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Por que a Alemanha está se rearmando?

O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, prometeu construir “o exército mais poderoso da Europa”, procurando aumentar o tamanho da Bundeswehr de 180 mil para 260 mil membros. Esta é uma promessa que contrasta com a opinião dos alemães, que desconfiam de investimentos no orçamento militar e que rejeitam o papel do imperialismo alemão nas duas guerras mundiais e, sobretudo, o que significou o regime nazista.

A constituição alemã de 1949, a Grundgesetz, no artigo 26, estabelece que “Os atos que sejam capazes e realizados com a intenção de perturbar a convivência pacífica entre os povos, especialmente a preparação de uma guerra de agressão, são inconstitucionais. Devem ser punidos”. Este artigo é uma consequência direta dos acordos de Yalta e Potsdam (1945), no pós-guerra. Entretanto, em 1955, com a entrada na OTAN, a Alemanha pôde se rearmar de forma limitada, com a justificativa de contribuir para a defesa coletiva contra a União Soviética.

Com o fim da parte soviética, oficialmente com a sua dissolução em 1991, cresceu a indiferença social em relação aos militares. De 2001 a 2021, os alemães participaram da missão da OTAN no Afeganistão, com mais de 130 mortes e centenas de feridos. Combinando a participação pontual de forças alemãs em missões internacionais e a percepção social negativa, em 2011 foi colocado fim ao serviço militar obrigatório.

Por isso, para conseguir efetivar seu objetivo de aumentar o tamanho do exército, dificilmente o incentivo financeiro será suficiente. Por enquanto, é oferecido o salário inicial de 2.600 euros, mas, a partir deste ano, os jovens de 18 anos já têm que preencher um questionário sobre o seu interesse em servir e, a partir de 2027, terão que fazer exames médicos obrigatórios. Então, o serviço obrigatório é uma opção que está sendo considerada, caso as metas não sejam atingidas.

Para convencer os alemães, a geopolítica e os analistas burgueses apontam o ano de 2029 como o ano em que a Europa deve estar preparada para um ataque russo. Apontam, ainda, que não podem mais contar com que os Estados Unidos se responsabilizem por sua defesa. Essas análises são reforçadas pela invasão russa na Ucrânia, em 2022, e pela pressão pela anexação da Groenlândia aos EUA por Donald Trump. Mas há, de fato, uma guerra sendo gestada na Europa?

Após a invasão da Ucrânia, a Alemanha já elevou o percentual de investimentos para a defesa para 2% em relação ao PIB, 108 bilhões de euros em 2026. A Rheinmetall, de Düsseldorf, fabricante de munições e equipamentos de artilharia, veículos militares etc., teria recebido 40% dos contratos. As famosas montadoras de automóveis, como a Volkswagen, que enfrentam uma crise profunda, estariam se reorganizando para atender às demandas da indústria de defesa.

O crescimento do PIB da Alemanha em 2025 foi de 0,2%, e as previsões otimistas apontam um crescimento de 1% em 2026. Os desempregados já chegam a 6,6% da população economicamente ativa, 3 milhões de desempregados. É por isso que a burguesia acionou o departamento 4 da economia capitalista (meios de destruição). Como explicou Rosa Luxemburgo, o militarismo tem a função de absorver o excedente de produção e criar demandas artificiais.

A Rússia está atolada na guerra com a Ucrânia desde 2022, o que significa que, no dia 22 de fevereiro, farão 4 anos de guerra, mais tempo do que o que durou toda a campanha do Exército Vermelho, de Moscou até Berlim. Esta economia russa, que depende de exportar commodities e tentar driblar as sanções com navios petroleiros, que vez ou outra são apreendidos sem resistência, também só mantém relativa vitalidade da sua indústria através de sua operação militar especial. Esta situação indica que é mais um recurso ao militarismo e às guerras localizadas como uma forma de sustentar a economia capitalista do que a possibilidade de um ataque russo.

A crise também gera divisões entre diferentes frações da burguesia. O partido Alternativa para a Alemanha (AFD), por exemplo, defende uma reaproximação com a Rússia, para que a indústria possa voltar a comprar petróleo e gás deles. Donald Trump retirou o apoio militar para a Ucrânia e passou a pressionar aliados para fazer um “acordo”. Isto reflete o que temos falado, e agora toda a imprensa burguesa admite, sobre o fim da Ordem de Yalta e Potsdam, uma nova situação política, de conflitos entre as diferentes frações da burguesia, de guerras localizadas e de luta de classes.

Não à toa, os alemães veem com ceticismo essa remilitarização, e apenas 11% dos jovens abaixo de 50 anos estariam dispostos a pegar em armas para defender o seu país, acima somente da Itália e do Japão. A classe operária da Europa já luta uma guerra de classes contra a sua própria classe dominante e tem a compreensão de que mais dinheiro para as armas significa mais austeridade. Esta classe operária não aceitará a política militarista.

A economia capitalista encontra-se numa espiral decadente e, como Marx e Engels explicaram, a cada crise se prepara outra mais violenta, e diminuem os meios de superá-la. O militarismo pode somente servir como um aparelho que ajuda um corpo moribundo a continuar respirando. Cada vez mais guerras regionais e armamentismo acompanham a austeridade para os trabalhadores. Por hora, não há uma guerra sendo gestada, senão a guerra de classes, e é absolutamente necessário vencê-la para evitar a barbárie.