O que as mulheres devem a Lênin

Dois anos se passaram desde que milhões de pessoas, através do mundo, souberam, abaladas, esta notícia: Um grande homem desapareceu: Lênin está morto! Dois anos se passaram desde que milhões de pessoas, em todo o mundo, profundamente comovidas, lamentaram: “Perdemos nosso melhor guia, o mais clarividente e o mais audacioso. Lênin está morto!”

Mas Lênin está realmente morto? Os homens e as mulheres da classe operária, do pequeno campesinato, os oprimidos e explorados do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, devem realmente procurar seu caminho para a libertação do jugo da propriedade sem sua direção firme e sábia?

Não, e mil vezes não! Lênin, que nos deixou, está mais vivo do que nunca. Ele está vivo para nós, que combatemos ao seu lado, mas também para as massas trabalhadoras e oprimidas que aspiram a quebrar as correntes de sua miséria e de sua escravidão. Um espírito genial como o seu não pode cessar de brilhar; um coração ardente como o seu não pode gelar; uma vontade poderosa como a sua não pode perder sua força motriz, mesmo quando a morte física interrompe a vida. O espírito, o coração e a vontade de Lênin vivem imortalmente na preciosa herança que ele nos legou: seus escritos e seus discursos, assim como nas três grandes criações históricas cujo surgimento e desenvolvimento foram antes de tudo sua obra: o Partido Comunista da Rússia, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a Internacional Comunista.

Lênin permanece nosso guia e nosso querido mestre para todos nós. Sim, desde sua morte ele se tornou ainda mais do que antes. Em todos os países, massas trabalhadoras mais vastas do que nunca se debruçaram sobre suas ideias e sua obra para delas extrair ensinamentos. O fato de ter perdido esse mestre, de ter de lutar aqui contra a burguesia pelo poder ou, ali, construir o novo mundo comunista sem ele, reforçou seu senso de responsabilidade. A isso se somam as tarefas imensas que a época lhes impõe.

Como demonstra o pacto mentiroso e belicista de Locarno, a burguesia mundial continua avançando por toda parte para consolidar seu domínio vacilante através da exploração impiedosa e da submissão dos trabalhadores. Ela ousa até mesmo preparar novos ataques contra a União das Repúblicas Operárias e Camponesas, o único Estado em que o poder político foi arrancado das mãos dos capitalistas. Nas palavras e nos atos de Lênin, as massas de todos os países que se voltam para o comunismo procuram respostas e orientações diante das questões que surgem. Aquilo que ele começou, nós continuaremos em seu espírito, para vencer como ele venceu.

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Na verdade, as mulheres trabalhadoras têm uma razão ainda mais imperiosa do que todas as outras camadas de oprimidos e explorados que desejam romper as correntes sangrentas do capitalismo, mais do que todos aqueles cuja vontade e ação visam transformar a economia, as instituições sociais e as relações humanas segundo o comunismo. Enquanto o capitalismo subsistir, fazendo dos ricos milionários, dos pobres mendigos e dos fracos escravos, as mulheres trabalhadoras carregarão um duplo jugo; seu destino será o de serem privadas de direitos, esmagadas e exploradas de dois lados. O homem será seu senhor em casa; o capitalista, na fábrica ou nos campos…

Portanto, a realização do comunismo é impossível sem a participação consciente e resoluta de milhões de mulheres trabalhadoras na transformação da sociedade. A combatente contra o capitalismo, assim como a colaboradora na edificação de uma sociedade nova e superior, deve encontrar em Lênin uma compreensão clara das coisas, a fim de dar à revolução proletária o máximo de suas forças.

Mesmo que Lênin não tivesse escrito uma única linha sobre a “questão feminina”, nem pronunciado uma única palavra sobre esse assunto, ele continuaria sendo, para as mulheres trabalhadoras de todos os países onde o capital ainda explora o trabalho, assim como para as proletárias e camponesas da União Soviética, o guia eminente rumo à sua libertação. Pois ele fez mais do que qualquer outro em nossa época para acelerar a grande redenção do gênero feminino — a revolução proletária — e para insuflar uma força vitoriosa em suas primeiras manifestações vitais. Lênin esclareceu e desenvolveu as teorias essenciais que os geniais fundadores do socialismo científico, Karl Marx e Friedrich Engels, transmitiram aos trabalhadores para derrubar o capitalismo e edificar o comunismo. Com uma clareza e uma determinação sem falhas, ele demonstrou ao proletariado aquilo que Marx já havia sublinhado com força em sua penetrante análise da Comuna de Paris: para realizar o comunismo, não basta simplesmente tomar o poder do Estado. Este Estado existente é um instrumento de submissão e exploração dos trabalhadores pela burguesia; ele é incapaz de pôr fim à exploração e à opressão da grande maioria por uma minoria. O proletariado deve forjar seu próprio Estado como instrumento de sua libertação pelo comunismo. Sua tarefa é criar uma nova ordem estatal, um aparelho de poder proletário.

Lênin despiu o parlamentarismo burguês — mesmo em sua forma republicana mais avançada — de todas as ilusões enganosas. Ele revelou às massas trabalhadoras aquilo que ele realmente é: uma dominação de classe da burguesia sobre os trabalhadores, uma arena política onde as diferentes camadas de ricos e exploradores acertam suas querelas familiares para decidir quem extorquirá as maiores riquezas das massas dominadas. Ao examinar a sociedade burguesa e seu Estado à luz dessa verdade, Lênin arrancou da democracia burguesa todos os seus adornos mentirosos e cintilantes. Ela finge expressar a vontade e o direito popular, quando na realidade serve aos privilégios e ao poder dos ricos e poderosos. Por meio dessa ilusão enganosa, ela envenena e paralisa a vontade revolucionária das massas trabalhadoras.

Mas Lênin fez mais pela libertação dos trabalhadores do que rasgar impiedosamente as velhas crenças ilusórias na democracia burguesa. Ele forjou a convicção clara de que o regime dos sovietes — que surgiu em germe em 1871 na Comuna de Paris e em 1905 na revolução russa — é a única forma de Estado na qual a ditadura do proletariado pode se encarnar como o meio indispensável para destruir para sempre o poder dos grandes proprietários de terra, dos industriais, dos comerciantes, dos banqueiros e de todos os outros capitalistas. Somente sob o regime dos sovietes, através da ditadura proletária, é possível arrancar desses senhores predadores os grandes meios de produzir aquilo que alimenta a vida, responde às suas necessidades e desenvolve a cultura: a terra, as fábricas e as grandes empresas. Somente quando esses meios se tornam propriedade comum dos trabalhadores, aqueles que os tornam fecundos com sua força física e intelectual, é que deixam de enriquecer e fortalecer uma minoria, para garantir o bem-estar, a liberdade e a educação de todos.

Lênin não sussurrou os princípios fundamentais do socialismo científico nos salões dos ricos. Ele os levou às fábricas, às oficinas e às cabanas dos mujiks. E isso numa época em que o czarismo reservava prisão, a Sibéria e a forca para aqueles que diziam aos operários e camponeses que eles poderiam libertar-se esmagando o seu despotismo e o do capitalismo…

Ele abriu os olhos do proletariado para o fato de que precisavam dos camponeses como aliados. Convenceu os mujiks de que somente ao lado de seus irmãos da indústria poderiam livrar-se dos grandes proprietários de terra sanguessugas e dos usurários que pesavam sobre seus ombros. Chamou proletários e camponeses a reunirem-se, a organizarem-se, a armarem-se por toda parte e a estarem prontos para o combate. Ele uniu pela vontade revolucionária de luta os explorados e os oprimidos de todos os povos, nações e raças submetidos pelo czarismo. Ao longo de anos de esforços obstinados e apaixonados, forjou o glorioso Partido Bolchevique, esse partido revolucionário que se tornou seu igual. Seu espírito e sua organização permitiram transmitir às massas proletárias e camponesas os ensinamentos de Lênin sobre as condições necessárias para derrubar o capitalismo e edificar o comunismo, assumindo sua direção rumo à luta e à vitória.

Quando Lênin, após examinar profundamente as condições existentes, adquiriu a convicção de que a hora decisiva havia soado — a hora em que a hesitação deveria dar lugar à audácia —, e quando lançou o apelo à insurreição, as massas, o Partido e ele próprio, seu maior dirigente, já não formavam senão um todo indivisível, capaz e determinado a triunfar. Num combate revolucionário heroico, o proletariado russo, apoiado pelo campesinato pobre, conquistou pela primeira vez no mundo o poder de Estado, instaurou a ordem soviética e sua ditadura. Ao preço de imensos sacrifícios, numa luta encarniçada contra a contrarrevolução interna e estrangeira, contra a fome, o frio e as privações de toda espécie, ele defendeu, afirmou e consolidou as conquistas da Revolução de Outubro. Com um heroísmo não menor, trabalha hoje na construção e na edificação de formas econômicas e sociais superiores.

Essa obra histórica colossal é impensável sem Lênin. Aquilo que lhe era mais próprio vive nela, age nela, transformou-se em consciência do Partido e das massas; em vontade do Partido e das massas; em vida do Partido e das massas e em ação dominante. A União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas é o monumento gigantesco que, além de fronteiras, montanhas e mares, contará através dos séculos a natureza e a ação de Lênin. Ela é o primeiro Estado da ditadura proletária, anunciador do advento e da força da revolução mundial. Para a burguesia mundial, ela é um terror, o anúncio do fim inevitável de sua dominação de classe, humilhante para a humanidade e mortal para as massas.

E o que acontece com as mulheres trabalhadoras? Milhões de proletárias e camponesas da União Soviética o proclamam com alegria e orgulho. Elas já não tremem diante do capitalista que prolongava suas horas de trabalho até o coração da noite, reduzia seus salários a migalhas e as espoliavam nas lojas e nos mercados; diante do grande proprietário de terras, do kulak ou do usurário da aldeia que se apropriava dos frutos de seu trabalho árduo em casa, no jardim ou nos campos. Elas já não temem mais a dominação e os privilégios do homem no lar e na vida pública, nem sua marginalização, sua relegação e sua espoliação como mulheres e mães pelas leis.

O regime dos sovietes das repúblicas operárias e camponesas permite ao campesinato trabalhador colher aquilo que semeou, pois a terra é agora propriedade coletiva. Ele dá aos proletários o poder, por meio de seus representantes e delegados, de moldar as condições de trabalho na indústria, pois as grandes empresas, o comércio exterior, os bancos, as ferrovias e a navegação marítima estão nas mãos do Estado, e as leis e regulamentos deste se aplicam às relações de trabalho nas concessões e arrendamentos capitalistas. E esse Estado é o dos operários e dos camponeses. As trabalhadoras e os trabalhadores, mulheres e homens, elaboram suas leis nos sovietes, aplicam-nas, administram e moldam as instituições sociais e a vida coletiva. A legislação soviética reconhece que mulheres e homens possuem uma humanidade de valor igual e que, consequentemente, em todos os domínios da sociedade, devem gozar dos mesmos direitos plenos para desenvolver e exercer livremente suas forças.

Nas fortalezas da dominação capitalista, a guerra imperialista, seus horrores e as privações que a acompanharam e se seguiram, esmagaram não apenas a felicidade pessoal, mas também a esperança de milhões de trabalhadoras: a de serem libertadas pelo socialismo de sua ausência de direitos, de sua opressão e de sua exploração. Esses acontecimentos terríveis marcaram — e ainda marcam — o triunfo do capitalismo sobre a Segunda Internacional, na qual as massas haviam acreditado com fé para realizar o socialismo. Desde o desencadeamento da guerra, ela traiu sem combate nem honra, alinhando-se à burguesia. Desde o fim dos massacres, ela prossegue sua obra ignóbil: servir ao capitalismo, macular e trair o socialismo. Para demasiadas trabalhadoras, isso foi o fim do próprio socialismo. Com a confiança nos dirigentes manchados de sangue e de lama, desmoronou também sua fé na capacidade do proletariado de libertar-se, pela revolução, do abraço mortal do capitalismo.

O feito imortal do proletariado russo trouxe a brilhante prova histórica de que o socialismo não é uma ilusão, de que a vontade revolucionária do proletariado possui a força de conduzi-lo à vitória. Sustentado pelo campesinato pobre, dirigido pelo partido bolchevique com Lênin à sua frente, o proletariado russo conquistou o poder político, destruiu o Estado atrasado do despotismo czarista e criou o Estado mais avançado do mundo: o Estado soviético, o Estado dos trabalhadores. Ele orientou a força desse Estado, o poder da ditadura proletária, para a construção da sociedade comunista. Todos os esforços, os combates, os sofrimentos e as ações são consagrados a esse objetivo. Sem se deixar desencorajar pelos sacrifícios mais duros nem pelos obstáculos aparentemente intransponíveis, sem ser vencido por inimigos poderosos e bem armados, o povo trabalhador do país dos sovietes — mulheres e homens — trabalha nessa imensa tarefa.

Esse acontecimento formidável que abalou o mundo devolveu às mulheres desesperadas e oprimidas a fé no socialismo, a confiança na força regeneradora do proletariado. A esperança de libertação despertou novamente em seus corações e transformou-se em vontade revolucionária de combate.

Um outro acontecimento da mais alta importância ocorreu. Nos países do Oriente, onde o capitalismo irrompeu como uma fera insaciável, a revolução russa despertou os seres mais subjugados e esmagados da terra: as mulheres. Reencontrando sua humanidade, reivindicando seus direitos humanos, elas sacodem as correntes de uma servidão multissecular. Assim, em todos os países não soviéticos, milhões de mulheres trabalhadoras ouviram, nas tempestades e nas chamas da revolução proletária da Rússia, a voz de Lênin; a ele devem a esperança reanimada e a coragem fortalecida; a clareza sobre o caminho e os meios de luta para derrubar o capitalismo; a compreensão das condições da revolução, cujo pé de bronze esmaga a antiga ordem opressiva e cuja mão criadora molda o futuro libertador; a perseverança e a audácia na preparação da luta para quebrar a dominação de classe da burguesia.

A libertação dos trabalhadores pelo comunismo, que traz às mulheres a plenitude de sua humanidade, não pode realizar-se dentro das fronteiras de um único país; ela não pode sequer ser integralmente realizada ali para um único povo. Ela deve ser um acontecimento internacional: extirpar por toda parte o capitalismo, aniquilar para sempre todas as formas e manifestações da submissão e da opressão do homem pelo homem sobre toda a Terra. A revolução proletária da Rússia é o começo da revolução mundial; ela é admirável, gigantesca, mas é apenas o seu início. Ninguém teve consciência mais clara e mais firme disso do que Vladimir Lenin, o discípulo clarividente e perspicaz de Karl Marx. Mal os operários russos haviam instaurado a ordem soviética, a ditadura do proletariado, seu pensamento e sua ação voltaram-se irrevogavelmente para a revolução mundial.

As imensas forças dos trabalhadores de todos os países deveriam ser unidas, concentradas numa potência formidável e irresistível, suficientemente forte para derrubar internacionalmente a dominação de classe da burguesia. A Segunda Internacional degenera e macula a solidariedade proletária ao colocá-la a serviço da proteção e da conservação do capitalismo. Era necessário opor-lhe uma Internacional proletária de combate revolucionário. Lenin tornou-se o criador da Internacional Comunista. Ele a ampliou, ultrapassando o quadro das duas primeiras Internacionais, transformando-a numa verdadeira organização mundial dos explorados e dos subjugados, integrando nela as raças e os povos do Oriente que se levantam. Com uma segurança de visão e um conhecimento dos caminhos, ele a conduziu adiante, com audácia e prudência ao mesmo tempo, rumo à revolução mundial.

“Os proletários não têm nada a perder senão suas correntes. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!”

Certamente, Lênin não escreveu um livro, nem um tratado completo sobre a “questão feminina”. Não era esse o seu modo de tratar os problemas sociais de maneira “geral” e abstrata. Mas quanto mais refletia com clareza e lógica, mais se expressava com firmeza e decisão sobre tudo aquilo que podia ter importância para a realização da revolução proletária. É por isso que se encontra também, como um fio vermelho através de toda a sua obra, a sua concepção da condição indigna e subjugada das mulheres na sociedade burguesa e da importância decisiva das mulheres para a realização do comunismo.

Na Rússia, a batalha pelo reconhecimento fundamental da igualdade entre os sexos já havia sido vencida quando ela apenas começava na Europa Ocidental. Primeiro na literatura de oposição de orientação social, a da “liberdade do coração”; depois através do niilismo filosófico, precursor dos movimentos sócio-revolucionários, como combate pela plena igualdade das mulheres em todos os domínios. Essa luta foi travada e vencida não como uma rivalidade entre os sexos pela educação, pela atividade profissional e pelos direitos políticos, como no Ocidente, mas como um confronto entre “pais e filhos”, entre duas gerações. Ela anunciava o surgimento de correntes liberais, democráticas e mesmo revolucionárias na antiga sociedade feudal russa, a formação da burguesia e do proletariado. Para todos os movimentos sócio-revolucionários e, depois, para os partidos socialistas, a igualdade entre os sexos era um princípio incontestável que guiava a prática. As mulheres desempenhavam neles um papel notável e dirigente. Nesse contexto, não existia na Rússia um feminismo burguês cujas ideias e slogans democráticos pudessem confundir e obscurecer a consciência de classe dos proletários. Somente nos anos que precederam a revolução apareceram tentativas de concepções e organizações feministas. Elas quase não encontraram terreno fértil e foram percebidas como sinal de que a burguesia e a intelligentsia russas deixavam de flertar com as ideias sócio-revolucionárias para se tornarem plenamente burguesas e liberais.

Lênin, portanto, não teve de conquistar o reconhecimento fundamental da igualdade entre os sexos, nem de separar claramente a aspiração das mulheres trabalhadoras à liberdade e à cultura das ilusões do feminismo burguês enganador. Tanto mais clara e urgente se colocava diante de seus olhos a tarefa de transformar essa igualdade teórica em realidade social para milhões de mulheres trabalhadoras graças à revolução proletária, e de elevar esses milhões de mulheres, elas próprias à condição de forças motrizes e portadoras da revolução. Não por meio de movimentos ou organizações específicas, mas como iguais no interior do partido de classe revolucionário do proletariado — o Partido Comunista — e nas ações de massa, no engajamento coletivo dos trabalhadores.

Encontram-se poucos desenvolvimentos longos de Lênin sobre essa questão, mas seus discursos e escritos estão repletos de observações dispersas nas quais ele exige com força os plenos direitos para as mulheres e valoriza, não menos intensamente, seu papel de combatentes revolucionárias. Por trás de suas palavras encontrava-se a ação. No partido que ele criou e dirigiu para a revolução na Rússia, e na Internacional Comunista, destinada a guiar o proletariado na revolução mundial, Lênin defendeu desde o início até o fim a plena igualdade de direitos e de valor das camaradas combatentes na linha de frente. Ele exigiu e encorajou estruturas organizacionais e medidas destinadas a despertar, reunir e equipar as massas femininas trabalhadoras para sua participação no combate revolucionário e na edificação socialista. O Estado do qual ele foi o criador e o guia inscreveu na lei a plena igualdade das mulheres em todos os domínios e suprimiu tudo aquilo que pudesse constrangê-las ou oprimi-las socialmente; remodelou as relações sociais para que essa igualdade se tornasse uma possibilidade concreta de desenvolvimento e de ação.

Como poderia ter sido de outra maneira? Lênin tornou-se o guia incomparável da revolução proletária porque seu grande coração ardente vibrava com todos os oprimidos, os subjugados e os sofredores; porque seu espírito penetrante, amadurecido por um estudo aprofundado, discernia nas massas trabalhadoras exploradas os combatentes revolucionários e os construtores da nova sociedade; porque sua vontade inabalável estava voltada para a aceleração da revolução, transformando um ponto de programa e uma profissão de fé verbal para um futuro distante em tarefa imediata, em ato vivo ao qual todo esforço e toda ação deveriam se subordinar. Era inconcebível que ele permanecesse frio e insensível diante do destino cruel reservado à metade da humanidade, que não compartilhasse a dor dos espinhos deste destino. Mas Lênin via, para além do sofrimento e da humilhação, a grande missão histórica e a liberdade, a própria força criadora dessas excluídas. Ele reconhecia nessas humildes portadoras da cruz da ordem burguesa as implacáveis combatentes revolucionárias contra essa ordem, as construtoras da sociedade comunista. Estava profundamente convencido de que, sem a participação das massas femininas trabalhadoras, nem a dominação de classe da burguesia poderia ser quebrada no combate revolucionário, nem a economia, as instituições sociais e os modos de vida poderiam ser remodelados de maneira comunista.

Sua aspiração e sua ação como dirigente da Revolução não se limitavam, portanto, de modo algum, a elevar a condição das mulheres e a melhorar sua situação. Elas visavam também despertar, educar e equipar as massas trabalhadoras femininas para que realizassem elas mesmas a obra de sua libertação. Lênin não era apenas o amigo e o apoio das mulheres trabalhadoras; era também seu educador e seu guia. Ele se dedicava a fazer brotar, nas massas femininas — em cada proletária e camponesa — as fontes vivas do sentimento e do pensamento revolucionários, para transformá-las em força de ação revolucionária; a estimular e desenvolver uma iniciativa que se integrasse à atividade organizada da comunidade revolucionária — o Partido e a classe que darão vida e forma ao comunismo. É significativo que, nos anos 1890, a primeira brochura em língua russa destinada a despertar, reunir e instruir as operárias tenha sido escrita pela camarada Krupskaya, companheira de vida e de luta de Vladimir Lenin, sua igual no pensamento e intimamente ligada ao seu universo intelectual.

Lênin perseguia a verdadeira e total libertação social e humana de todo o sexo feminino. Para cada mulher, ele reivindicava um direito legal intacto e condições sociais igualmente favoráveis à instrução e à ação. É célebre sua máxima nesse sentido: “Toda cozinheira deve aprender a dirigir o Estado.” Essa frase contém muito mais do que a exigência de uma plena igualdade social e de equivalência de direitos para cada mulher, qualquer que seja seu campo de atividade. Ela inclui a condição social que permite que essa igualdade não permaneça letra morta: a Revolução proletária. Esta transforma o aparelho estatal burguês — complexo instrumento de subjugação e exploração da maioria por uma minoria — em uma máquina administrativa simplificada de gestão dos bens. Suas tarefas são simples e compreensíveis para todos, pois estão estreitamente ligadas às condições de vida e de trabalho de cada um. Todos podem aprender a ocupar uma função em seu mecanismo, tanto mais que o saber e a instrução já não são mais um privilégio dos ricos, mas um bem comum de todos.

Somente a Revolução proletária limpa o terreno de todos os arbustos e pedras que, na ordem burguesa, impedem o florescimento livre das mulheres rumo a uma humanidade plena e harmoniosa. A simples igualdade legal ainda não liberta a mulher trabalhadora. Embora sua importância fundamental não deva ser subestimada, seu valor permanece limitado e insuficiente. Em última análise, ela não passa de democracia burguesa, uma concha vazia dourada, com a qual jogam os interesses da classe burguesa. Nenhum Estado burguês sequer ousa aplicar plenamente o direito formal da democracia burguesa em favor das mulheres. No direito familiar, nas disposições legais sobre o divórcio e sobre o estatuto da chamada mãe ilegítima e de seu filho, as mulheres nem mesmo se beneficiam da igualdade formal da democracia burguesa. Por quê? Porque o privilégio mantido do homem é o véu atrás do qual se esconde o santuário da sociedade burguesa: a propriedade privada. O direito burguês, à luz dos fatos, não é um direito humano, mas um poder cristalizado da propriedade e uma proteção desta.

Com uma determinação poderosa, Lênin coloca essa constatação no centro de suas exposições sobre a condição das mulheres trabalhadoras: “Quereis ser inteiramente livres, quebrar todas as correntes que oprimem vosso corpo e acorrentam vosso espírito? Então lutai pela abolição da propriedade privada dos meios de produção por meio da Revolução proletária!” Tal é a incitação que Lênin grava incansavelmente no espírito das mulheres, a golpes de martelo, por meio de suas demonstrações claras e convincentes. Com a mesma insistência, ele lhes indica outra condição de sua libertação, que só pode ser plenamente realizada em ligação com a transformação dos meios de produção em propriedade social: a abolição da economia doméstica familiar, a integração de suas funções na grande comunidade econômica e a incorporação das mulheres a ela. Lênin sentia profundamente o destino da mulher, da mãe e da criança, que a ordem burguesa, “em virtude do direito” – isto é, do poder da propriedade — precipita na miséria e no desprezo. Ele se compadece igualmente da esposa sufocada pelas tarefas domésticas, cujas capacidades se atrofiam e se murcham na rotina atrasada e exaustiva do trabalho em torno da panela “individual” e do balde de lavar, desperdiçando tempo, energia e recursos. Ele é o fervoroso defensor de todas as instituições e medidas suscetíveis de aliviar a escravidão doméstica das mulheres e de um dia aboli-la totalmente.

A transformação da sociedade, do mundo, em comunismo, é a tarefa mais colossal jamais confiada a uma classe na história. Ela implica uma ciência aplicada, uma revolução, uma renovação em todos os domínios: economia, relações sociais, relações humanas, posição do homem diante da natureza. Essa tarefa titânica só pode ser realizada por uma ação consciente e planejada das massas. Fiel a essa concepção, Vladimir Lenin valorizava o engajamento das amplas massas femininas trabalhadoras na edificação comunista, assim como nas lutas revolucionárias que, pela conquista do poder de Estado e pela instauração da ditadura proletária, limpam o terreno para essa construção e libertam os milhões de forças criadoras necessárias. Para Lênin, uma evidência simples ainda assustava muitos — mulheres e homens —, pois seus sentimentos e pensamentos permaneciam prisioneiros dos preconceitos pequeno-burgueses: o fato de que a mulher trabalhe fora do lar e coloque suas capacidades a serviço de todas as tarefas sociais, desde a gestão de uma cozinha coletiva até a de um grande Estado. Lênin esperava da participação das mulheres na vida social os resultados mais favoráveis: uma melhor compreensão das necessidades sociais essenciais, dos meios mais eficazes para satisfazê-las, e um enriquecimento do conteúdo e das formas da vida coletiva.

O que tinha para ele importância decisiva não eram os feitos brilhantes de algumas poucas mulheres excepcionais, mas o trabalho cotidiano e modesto de milhões de mulheres, mesmo das mais simples e humildes. Pois Lênin possuía essa visão profunda que percebe no pequeno e no ínfimo o grande, o conjunto, e os valoriza como indispensáveis e preciosos. Ele sentia intensamente que nenhuma força é supérflua na luta e na construção, e que cada uma pode ser colocada a serviço da revolução e do comunismo. Por isso insistia energicamente em ampliar o trabalho de propaganda e de educação comunista entre as massas femininas, das cidades ao campo, e em mobilizar as proletárias e camponesas sem partido.

A avaliação leninista da ideia e da obra cooperativas merece aqui uma atenção particular. Para ele, a cooperação não se limitava a uma função econômica de distribuição racional, ajustando os bens existentes às necessidades da sociedade. A ideia cooperativa era antes um elemento vital organizador e educador em todos os planos sociais, uma solidariedade ativa, planejada e transformadora de todos com todos. A ação das mulheres no vasto campo cooperativo podia assim não apenas contribuir de maneira decisiva para a revolução econômica e social, mas também unir, organizar e educar as mulheres de todos os meios, urbanos e rurais, para a gigantesca tarefa da revolução. O comunismo só pode libertar as mulheres se, para sua realização, a vontade ardente e a ação vigorosa de milhões delas se fundirem com as de milhões de seus irmãos numa força titânica capaz de proclamar imperiosamente: “Que assim seja!”

Assim se fecha o círculo. A posição de Lênin sobre a igualdade e a libertação das mulheres é uma componente orgânica de sua convicção revolucionária global e de sua obra vital. Em teoria como na prática — pois, nele, a teoria equivale sempre a uma preparação para a ação, ou mesmo à própria ação. Quem quiser compreender plenamente o que as mulheres devem a Lênin deve estudar seus escritos, a história do Partido Bolchevique, da Internacional Comunista e da Revolução Russa que forjou a aliança das primeiras repúblicas operárias e camponesas. Só então se aprenderá Lênin em toda a sua grandeza e sua importância para a libertação de todo ser humano — inclusive das mulheres.

É uma riqueza prodigiosa a que esse grande homem benevolente nos legou. Essa riqueza nos obriga. Sejamos gratos. Aprendamos com Lênin, o revolucionário incomparável, trabalhemos para que seus ensinamentos se tornem legado das mais amplas massas, mulheres e homens.

[…]

Aprendamos com Lênin, o grande homem. Ele sempre se viu como um trabalhador a serviço da revolução, um igual entre iguais. Permaneceu durante toda a sua vida ao mesmo tempo mestre consumado e aprendiz modesto, ensinando com clareza e aprendendo com avidez. Assim tornou-se o primeiro, o maior trabalhador, o guia mais genial e vitorioso da revolução proletária. Sejamos dignos disso, consagrando até a nossa última centelha de energia a apressar a vitória da revolução proletária mundial.

Então ajudaremos a erguer o único monumento digno de Lênin, digno de todos os Grandes que traçaram o caminho do proletariado combatente e de todos os anônimos que, lutando e tombando pela liberdade, alcançaram a grandeza. Esse monumento é a sociedade comunista. Sobre as muralhas de granito desse edifício glorioso, as mulheres libertadas poderão então escrever, felizes e agradecidas:

“Este monumento é também obra revolucionária das mulheres.”

TRADUÇÃO DE YURI SANTORIELLO.2

  1. As passagens indicadas por reticências neste artigo devem-se ao zelo do tribunal de Stuttgart. Este tribunal condenou uma publicação anterior por causa das ideias expressas nesses trechos — ideias que, no entanto, haviam sido publicadas “impunemente” inúmeras vezes antes da guerra. ↩︎
  2. Fonte: Lenin ruft die werktätigen Frauen. Artikel Lenins zur Frauenfrage. Erinnerungen an Lenin von Clara Zetkin. Stimmen der Arbeiterinnen und Bäuerinnen über Lenin. Berlim: Vereinigung Internationaler Verlagsanstalten G. m. b. H., 1926, pp. 5–18. Tradução do Marxists Internet Archive. ↩︎