Programa burguês de Lula abre caminho para a volta do bolsonarismo

Em 2022, Lula se reelegeu para seu terceiro mandato com uma vitória apertadíssima nas urnas. Os trabalhadores garantiram a vitória de Lula e do PT por essa candidatura ter sido a única que viabilizou a retirada de Jair Bolsonaro, e seu programa reacionário, do poder da República.

Entretanto, a nova experiência dos trabalhadores com Lula expressa o que já havíamos apontado àquela época: um programa estritamente burguês e de ataques aos explorados e oprimidos, a serviço do imperialismo e da burguesia nativa. A cada semana, essa posição se impõe na realidade da luta de classes e prepara até mesmo a possibilidade de uma derrota eleitoral para o herdeiro do espólio bolsonarista, Flávio Bolsonaro, como apontam as últimas pesquisas.

Ao tomar posse, em 2023, Lula buscou, no discurso, conquistar a classe trabalhadora afirmando que se opunha às privatizações. Na sua primeira “Mensagem ao Congresso Nacional”, em 2023, Lula defendia o fim das privatizações dos “setores estratégicos” como central para o desenvolvimento do país. Entretanto, é justamente a prática privatista de seu governo que expressa o programa burguês que adotou ao longo do mandato. O mesmo se demonstrou no discurso anterior contra o “teto de gastos”, que se converteu na “responsabilidade fiscal”, em defesa dos grandes capitalistas e do religioso pagamento da dívida pública.

Neste sentido, a grande política do Lula 3 vem sendo o reforço da famosa criação do Lula 1, as Parcerias Público-Privadas (PPP). O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que cumpriu papel importante na formulação dessa lei em 2004 e disso se orgulha, deu mais corpo às PPPs, apostando na privatização com novas “roupagens”. Assim, sob o terceiro mandato de Lula, o que a classe trabalhadora sente na pele são os maiores índices de privatizações e concessões da história do Brasil, especialmente no saneamento, rodovias, transportes, presídios e outras áreas que afetam diretamente a população. Exemplos são os investimentos do governo Lula em grandes obras, como o Metrô do Recife e o saneamento estadual pernambucano e piauiense (com governo estadual petista), para entregá-las ao lucro do capital privado logo em seguida.

O atual governo também se negou a revogar medidas como o Novo Marco do Saneamento, aprovado no governo Bolsonaro, que resultou na privatização de companhias como a Sabesp, Cedae, CSA, Agespisa, entre outras, e na tentativa de privatização de empresas como a Companhia Águas de Joinville, processo que só foi barrado após mobilização dos trabalhadores.

Esse complexo de entrega do patrimônio público da classe trabalhadora, os salários indiretos do proletariado, para o capital privado pelo Lula 3 ganhou corpo com uma lei criada por Michel Temer. Trata-se do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), ancorado na Secretaria Especial da Presidência da República, ou seja, passando diretamente pelas mãos do presidente Lula.

Só em 2025, o PPI apresentou mais de 280 projetos de privatizações e cerca de 227 outros acordos entre o público e o privado. Novamente, as privatizações dos setores estratégicos que Lula disse combater nas últimas eleições, em seu mandato, podem chegar a R$ 1,3 trilhão. Na prática, no governo Lula, o capital privado engorda como nunca antes na história deste país.

Mas, enquanto afaga nossos inimigos de classe, nacionais e internacionais, o programa burguês e privatista de Lula gera uma desaprovação contundente da população ao governo federal. Nas pesquisas de fevereiro (Ideia, Quaest, AtlasIntel e Paraná Pesquisa), mesmo que haja divergências metodológicas e, em algumas, de resultados nas disputas para primeiro e segundo turno, vemos esse “consenso”: o aumento na reprovação de Lula 3 de 50% para 52%.

Aqueles que veem o mundo sob lentes subjetivas e idealistas chegam a responsabilizar a reprovação ao governo como efeito do frustrado desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio de Janeiro, que, rebaixada na competição, satirizou religiosos e conservadores ao homenagear a vida de Lula. Mas a realidade é outra.

Na vida material, a ausência de reais saltos na qualidade de vida e no trabalho, resultado das privatizações e da devoção do governo Lula ao imperialismo e ao capital privado, é a explicação para esse sentimento que repele um possível “Lula 4”. Isso ocorre mesmo com a direita estando fragmentada, tendo como nome forte apenas Flávio Bolsonaro. A classe trabalhadora brasileira demonstra, nas pesquisas e nas suas ações de revolta, a insatisfação.

Por exemplo, acabamos de acompanhar o combate dos indígenas Tapajós, no Pará, que enfrentaram o governo Lula em sua sanha de privatizar rios da Amazônia para a norte-americana Cargill. Foi a mobilização organizada desses trabalhadores nativos que derrotou, no momento, essa privatização, como explicamos em: “Luta indígena no Pará barra a privatização de rios da Amazônia”.

Imagem: Coletivo Apoena
Foi a mobilização organizada dos trabalhadores que derrotou a privatização dos rios da Amazônia / Imagem: Coletivo Apoena

Vale lembrar que, antes de posar em defesa dos indígenas em luta no Pará, o secretário-geral do presidente Lula, Guilherme Boulos, além de diminuir os impactos do Decreto 12.600, mentiu publicamente ao afirmar que tais rios só seriam privatizados com “consulta popular” das populações nativas. Na realidade, a “consulta” teve de ser os 33 dias de ocupação indígena, pois Boulos, Sonia Guajajara e todo o governo Lula deram de ombros por semanas ao que queriam aqueles trabalhadores.

Como outra consequência das privatizações, Lula 3 também ignora o princípio básico da solidariedade entre os povos em nome de sua subserviência ao imperialismo. Seu papel a serviço de Trump se demonstrou após o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores e com o abandono completo de Cuba, em situação de miséria sem o petróleo venezuelano. Enquanto o Sindipetro do Rio de Janeiro, entidade dos trabalhadores do petróleo, exige que a Petrobras e o “presidente sindicalista” enviem seu produto aos cubanos contra o bloqueio dos EUA, Lula segue rezando a cartilha de Washington. A mais recente é a posição “diplomática”, em defesa do “direito internacional”, do governo brasileiro sobre o ataque norte-americano ao Irã, mantendo o Brasil prostrado às guerras do imperialismo.

É preciso compreender que essa política do governo Lula é consequência da União Nacional com a burguesia e da série de alianças do governo com partidos burgueses, aliança que colocou Geraldo Alckmin, ex-PSDB, na vice-presidência. Ao que tudo indica, essa política será mantida e irá se expressar nas alianças para as eleições em 2026.

Em nossa avaliação, tais elementos, que tocam diretamente o cotidiano da classe trabalhadora brasileira e internacional, demonstram a quem serve o governo Lula 3 e seu programa burguês. O ex-líder sindicalista, com sua trajetória de traições históricas ao proletariado brasileiro, vem preparando o terreno para sua derrota eleitoral ao não atender às reivindicações da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo que, quando lhe convém, faz um discurso de um “governo de esquerda”, na prática consegue ser, em diversos aspectos, mais reacionário que os governos Bolsonaro e Temer.

Mas a história nos mostra: a classe trabalhadora faz suas experiências e não está derrotada. Por isso, contra as privatizações, o programa burguês de Lula, o imperialismo e suas guerras, a OCI convoca todos a construir e participar do Encontro Nacional Fora o Imperialismo e Suas Guerras, que acontecerá em 18 de abril, em São Paulo, e também de forma online (inscreva-se aqui). Nesse encontro, vamos discutir a necessidade da auto-organização e a luta da classe trabalhadora e de sua juventude em todo o mundo.

Por um partido e um programa operário e independente, dirigido ao movimento sindical e à juventude, organize-se na Organização Comunista Internacionalista!