No dia 11 de dezembro de 2025, o então primeiro-ministro búlgaro Rosen Zhelyazkov entregou a renúncia ao cargo e à sua coalizão minoritária, liderada pelo partido Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB), de centro-direita. Tal renúncia é resultado de inúmeras manifestações da classe trabalhadora búlgara, expressão de sua insatisfação.
Os protestos ganharam força a partir da divulgação do plano orçamentário para 2026, que previa o aumento de impostos, como o imposto de renda pessoal, para o financiamento do setor público dominado por oligarquias político-empresariais. A movimentação da classe trabalhadora, sobretudo da juventude trabalhadora, escancara a insatisfação massiva em relação à corrupção e às condições de vida no país.
Pobreza e desemprego
Na Bulgária, aproximadamente 21,7% das pessoas estão em situação de pobreza. Esse número simboliza ao menos um quinto de toda a população búlgara, aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. Além disso, a Bulgária tem a segunda maior taxa de pobreza subjetiva (37,4%), perdendo apenas para a Grécia, e tem a maior desigualdade de renda de toda a União Europeia (UE), segundo o Eurostat.
É nítido que as condições materiais de vida da classe trabalhadora búlgara se encontram em evidente precariedade. Decorre disso a insatisfação total em relação ao governo, que destinou aos gastos públicos, em 2026, mais de 40% do PIB do país. Esses gastos astronômicos, unidos a um histórico de fraude eleitoral e à completa instabilidade política do país, geram um sentimento profundo de desconfiança da classe trabalhadora em relação ao aparato burguês.
Para além disso, a taxa de desemprego juvenil atual no país é de cerca de 12%, o que prejudica imensamente a parcela mais jovem da classe trabalhadora, que se encontra completamente à deriva enquanto enxerga facilmente toda a corrupção dos políticos e oligarcas do país. É evidente que os atuais protestos nada mais são do que a reação de uma classe trabalhadora que não aguenta mais o cenário em que se encontra e que, frente a todas essas mazelas, se lança às ruas em ação.
A crise política, os protestos e o discurso da “Geração Z”
A crise política na Bulgária chega ao seu ápice, ao seu momento mais crítico, com a recente renúncia. Ocorreram, nos últimos quatro anos, sete eleições no país, prova cabal da instabilidade política que perdura desde 2021 até os dias atuais, em seu auge. Somente em 2021 houve cerca de três eleições entre parlamentares antecipadas e presidenciais.
Não só a quantidade de eleições é motivo de tal crise, mas também as denúncias em relação à fraude eleitoral. Os protestos alegam que a promotoria de Sofia (capital da Bulgária) havia ocultado evidências de fraude eleitoral e diversas irregularidades no processo.
Em meio a todo esse caos, a todas essas questões que estouram de todos os cantos, a classe trabalhadora consegue ter nítida certeza de sua revolta com o Estado burguês. Arremessa-se, portanto, às ruas em protesto contínuo e fervoroso, em busca da melhoria de suas condições de vida.
É vital o entendimento de que os protestos que estão ocorrendo por toda a Bulgária não são protestos exclusivos da dita “Geração Z”, mas protestos de uma classe trabalhadora completamente insatisfeita, cuja formação é, majoritariamente, composta pela juventude da classe trabalhadora, por uma classe trabalhadora jovem.
O desprendimento em relação ao discurso geracional é extremamente necessário. Ao entender essa juventude apenas como jovens, ignora-se todo o caráter de classe, toda a expressão de classe que os protestos evidenciam. Os jovens trabalhadores e estudantes búlgaros se demonstram extremamente insatisfeitos com toda a situação do país. Ao isolar essa juventude de sua classe específica e do caráter dessa classe em questão, a análise se esvazia de forma brutal.
A descrição desses jovens como uma massa justiceira isolada da sociedade isola a juventude em um vácuo político. É necessário, assim sendo, demonstrar que esse vácuo nada mais é do que a omissão completa do caráter essencial dos protestos: um caráter revolucionário, um caráter de classe. A juventude vai às ruas porque está sofrendo, pois suas famílias estão sofrendo com a situação material em que se encontram e, observando toda a crise e a corrupção por parte do Estado burguês, enxergam plenamente que a solução para suas mazelas não se encontra nele.
É nesses momentos de crise, em que a classe trabalhadora se coloca nas ruas, se coloca para a ação, que há a necessidade vital de uma direção, de um partido, de um programa realmente revolucionário. Sem uma direção capaz de guiar a classe trabalhadora para a sua revolução, a revolução para subverter os seus exploradores, a espoliação por parte da burguesia e de seu Estado continuará a se reproduzir. Sem um programa realmente revolucionário, internacionalista, de tomada dos meios de produção por parte da classe trabalhadora, de organização da classe trabalhadora e de sua juventude em seus locais de trabalho e estudo, não é possível acabar com as suas mazelas. A classe trabalhadora búlgara não está disposta a aceitar a situação em que se encontra, e somente a sua auto-organização pode libertá-la de sua exploração.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional