Por que Prestianni tampou a boca?

Vinícius Jr. decidiu a partida marcando mais um golaço. E, novamente, comemorou dançando, com uma sambada na bandeirinha. Foi punido pelo árbitro, recebeu insultos de todo o estádio e há imagens que flagram torcedores fazendo gestos racistas. Ele denunciou ter sido chamado de “macaco” por um atleta adversário.

A denúncia de Vinícius foi contra o atleta argentino do Benfica, Gianluca Prestianni, ex-Vélez. E foi acobertada pelo técnico português do clube, José Mourinho. Mourinho desqualificou Vinícius ao tentar deslocar a discussão para um moralismo sobre sua comemoração, dizendo que ele provoca e exagera. Atribuiu a Vinícius a culpa por todo o tumulto.

Mas transformar a vítima em réu é uma conhecida tática dos racistas. Explicam como Vinícius precisa ser educado, calado e controlado. Assim, os agressores são retirados do centro do debate, enquanto se conserva o sistema e sua ideologia.

Lembramos que Mourinho foi denunciado em 2025, na Turquia, em situação semelhante. Ele dirigia o Fenerbahçe em um clássico contra o Galatasaray e, na coletiva, afirmou que os jogadores do banco adversário “pulavam como macacos” na comemoração de um gol.

Mas por que Mourinho não perguntou a razão de Prestianni tampar a boca? Após o gol, ocorreu uma troca de provocações entre Vinícius e jogadores do Benfica, que se prolongou com Prestianni. Em determinado momento, ele ergueu a gola da camisa, tampando a boca, num claro gesto para dificultar a leitura labial pelas câmeras.

Vinícius, furioso, procurou o árbitro e denunciou que Prestianni o chamou de “macaco”. O árbitro, seguindo o protocolo da UEFA, paralisou a partida por dez minutos. Prestianni tentou se explicar, dizendo que Vinícius o interpretou mal quando o chamou de “irmão”, apelando para a semelhança entre a pronúncia de “mano” (abreviação de “hermano”) e “mono” (macaco, em espanhol). Mas quem, no meio de uma troca de provocações, tampa a boca para chamar o outro de irmão?

A posição do Benfica não foi exigir investigações e manter-se distante do racismo, mas proteger Prestianni, alegando que ele sofria uma campanha de difamação. Em sua conta oficial no X, o clube divulgou um vídeo como suposta prova de defesa e afirmou: “Como demonstram as imagens, dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que dizem que ouviram.”

Mas a “distância” entre Vinícius, Mbappé e Prestianni não ultrapassa três metros. Será que agora a UEFA terá de fazer exames de audiometria para provar que eles são surdos?

Um dos maiores símbolos da história do Benfica é Eusébio. Homem negro, considerado o maior jogador de futebol de Portugal até Cristiano Ronaldo. Eusébio nasceu em Moçambique, mas jogou por Portugal porque o país africano foi sua colônia até 1975. Há uma estátua de bronze de 8 metros de altura em sua homenagem diante do Estádio da Luz. Foi exaltado enquanto marcava gols, dava títulos e gerava prestígio internacional. O Benfica se orgulha de sua história quando ela rende glória, mas, nesse momento, hesita em enfrentar o racismo. Há uma contradição entre homenagear Eusébio e não se comprometer com a luta contra a discriminação.

A BBC publicou que, em 8 anos, Vinícius Jr. denunciou racismo em 20 situações. A novidade desta semana é que o insulto racista foi proferido por um jogador dentro de campo e foi ouvido por ao menos uma testemunha, o francês Mbappé, que também aparece muito irritado nas imagens. Ele reforçou a denúncia de Vinícius junto ao árbitro e aos demais jogadores. Encarou Prestianni, apontando o dedo e dizendo repetidas vezes: “puto racista, você é um puto racista”, sem reação de Prestianni. Ao final da partida, Mbappé afirmou aos jornalistas:

“— O número 25 do Benfica (Prestianni)… não quero dizer seu nome porque não o merece… colocou sua camisa aqui (na boca) para dizer que o Vini é um macaco cinco vezes. Ele escutou. Jogadores do Benfica também escutaram.”

Vinícius tem todo o direito de fazer gol e comemorar como ele bem entender. A dança é uma manifestação cultural brasileira e de várias outras culturas. Além disso, estávamos no meio da semana de carnaval. Por que um jogador deveria ser criticado e punido por comemorar um gol dançando durante o carnaval? Quem entende que é uma falta de respeito e uma provocação à torcida adversária, então que faça um gol e dance provocando de volta. Não podemos esquecer a repugnante entrevista à TV, em 2022, de Pedro Bravo, presidente da Associação de Agentes [empresários] Espanhóis. Ele disse que Vinícius deveria parar de “sambar” e “deixar de brincar de macaco” nas celebrações de seus gols.

Durante séculos, no Brasil, os negros escravizados eram subordinados a uma opressão tão grande que tinham que pedir licença ou eram impedidos de brincar e cantar quando sentiam vontade. E hoje, dizer que sambar depois de um gol é “desrespeito” ou “coisa de macaco” não pode ser visto como opinião esportiva: é racismo travestido de moralismo. A celebração no futebol é expressão de alegria e identidade, e muitas vezes de história e resistência, principalmente entre aqueles que aprenderam a transformar dor em cultura e exclusão em arte. Vinícius nasceu e foi criado em São Gonçalo, periferia do RJ, terra do samba, berço do funk, cidade onde surgiu a religião umbanda, que possui muitos rituais com danças e batucadas. Quem tenta criminalizar seus gestos quer impor um padrão autoritário de comportamento, em que só alguns corpos podem existir livremente.

O drible, como explicou Mario Filho no livro O Negro no Futebol Brasileiro (1947), foi uma invenção do futebol brasileiro; ele carrega o mesmo gesto corporal presente na ginga da capoeira e nos passos de samba. Atividades da virada do século XIX para o século XX, duramente reprimidas pela polícia em sua rotina de repressão ao proletariado. Uma sociedade democrática não deve tolerar o racismo. É preciso defender o direito de celebrar, dançar e existir com dignidade; assim, defendemos a igualdade, a liberdade e o fim da hierarquia racial. Não é o samba que desrespeita o futebol — é o racismo que o envergonha.

Muitos ainda se perguntam por que, entre tantos negros, Vinícius é o mais atacado, como se o atleta brasileiro se fizesse de vítima para se beneficiar dos holofotes e devesse focar mais em jogar futebol. Essa é uma crítica absolutamente infundada. Vinícius é mais atacado por duas razões. Primeiro, porque ele é um dos maiores dribladores do futebol mundial. O atrevimento de sua arte provoca pesadelos e inveja em quem enfrenta seu talento. Segundo, é o mais atacado porque ele se coloca como um ativista contra a discriminação e, por isso, é um alvo maior. Vinícius já disse que não se vê simplesmente como vítima do racismo; mais do que isso, ele se vê como algoz dos racistas. Ele não se deixa controlar, declarou guerra ao ódio racial. Uma atitude como essa é perturbadora para os racistas porque ele encoraja milhões ao combate, principalmente os jovens.

Sobre como Vinícius Jr. poderia focar mais no seu futebol: na partida anterior, ele havia marcado dois gols. Fez um gol de placa no último clássico contra o Barcelona. É um jogador que está entre os recordistas de assistências para gols de seus companheiros na história do Real Madrid. Ele é decisivo todas as vezes no mata-mata. Participou de duas finais de Champions League e fez dois gols. Nesta semana, alcançou a marca de segundo maior artilheiro brasileiro na Champions. Também subiu na escala de maiores goleadores do Real Madrid na competição. É o jogador com mais participação em gols na Champions desde que pisou na Europa. Como querem que ele foque mais no futebol?

O racismo no esporte continua sendo um problema global, tanto nas arquibancadas quanto em confrontos entre jogadores. Atletas das mais diversas modalidades frequentemente relatam insultos raciais.

Relatórios de organizações como Kick It Out mostram que a discriminação no futebol permanece em níveis recordes, com milhares de incidentes relatados por jogadores, torcedores e on-line. Essa organização divulgou que recebeu 1.332 denúncias na temporada 2023/24, mais de 3 por dia, a maior quantidade em uma única temporada. Houve um aumento de 32% em relação ao ano anterior, sendo mais que o dobro dos 610 registrados na temporada 2021/22. O racismo continua sendo a forma de discriminação mais relatada, registrando um aumento alarmante de 47% (de 496 para 731) nos abusos racistas em todos os níveis do futebol na temporada citada, enquanto os relatos de discriminação baseada na fé religiosa também aumentaram 34%, impulsionados por um forte crescimento no antissemitismo (63%) e na islamofobia (138%). A Kick It Out relata que recebeu mais denúncias de discriminação contra jogadores no cenário profissional do que nunca, com um aumento de 43% nos casos de abuso direcionados a jogadores (de 277 para 395). Sem contar os abusos machistas e de misoginia contra jogadoras, ou os de homofobia, números também em ascensão.

O interesse econômico dos clubes e federações afeta a conivência com o racismo. Para os grandes empresários do futebol, é o cálculo financeiro dos seus lucros o que realmente importa. Os capitalistas veem os jogadores como um ativo milionário. Uma mercadoria de marca global, geradora de audiência, motor de patrocínios, vendedora de camisas, atrativo para audiência na TV. Só no Real Madrid, Vinícius movimenta milhões de euros por ano.

Essa é uma grande contradição. Os empresários do futebol lucram com o corpo negro, mas aceitam sua humilhação. Quando explode uma polêmica desse tamanho, junto com os insultos racistas, devemos denunciar o medo desses clubes de perder dinheiro. Essa é uma das razões que levam muitos clubes a evitarem punir racistas. Temem perder torcidas, sofrer boicotes e afastar patrocinadores conservadores por meio de exposição negativa na crise institucional. Punir o racismo pode custar mais do que tolerá-lo. Preferem multas simbólicas, notas vagas e arquivamentos discretos das denúncias.

As entidades e federações possuem grandes responsabilidades, como UEFA, FIFA, CONMEBOL, CBF e LaLiga. Elas se colocam sempre como “protetoras da imagem do produto”. Evitam escândalos longos e priorizam contratos de TV. Na prática, para esses empresários, o problema não é o racismo em si, mas o impacto do racismo no faturamento. Atletas como Vinícius são exaltados quando marcam gols e fazem jogadas de efeito; isso gera likes nas redes sociais e vende mais camisas. Mas, quando denunciam o racismo de forma contundente, passam a ser tratados como problema de imagem. O talento é bem-vindo, mas a coragem incomoda.

Vimos como essas máfias operam durante a divulgação da Bola de Ouro. Vinícius Jr., disparado na pré-lista dos mais cotados a vencer a premiação, foi ignorado, enquanto o sistema da UEFA premiou Rodri, volante de futebol modesto do Manchester City. Um absurdo para o futebol e para a política, já que Rodri havia sido punido pela UEFA por ter cantado músicas racistas contra a equipe de Gibraltar na Eurocopa.

O silêncio de muitos clubes diante do racismo não é omissão inocente, mas cálculo econômico. O futebol lucra milhões com a imagem, o talento e a popularidade de atletas negros, mas teme enfrentar de forma firme o racismo que os atinge. Punir torcidas, jogadores ou dirigentes significaria perder público, patrocinadores e contratos. Por isso, preferem campanhas simbólicas e sanções frágeis. Enquanto Vinícius gerar lucro, será exaltado. Mas, quando denuncia a violência, torna-se inconveniente. No futebol-negócio, a dignidade negra vale menos que o faturamento.

Essa hipocrisia da burguesia dona do futebol explica por que as campanhas antirracistas que fazem nunca ultrapassam faixas, hashtags e vídeos de formato institucional, com punições fracas, reincidência de crimes e, principalmente, impunidade. É o antirracismo sem protesto, organizado pelas máfias donas do dinheiro. Todos se dizem antirracistas, mas só até o momento em que isso ameaça seus lucros. Os jogadores de grandes clubes ganham muito dinheiro, é verdade, mais do que qualquer trabalhador poderia acumular a vida inteira. Mas o mesmo sistema que explora o trabalho do jogador negro naturaliza sua humilhação. Enquanto a sociedade permanecer estruturada sob a dominação do capital, o atleta permanecerá sendo tratado como mercadoria. E, por isso, seu sofrimento físico e mental não entra no balanço; só importa o desempenho.

A desumanização de pessoas negras tem ganhado expressão na política. Basta ver o recente ato de Donald Trump, que associou Barack Obama a imagens animalescas, retomando uma atitude racista que reduz lideranças negras à condição de caricaturas. Trata-se da mesma lógica que transforma talento, inteligência e dignidade em alvo de ódio. Seja no campo, na política ou na mídia, o mecanismo é o mesmo: quando negros ocupam espaços de destaque, passam a ser atacados não por seus erros, mas por sua existência em si. Os trabalhadores devem rejeitar a política de Obama, que governou para o capital financeiro quando esteve no poder. E ninguém está pedindo que passem a gostar do Real Madrid, clube historicamente vinculado à política mais direitista do Estado espanhol. Mas precisamos reagir; precisamos transformar nossa revolta contra o racismo em uma força organizada.

Para a classe trabalhadora, a atitude de Vinícius é uma inspiração; ele ajuda a despertar a luta. É mais uma prova de que o povo pode enfrentar, em escala local e mundial, a violência que sofre nas fábricas, nas ruas e nos bairros proletários. O racismo não é um desvio individual, mas uma engrenagem do capitalismo, usada para dividir, humilhar e controlar os de baixo. Mas, com a unidade de todos que se indignam e com organização revolucionária, podemos vencer.

A UEFA abriu uma investigação para recuperar e entender o que disse Prestianni. Na imprensa e no meio do futebol, todos reafirmam que as investigações precisam ir até o fim. Mas muitos já anunciam que não esperam que, dessa vez, a justiça seja feita devido à falta de confiança nessas instituições.

Nós apoiamos o combate de Vinícius: ser negro não é crime. O que acontece com ele acontece diariamente com os negros desde os tempos da escravidão: são tratados como pessoas inferiores, subalternas, sem direitos. A cor da pele ainda é um determinante nessa sociedade e, no fundo, expressa uma estrutura de classes. Acreditamos que a organização consciente e a unidade revolucionária dos trabalhadores podem transformar a revolta em poder e a dignidade em liberdade de fato.

Podemos sorrir, nada mais nos impede
Não dá pra fugir dessa coisa de pele
Sentida por nós
Desatando os nós
Sabemos agora
Nem tudo que é bom vem de fora
É a nossa canção pelas ruas e bares que
Nos traz a razão, relembrando Palmares
Foi bom insistir
Compor e ouvir
Resiste quem pode
À força dos nossos pagodes
(Acyr Marques / Jorge Aragão)

Este samba é pra você
Que vive a falar, a criticar
Querendo esnobar, querendo acabar
Com a nossa cultura popular
É bonito de se ver
O samba correr pro lado de lá
Fronteira não há pra nos impedir
Você não samba, mas tem que aplaudir
(Adilson Gavião / Robson Guimarães / Sereno)