De 7 a 10 de outubro aconteceu, em São Paulo, o 13º Concut, e a primeira estranheza é que, apesar do momento político em que vivemos, a maior parte dos trabalhadores mal sabia do evento. A maior Central de trabalhadores da América Latina reuniu apenas 1705 delegados de todo o país num evento que passou praticamente desapercebido para aqueles que são a única razão da existência da Central.
É compreensível que nem a ampla maioria dos trabalhadores e nem mesmo a burguesia dê importância ao Congresso, já que diante do cenário convulsivo, da necessidade de armar a classe, o tema do Congresso era “Lula Livre” – Sindicatos Fortes, Direitos, Soberania e Democracia; um palco eleitoral que, além de não propor nada no sentido de organizar a classe e derrubar o governo, insiste em convencer os trabalhadores de que é preciso salvar as instituições burguesas e aguardar as eleições. Portanto, tenta incutir um cenário de derrota à classe, de anular a força dos trabalhadores como a única capaz de derrotar Bolsonaro, construir a revolução socialista e de abrir uma perspectiva para a humanidade.
Um exemplo da desconexão do Congresso com a luta real dos trabalhadores expressou-se no fato de que a categoria mais representada, 556 delegados, era a de professores e nem mesmo a palavra de ordem barrar o Future-se estava contemplada na plataforma que embasava o congresso. A expressão mais acabada do 13º Concut está expressa na fala do novo presidente da CUT, Sérgio Nobre: “Na semana passada fui visitar o presidente Lula e ele me pediu muito para organizar os locais de trabalho, conversar nos bairros com a população. Essa é uma tarefa que temos, de dialogar e trazer o povo de volta para o nosso campo e, quem sabe, a gente mudar a realidade deste país em 2022”. Um assombroso exemplo de que a direção da CUT vai no sentido contrário da necessidade da classe.
Para a Esquerda Marxista, não foi uma surpresa o que aconteceu no Congresso, pelo contrário, este quadro foi desenhado desde 2018, quando a direção da central recuou em chamar um congresso extraordinário e foi obrigada inclusive a prorrogar mandatos numa plenária extraordinária da direção nacional. Também ficou evidente os objetivos do Congresso com a orientação de que os CECUTs se realizassem depois do Congresso da CUT, invertendo a lógica histórica da organização dos trabalhadores. Não bastasse tudo isso, somam-se os relatos de que as assembleias de tiragem de delegados foram em sua maioria “coisa pra inglês ver”, ou seja, desmobilizadas, despolitizadas, manobradas, acordadas. Nos textos “13º Congresso da CUT e a adaptação da direção aos patrões e ao Estado”; “Eleitoralismo e conciliação de classes marcam dois primeiros dias do Congresso da CUT”; “Congresso da CUT desarma trabalhadores e aprofunda integração ao aparelho de Estado” aprofundamos estas análises.
Para os marxistas é preciso, para além de denunciar a adaptação e traição das direções, explicar as nossas tarefas diante do cenário. Em “Comunismo e Sindicalismo” Trotsky ensina que a questão sindical é fundamental para os revolucionários e propõe vários tópicos que devem ser colocados em discussão, resgata o papel histórico dos operários, suas organizações e nossas tarefas. Em um dos tópicos, há uma lição que nos ajuda a compreender o que acontece no interior da CUT com as diversas organizações e qual é nosso papel, o texto é de 1929, Trotsky orienta a Oposição de Esquerda, mas seus ensinamentos sem dúvida são para os dias de hoje, antes de escrever o novo, certamente é preciso resgatar o já escrito: “…Novas polêmicas? Novos rompimentos? Assim se levantarão as almas boas, mas cansadas, que queriam transformar a Oposição em um tranquilo retiro onde alguém possa descansar, em paz, das grandes tarefas, preservando intacto o nome de “revolucionário de esquerda”. Não! dizemos a esses espíritos cansados; não seguimos o mesmo rumo.
A verdade nunca foi a soma de pequenos erros. Uma organização revolucionária não pode nunca se compor de pequenos grupos conservadores, que o que primeiro procuram é diferenciar-se uns dos outros. Há épocas em que a tendência revolucionária se vê reduzida a uma pequena minoria dentro do movimento operário. Mas o que essas épocas exigem não é fazer acordos entre pequenos grupos, mutuamente tapando-se os pecados, mas ao contrário, uma luta duplamente impecável por uma perspectiva e uma educação dos quadros no espírito do autêntico marxismo. Somente assim é possível a vitória”.
Os trabalhadores brasileiros ainda estão observando o movimento, cultivam diariamente um ódio de classe diante da retirada diária de seus direitos, não entraram em cena de forma contundente porque não confiam nas direções, o que é uma análise perfeita da situação do movimento sindical brasileiro. Diferente de culpá-los, ou construir uma falsa derrota, nossa tarefa é explicar a situação e ganhar a vanguarda para luta revolucionária. Uma tarefa que não pode ser postergada e cabe a cada um de nós, está na ordem do dia.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista)