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Quem bombardeou a escola Shajareh Tayyebeh?

Uma escola foi alvo de bombardeios. Assim começou o dia 28 de fevereiro, no ataque dos EUA e de Israel ao Irã. O ataque aéreo atingiu uma escola primária feminina, com 180 mortos, em Minab, no sul do país, próximo ao estreito de Ormuz, distante 1.000 km da capital. A cidade possui 75 mil habitantes. E nenhum dos lados da guerra assumiu a responsabilidade pelo ataque até o momento.

Diferentemente do Ocidente, o sábado é o primeiro dia útil no Irã, dia de volta às aulas e de escolas cheias. Morreram 168 meninas, a maioria entre 7 e 12 anos, além de profissionais da educação. O ataque foi tão brutal que deixou mais mortos do que feridos. A escola Shajareh Tayyebeh (Árvore Virtuosa, em português), após as explosões, transformou-se em uma multidão em pânico vasculhando os escombros sob colunas de fumaça.

Mesmo considerando a dificuldade de investigar — pela impossibilidade de acessar fragmentos das armas e pela restrição ao acesso de jornalistas estrangeiros ao local —, na imprensa internacional ganha força a hipótese de que os responsáveis pelo ataque são os EUA. The Times e The New York Times reuniram evidências por meio de imagens de satélite e vídeos. A BBC também acolheu denúncias de que a escola sofreu três ataques com mísseis. O jornal The Washington Post diz que o prédio da escola estava numa lista de alvos dos EUA, informação confirmada por várias fontes.

Os EUA ostentam suas forças armadas como as mais tecnológicas do mundo. Com o serviço de inteligência, como o da CIA, mais eficiente, capaz de observar cada passo de lideranças altamente protegidas do Estado iraniano por meses e, assim, definir minuciosamente os bombardeios sobre seus alvos. E, no primeiro dia de ataques aéreos, será que não se deram conta de que um dos prédios sobre os quais lançaram bombas era cercado por pátios, campo de futebol e frequentado diariamente por centenas de crianças uniformizadas entrando e saindo todos os dias?

Os jornalistas afirmam que o prédio da escola foi severamente danificado simultaneamente aos bombardeios a um complexo naval da Guarda Revolucionária Islâmica nas proximidades, num raio de 500 metros. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, afirmou em coletiva que as forças norte-americanas realizaram ataques no sul do Irã naquele exato horário. Quatro edifícios dentro da base naval foram completamente destruídos e outros dois apresentaram marcas de impacto nos telhados. Vídeos capturados por testemunhas e por grupos de direitos humanos iranianos, divulgados nas redes sociais cerca de uma hora após os eventos, mostraram a escola com grandes danos e envolta em fumaça. Na mesma coletiva, o general Caine afirmou que as forças israelenses operavam em outras áreas mais ao norte.

No mesmo dia circularam boatos online sugerindo que um foguete iraniano disparado incorretamente teria atingido a escola. Trump havia afirmado que o Irã poderia ser responsável, mas, quando questionado sobre por que ninguém em seu próprio governo parecia apoiar publicamente essa alegação, ele respondeu: “eu simplesmente não sei o suficiente sobre isso”. Em outro dia, comentou: “Com base no que vi, isso foi feito pelo Irã.”

No entanto, The Times e outros analistas questionaram essa alegação, afirmando que um único míssil errante não teria causado, ao mesmo tempo, danos tão precisos e direcionados a vários edifícios da base naval nos arredores. E, dias atrás, imagens analisadas por especialistas dos jornais revelaram um míssil do tipo Tomahawk norte-americano atingindo prédios perto da escola em Minab. Lembrando que nem o Irã nem Israel possuem essa tecnologia, apenas os EUA.

Apurou-se também que o edifício da escola, no passado, fez parte da base naval da Guarda Revolucionária, de acordo com imagens de satélite de 2013. Caminhos ligavam as instalações militares à escola. Porém, em setembro de 2016, o prédio foi isolado por uma divisória e deixou de estar conectado à base naval.

Trump havia afirmado que o Irã poderia ser responsável, mas, quando questionado sobre por que ninguém em seu próprio governo parecia apoiar publicamente essa alegação, ele respondeu: “eu simplesmente não sei o suficiente sobre isso” / Imagem: Daniel Torok

The New York Times deu voz a Wes J. Bryant, analista de segurança que serviu na Força Aérea dos EUA e foi consultor em danos a civis no Pentágono, além de crítico ao governo Trump. Bryant avaliou que todos os edifícios, incluindo a escola, foram atingidos por ataques de grande efeito e precisão cirúrgica. Mas, quando questionada em coletiva se os EUA haviam realizado o ataque à escola, a secretária de imprensa Karoline Leavitt respondeu: “Não que saibamos (…). O Departamento de Guerra está investigando o assunto.”

Uma carta de 46 senadores do Partido Democrata pressiona o governo dos EUA por uma “investigação rápida e completa” sobre o ataque à escola e sobre outras operações que causaram vítimas civis. O senador John Kennedy foi o primeiro parlamentar republicano a admitir a possível responsabilidade pelo bombardeio, afirmou a CNN: “Foi terrível. Cometemos um erro (…).”

O direito internacional humanitário tem sido reivindicado em todo o mundo, inclusive por setores da burguesia dentro dos EUA. São convenções que buscam limitar os efeitos da guerra sobre civis. Elas estabelecem que as operações militares devem fazer tudo o que for possível, tomando todas as precauções necessárias, para verificar que os objetivos a serem atacados não sejam civis. Mas essa é uma denúncia que tem sido inócua.

A memória das operações dos EUA no Afeganistão, no Iraque e de Israel em Gaza mostra que, na prática, essas normas frequentemente são subjugadas à estratégia do imperialismo. Em contextos de escalada militar, os ataques contra civis aumentam.

No Iraque, em 2003, vimos seguidos crimes de guerra, por exemplo, o bombardeio à universidade Al-Mustansiriya, em Bagdá, instituição com mais de 800 anos de história. Quem foi responsabilizado e punido? Hoje a Unicef denuncia que outras 12 crianças foram mortas em cinco escolas diferentes no Irã em uma semana de guerra. Quem investigará esses crimes também?

Como será a investigação feita pelo próprio Departamento de Guerra dos EUA sobre a escola Shajareh Tayyebeh? Eles vão se autoinvestigar? A ONU, outra instituição a serviço do imperialismo, também anunciou uma investigação paralela. Mas quem acredita que dessa vez haverá punição para os responsáveis, além de declarações formais e relatórios diplomáticos frios?

Em dois anos de massacre em Gaza, uma criança foi morta a cada 52 minutos. Matar civis, crianças, bombardear escolas é atacar o futuro de um povo. Está claro que esta é uma guerra do imperialismo contra os povos do Oriente Médio. Trump e Netanyahu figuram hoje como os maiores terroristas, responsáveis pela escalada de violência no mundo.

Diante da crise do sistema capitalista — em que os capitais monopolistas não conseguem manter suas taxas de lucro apenas por meio dos processos econômicos “normais”, isto é, da exploração da força de trabalho —, o militarismo, a pilhagem dos países dominados pelo capital e o saque de seus recursos naturais tornam-se tentativas sistemáticas de estabilizar o sistema. Esse é o cerne da política imperialista. Portanto, mesmo quando as guerras modernas aparecem como acidentes morais e exagero de um ou outro governante, no fundo são expressões da disputa do capital financeiro por novos mercados, incluindo a destruição de fábricas e cidades para serem reconstruídas em sequência.

Existem grupos burgueses lucrando com a barbárie. Há empresas interessadas em lucros na guerra. Há oligarquias interessadas em permanecer no poder. Os trabalhadores não têm interesse em guerras imperialistas. Estudantes e trabalhadores são vítimas dessas políticas, e toda solidariedade internacional é necessária.

Como afirmou nossa nota política da OCI, o ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é “uma agressão do principal país imperialista do mundo, em conjunto com sua cabeça de ponte no Oriente Médio, o sionismo israelense, contra um país oprimido”. Os comunistas são incondicionais na defesa dos trabalhadores e da juventude iraniana contra o ataque imperialista em curso. Ao mesmo tempo, não compactuamos com o regime dos aiatolás iranianos.

Convidamos todos que nos acompanham a participar do Encontro Nacional Fora Imperialismo e Suas Guerras, que acontecerá em 18 de abril, em São Paulo, e também de forma online (inscreva-se aqui). Nesse encontro, discutiremos a necessidade da auto-organização da classe trabalhadora e de sua juventude em todo o mundo, bem como a construção de instrumentos independentes de luta e resistência para pôr fim ao capitalismo, ao imperialismo e às guerras que assolam a humanidade.