Quartel-General Central das Forças Armadas Iranianas anunciou que conseguiu abater um caça F-15 americano / Imagem: RS, Fotos Públicas

Fúria Épica: o que está acontecendo com o imperialismo no Irã?

No primeiro dia da operação do imperialismo contra o Irã, “Fúria Épica”, o aiatolá Ali Khamenei foi morto em um bombardeio sobre sua casa. Trump conclamou então os iranianos a aproveitar a “única chance em gerações” para “tomar o seu governo”. Mas esse não foi o único bombardeio que EUA e Israel lançaram naquele dia: uma escola de meninas foi atingida pelo extremamente preciso míssil Tomahawk norte-americano, e 175 foram mortas. Desde então, a guerra não está indo como o planejado.

Também em 28 de fevereiro, a porta-voz da Casa Branca anunciou os objetivos da guerra no Irã, entre eles a “mudança de regime”. Após um início eufórico, Trump disse que talvez fossem necessárias 3 a 4 semanas. Enquanto escrevo, estamos entrando na quarta semana, mas a situação se complicou muito mais para o imperialismo. Embora Khamenei tenha sido morto, e o suposto local da “Reunião de Especialistas” tenha sido bombardeado, na verdade os especialistas se reuniram on-line e elegeram o filho de Khamenei, Mojtaba, como novo líder supremo do país.

Embora os EUA relatem “deserções”, não há nenhuma confirmação, e parece que, a cada eliminação da liderança política e militar, há um homem preparado e disposto a assumir o risco da posição. Embora o elemento religioso seja um elemento, concretamente, o corpo da Guarda Revolucionária é formado por uma burocracia monstruosa construída sobre o cadáver da Revolução Iraniana de 1979, e que é experiente na guerra Irã-Iraque (1980-1988), passando por envolvimento em conflitos no Líbano, na Síria, no Yemen, e que aprendeu com os primeiros ataques realizados por Israel e EUA no fim do ano passado, onde supostamente destruíram seu programa nuclear.

Além disso, é importante o fato de que os drones iranianos Shahed têm sido amplamente testados pela Rússia na Ucrânia, um novo tipo de guerra. As bases dos EUA e de seus aliados no Oriente Médio não estavam completamente preparadas para esse tipo de ataques e de mísseis balísticos. O serviçal Zelensky se prontificou e enviou em torno de 200 especialistas militares para ajudar, e ficou espantado ao descobrir que os mísseis Patriot, que custam entre 5 e 10 milhões, estavam sendo lançados para interceptar drones que custam 20 mil dólares, e em torno de 800 desses mísseis foram lançados somente nos primeiros 3 dias do conflito!

Então, as capacidades convencionais de guerra do Irã estão praticamente “acabadas”, e a capacidade de lançar mísseis balísticos foi muito reduzida, mas ainda há uma capacidade de guerra assimétrica e, dentro da estratégia de guerra assimétrica, têm sido muito efetivos em causar grandes danos ao imperialismo e seus aliados. Trump admitiu que ninguém esperava que vizinhos como Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Bahrein fossem atacados. Um ataque do Irã, por exemplo, atingiu em 17% a capacidade de produção de gás natural liquefeito (GNL) do Catar, e a recuperação pode demorar até 5 anos!

Em ataques diretos contra as forças do imperialismo, foram atingidas cinco bases; foram oficialmente reconhecidas 13 mortes de militares americanos. O Irã alega ter atingido o porta-aviões USS Abraham Lincoln; essa é uma informação não confirmada oficialmente, mas o USS Gerald R. Ford foi retirado da área de operações por um incêndio, e uma investigação foi aberta sobre “sabotagem”, pois militares do próprio porta-aviões estariam insatisfeitos com a operação.

Embora alegadamente as capacidades antiaéreas do Irã também tenham sido destruídas, 3 caças F-15E foram supostamente abatidos por fogo amigo sobre o Kuwait; um KC-135 sofreu uma falha técnica. O Irã alega ter destruído outro F-15E, e foi confirmado pelos EUA o que é possivelmente um dos feitos militares mais importantes da história recente: o Irã atingiu e forçou a retirada de combate de um F-35A, considerado até então imbatível e invisível. Finalmente, foi confirmado que o Irã lançou dois mísseis balísticos contra a base conjunta dos EUA e Reino Unido em Diego Garcia, no Oceano Índico. Não atingiram o alvo, mas ficou demonstrado que o Irã continua a aprimorar os seus mísseis, que agora podem chegar até 4000 km e acertar inclusive capitais da Europa.

Porém, a peça central na estratégia de defesa do Irã tem sido o bloqueio ao estreito de Ormuz, por onde passa uma parte essencial da venda de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) para o mundo, e que são absolutamente necessários para a indústria, o que causa um efeito em cadeia e aumento dos preços no geral. A passagem para grandes navios é em uma extensão de 3 km para um lado e 3 km para o outro, e o Irã tem utilizado drones com inteligência artificial e pequenas embarcações para realizar o bloqueio. Alguns incidentes foram suficientes para que quase nenhum mais tentasse atravessar; mesmo que Trump tenha prometido proteger esses navios, o que, na prática, não tem conseguido fazer.

Por este motivo, Trump pediu a vários aliados que enviem navios para ajudar a proteger o estreito. A França mobilizou e mantém o porta-aviões Charles de Gaulle na costa do Mediterrâneo, próximo da Turquia (o que foi vazado por um tripulante que registrou sua corrida matinal no convés pelo Strava), mas recusou-se a se envolver no estreito de Ormuz. O mesmo foi feito pela Alemanha e outros países europeus, que acusam Trump de iniciar uma guerra que não lhes interessa. Diante dessa recusa, Trump admitiu que está “considerando encerrar a guerra”, porque os objetivos estão “muito perto de serem atingidos”.

Então, o que está acontecendo é que Trump está considerando determinar uma vitória a partir da situação atual, que está ainda distante dos objetivos anunciados no dia 28 de fevereiro. Muitos analistas falam que essa “excursão” (como chama agora Trump) foi um erro de cálculo, por pressão do lobby pró-Israel, que é muito influente na política norte-americana, mas não se trata só das desvairadas de um presidente. Os Estados Unidos são uma potência militar incomparável no mundo e poderiam estender essa operação por ar, por mar e por terra, mas a guerra é a continuidade da política por outros meios, e são as condições políticas e da luta de classes que colocam um freio e tornam possível que uma força tão colossal tenha que se retirar humilhada de uma luta tão desigual.

o que está acontecendo é que Trump está considerando determinar uma vitória a partir da situação atual, que está ainda distante dos objetivos anunciados no dia 28 de fevereiro / Imagem: RS, Fotos Públicas

A resistência que o Irã oferece é significativa não somente porque estão preparados para uma guerra irregular, mas porque, diante do ataque imperialista, um salto se produz na consciência das massas, que não fazem mais do que uma trégua temporária com o regime dos aiatolás, porque percebem o inimigo que é o imperialismo quando ele bombardeia escolas. É por isso que marcham corajosamente, mesmo enquanto o inimigo está bombardeando a cidade de Teerã. Isto terá um impacto na consciência de classe e anti-imperialista no mundo todo, começando pelo Oriente Médio, onde as massas odeiam o imperialismo, porque conhecem o que aconteceu no Afeganistão, conhecem o que aconteceu no Iraque. No Paquistão, marines americanos dispararam contra manifestantes que invadiram a área externa da embaixada, deixando 16 mortos.

Enquanto isso, no centro da besta imperialista, o proletariado, que tem que arcar com os custos da guerra, vê a gasolina já aumentar 33% e o diesel 34%, o que tem um impacto em cadeia sobre os preços de alimentos etc. Isto já obrigou Trump a levantar as sanções do petróleo russo, que está em guerra com a sua aliada Ucrânia, e, recentemente, do próprio petróleo iraniano, na prática financiando os que seriam seus próprios inimigos! A guerra não retira a atenção do escândalo Epstein, nem da repressão contra os imigrantes; ela é mais um elemento que acirra a luta de classes nos EUA, e é por isso que Trump está perdendo no exterior.

Este é o período em que vivemos: um período de desagregação, guerras localizadas e acirramento da luta de classes. Segundo vazamentos, Vladimir Putin teria dito a Trump que pararia de ajudar o Irã com inteligência se ele parasse de ajudar a Ucrânia. Entre os países para os quais Trump pediu ajuda com o estreito de Ormuz está a China, que é a principal compradora de petróleo iraniano. Muitos geopolíticos disseram que um conflito com o Irã poderia significar o começo da Terceira Guerra Mundial, mas nem a Rússia nem a China podem socorrer o Irã diretamente: a Rússia porque já tem seu próprio atoleiro do qual sair, e a China porque não possui nem recursos para projetar força em outro continente, nem interesse em prolongar o fechamento de uma região estratégica para a circulação na economia mundial.

O que acontecerá adiante? “A guerra é, pois, um estranho trinitarismo… composto por violência primordial, ódio e inimizade; pelo jogo do acaso e da probabilidade; e por seu elemento de subordinação à política racional” (Carl von Clausewitz). Trump tem algumas opções à mesa: estaria considerando uma invasão terrestre limitada à ilha Kharg, por onde passa a exportação de petróleo iraniano; tropas anfíbias estão sendo mobilizadas para essa possibilidade. É uma opção em que mais vidas americanas poderiam ser perdidas e que poderia aprofundar a crise da economia mundial; poderia se arrastar por anos. Um porta-voz iraniano disse na TV que “estão esperando por isso”, porque “sabemos que podemos enfrentá-los”. Trump pode arcar com esse custo político e econômico?

Alguns meses atrás, na operação na Venezuela, onde o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado, Trump ficou impressionado com a “rapidez e violência” dos seus profissionais e se gabou do “medo” que causaram. Na América Latina, só temos histórico de conflitos muito localizados no último século. Mas existe um sentido internacional da luta de classes, e a classe trabalhadora não é pacifista. Quando não temos a direção de que precisamos, podemos até ter medo, mas estamos atentos ao mundo, e no mundo há quem nos dê coragem. O que sabe Trump sobre fúria? Na mitologia greco-romana, as Fúrias ou Erínias, personificam a vingança, têm asas de morcego e são implacáveis.