“A queda do capitalismo promete ser ainda mais tempestuosa, dramática e sangrenta do que seu advento. (…) Se a sua agonia está se prolongando demais, a culpa — diga-se a verdade — cabe aos partidos do proletariado.” (Leon Trotsky, O Único Caminho)
Dois importantes eventos marcaram o fim da última semana em Minnesota. No dia 23, a greve geral chamada pelos principais sindicatos e organizações do estado levou milhares de pessoas às ruas, mesmo diante do frio de -20 °C. Os organizadores falam de mais de 50 mil participantes, se somarmos os habitantes de Minneapolis (epicentro das manifestações) com a vizinha Saint Paul, são 800 mil. Diferentes setores participaram dos atos que exigiram a saída do ICE da região. Mais de 700 pequenas empresas e estabelecimentos comerciais fecharam as portas em solidariedade. Essa é a maior greve geral do estado em quase um século. Não estamos falando de um ato qualquer.
No sábado, 24, uma nova investida do ICE em Minneapolis resultou em mais um assassinato. A vítima, Alex Jeffrey Pretti, foi rendida por mais de cinco agentes e alvejada. A pena capital foi decidida e aplicada a Pretti em segundos pelos agentes da imigração. A notícia se espalhou rapidamente e, em poucas horas, as ruas da cidade se tornaram palco de novas demonstrações.
Para tentar apaziguar a situação, Trump anunciou, em sua rede social, que enviaria Tom Homan, conhecido como o “czar da fronteira”, para Minnesota na segunda (26), por sua abordagem mais “tranquila”, se comparada à da atual chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS).
O governo Trump é a expressão de uma fração da burguesia que busca governar sem máscaras, que declara guerra abertamente à classe trabalhadora. Mas sua forma brutal de agir contra os imigrantes faz com que uma parcela dos próprios norte-americanos se coloque juntos nas ruas contra as forças de repressão e possibilita um cenário de explosão social para além de Minneapolis e região. Se não vimos os EUA convulsionando ainda, grande parte disso se deve às temperaturas extremamente baixas que paralisam uma parte do país.
Os democratas, compreendendo o risco da política adotada por Trump, utilizam-se de uma retórica radical contra o presidente, mas, no fundo, apenas discordam sobre a forma de explorar e reprimir a classe trabalhadora. Barack Obama, que até agora permanecia calado, declarou, hipocritamente, que essa é uma “tragédia de partir o coração” e que a polícia migratória deve agir, mas de forma responsável. Diante dos protestos que eclodiram após o assassinato de Pretti, o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, rapidamente chamou a Guarda Nacional para conter os manifestantes.
Aqueles que veem o conceito de bonapartismo como algo muito elástico, que negam que “todo o impulso de Trump é para aprofundar os traços do caráter bonapartista do regime norte-americano, ignorando mesmo as leis norte-americanas, perseguindo imigrantes”1 etc., devem estar penando um pouco para explicar o que realmente se passa nessa democracia “normal”, comandada por um presidente eleito em um processo “democrático, livre e justo”.

A guerra de Trump contra a classe trabalhadora começa a ganhar contornos dramáticos. O presidente da principal potência imperialista do planeta pode até sequestrar o presidente da Venezuela e conseguir a total submissão da burocracia que governa o país invadido; pode ameaçar invadir o Irã em “nome da democracia” ou demonstrar toda a inutilidade da Otan ao pressionar para que a Groenlândia seja dos EUA, mas todas essas demonstrações de força fora do país também servem para, além dos objetivos econômicos já declarados, tentar esconder a fraqueza interna diante da possibilidade de um levante de todos aqueles que hoje conformam a classe dos explorados.
É por isso que, mesmo diante de uma série de dificuldades, como a ausência de uma direção, os problemas gerados pelo frio extremo e a brutalidade das forças de repressão, o governo Trump foi obrigado a fazer recuos, ainda que bastante limitados, como no caso do afastamento de Gregory Bovino da coordenação do ICE e das operações na região. Esses são os sinais daquilo que afirmamos ao longo do último período: Trump está disposto a esmagar a classe operária, mas, entre intenção e realidade, há uma distância considerável, e o que os trabalhadores norte-americanos demonstraram, mais uma vez, é que não estão derrotados.
Lições da história: as grandes greves de Minneapolis dos anos 30
Apesar de a imprensa se limitar a comparar numericamente a greve do dia 23 com os movimentos ocorridos há quase um século, a importância das grandes greves de Minneapolis e região vai além da quantidade de pessoas nas ruas. Trata-se de um período crucial da história do movimento operário norte-americano, repleto de lições para os dias de hoje. Em A História do Trotskismo Norte-americano, o militante trotskista James P. Cannon conta:
“O ano de 1933, o quarto ano da grande crise norte-americana, marcou o começo do maior despertar dos operários norte-americanos e de seu movimento de organização sindical em uma escala nunca antes vista na história dos EUA. Este foi o pano de fundo de todos os acontecimentos nos vários partidos políticos, grupos e tendências. Este ascenso do movimento operário norte-americano tomou a forma de um tremendo esforço para romper com sua atomização e para passar a confrontar os patrões com a força do sindicalismo organizado.”2
Cannon relata que as greves ocorreram em ondas, começando com paralisações menores em 1933, seguidas das grandes mobilizações de 1934, ano marcado pela greve geral dos Teamsters (Caminhoneiros), e escalando ainda mais com as poderosas greves de 1936–37.
A onda de 1934, representada principalmente pelas greves de Minneapolis, carrega uma importância fundamental, por demonstrar, pela primeira vez, a participação efetiva de um grupo marxista revolucionário, trotskista, na organização real do movimento e em sua direção. Esse movimento foi antecedido pela greve da usina elétrica de Auto-Lite, em Toledo, Ohio, que contou com uma direção capaz de elevar os piquetes a um nível de massas e de espírito militante, segundo Cannon, muito além dos limites aceitos até aquele momento pelos velhos dirigentes sindicais.

Acusados pelo Partido Comunista stalinista de “sectários-divisionistas” e isolados do movimento operário, os trotskistas viram nessas mobilizações uma possibilidade de mostrar, na prática, do que eram realmente capazes de participar das lutas de massas dos trabalhadores:
“Nossos camaradas de Minneapolis começaram seu trabalho primeiro nas minas de carvão, e mais tarde estenderam sua campanha de organização geral entre os caminhoneiros e auxiliares. (…) Tínhamos em Minneapolis um grupo de velhos e provados comunistas que, ao mesmo tempo, eram sindicalistas experientes. Eram homens bem conhecidos, ligados à comunidade. Quando surgiu a oportunidade de organizar as minas, eles aproveitaram a chance e demonstraram rapidamente sua capacidade na vitoriosa greve de três dias. Assim, a extensão desse trabalho de organização sindical para a indústria dos transportes se deu naturalmente.”3
Até aquele momento, quase todas as greves eram contidas pelos próprios dirigentes e dificilmente eram realizadas de forma organizada. A direção trotskista modificou essa lógica radicalmente. A Sede 574, dos Teamsters, operava com a precisão de uma organização militar; hospitais de emergência foram criados, com médicos destacados para trabalhar caso um grevista fosse ferido e, assim, protegido de ser levado para algum hospital da região e acabasse preso; piquetes móveis em larga escala eram formados para barrar os fura-greves, e assim por diante.
A primeira greve dos Teamsters, de maio, durou seis dias e chegou rapidamente a um acordo. Os stalinistas, que de repente tornaram-se bastante “radicais”, buscaram inutilmente desacreditar a direção da greve, mas o resultado foi uma vitória parcial econômica e o reconhecimento do sindicato pela base. Esse reconhecimento possibilitou a participação ativa dos trotskistas na segunda greve, iniciada em julho de 1934 e que duraria cinco semanas. No dia 20 de julho, forças da repressão mataram dois trabalhadores e feriram dezenas no episódio que ficou conhecido como a “Sexta-feira Sangrenta”.
Cannon lista uma série de contribuições do trotskismo para esse movimento, desde a organização e preparação até o último detalhe, no enfrentamento aos chamados mediadores do governo — que cumpriam o papel de fingir ser “amigos dos trabalhadores”, mas que, na prática, se utilizavam da inocência e da inexperiência dos trabalhadores para enganá-los e favorecer a patronal — e, uma das mais importantes contribuições, na organização de um jornal diário da greve, o Organizador Diário (Daily Organizer), barrando, assim, a influência da imprensa burguesa, que costumava confundir o movimento operário.
Por fim, a atuação dos trotskistas, ao unir os grupos que atuaram em Minneapolis com os de Toledo, culminou na fundação de um partido revolucionário, o Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP), em 1938, que viria a ser a seção norte-americana da Quarta Internacional. Foram saltos fundamentais na organização consciente da classe trabalhadora dos EUA.
Aprendizado
Nos dias que seguiram ao assassinato de Jeffrey Pretti, os agentes do ICE, insuflados por seus superiores, repetiram a provocação que se popularizou após o assassinato de Renee Good: “Vocês não aprenderam nada nos últimos dias?” Ao que tudo indica, os trabalhadores de fato estão aprendendo, e muito, mas não a ter medo dos mercenários de Trump. O próximo passo passa necessariamente pela retomada dos métodos e ações históricos do movimento operário.
As grandes greves do passado empurraram dirigentes sindicais burocratas, fazendo com que fossem mais longe do que gostariam, mas também forjaram novas direções, mais capazes e conscientes de seu papel. As greves de um dia podem até servir como uma demonstração de força, mas para barrar os ataques da burguesia é insuficiente.
A greve do dia 23 é importante porque não se limita a uma greve puramente econômica, mas sim política, questionando o aparato repressivo trumpista. O principal elemento que pesa contra a classe trabalhadora norte-americana é a ausência do fator subjetivo, de um partido que seja capaz de canalizar essa raiva latente e aponte a saída real para a situação, que dará fim não só ao ICE, mas ao governo Trump e ao seu regime. Mas, a cada dia, os trabalhadores retomam seus métodos e podem, sim, nesse processo, construir o partido que tanto lhes é necessário.
Referências
- Informe do Comitê Central preparatório ao 9º Congresso Nacional da OCI. Disponível em: https://marxismo.org.br/informe-do-comite-central-preparatorio-ao-9o-congresso-nacional-da-oci/ ↩︎
- Cannon, James P. A História do Trotskismo Norte-americano. São Paulo: Sundermann, 2015. p. 143.
↩︎ - Idem, p. 145 ↩︎
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional