterrâneo, na Europa ocidental e central, a apropriação privada do solo conduziu sucessivamente ao modo de produção escravagista, depois ao modo de produção feudal. Na Rússia meridional, durante longo tempo dominada por mongóis, na Ásia, na África e na América indígena, a concentração da exploração do trabalho social por meio do aparelho de Estado, ou seja, por uma burocracia de tipo antigo, determinou a formação e a manutenção de um modo de produção asiático ou de tipo asiático.

Ao que é preciso acrescentar que a penetração europeia posterior chegou, no que concerne à América Latina, a sistemas de tipo feudal, enquanto determinava, na Ásia,  combinações complexas entre o modo de produção asiático, o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista.

Portanto, as duas grandes vias principais chegama produzir consequências muito importantes nos tempos modernos: ali onde existia o modo de produção feudal, a burguesia chegará a destruir as antigas relações de produção e a construir, em épocas e segundo formas variáveis, novas relações de produção. Ali onde existia o modo de produção asiático ou de tipo asiático, ela não aparecerá tão cedo (salvo no Japão), e os continentes em questão tombarão econômica e politicamente sob a dominação colonial da burguesia europeia ou de origem europeia.

Ao contrário dos ideólogos burgueses que chamam nossa sociedade de “sociedade moderna” ou “sociedade industrial”, Marx a qualifica de “sociedade capitalista”, porque é o capital como relação social de exploração do trabalho assalariado pela burguesia que tornou possível a utilização de máquinas, ao mesmo tempo que criava o antagonismo histórico entre as duas classes fundamentais desta sociedade.

No que concerne precisamente à Europa OCidental, a expansão do comércio, do século XIII ao século XVIII, a criação das manufaturas e o emprego  das primeiras máquinas anunciando a industrialização do século XIX levaram à decomposição e ao desmoronamento do modo de produção feudal  e sua substituição revolucionária pelo modo de produção capitalista.

Este novo modo de produção se caracteriza pelo poderoso  desenvolvimento das forças produtivas industriais, ou seja, pela generalização do emprego de máquinas, e se define por relações de produção que põem frente a frente duas classes fundamentais: a burguesia, ou classe dos capitalistas, proprietária dos principais meios de produção industrial assim como das principais organizações bancárias e comerciais, e o proletariado, ou a classe dos trabalhadores, obrigados economicamente, para sobreviver, a vender aos capitalistas sua força de trabalho.

Lionel Walden, A siderúrgica Cardiff à noite (Museu Nacional do País de Gales)

As classes ou camadas intermediárias (lojistas, proprietários rurais, membros das profissões liberais, cada vez mais subjugados, arruinados e liquidados pela burguesia, ou gerentes de empresas ou mesmo funcionários públicos cada vez mais pauperizados), não dispõem de nenhuma possibilidade histórica independente da burguesia ou do proletariado. 

O modo de produção capitalista repousa essencialmente sobre a exploração pela burguesia do trabalho social dos proletários, como o modo de produção feudal repousava sobre a exploração dos servos e o modo de produção escravagista sobre a exploração do trabalho dos escravos pelos mestres.  Mas, enquanto a exploração do homem  pelo homem, ou seja, de uma classe por outra,  se encontrava em parte dissimulada no escravagismo, no feudalismo e no modo de produção asiático, por uma multidão de estatutos pessoais saídos do nascimento, do fato de pertencer a determinada família, ou da origem étnica, esta exploração se encontra brutalmente simplificada e desnudada pela oposição entre a classe proletária e a burguesia, característica do capitalismo.

É então preciso o surgimento do modo de produção capitalista e os inícios do movimento operário revolucionário para que a realidade das classes sociais e os antagonismos entre classes, ou seja, de sua luta, se tornem perfeitamente visíveis. Para o materialismo histórico, “uma classe social é um conjunto de indivíduos jogando o mesmo papel na produção ou em relação à produção e mantendo com os outros indivíduos as mesmas relações sociais fundadas sobre o processo de produção” .3

Não é o nível de renda de um indivíduo ou a ideia que ele faz de sua condição que define  objetivamente sua pertinência a uma classe; o que determina objetivamente é o lugar deste indivíduo em relação com outros, na produção ou em relação à produção.

Mais genericamente, sobre a base de um certo nível atingido pelas forças produtivas, as relações sociais de produção se estabelecem, engendram imediatamente as duas classes constitutivas dos modos de produção seguintes: escravagista, feudal, asiático ou de tipo asiático  e capitalista. O modo de produção tem por condição um nível determinado das forças produtivas, mas ele se define fundamentalmente pelo que Marx chamava de a base real da sociedade, ou seja, as relações de produção geradoras, a partir da produção de um excedente, das duas classes antagônicas fundamentais desta sociedade. 

Desde sua aparição na Antiguidade, a divisão da sociedade em classes deu nascimento à luta de classes, porque em toda sociedade de classes, os interesses dos explorados e dos exploradores são antagônicos, ou seja, diametralmente opostos.

Esta luta reveste, segundo os períodos, formas e  intensidade variáveis: nas massas rurais ela se exprime pela resistência, encoberta ou mais ativa, em relação aos serviços ou entrega de produtos a que elas são constrangidas; nas cidades, ela se exprime por manifestações múltiplas e por protestos  mais ou menos organizados  contra as classes dominantes e o aparelho político de seu poder. Da Antiguidade aos nossos dias a luta de classes jamais cessou. Ela atinge seus pontos culminantes quando as classes exploradas e oprimidas chegam a dar ao seu movimento  formas  suficientemente organizadas.

A Antiguidade conheceu numerosas revoltas de escravos, entre as quais a mais célebre é a revolta de Spartacus, que chegou a controlar, no século I a.C., todo o sul da Itália, e que exigiu do Senado romano o envio de numerosas legiões para conseguir reprimir e esmagar a revolta. As sociedades feudais foram, muitas vezes, sacudidas e abaladas por revoltas de servos ou por revoltas das classes populares das cidades. Durante a Guerra dos Cem Anos, no século XIV, o norte da França foi varrido  por revoltas camponesas, chamadas “jacqueries”, enquanto Paris atravessou diversos períodos de guerra civil. Na mesma época, Londres e toda a Inglaterra conheciam  violentos conflitos do mesmo tipo.

No século XVI, toda a Alemanha foi incendiada pela célebre “guerra camponesa”, que ergue as massas rurais contra os grandes senhores feudais e os príncipes da Igreja. Sob o nome de guerra de religião, estas serão lutas armadas de servos contra seus senhores, e de burgueses contra a nobreza, que acontecem, principalmente na França.

No século XVII, na França, as Frondas4 sucessivas enfrentarão burgueses e elementos das camadas populares das cidades e dos campos, com os senhores e com o aparelho de Estado monárquico-feudal.

Enfim, no início do século XIX até nossos dias, o proletariado, criando e desenvolvendo suas próprias organizações, recorre às greves, às ocupações de fábricas, às manifestações de massa  e às insurreições. Como mostra Engels, é a violência organizada das classes dominantes, é a violência do Estado e de seu aparelho policial-militar que empurra os escravos, depois os servos e, enfim, os proletários a usar da violência para defender seus interesses vitais e tentar realizar suas aspirações. 

Episódio da Fronda no Faubourg Saint-Antoine, junto aos muros da Bastilha (1650) / Imagem: Domínio Público

Mas, a revolução social, ou seja, a destruição de um modo de produção e sua substituição  por um modo de produção novo, deve ser distinguido como um movimento histórico específico entre as múltiplas e incessantes lutas entre as classes com interesses opostos.

Marx mostra que no interior de um modo de produção determinado, as forças produtivas que estão na origem deste modo de produção se desenvolvem primeiro sob a direção da classe dominante e, por assim dizer, em acordo  com as relações de produção existentes. Em seguida, continuando a se desenvolver, as forças produtivas tomam um caráter novo. Ou, dito de outra forma, novas forças de produção aparecem. Mas, precisamente porque elas são novas, elas se chocam com as antigas relações de produção  que continuam a desempenhar o papel de base real da sociedade. A partir de um certo momento, as novas forças produtivas sufocam nos limites das antigas relações de produção. É por isso que Marx, para caracterizar uma tal situação histórica, fala da revolta das forças produtivas contra as relações de produção.

Esta revolta constitui a condição objetiva da revolução social que se realiza efetivamente através do desenvolvimento  apropriado da luta de classes. Deve-se então definir a revolução social como o movimento histórico da luta das classes permitindo a destruição das relações sociais de produção que obstaculizam o progresso das novas forças produtivas, e assegurando a construção de relações de produção novas, liberando a potência criadora destas forças produtivas.

O exemplo de revolução social que foi mais estudado por Marx e Engels foi o da revolução burguesa que aboliu o modo de produção feudal e instaurou o modo de produção capitalista. Esta revolução começou no século XVII, nos Países Baixos (Holanda) e na Inglaterra; ela prossegue no século XVIII nas colônias inglesas das Américas, que se tornarão os Estados Unidos da América. Ela atinge seu ponto culminante na Revolução Francesa de 1789-1799, para depois se estender, em 1830 e sobretudo em 1848, para a maior parte dos países da Europa.

As sociedades europeias da Idade Média eram dominadas pelos senhores feudais que exploravam o trabalho dos servos. A partir dos séculos XII e XIII, os comerciantes e os mestres das corporações formam as burguesias que começam a enriquecer e a buscar se libertar da dominação dos senhores. Ao antagonismo fundamental no modo de produção feudal, entre os senhores e os servos, agrega-se então uma outra oposição, entre a classe burguesa em formação e a classe feudal dominante. 

Do século XV ao século XVII, a potência econômica da burguesia (comerciantes, proprietários de manufaturas, armadores, banqueiros) não cessa de crescer. Ao lado da economia feudal, que consistia na exploração dos servos pelos senhores feudais, aparece uma economia capitalista do tipo comercial, e depois manufatureira, que repousa na exploração pelos capitalistas de uma mão de obra situada às vezes nas cidades e as vezes nos campos. Durante este período se realiza a acumulação primitiva do capital, que tornará possível a instauração do modo de produção capitalista.

Entretanto, uma contradição surge e se agrava entre as novas forças produtivas controladas pelos capitalistas, entre suas atividades comerciais, manufatureiras e mais tarde industriais, e as relações de produção que continuam feudais. Desta forma, as rotas do comércio burguês são travadas pelos direitos de aduana, taxas e impostos, que os senhores feudais cobravam pela travessia por seus domínios. Além disso, não só o Estado  monárquico-feudal, para sustentar os cortesãos  e financiar suas empresas de guerra, esmaga com impostos os camponeses, mas ainda taxa pesadamente os próprios burgueses. O desenvolvimento das atividades econômicas da burguesia exige então que os limites feudais, nos quais ela é sufocada, sejam destruídos e que a burguesia, ela própria, se torne a classe social e  politicamente dominante.

Uma Execução Capital, Place de la Révolution (Place de la Concorde), por volta de 1793, por Pierre-Antoine Demachy

Nos Países Baixos (Holanda), a luta da burguesia toma a forma de um combate contra a dominação espanhola e austríaca. A burguesia de Amsterdam, de Haia, de Roterdã e de outras cidades holandesas triunfa e cria, sob o nome de Províncias Unidas, uma sociedade e um Estado onde a burguesia como classe é, pela primeira vez, a classe dominante, através da autoridade de um Parlamento (1581).

Na Inglaterra, em 1648,  a burguesia derruba o Estado monarquista e o substitui por uma República Parlamentar. Mais tarde, entretanto, um acordo entre os capitalistas e os nobres latifundiários chega à instituição de uma Monarquia Parlamentar que, em suas grandes linhas, existe até hoje.

Na França, o absolutismo do Estado monárquico-feudal sob Luís XIV, Luís XV e Luís XVI, obstaculiza o progresso do capitalismo e o crescimento da burguesia. A nobreza, e a monarquia que a sustenta e a protege, tomam cada vez mais um caráter parasitário que se traduz no agravamento dos impostos e na deterioração financeira do reino. Os “Estados Gerais”5 de 1789, reunidos para fornecer novos subsídios e para buscar acalmar, por meio de algumas reformas, as reivindicações dos camponeses, das camadas populares das cidades e da burguesia, provocam o movimento que engendra, a partir de 1792, a República Burguesa.

É verdade que estas lutas de classes não se reduzem a uma luta de classes opondo somente a burguesia e a nobreza de origem feudal. Nesta luta participaram as massas de servos dos campos e as camadas populares urbanas. Mas, elas o fizeram sob a direção política da burguesia, porque é somente esta última classe  que dispunha da possibilidade histórica  de substituir o modo de produção feudal pelo modo de produção capitalista, em gestação no seio do precedente.

Isto significa que as revoltas de escravos da Antiguidade e as revoltas de servos da Idade Média, abalaram, corroem e empurraram até a decomposição os modos de produção respectivos, escravagista e feudal.  Mas, estas revoltas não estavam ligadas a novas forças produtivas que pudessem pôr em funcionamento um novo modo de produção. Por isso elas não se transformaram em revoluções sociais.

Entretanto, a luta de classes da burguesia contra a classe nobre era diretamente ligada às novas forças produtivas engendradas e controladas pela burguesia. Profundamente ajudada pelo movimento das massas exploradas do campo e da cidade, esta luta efetivamente chegou à revolução social geradora da sociedade capitalista. É por isso que Marx pode escrever sobre a burguesia crescente:

“A burguesia jogou na história um papel eminentemente revolucionário… A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, o que quer dizer as condições de produção, ou seja, todas as relações sociais… Empurrada pela necessidade de mercados sempre novos a burguesia invade o globo inteiro. Ela precisa se implantar em todo lugar, explorar em todo lugar, estabelecer relações em todos os lugares. Pela exploração do mercado mundial, a burguesia dá um caráter cosmopolita  à produção e ao consumo de todos os países.6

Mas, o tempo da revolução burguesa, agora, já passou. Uma contradição apareceu, desta vez no interior do modo de produção capitalista, entre as exigências do desenvolvimento das forças produtivas e as próprias relações capitalistas de produção. Marx prossegue sua explicação anterior:

“As condições burguesas de produção e de troca, o regime da propriedade, a sociedade burguesa moderna,  que fez surgir tão possantes meios de produção e de troca, parece um mágico que não sabe mais dominar as potências infernais que ele invocou. Há dezenas de anos, a história da indústria  e do comércio não é outra  coisa que a história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações modernas de produção, contra o regime da propriedade, que condiciona a existência da burguesia e sua dominação.”7 

Isto significa que uma nova revolução social se preparava na época  de Marx e agora se encontra na ordem do dia: a revolução proletária.

Toda classe produz, na consciência de seus membros, representações relativas a ela mesma e à sociedade. Estas representações exprimem, não a realidade objetiva da vida social, mas interesses e  aspirações, deformando esta realidade e exprimindo-a mesmo ao inverso, de uma maneira invertida. É o que Marx chama ideologia.

Ele precisa que, se cada classe dá lugar a uma ideologia, não é menos verdade que as “idéias dominantes são as idéias da classe dominante”; o  que quer dizer que a dominação que uma classe exerce materialmente sobre outra pela exploração do trabalho e pelo constrangimento estatal, é acompanhada de uma dominação ideológica cuja função consiste, junto com o constrangimento estatal, é manter e preservar a ordem existente, transfigurando e obscurecendo a função repressiva do estado. 

Assim, a burguesia apresenta, através de sua ideologia, o capitalismo não como a exploração do trabalho proletário, mas como uma sociedade “industrial”, “moderna”, mesmo “democrática” onde não há mais nem escravos, nem servos,  e onde  nenhum indivíduo está constrangido por lei a trabalhar para um outro.  Segundo esta ideologia, os patrões e os operários seriam “parceiros sociais” que trocariam entre eles, por contratos livres,  seu dinheiro e seu trabalho. Na medida em que, não somente os burgueses, mas também os trabalhadores vejam assim as coisas, é claro que sua visão  é uma visão invertida que lhes faz tomar a exploração do homem pelo homem por um jogo de livre associação. Porque, de fato, o salário não vem de um contrato livre. Ao menos, ele não é livre a não ser no sentido do conteúdo burguês do termo liberdade.

Fourier se concentra sobretudo em imaginar uma sociedade futura baseada na associação livre entre trabalhadores. Ele prega a igualdade entre os sexos, a liberação do sexo feminino e florescimento de todas as potencialidades psicológicas existentes no ser humano e  que estão momentaneamente mutiladas pelo capitalismo, pela competição e pelo individualismo. 

Owen, empresário inglês, tenta transformar sua empresa em uma comunidade socialista, gerida pelos próprios trabalhadores. Esta tentativa fracassa completamente como consequência do funcionamento implacável do mercado capitalista e da incompreensão de Owen da necessidade da luta proletária pelo poder do Estado.

A propósito destes três pensadores, Marx e Engels escrevem:

“Os inventores desses sistemas se dão conta, inteiramente, do antagonismo das classes, assim como da ação de elementos dissolutórios da própria sociedade dominante. Mas, eles não percebem do lado do proletariado nenhuma espontaneidade histórica, nenhum movimento histórico que lhe seja próprio.

Como o desenvolvimento do antagonismo das classes marcha  junto com  o desenvolvimento da indústria, eles não percebem as condições materiais da emancipação do proletariado e se metem em busca de uma ciência social, de leis sociais, com o objetivo de criar estas condições.

Eles substituem a atividade social por sua própria engenhosidade; substituem as condições históricas de emancipação  por condições fantasiosas; a organização gradual e espontânea do proletariado em classe por uma organização da sociedade fabricada, peça por peça, por eles próprios. Para eles, o futuro do mundo se resolve na propaganda e pela colocação em prática de seus planos de sociedade.8

De fato, os ideólogos do socialismo e do comunismo utópicos não discernem os laços existentes entre o proletariado e o desenvolvimento de novas forças produtivas e não compreendem o papel da luta de classes no movimento da história.  Para eles, o proletariado não existe a não ser como massa miserável e sofredora; eles continuam prisioneiros de uma certa  forma de ideologia cristã piedosamente sentimental sobre o destino dos pobres.

Assim, Marx e Engels concluem: 

“A importância do socialismo e do comunismo crítico-utópico está na razão inversa do desenvolvimento histórico. À medida que a luta de classes se acentua e toma forma, este modo de se elevar acima dela pela imaginação, esta oposição imaginária que lhe fazem,  perde todo  valor  prático, toda justificação teórica. Eis por que se, em muitos aspectos, os fundadores desses sistemas eram revolucionários,  as seitas formadas por seus discípulos são sempre reacionárias, pois se aferram às velhas concepções de seus mestres apesar da evolução histórica do proletariado.”9 

E é insistindo sobre estes aspectos “sectários” e “reacionários” que os ideólogos atuais da burguesia, para preservar seu sistema de exploração, para enganar as massas, utilizam o socialismo utópico e buscam justificar através de falsos exemplos o autoproclamado “socialismo autogestionário” ou “socialismo participativo”. 

Exprimindo por sua vez a espontaneidade do proletariado e seus progressos na organização revolucionária, Marx e Engels, não somente criticam o socialismo utópico, mas ainda fundam o socialismo científico.  Esta concepção, saída diretamente do materialismo histórico, não opõe à sociedade capitalista real uma sociedade socialista ideal. Ela analisa as contradições do modo de produção capitalista  e demonstra, a partir delas,  a necessidade histórica da revolução proletária através do desenvolvimento previsível da luta de classes. 

A contradição fundamental do modo de produção capitalista é aquela que opõe as forças produtivas, que se tornam cada vez mais e mais coletivas,  cada vez mais sociais, ao regime capitalista da propriedade dos meios de produção, que continua privada e mesmo cada vez se torna mais e mais privada, já que esta propriedade se concentra nas mãos de uma minoria, de uma oligarquia capitalista toda-poderosa.

Marx e Engels constatam que a produção capitalista implica em uma cooperação crescente dos operários nas fábricas, das próprias empresas entre si, assim como dos diversos setores da indústria e da economia indústrial dos diferentes países capitalistas. De um lado, as forças produtivas se coletivizam, se socializam. Do outro lado, a propriedade dos grandes meios de produção continua privada. Daí resulta que o progresso das forças produtivas se choca ao obstáculo constituído pelas relações capitalistas de produção  diretamente expressas na propriedade privada do capital. 

Engels explica isto, assim:

“As forças produtivas elaboradas sob a direção da burguesia se desenvolveram, depois que o vapor e o novo maquinismo  transformaram  a velha manufatura em grande indústria, com uma rapidez e uma amplitude desconhecidas até aqui.  Mas, da mesma forma como, a seu tempo, a manufatura e o artesanato desenvolvido sob sua influência haviam entrado em conflito  com os entraves feudais das corporações, da mesma forma a grande indústria, uma vez desenvolvida mais completamente, entra em conflito com as barreiras nas quais o modo de produção capitalista a tem encerrado.  As forças de produção novas já transbordaram a forma burguesa de utilizá-las; e este conflito entre as forças produtivas e o modo de produção não é um conflito nascido na cabeça dos homens, como por exemplo aquele do pecado original ou da justiça divina; ele está nos fatos, objetivamente, fora de nós, independente da vontade ou da própria marcha dos homens que a provocaram. O socialismo moderno não é outra coisa que o reflexo no pensamento deste conflito efetivo, sua reflexão, sob a forma de idéias, antes de mais nada no cérebro da classe que o sofre diretamente, a classe operária.”10

O socialismo de Saint-Simon, de Fourier e de Owen era utópico porque ele exprimia somente as aspirações à uma nova sociedade sem poder provar que uma tal sociedade resultaria do movimento da história. O socialismo de Marx e Engels é científico por que ele parte da contradição objetiva  entre o desenvolvimento das forças produtivas modernas e o modo de produção capitalista. Ele não prega o surgimento incerto, utópico, de uma sociedade ideal; ele exprime cientificamente a contradição objetiva a partir da qual a luta da classe proletária  contra a classe burguesa estará em condições de abolir o capitalismo e criar novas relações de produção, ou seja, socialistas, pela coletivização da propriedade privada dos instrumentos de produção.

Portanto, a passagem do capitalismo ao socialismo e ao comunismo não consiste em um movimento fatal da história. Assim como a passagem do feudalismo  ao capitalismo se cumpriu através da luta da burguesia contra a nobreza e por meio da revolução burguesa, assim também a passagem do capitalismo ao socialismo não poderá acontecer a não ser através da luta do proletariado contra a burguesia e por meio da revolução proletária, porque, como disse Engels:

A contradição entre produção social e apropriação capitalista se manifesta como o antagonismo entre o proletariado e a burguesia.11 

Marx indica que, quando um modo de produção não pode mais desenvolver as forças produtivas que ele mesmo contém, uma alternativa histórica surge: ou a classe que é fundamentalmente ligada às novas forças produtivas (hoje em dia o proletariado) chega a se organizar e derrubar o modo de produção existente e então um novo modo de produção se edifica; ou as forças da classe dominante e as da classe explorada e revolucionária se equilibram sem que a revolução social chegue a se realizar vitoriosamente e, neste caso as forças produtivas se estagnam, depois regridem e a sociedade se decompõe. Esta alternativa será retomada mais tarde por Rosa Luxemburgo e Leon Trotsky sob a forma: “Socialismo ou barbárie”.

A passagem do capitalismo ao socialismo e ao comunismo não poderá se efetuar a não ser que o proletariado, única classe revolucionária de nossa época, consiga, através da luta contra a burguesia e da revolução proletária, sob a direção do partido operário internacional, assegurar a vitória irreversível desta nova revolução social que terá por efeito não substituir um modo de exploração por outro, uma dominação de uma classe  por outra, mas abolir a exploração e a dominação do homem pelo homem.

O materialismo histórico permite precisamente compreender que o proletariado é por sua vez a única classe revolucionária de nosso tempo e uma classe da sociedade burguesa submetida à exploração, à opressão e também à  ideologia da classe dominante que envolve todas as atividades desta sociedade.

Sob o regime capitalista, a força de trabalho proletária não é mais que uma mercadoria e os proletários sentem todas as vicissitudes da exploração. Marx e Engels escreveram:

“A indústria moderna fez da pequena oficina do mestre artesão patriarcal a grande fábrica do capitalismo industrial. As massas de operários, amontoados nas fábricas, são organizados militarmente. Como soldados da indústria, estão sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais e suboficiais. Não são somente escravos da classe burguesa, do Estado burguês, mas, também, diariamente, a cada hora, escravos da máquina, do contramestre, e sobretudo, do dono da fábrica. E esse despotismo é tanto mais mesquinho, odioso e exasperador, quanto maior é a franqueza com que proclama ter no lucro seu objetivo exclusivo.”12

Eis, então, o que é “em si” a classe proletária. É isso o que Marx denomina proletariado como “classe em si” . Para se chegar à vitória da revolução social, é preciso que ele se transforme de “classe em si” em “classe para si”, ou seja, em força social revolucionária consciente de seu papel e, portanto, capaz de destruir as relações de produção e o Estado capitalista, enfim, a própria burguesia e de construir as relações socialistas de produção.

Diferentemente da burguesia, que teve a possibilidade histórica de começar a construir sua economia no interior do modo de produção feudal, o proletariado não dispõe de nenhuma possibilidade deste tipo. Para se transformar de “classe em si” em “classe para si”, ele não dispõe mais do que de um único meio, de uma única arma: a organização revolucionária.

Desde suas origens, a classe operária, lutando para sobreviver, criou suas caixas de socorro mútuo, suas cooperativas, que são os ancestrais das leis de Seguridade Social (Previdência e Assistência médica e hospitalar). Depois, o movimento operário construiu, na Inglaterra, na Europa ocidental, nos Estados Unidos, às vezes conjuntamente com suas primeiras organizações políticas, os primeiros sindicatos, organizações de defesa dos interesses dos trabalhadores, primeiro nas  empresas, depois nas profissões e mais tarde em escala nacional e internacional.

Mas, os sindicatos não são suficientes para a transformação do proletariado de “classe em si”  em “classe para si”, porque esta transformação para se cumprir exige que o proletariado afronte a burguesia, não somente no terreno econômico e social, mas ainda no terreno político, sobre o terreno onde se põe a questão finalmente decisiva do poder de Estado. É por isso que Marx, reconhecendo a importância dos diversos níveis de organização do movimento operário, e inclusive dos sindicatos, de que ele foi o primeiro a dar todo o significado e o lugar que ocupam na luta do proletariado contra a burguesia, militou toda sua vida pela construção da organização política revolucionária e internacional do proletariado, do partido operário.

Desde 1848, Marx e Engels proclamavam: 

“Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Eles não têm interesses que os separem do proletariado em geral. Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretenderiam modelar o movimento operário. Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários  em dois pontos: 

1. Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independente da nacionalidade.

2. Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam sempre, em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.”13 

O socialismo científico nos ensina então que a vitória definitiva do proletariado na sua luta contra a burguesia depende dos meios de organização que ele se dá, e acima de tudo, dos meios de organização política, ou seja, do partido operário revolucionário internacional. E que ele não pode construir e desenvolver a não ser extraindo da sua luta de classe uma vanguarda (não limitada apenas aos proletários) que assimile os princípios do socialismo científico.

A diferença do socialismo utópico que se compraz em descrever a sociedade ideal e a imaginar a futura humanidade coletivista,  o socialismo científico analisa as condições objetivas e subjetivas da revolução proletária e de sua vitória, e a prepara. É por isso que Marx e Engels foram capazes de prever o que seria, em seus fundamentos, a sociedade que se constituiria após esta  vitória.

Assim como a história da humanidade começou a partir do comunismo primitivo, ela prosseguirá após a vitória da revolução proletária sobre a burguesia, no modo de produção comunista, gerador da sociedade sem classes e sem Estado, sem exploração e sem opressão, onde as comunidades de produtores livres gerarão a expansão ilimitada das forças produtivas para satisfazer as necessidades e aspirações de todos. Entre o comunismo, cujo lema será “a cada um segundo suas necessidades”,  e o capitalismo, a humanidade deverá passar por um período de transição caracterizada pela ditadura de classe do proletariado sobre os restos da antiga classe dominante e pela organização socialista da produção sobre a base do  princípio de que “a cada um segundo seu trabalho”.

Em 1848, Marx e Engels se referem à expressão “Partido Comunista”, que Lenin retomará, durante a revolução de Outubro de 1917, por que o comunismo é o objetivo final enquanto o socialismo não designa mais que a transição  que se estende do fim da dominação burguesa até a extinção completa do Estado e o início da Era da abundância.

Por seu método teórico e prático, por sua concepção objetiva da história futura, o marxismo é por sua vez a base do socialismo científico e do comunismo científico.

Expressão consciente do movimento operário revolucionário em luta contra a burguesia, o marxismo deu nascimento a um método científico de pensamento e de ação: a dialética materialista, ao mesmo tempo que a uma concepção fundamental da realidade sob todas as suas formas: o materialismo dialético.

A dialética é um modo de pensar segundo o qual toda a realidade é constituída de contradições que engendram necessariamente sua transformação, seu próprio futuro.  Mas, na história da filosofia, a dialética foi concebida de uma maneira idealista. Assim, Hegel  partia do princípio indemonstrável de que o espírito entra em contradição com ele mesmo e engendra, por isto, o futuro da realidade objetiva.

Marx denunciou este caráter idealista da dialética de Hegel e a destroçou constatando que é a própria realidade objetiva que, independente da consciência dos homens, é constituída pelas contradições internas geradoras de seu próprio futuro. Se constata, para comprovar esta posição, a contradição entre o contínuo e o descontínuo nas partículas atômicas, a contradição entre as forças da vida e as forças da morte nos organismos biológicos, a contradição entre as classes na sociedade.

O materialismo dialético é uma concepção fundamental do universo e da matéria, da vida e dos seres vivos, da sociedade e do pensamento segundo a qual a matéria  em transformação vem primeiro e o pensamento tentando exprimir esta transformação vem em segundo. E também é a concepção na qual a matéria comporta contradições que, em todos os níveis, a constituem e engendram seu próprio futuro, de tal modo que o pensamento deve exprimir estas contradições e transformar, evoluir, para exprimir objetivamente a realidade da natureza, da sociedade e do próprio pensamento.

Marx denunciou este caráter idealista da dialética de Hegel e a destroçou constatando que é a própria realidade objetiva que, independente da consciência dos homens, é constituída pelas contradições internas geradoras de seu próprio futuro / Imagem: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (Estugarda, 27 de agosto de 1770 – Berlim, 14 de novembro de 1831)

A dialética materialista e o materialismo dialético, que são uma mesma coisa considerada do ponto de vista do método ou do ponto de vista da teoria, representam a chegada ao fim de toda a história da filosofia, especialmente da filosofia clássica alemã, na medida em que o proletariado revolucionário termina com a especulação ideológica e parte para transformar efetivamente o mundo existente. Marx escrevia nas “Teses sobre Feuerbach”:

Os filósofos interpretaram o mundo de diversas maneiras; trata-se agora de transformá-lo.”

A partir daí, o materialismo histórico aparece, integralmente, no quadro do materialismo dialético, como o estudo científico e revolucionário da sociedade e de seu futuro. Ele repousa sobre a descoberta das condições materiais  de existência social dos seres humanos como geradoras de sua própria história através das contradições entre as classes geradoras da luta de classes. O materialismo histórico, ou concepção materialista da história, permite compreender cientificamente cada sociedade, em um determinado ponto de sua evolução, e mesmo esta própria evolução.

O modo de produção, ou seja, a unidade dialética das forças produtivas e das relações sociais de produção, é onde e por onde uma sociedade, produzindo  bens materiais  e meios de produção, se produz a si mesma com suas próprias características. Sobre a base das relações de produção, existe e funciona uma superestrutura da vida social, ou seja, as instituições, no centro das quais, na sociedade de classes, se encontra o Estado, e as ideologias, que asseguram o funcionamento das instituições existentes e a manutenção das formas de propriedade que elas exprimem, a saber, a manutenção  de uma certa relação de forças entre a classe exploradora e dominante e a classe explorada e dominada.

É assim que se apresenta, como método e como teoria, o marxismo, sobre o qual dizia Lênin , em 1913, que ele tinha três fontes: a filosofia clássica alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês.

Aprender e desenvolver o marxismo exige a participação militante na luta do proletariado revolucionário contra a burguesia

Efetivamente, Marx extraiu da filosofia clássica alemã, particularmente de Hegel , a dialética, arrancando-a do idealismo, ou seja, da concepção ideológica na qual Hegel a havia aprisionado e através da qual a havia deformado e invertido. Ao mesmo tempo, Marx, tirando os ensinamentos  das experiências espontâneas do proletariado, levou até suas extremas consequências as descobertas dos economistas ingleses clássicos (Smith e Ricardo), como se verá no capítulo seguinte. Enfim, ele se apoiou sobre a luta de classes do proletariado contra a burguesia, tal como ela decorreu na França, de 1793 até 1848, para ultrapassar o socialismo utópico de seus predecessores e chegar ao socialismo científico de que aqui se expôs os princípios.

O aporte filosófico alemão, o aporte econômico inglês, o aporte político-histórico francês, permitiram a Marx, sobre a base do movimento operário revolucionário  nascente, romper com as especulações ideológicas para exprimir conscientemente e cientificamente o movimento objetivo da história do qual as massas participam, mas que o fazem sem ter consciência, ou ao menos, sem ter uma consciência suficiente. É por isto que o marxismo não pode ser ensinado especulativamente, como sendo uma doutrina entre outras doutrinas.

O critério, ou seja, o sinal distintivo da ciência em relação às outras formas do conhecimento humano, é a unidade entre a teoria e a prática sobre a base da prática. No domínio da ação histórica  das massas e da luta de classes, o marxismo  nasceu e se desenvolveu como uma unidade  entre a teoria do materialismo histórico e a prática da luta de classes sobre a base desta prática organizada  pelo e no movimento operário revolucionário. Aprender e desenvolver o marxismo exige a participação militante na luta do proletariado revolucionário contra a burguesia.

Isto significa que a expressão consciente do movimento histórico inconsciente não é realizável hoje a não ser na e pela organização revolucionária das forças do proletariado. Deste ponto de vista, que é aquele do materialismo dialético e histórico, e do socialismo científico, a consciência e a organização são uma mesma experiência revolucionária. Ser marxista é então militar, hoje, como nos tempos de Marx e Engels, pela construção do partido operário revolucionário internacional.

O marxismo nos ensina, por um lado, que a revolução social não é a aplicação de uma doutrina elaborada antecipadamente por alguns teóricos, nem um efeito da propaganda de idéias revolucionárias ou tidas como tal, pois a revolução social é o movimento pelo qual as massas entram em conflito com as estruturas da ordem existente, no caso as capitalistas, a ponto de desmantelá-las e destruí-las; o marxismo nos ensina, por outro lado, que o movimento espontâneo das massas não pode chegar à vitória irreversível da revolução a não ser que a classe proletária consiga chegar a um grau suficiente de organização política, ou seja, a forma mais elevada de sua consciência histórica.

Ser marxista é trabalhar sem descanso pela unidade do proletariado, por sua organização independente como classe revolucionária, portanto, para a elevação de sua consciência no sentido prático do termo. É segundo a expressão de Marx, lutar pela transformação do proletariado em partido.

  • Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels
  • Do socialismo utópico ao socialismo científico, Friedrich Engels
  • Ludwig Feurbach e o fim da filosofia clássica alemã, Friedrich Engels
  • Anti-During, Friedrich Engels
  • A Ideologia Alemã, Karl Marx e Friedrich Engels
  1. Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848). ↩︎
  2. Companheiros: palavra de origem do francês “Compagnon”, que significava “membro da corporação”. ↩︎
  3. Lênin, A Grande Iniciativa, Obras escolhidas. ↩︎
  4. Frondas (em francês, Fronde): revoltas populares que explodem em Paris contra Jules Mazarin (1648-1653) e que utilizavam “frondes”, espécie de pequenas “fundas” consistente de uma bolsa de couro presa em duas cordinhas e que, após, ser girada em velocidade, tem uma das cordas soltas projetando uma pedra em direção ao alvo. ↩︎
  5. “Estados Gerais”: reunião dos representantes dos “três Estados”, nobreza, clero e burguesia, que foi convocada, em 1789, pelo rei e que resultou no rompimento dos representantes da burguesia com os outros dois “Estados”, a nobreza e o clero, dando origem a Revolução francesa.  ↩︎
  6. Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848). ↩︎
  7. Ibdem. ↩︎
  8. Ibdem. ↩︎
  9. Ibdem. ↩︎
  10. Firedrich Engels, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico (1880). ↩︎
  11. Ibdem. ↩︎
  12. Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848). ↩︎
  13. Ibdem. ↩︎