Testamento de Leon Trotsky

Hoje, dia 20 de agosto de 2025, o assassinato de Leon Trotsky completa 85 anos. Um crime brutal, realizado a mando de Stalin por um agente da GPU, que tinha como objetivo não somente executar um homem, mas também apagar toda a sua história em defesa do marxismo e da classe trabalhadora – objetivo que também justificou a aniquilação de toda uma geração de revolucionários formados na escola de Outubro. Trotsky escreve, duas semanas após a tentativa de assassinato que sofreu em 24 de maio, meses antes de sua morte:

Posso, portanto, afirmar que vivo nesta terra não de acordo com a regra, mas como uma exceção à regra. Em uma época reacionária como a nossa, um revolucionário é compelido a nadar contra a corrente. Estou fazendo isso da melhor maneira que posso. A pressão da reação mundial talvez tenha se expressado de forma mais implacável no meu destino pessoal e no destino dos que me são próximos. Não vejo nisso nenhum mérito meu: é o resultado do entrelaçamento das circunstâncias históricas. Mas quando pessoas do tipo de Toledano, Laborde e outros proclamam que sou um ‘contrarrevolucionário’, posso passar calmamente por eles, deixando o veredito final à história.

Oitenta e cinco anos depois, após décadas de mentiras e falsificações fabricadas pelo regime stalinista e reforçadas pela propaganda do establishment, a verdade nunca esteve tão clara. Trotsky viveu e morreu defendendo a causa operária e combatendo a degeneração stalinista que a traiu na URSS e no mundo inteiro, traçando uma linha de sangue entre o bolchevismo e o stalinismo. Mas essa traição não a derrotou – a classe trabalhadora ainda está de pé, e, à medida que a decadência do sistema capitalista se aprofunda, a luta de classes se intensifica, aproximando cada vez mais jovens e trabalhadores do movimento revolucionário. Por isso, além de celebrar as ideias de Trotsky, é ainda mais importante que continuemos a defesa do comunismo e do bolchevismo contra qualquer tipo de assimilação com o stalinismo e que sigamos expondo as ações criminosas de Stalin durante todo o seu regime.

Hoje, dia 20 de agosto de 2025, o assassinato de Leon Trotsky completa 85 anos

Em memória de seu legado, o Museu Casa de Leon Trotsky preparou uma programação especial para os dias 20 e 21 de agosto, com a apresentação do livro Los trotskistas mexicanos. De oposiciones revolucionarias y representaciones proletarias, 1940-1976, a formação Trotsky y la cuestión judía (un recorrido histórico) entre outras atividades.

Abaixo publicamos o Testamento de Leon Trotsky, um documento que expressa a necessidade de os revolucionários manterem firmes seus princípios e ideias mesmo diante das maiores adversidades. Trotsky o conclui reafirmando sua confiança nas futuras gerações e na vitória do socialismo.

Testamento

Minha pressão alta (e ainda crescente) engana aqueles ao meu redor sobre minha real condição. Estou ativo e ainda consigo trabalhar, mas o desfecho está evidentemente próximo. Estas linhas serão tornadas públicas após minha morte.

Não vejo necessidade de refutar aqui, mais uma vez, a calúnia estúpida e vil de Stalin e de seus agentes: não há uma única mancha em minha honra revolucionária. Jamais participei, direta ou indiretamente, de quaisquer acordos ou sequer negociações nos bastidores com os inimigos da classe trabalhadora. Milhares de opositores de Stalin foram vítimas de acusações falsas semelhantes. As novas gerações revolucionárias restaurarão sua honra política e tratarão os carrascos do Kremlin como merecem.

Agradeço calorosamente aos amigos que permaneceram leais a mim nas horas mais difíceis da minha vida. Não nomeio ninguém em particular porque não posso nomear a todos.

Contudo, considero-me justificado em fazer uma exceção no caso de minha companheira, Natalia Ivanovna Sedova. Além da felicidade de ser um combatente pela causa do socialismo, o destino me deu a felicidade de ser seu marido. Durante quase quarenta anos de vida em comum, ela foi uma fonte inesgotável de amor, magnanimidade e ternura. Sofreu imensamente, especialmente no último período de nossas vidas. Mas encontro algum consolo no fato de que ela também conheceu dias de felicidade.

Durante quarenta e três anos de minha vida consciente permaneci um revolucionário; por quarenta e dois desses anos lutei sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que começar tudo de novo, tentaria, é claro, evitar este ou aquele erro, mas o curso principal da minha vida permaneceria inalterado. Morrerei como um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e, consequentemente, um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente — na verdade, é mais firme hoje do que nos dias da minha juventude.

Natasha acaba de se aproximar da janela vinda do pátio e a abriu mais para que o ar entre mais livremente no meu quarto. Posso ver a faixa de grama verde viva sob o muro, o céu azul claro acima do muro, e a luz do sol por toda parte. A vida é bela. Que as gerações futuras a libertem de todo o mal, opressão e violência — e que a desfrutem plenamente.

27 de fevereiro de 1940
Coyoacán

Todas os meus pertences, meus direitos literários (os rendimentos que produzem meus livros, artigos, etc.) serão colocados à disposição de minha esposa Natalia Ivanovna Sedova. No caso de que ambos pereçamos [o resto da página está em branco].

3 de março de 1940

A natureza de minha enfermidade é tal (pressão arterial alta e em progressão) – segundo eu a entendo – que o fim pode chegar de súbito, muito provavelmente – novamente, é uma hipótese pessoal – por um derrame cerebral. Este é o melhor fim que posso desejar. É possível, no entanto, que eu esteja equivocado (não tenho vontade de ler livros especializados sobre o tema e os médicos, naturalmente, não me dirão a verdade). Se a esclerose se prolongar e eu me visse ameaçado por uma longa invalidez (neste momento me sinto, ao contrário, cheio de energias espirituais por causa da pressão alta, mas isso não durará muito), reservo para mim o direito de decidir, por conta própria, o momento de minha morte. O “suicídio” (se é que cabe o termo neste caso) não será, de maneira alguma, a expressão de um estalo de desespero ou desalento. Natasha e eu dissemos mais de uma vez que se pode chegar a tal condição física que seja melhor interromper a própria vida ou, melhor dizendo, o processo demasiadamente lento da morte… Mas quaisquer que sejam as circunstâncias de minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro comunista. Essa fé no homem e em seu futuro me dá ainda agora uma capacidade de resistência que nenhuma religião pode outorgar.

L.T.

TRADUÇÃO DE JESSICA STOLFI.