Na segunda-feira (25/08), aparentemente do nada, milhares de jovens foram às ruas na Indonésia. Reunidos em frente ao prédio do parlamento e enfrentando bravamente centenas de policiais com canhões de água, gritavam: “Abaixo o parlamento!”. Os confrontos entre manifestantes e polícia continuaram até depois da meia-noite. Pela manhã, 400 pessoas estavam presas, incluindo cerca de 200 estudantes.
Na quinta-feira (28), houve uma manifestação ainda mais violenta em Jacarta, que resultou na morte de um entregador, atropelado por um veículo blindado conduzido pela polícia. No momento da redação deste texto (29), os protestos seguem em curso e já se espalharam por diversas cidades, com confrontos cada vez mais intensos, à medida que as massas expressam sua indignação com o assassinato.
A questão imediata que desencadeou os protestos foi a decisão dos parlamentares de se concederem um generoso subsídio para despesas pessoais. Em meio às rigorosas medidas de austeridade implementadas pelo governo de Prabowo Subianto no início deste ano, esses “representantes do povo” decidiram que mereciam um auxílio-moradia mensal de 50 milhões de rúpias (US$ 3.075). Isso eleva sua renda mensal total a 239 milhões de rúpias (US$ 14.600), valor 50 vezes superior à renda média de um trabalhador.
Naturalmente, os políticos tentaram justificar seus salários exorbitantes. O vice-presidente da Câmara, Adies Kadir, declarou, de forma displicente, que precisariam alugar uma casa maior para acomodar suas empregadas domésticas e motoristas particulares. Teve ainda a ousadia de acrescentar que seu subsídio de alimentação era de apenas (!) 12 milhões de rúpias por mês, enquanto a maioria dos trabalhadores se consideraria muito sortuda se recebesse 4 milhões de rúpias em um mês inteiro.
Isso rapidamente gerou comoção nas redes sociais. “Com 12 milhões de rúpias você compra 40 sacos de arroz. Vá em frente e coma!”, escreveu um usuário. Outro acrescentou: “O auxílio-alimentação para funcionários públicos e aposentados é de apenas 72 mil rúpias por mês”.
Outra deputada, a artista e política Nafa Urbach, afirmou que precisava do auxílio-moradia para alugar uma casa próxima ao parlamento e, assim, evitar os engarrafamentos. A declaração provocou ainda mais reações negativas nas redes, como a de um usuário que comentou: “Pessoas de Bogor que trabalham em Jacarta precisam sair de casa antes do amanhecer, pegar um trem lotado, e não recebem auxílio-moradia, senhora”.
Cada palavra que sai da boca dos políticos só joga mais lenha na fogueira, evidenciando o quão desconectados estão das massas que deveriam representar.
Essa indignação pública, na verdade, vem se acumulando desde que Prabowo implementou um corte de quase 20% no orçamento do Estado no início deste ano. Realizados em nome da “eficiência governamental”, os cortes foram imediatamente repassados aos trabalhadores, que acabaram pagando a conta.
A primeira resposta a esse ataque à classe trabalhadora foi o movimento Indonésia Obscura, em fevereiro. Após reprimir esse movimento de massa, o regime se sentiu confiante, o que explica sua decisão arrogante de aumentar os próprios subsídios enquanto os pobres eram instruídos a “apertar o cinto”. Mas o orçamento de austeridade lançou dinamite nas fundações do governo.
Já prevíamos que o movimento Indonésia Obscura seria o prelúdio de uma revolta ainda maior e, meses depois, essa revolta irrompeu do lugar mais inesperado.

Em 13 de agosto, um protesto massivo explodiu em Pati – uma pequena regência [unidade administrativa local – NdT] na costa norte de Java Central – em resposta à decisão do governo de aumentar o imposto predial em 250%. Com o orçamento de austeridade do governo central, o apoio financeiro às províncias foi drasticamente reduzido, forçando os governos provinciais e municipais a aumentar os impostos para cobrir as lacunas. Somente em Pati, foram cortados 50 bilhões de rúpias.
Uma semana antes da manifestação planejada, o regente de Pati, Sudewo, desafiou arrogantemente a população: “Vão em frente, protestem. Não mobilizem apenas 5 mil pessoas, tragam 50 mil. Não tenho medo. Não mudarei minha decisão”. No fim, cerca de 100 mil pessoas — de uma população de 1,3 milhão — marcharam até o Pati Regency Hall, onde a manifestação rapidamente se transformou em uma rebelião aberta.
Sudewo escondeu-se no salão regencial e só saiu após ser pressionado pelo chefe de polícia a se dirigir aos manifestantes, já que suas forças haviam perdido o controle da situação. Sob uma chuva de garrafas, vegetais, pedras e qualquer objeto ao alcance das massas, o regente foi forçado a pedir desculpas e revogar o aumento de impostos. Mas o povo já havia experimentado seu próprio poder e exigiu sua renúncia imediata.
Embora o movimento contra o aumento de impostos parecesse ter arrefecido após se espalhar por várias cidades, a decisão dos parlamentares de concederem a si mesmos um aumento foi a gota d’água. Imediatamente, desencadeou uma onda incontrolável de manifestações que agora atingiu proporções semi-insurrecionais.
Na segunda-feira, eclodiu uma manifestação espontânea, liderada pela juventude. O protesto não foi organizado pelas tradicionais associações estudantis universitárias (BEM), mas articulado principalmente pelas redes sociais. Houve também forte participação de estudantes secundaristas, que não demonstraram medo da polícia e estiveram na linha de frente dos enfrentamentos. Foram eles que deram ao movimento sua energia explosiva e militância.
Os jovens não exigiram apenas o cancelamento do auxílio-moradia, mas também a dissolução da Câmara dos Deputados. “Abaixo a Câmara dos Deputados!” foi seu principal slogan. Eles rapidamente associaram o estilo de vida luxuoso de seus representantes à própria existência dessa instituição corrupta. Entendem, com clareza, que se trata de um problema sistêmico: todo o sistema é corrupto. Podem não saber exatamente o que deveria substituí-lo, mas sabem que não o querem nem precisam dele.
A polícia partiu imediatamente para a ofensiva, acreditando que poderia intimidar os jovens e fazê-los recuar, como ocorrera em ocasiões anteriores. Mas desta vez foi diferente. Esses jovens não enxergam futuro para si mesmos nas condições atuais e, portanto, sentem, com razão, que não há outra saída senão a luta.
Informes recentes apontam que um milhão de graduados universitários e 1,6 milhão de formados em escolas profissionalizantes estão desempregados. Um vídeo viral, que mostra milhares de pessoas em fila para disputar apenas 50 vagas de emprego, ilustra o quão desesperadora se tornou a situação dos jovens. Houve até relatos de graduados universitários se candidatando a empregos como varredores de rua. Um deles declarou: “É melhor varrer a rua do que dormir nela”.
Além disso, os jovens contam com a plena simpatia da população. Quando a polícia começou a espancar e prender manifestantes, muitos moradores locais intervieram em sua defesa. Em um vídeo, por exemplo, ao ver a polícia entrar em um restaurante para prender um grupo de jovens que havia se refugiado ali, funcionários e clientes se colocaram entre os agentes e os manifestantes, na tentativa de protegê-los.
Em outro caso, moradores de um conjunto de apartamentos resgataram um jovem manifestante que estava cercado por policiais. As tentativas do governo e de sua mídia subserviente de retratar os protestos como obra de “anarquistas violentos” já não surtem efeito. As grandes massas percebem que esses jovens lutam por uma causa que também é a sua.

A morte de Affan Kurniawan, um entregador de 21 anos (motorista de aplicativo), marcou uma nova escalada. Vídeos da brutalidade policial contra os manifestantes, registrados nos últimos dias, foram amplamente compartilhados nas redes sociais, gerando indignação e repulsa. Já havia a sensação generalizada de que, diante desse nível de violência, seria apenas uma questão de tempo até que alguém perdesse a vida.
Isso ocorreu na noite de quinta-feira, durante um dos confrontos de rua, quando a polícia lançou um veículo blindado contra os manifestantes, matando um deles. O episódio intensificou todo o movimento. A fúria pública aumentou tanto nas ruas quanto online, quando o vídeo desse assassinato brutal viralizou.
Imediatamente depois, milhares de motoristas de aplicativo cercaram a delegacia exigindo justiça. Outros milhares se juntaram a eles pela manhã, e tumultos eclodiram quando os manifestantes tentaram ocupar o prédio. Antes disso, motoristas de aplicativo — muitos deles jovens sem condições de encontrar emprego formal — já haviam sido vistos participando das manifestações. Hoje, mobilizam-se às dezenas de milhares por toda a Indonésia.
No momento em que este texto foi escrito, uma onda implacável de protestos varria o país. Estudantes, motoristas de aplicativo e trabalhadores se reúnem em número cada vez maior diante de delegacias de polícia e prédios do parlamento. O governo tentou acalmar a situação oferecendo condolências e prometendo processar os responsáveis pela morte do entregador. Mas, enquanto afaga com uma mão, com a outra brande violentamente o bastão contra o povo. Não devemos nos deixar enganar por essa tática e precisamos permanecer vigilantes.
A situação se desenvolve rapidamente. A crise do capitalismo e todas as suas consequências se expressam agora de forma aguda na Indonésia. Essa onda de manifestações deve ser seguida por um chamado a uma greve geral. No entanto, o movimento não pode contar com os atuais líderes sindicais para convocá-la, pois estes já se mostraram lacaios fiéis da classe dominante.
Enquanto jovens são espancados nas ruas, esses dirigentes sindicais reformistas pedem a seus membros que não se deixem “provocar” por elementos “anarquistas” irresponsáveis. Na quinta-feira, organizaram deliberadamente sua manifestação pela manhã e instruíram seus filiados a voltarem para casa mais cedo, de modo a evitar contato com a juventude, temendo que sua militância fosse contagiosa. O movimento precisa estabelecer seus próprios comitês de ação nos bairros e escolas, para coordenar melhor as mobilizações, formar unidades de autodefesa contra a brutalidade policial e transformar a luta em uma greve geral. Esta é a única maneira de desferir um golpe fatal no governo.
TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional