O governador Cláudio Castro (PL) abandonou o sambódromo antes do desfile terminar. Ele foi o 7º governador do Rio de Janeiro investigado, com direitos políticos cassados nos últimos anos. É uma fila que não anda: Moreira Franco, Garotinho, Rosinha, Sérgio Cabral, Pezão e Witzel. Castro renunciou na véspera do julgamento no TSE para tentar escapar da inelegibilidade, mas não conseguiu. E quem surge para recompor o sistema?
O vice-governador eleito na chapa de Castro, Thiago Pampolha, deixou o cargo há um ano para assumir uma vaga vitalícia no Tribunal de Contas. O nome seguinte na linha sucessória seria o presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacelar (UNIÃO), que também ficou inelegível. Bacelar esteve preso por proteger deputados com envolvimento com o Comando Vermelho. Hoje, afastado do parlamento, responde a inquéritos policiais. Surge, então, alguém que nunca foi eleito: Ricardo Couto, presidente do TJ, que assume interinamente o cargo de governador até a realização de uma eleição indireta pela Alerj. Será fácil encontrar uma cadeira limpa entre os 70 deputados estaduais?
Cenário de colapso institucional
A situação no Rio já não pode ser descrita apenas como crise — virou uma gangrena exposta; é o momento em que a farsa perde o pudor. Como em “O Retrato de Dorian Gray”, o que se vê na superfície — cargos sendo ocupados em sucessão automática, engrenagem jurídica funcionando como se nada estivesse fora do lugar — é apenas a máscara polida de um corpo em putrefação.
O governador cai, o vice evapora, o comando da Assembleia Legislativa apodrece sob suspeita, e o poder escorre, quase por inércia, para o topo do Tribunal de Justiça — que prepara uma eleição indireta, enquanto ninguém acredita que a solução esteja próxima; tudo é visto como sintoma da degeneração. O retrato escondido do monstro já não cabe trancado no sótão: ele sussurra de forma fantasmagórica, transborda pelas paredes, exala podridão, invade o ar. E o que se revela é brutal — não há exceção, não há desvio, não há acidente. Há apenas um sistema que, ao tentar preservar sua própria imagem, expõe cada vez mais a profundidade de sua corrupção.
A crise no Rio de Janeiro encena a crueldade triunfante de “Toda Nudez Será Castigada”. Tudo aquilo que se revela acaba sendo punido, não porque seja exceção, mas justamente porque expõe o que sempre esteve ali: as instituições da ordem capitalista e as múltiplas ramificações do crime organizado por dentro do Estado.
A fachada democrática é perdida, a nudez é revelada — os acordos de bastidores, as ambições pessoais, os golpes que se acumulam — e é essa exposição que provoca o escândalo em cadeia. A renúncia, o abandono, as investigações e a sucessão improvisada não constituem rupturas da ordem, mas mostram o caos como a própria ordem do nosso tempo, castigos inevitáveis de um sistema que já não consegue esconder sua verdade.
Como no teatro de Nelson Rodrigues ou no romance de Oscar Wilde, não há redenção possível: quanto mais se revela, mais se afunda. E o que se apresenta como moralização ou limpeza não passa de mais um ato dentro de uma tragédia em que a hipocrisia é a regra — e a queda, apenas uma questão de tempo.
A candidatura de Eduardo Paes e as oportunidades perdidas pela esquerda
As direções das organizações dos trabalhadores acreditam nessas instituições que estão desmoronando. Elas não confiam na força da mobilização de massas e menos ainda na perspectiva revolucionária. Em 2013, houve uma oportunidade: milhões tomaram as ruas no Brasil e, no Rio, lançaram a palavra de ordem “Fora Cabral”, mas o movimento contou com a traição do PT e do PCdoB, que sustentaram, por dentro, o governo Cabral.
Essas foram as mesmas organizações políticas que, durante a pandemia, dispersaram as multidões que foram às ruas tentar derrubar Jair Bolsonaro. PT e PCdoB canalizaram aquela força extraordinária para dentro do sistema, com uma manobra dirigida por Lula, que restringiu o movimento de massas para que não fosse até as últimas consequências. A operação foi limitar o movimento “Fora Bolsonaro” a se expressar exclusivamente por meio das urnas.
Hoje, no Rio de Janeiro, o PT optou mais uma vez por não traçar um caminho independente. A “solução” que o PT apresenta para a crise no Rio de Janeiro é seu apoio à eleição de Eduardo Paes (PSD) para governador. Paes realiza governos altamente repressores e antipovo. Por que faria diferente agora? Ao deixar a prefeitura para concorrer nas eleições gerais, Paes apresentou um projeto de lei de privatização de mais de 300 imóveis públicos. Segundo a UFRJ, o PLC 93/2025 compromete postos de saúde, bibliotecas, escolas, além de praças e áreas verdes, atingindo inclusive o direito à moradia. Alguém acredita que Cláudio Castro ou Bolsonaro fariam diferente?

A “justificativa” para apoiar esse chefe da máfia é absurda. Marcelo Freixo (PT), no passado, já manteve uma rivalidade acirrada com Paes; agora diz, na cara dura, que acredita no compromisso de Paes com a democracia. No entanto, o que mais contribui para a horda bolsonarista é a política que Lula aplica em seu governo. Ao invés de atender às reivindicações dos trabalhadores e, assim, fortalecer o movimento operário contra o capital, Lula conduz um governo que não se diferencia, na política econômica, do programa bolsonarista, como no pagamento da dívida pública e nas privatizações. E, assim como Bolsonaro fez, Lula cinicamente se esconde atrás do teto de gastos e da “responsabilidade fiscal”. Lula também segue aliado a Geraldo Alckmin (representante dos industriais paulistas) e governa com devoção às multinacionais que dominam nossa economia.
É nesse terreno que as forças da extrema direita conseguem se reorganizar e crescer. A ideia de apoiar Eduardo Paes para combater milícias e bolsonarismo revela uma concepção distorcida de democracia por parte do PT, reduzida apenas ao funcionamento das instituições e às eleições, e não às condições materiais da maioria da população. Essa Frente Ampla é um grave erro, pois promove governos e alianças comprometidos com o capital financeiro e busca conciliar e suavizar o conflito entre as classes; ao fazê-lo, o PT desmobiliza sua própria base social e pavimenta o retorno da extrema direita.
PSOL: a fera que aceitou a coleira
Diferentemente do PT, o PSOL hoje não difunde a ilusão de que Eduardo Paes é um aliado. O PSOL explica corretamente que Paes é o principal candidato das forças do capital. Além disso, o PSOL vai apresentar candidatura própria às eleições para governador do Rio. Mas, contraditoriamente, parece que está evitando que trabalhadores e jovens se vinculem à sua alternativa.
O PSOL é integrante do governo de Lula, que frustra expectativas populares de emancipação social e de soluções para a crise econômica. E, no governo federal, figuras do partido não fazem cerimônia ao assumir tarefas alinhadas ao agronegócio, como vimos com o ministro Guilherme Boulos na tentativa de privatização de rios da Amazônia.
O PSOL abandonou a radicalidade de seu projeto original e, a cada dia, se parece mais com o envelhecido PT. Vimos isso na reeleição de Rodrigo Bacellar na Alerj, quando até correntes da esquerda do PSOL, como MES e Subverta, renderam-se ao oportunismo parlamentar. Indicado para cumprir um mandato alinhado ao governador Cláudio Castro, atuando contra greves, por mais privatizações — como a da Cedae — e para proteger integrantes do crime organizado dentro da Alerj, Bacellar recebeu unanimidade dos votos (70 a 0), ou seja, votos dos oportunistas de todas as cores, dos bolsonaristas e das bancadas da esquerda, incluindo os 5 deputados estaduais do PSOL.
No mesmo período, a Câmara Municipal do Rio reelegeu Carlo Caiado, primo do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (UNIÃO), um dos dirigentes mais reacionários dos ruralistas desde os anos 1980 e que hoje se apresenta como pré-candidato à Presidência em 2026, disputando a direção do movimento bolsonarista nacional. É conhecido que a família Caiado está no poder desde o Brasil Colônia, na defesa do trabalho escravo e da sustentação da ditadura militar. O vereador, primo de Caiado, havia comandado ataques aos direitos dos professores semanas antes de sua reeleição, o que gerou uma greve por parte do movimento sindical. E, mesmo assim, foi reeleito por unanimidade, com votos das bancadas do PT e do PSOL, isto é, partidos que se dizem de esquerda, de mãos dadas com os bolsonaristas também na Câmara do Rio de Janeiro.
Na ocasião, o deputado federal Glauber Braga (PSOL) criticou esse grave erro do partido, e Milton Temer, que em sua trajetória viu o PT nascer e depois se degenerar, afirmou que essa participação do PSOL na Câmara e na Alerj interessava apenas a quem queria garantir cargos e acomodar cabos eleitorais.
A direção do PSOL age ao contrário do que deveria: reproduz as mesmas práticas das demais direções das organizações dos trabalhadores que sucumbiram ao capital. Diante da crise do sistema, recua seu programa, subordina sua política aos cálculos eleitorais e toma decisões que se alinham à estabilidade institucional, como qualquer outro partido da ordem.
O PSOL não age como um partido socialista, mas como ala esquerda do sistema capitalista. Esses erros permitem que cada episódio da crise do sistema seja administrado por cima, longe das ruas e do controle popular. Isso explica por que as alternativas que vigoraram no Rio, ao longo das últimas décadas, foram essencialmente conservadoras. Como Leon Trotsky explicou uma vez: “A situação política mundial como um todo caracteriza-se, antes de mais nada, pela crise histórica da direção do proletariado. (…)”
As ruas perguntam, os comunistas respondem
O Rio de Janeiro tem um PIB elevado, mas permanece sob o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), um mecanismo destinado a unidades federativas com grave desequilíbrio financeiro. Sua economia é concentrada e dependente dos royalties do petróleo, o que a torna vulnerável a oscilações. As projeções indicam um déficit orçamentário bilionário ano após ano. E, diante da ciranda de corrupção que vivemos, em que se troca a cabeça, mas o corpo permanece doente, a pergunta que as pessoas fazem no Rio é: até onde vai o estoque de ladrões no poder?
Mas a questão não se trata de uma crise de nomes e personalidades. A ordem capitalista, mesmo em tempos de paz, empurra a vontade popular para fora do poder, enquanto a burguesia se reveza para governar sem o povo — tudo isso num pacto com a grande imprensa para tudo aparentar normalidade.
O colapso das instituições mais sólidas caminha lado a lado com a profunda desigualdade social. Vivemos numa sociedade em que o valor do ser humano se mede pela capacidade de ser explorado, de ser reduzido à condição de mercadoria, de vender-se a si mesmo para sobreviver mais um dia.
Neste abismo de decadência, os reformadores da sociedade do capital reduzem e limitam a ação dos trabalhadores a apertar botões nas urnas a cada dois anos. Mas os comunistas sabem que a consciência dos trabalhadores pode ir muito mais longe do que isso.
Essa consciência pode se transformar em organização. É por isso que nós, da Organização Comunista Internacionalista (OCI), colocamos como tarefa central a construção de um autêntico partido revolucionário dos trabalhadores — independente, enraizado nas lutas concretas, armado de um programa capaz de unificar os explorados e oprimidos contra o capital e com perspectivas de se vincular aos revolucionários de todo o mundo.
Acreditamos que a indignação do povo pode se converter em ação consciente, capaz não apenas de derrubar os de cima, mas de abrir caminho para uma nova forma de poder, fundada nos interesses da maioria e na superação do capitalismo. Junte-se à OCI!
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional