Trotsky: homenagem nos 85 anos de seu assassinato a mando de Stalin

Nesse agosto de 2025, publicamos dois importantes textos, “A questão negra nos Estados Unidos” e “Planos para uma organização de negros” (ambos publicados originalmente no Arquivo Marxista na Internet), que mostram como Leon Trotsky tratava das questões relacionadas aos setores mais perseguidos da classe trabalhadora. Essa é uma de nossas homenagens a Trotsky, assassinado a mando de Stalin há 85 anos.

Prinkipo, Turquia

Swabeck: Nessa questão, não temos, no interior da Liga Estadunidense, diferenças perceptíveis de caráter importante, tampouco formulamos até agora um programa. Apresento, portanto, apenas visões que já desenvolvemos de maneira geral.

Como devemos encarar a posição do negro nos EUA: uma minoria nacional ou uma minoria racial? Isso é da maior importância para nosso programa.

Os stalinistas mantêm como sua principal palavra de ordem a autodeterminação para os negros e, conectado a isso, exigem um Estado separado e direitos de Estado para os negros do Cinturão Negro. A aplicação prática dessa última demanda revela um grande oportunismo. Por outro lado, reconheço que, no trabalho prático com os negros, apesar dos inúmeros erros, o Partido [Comunista] também conta com algumas conquistas. Por exemplo, nas greves têxteis do Sul, nas quais, em grande medida, a segregação racial1 foi superada.

Weisbord, pelo que entendo, está de acordo com a palavra de ordem da autodeterminação e direitos de Estado separados. Ele sustenta que é a aplicação da teoria da revolução permanente2 para os EUA.

Nós partimos de uma situação real: há aproximadamente 13 milhões de negros nos EUA; a maioria está nos estados do Sul (Cinturão Negro). Nos estados do Norte, os negros estão concentrados nas comunidades industriais como operários industriais, já no Sul, a maioria deles é camponês ou arrendatário.

Trótski: Eles arrendam do Estado ou de proprietários privados?

Swabeck: De proprietários privados, de agricultores brancos e proprietários de plantations; alguns negros possuem as terras que cultivam.

A população negra do Norte é mantida em um nível inferior – econômica, social e culturalmente; no Sul, é mantida sob as condições opressoras de Jim Crow3. Foram barrados em diversos sindicatos importantes. Durante e desde a guerra, a migração do Sul tem aumentado; é provável que cerca de quatro a cinco milhões de negros vivam agora no Norte. A população negra no Norte é majoritariamente proletária, mas também no Sul a proletarização vem crescendo.

Hoje, nenhum dos estados do Sul tem uma maioria negra. Isso coloca ênfase na intensa migração para o Norte. Nós colocamos a questão assim: os negros, em sentido político, formam uma minoria nacional ou uma minoria racial? Os negros estão completamente assimilados, americanizados, e sua vida nos EUA superou as tradições do passado, modificou-as e transformou-as. Não podemos considerar os negros como uma minoria nacional no sentido de ter sua própria língua. Eles não têm costumes nacionais particulares, uma cultura ou uma religião que sejam nacionais e particulares; tampouco têm qualquer interesse nacional minoritário em particular. Nesse sentido, é impossível falar deles como uma minoria nacional. Nossa opinião é, portanto, a de que os negros dos EUA são uma minoria racial cuja posição e interesses estão subordinados às relações de classe do país e delas dependem.

Para nós, os negros representam um importante fator na luta de classes, quase um fator decisivo. São um setor importante do proletariado. Há, ainda, uma pequena burguesia negra nos EUA, mas não tão poderosa ou com tanta influência, ou mesmo que desempenhe o papel de pequena burguesia e de burguesia entre o povo nacionalmente oprimido (colonial).

A palavra de ordem stalinista da “autodeterminação” baseia-se, principalmente, em uma estimativa dos negros estadunidenses como uma minoria nacional a ser conquistada como aliada. Para nós, a questão é a seguinte: queremos conquistar os negros como aliados em tais bases? E quem queremos conquistar, o negro proletário ou o negro pequeno-burguês? Parece-nos que, com tal palavra de ordem, conquistaremos principalmente a pequena burguesia e não devemos ter tanto interesse em conquistá-la como aliada sobre tais bases. Reconhecemos que os camponeses pobres e arrendatários são os aliados mais próximos do proletariado, mas, em nossa opinião, eles apenas podem ser conquistados com base na luta de classes. Comprometer essa questão de princípio colocaria os aliados da pequena burguesia à frente do proletariado, assim como dos camponeses pobres. Reconhecemos a existência de determinados estágios de desenvolvimento que exigem palavras de ordem específicas. Mas a palavra de ordem stalinista nos parece conduzir diretamente à “ditadura democrática do proletariado e do campesinato”4. Precisamos preparar a unidade entre os trabalhadores, negros e brancos, a partir de uma base de classe, mas nisso também é preciso reconhecer as questões raciais e, além das palavras de ordem de classe, promover, ainda, as palavras de ordem raciais. Nossa opinião a esse respeito é a de que a principal palavra de ordem deve ser “igualdade social, política e econômica para os negros”, assim como as palavras de ordem que decorram daí. Essa palavra de ordem é naturalmente bem diferente da palavra de ordem stalinista de “autodeterminação” para uma minoria nacional. Os dirigentes do Partido [Comunista] sustentam que os trabalhadores e camponeses negros podem ser conquistados apenas com base nessa palavra de ordem. De início, isso foi promovido para os negros em todo o país, mas, hoje, apenas para os estados do Sul. Nossa opinião é de que podemos conquistar os negros trabalhadores apenas com base na classe, promovendo também as palavras de ordem raciais para os estágios intermediários necessários de desenvolvimento. Acreditamos que essa seja a melhor maneira para conquistar como aliados diretos os camponeses negros pobres.

No essencial, o problema das palavras de ordem em relação à questão negra e o problema de um programa prático. Como os negros serão conquistados? Acreditamos, primariamente, em palavras de ordem raciais: igualdade com os brancos e palavras de ordem que daí decorram.

Trótski: O ponto de vista dos camaradas estadunidenses não me parece totalmente convincente. O direito à autodeterminação é uma demanda democrática. Nossos camaradas estadunidenses contrapõem a demanda liberal a essa demanda democrática. Essa demanda liberal é, além disso, complicada. Eu entendo o que “igualdade política” significa. Mas qual é o significado de igualdade econômica e social na sociedade capitalista? Significa uma demanda à opinião pública de que todos gozem da mesma proteção das leis? Mas isso é a igualdade política. A palavra de ordem “igualdade política, econômica e social” soa ambígua e, assim, falsa.

Os negros são uma raça, e não uma nação. Nações se formam a partir de um material racial sob determinadas circunstâncias. Os negros da África ainda não são uma nação, mas estão no processo de formar uma nação. Os negros dos EUA têm um nível cultural mais alto. Mas, uma vez que estão sob pressão dos estadunidenses, voltam seu interesse para o desenvolvimento dos negros da África. Os negros dos EUA vão formar líderes para a África, isso se pode dizer com certeza, e isso, em contrapartida, vai influenciar o desenvolvimento da consciência política nos EUA.

É claro que não obrigamos os negros a formar uma nação; se eles o fazem, então será uma questão de consciência deles, ou seja, o que eles desejam e pelo que lutam. Nós dizemos: se é isso que os negros querem, devemos lutar contra o imperialismo até a última gota de sangue para que eles possam conquistar o direito, onde e como quiserem, de separar um pedaço de terra para si. O fato de que hoje não sejam maioria em nenhum estado não importa. Não se trata de uma questão de autoridade dos estados, mas dos negros. Que na maior parte do território dos negros também exista e vá continuar a existir brancos não é a questão, e hoje não precisamos quebrar a cabeça com a possibilidade de que em algum momento os brancos sejam suprimidos pelos negros. Em qualquer caso, a supressão5 dos negros os instiga a uma unidade política e nacional.

Que a palavra de ordem de “autodeterminação” vai ganhar mais a pequena burguesia que os trabalhadores – esse argumento também serve bem para a palavra de ordem de igualdade. É evidente que os elementos negros que mais desempenham um papel público (empresários, intelectuais, advogados etc.) são mais ativos e reagem mais ativamente contra a desigualdade. É possível dizer que a demanda liberal, assim como a demanda democrática, vai atrair, em primeira instância, a pequena burguesia e só depois os trabalhadores.

Se a situação fosse tal que nos EUA existissem ações comuns entre trabalhadores brancos e negros, que a fraternidade de classe fosse já um fato, então, talvez, o argumento de nossos camaradas teria uma base (não estou dizendo que estaria correto); então, talvez, estaríamos separando os trabalhadores negros dos brancos se nos puséssemos a levantar a palavra de ordem da “autodeterminação”.

Mas hoje os trabalhadores brancos em relação aos negros são os opressores, patifes que perseguem os negros e os amarelos, que os desprezam e os lincham. Se os trabalhadores negros se unem com sua própria pequena burguesia é porque não estão suficientemente desenvolvidos para defender seus direitos elementares. Para os trabalhadores dos estados do Sul, a demanda liberal por direitos iguais significaria, sem dúvidas, um progresso, mas a demanda pela autodeterminação, um progresso ainda maior. Entretanto, com a palavra de ordem “direitos iguais” eles podem mais facilmente ser enganados (“de acordo com a lei, você tem igualdade”).

Quando chegarmos ao ponto de os negros dizerem “nós queremos autonomia”, então, tomarão uma posição hostil ao imperialismo estadunidense. Nesse estágio, os trabalhadores já estarão muito mais determinados do que a pequena burguesia. Os trabalhadores verão, então, que a pequena burguesia é incapaz de lutar e não leva a lugar nenhum, mas também reconhecerão que os trabalhadores comunistas brancos lutam por suas demandas e isso vai impulsioná-los, os negros proletários, em direção ao comunismo.

Weisbord está correto em certo sentido de que a autodeterminação dos negros diz respeito à questão da revolução permanente nos EUA. Os negros serão, através de seu despertar, através de sua demanda por autonomia e através da mobilização democrática de suas forças, impulsionados em direção ã questão de classe. A pequena burguesia assumirá a demanda por igualdade de direitos e por autodeterminação, mas se provará absolutamente incapaz na luta; o proletário negro vai marchar independente da pequena burguesia na direção da revolução proletária. Este é, talvez, o caminho mais importante para eles. Não vejo, portanto, razão de porque não deveríamos levar adiante a demanda por autodeterminação.

Não estou certo se os negros, também nos estados do Sul, falam sua própria língua. Agora que estão sendo linchados apenas porque são negros, naturalmente temem falar sua língua nativa; mas quando eles estiverem livres, sua língua nativa se tornará viva novamente. Gostaria de aconselhar aos camaradas dos EUA que estudem essa questão muito seriamente, incluindo a língua nos estados do Sul. Por todas essas razões, eu estaria inclinado nessa questão à perspectiva do Partido [Comunista]; é claro, com a observação de que nunca estudei essa questão e parto de considerações gerais. Estou me baseando apenas nos argumentos apresentados pelos camaradas dos EUA. Acho que são insuficientes e os considero uma certa concessão ao ponto de vista do chauvinismo estadunidense, que me parece perigosa.

O que temos a perder nessa questão quando prosseguimos com nossas demandas, assim como os negros no presente? Não vamos compeli-los a se separar do Estado, mas eles têm pleno direito à autodeterminação quando a desejarem, e os apoiaremos e os defenderemos com todos os meios à nossa disposição na conquista desse direito, assim como nós defendemos todos os povos oprimidos.

Swabeck: Admito que você apresentou argumentos poderosos, mas ainda não estou plenamente convencido. A existência de uma língua particular dos negros nos estados do Sul é possível; mas, em geral, todos os negros dos EUA falam inglês. Estão completamente assimilados. Sua religião é a batista estadunidense, e a língua em suas igrejas é igualmente o inglês.

Igualdade econômica, nós, de modo algum a entendemos no sentido da lei. No Norte (assim como, é claro, nos estados do Sul), os salários dos negros são mais baixos que os dos trabalhadores brancos e, em geral, sua jornada de trabalho é maior; ou seja, é, por assim dizer, aceito como natural. Além disso, os negros são designados para os piores postos de trabalho. É por causa dessas condições que nós exigimos igualdade econômica para o trabalhador negro.

Não contestamos o direito dos negros à autodeterminação. Não é essa a questão do nosso desacordo com os stalinistas. Mas contestamos a palavra de ordem da autodeterminação como um meio para ganhar as massas de negros. O impulso da população negra é, antes de tudo, na direção da igualdade num sentido social, político e econômico. Atualmente, o Partido [Comunista] apresenta a palavra de ordem de autodeterminação apenas para os estados do Sul. E evidente que, dificilmente se pode esperar que os negros das indústrias do Norte desejem voltar para o Sul, e não há indícios de tal desejo. Pelo contrário. Sua demanda não formulada é por igualdade social, política e econômica, com base nas condições em que vivem. Este é também o caso do Sul. E por causa disso que acreditamos ser esta a palavra de ordem importante. Não vemos os negros sob uma opressão nacional no mesmo sentido que os povos das colônias. Nossa opinião é a de que a palavra de ordem dos stalinistas tende a afastar os negros da base de classe e a apontar mais no sentido da base racial. Essa é a principal razão pela qual nos opomos a ela. Somos da crença de que a palavra de ordem de raça no sentido por nós apresentado conduz diretamente à base de classe.

Frank: Há nos EUA movimentos negros específicos?

Swabeck: Sim, vários. Primeiro, tivemos o movimento Garvey, baseado na questão da migração para a África. Teve um grande número de seguidores, mas explodiu como uma fraude. Atualmente não resta muito dele. Sua palavra de ordem era a criação de uma república negra na África. Outros movimentos negros se apoiam, principalmente, nas demandas de igualdade social e política, por exemplo, a Liga [Associação Nacional] para o Progresso de Pessoas de Cor National Association for the Advancement of Colored People (NAACP)]6. Este é um grande movimento racial.

Trótski: Eu também acredito que a demanda por direitos iguais deve permanecer, e eu não estou falando contra essa demanda. É progressista na medida em que ainda não foi realizada. A explicação do camarada Swabeck a respeito da igualdade econômica é muito importante. Mas isso, por si só, não define ainda a questão do destino dos negros como tal, a questão da “nação”, etc. De acordo com os argumentos dos camaradas dos EUA, poderia se dizer, por exemplo, que a Bélgica também não tem direitos como “nação”. Os belgas são católicos e uma grande parte deles fala francês. E se a França os anexasse com tal argumento? Também os suíços, através de sua conexão histórica, se percebem, apesar das diferentes línguas e religiões, como uma só nação. Um critério abstrato não é decisivo nessa questão, muito mais decisiva é a consciência histórica, seus sentimentos e impulsos. Mas isso também não é determinado acidentalmente, mas por condições gerais. A questão da religião não tem absolutamente nada a ver com essa questão do caráter nação. A religião batista do negro é completamente diferente do batismo dos Rockefeller. Trata- se de duas religiões diferentes.

O argumento político que rejeita a demanda por “autodeterminação” é doutrinarismo. Isso é o que sempre ouvimos na Rússia em relação à questão da “autodeterminação”. As experiências russas nos mostraram que os grupos que vivem na condição camponesa conservam peculiaridades, seus costumes, sua língua, etc., e dada a oportunidade eles as desenvolvem novamente.

Os negros ainda não despertaram e ainda não estão unidos aos trabalhadores brancos. Noventa e nove por cento dos trabalhadores estadunidenses são chauvinistas, em relação aos negros eles são carrascos, assim como o são para os chineses, etc. E necessários fazê-los entender que o Estado dos EUA não é o Estado deles e que eles não precisam ser os guardiões desse Estado. Os trabalhadores estadunidenses que dizem: “os negros devem se separar se assim o desejarem, e nós os defenderemos contra a polícia de nosso país” – estes são revolucionários, e eu confio neles.

O argumento de que a palavra de ordem da autodeterminação afasta da questão de classe é uma adaptação à ideologia dos trabalhadores brancos. O negro pode avançar para um ponto de vista de classe apenas quando o trabalhador branco estiver formado. No geral, a questão dos povos das colônias é, em primeira instância, uma questão de desenvolvimento do trabalhador metropolitano.

O trabalhador estadunidense é indescritivelmente reacionário. Isso pode ser visto no fato de que ainda não está convencido nem mesmo da ideia de seguridade social. Por conta disso, os comunistas estadunidenses são obrigados a promover demandas por reformas.

Hoje em dia, os negros não exigem autodeterminação, isso acontece, naturalmente, pelo mesmo motivo que os trabalhadores negros ainda não levantam a palavra de ordem da ditadura do proletariado. O negro ainda não entendeu que pode ousar tomar para si um pedaço dos grandes e poderosos EUA. Mas os trabalhadores brancos devem encontrar os negros no meio do caminho e dizer: “quando você quiser se separar você terá nosso apoio”. Os trabalhadores tchecos vieram também para o comunismo apenas através da desilusão com seu próprio Estado.

Acredito que, pelo inédito atraso político e teórico e o inédito avanço econômico, o despertar da classe trabalhadora vai se desenvolver rapidamente. A velha cobertura ideológica vai explodir, todas as questões surgirão de uma só vez e, como o país está tão economicamente maduro, a adaptação do nível político e teórico ao nível econômico vai ser alcançada muito rapidamente. É possível, portanto, que os negros se tornem o setor mais avançado. Nós já temos um exemplo parecido, na Rússia. Os russos são os negros da Europa. E bem provável que por meio da autodeterminação os negros avancem a passos largos para a ditadura do proletariado, à frente do grande bloco de trabalhadores brancos. Então, eles estarão na vanguarda. Estou absolutamente convencido de que, de qualquer forma, lutarão melhor que os trabalhadores brancos. Isso, no entanto, só pode acontecer se o Partido Comunista levar adiante uma luta inflexível e implacável, não contra as supostas possessões nacionais dos negros, mas contra os preconceitos colossais dos trabalhadores brancos, sem dar-lhes nenhuma concessão.

Swabeck: Então, sua opinião é que a palavra de ordem de autodeterminação será um meio de colocar os negros em movimento contra o imperialismo dos EUA?

Trótski: Naturalmente, dessa forma, os negros podem criar seu próprio Estado a partir dos poderosos EUA, e com o apoio dos trabalhadores brancos sua consciência se desenvolve enormemente.

Os reformistas e os revisionistas escreveram um tratado sobre o efeito de o capitalismo estar conduzindo um trabalho civilizatório na África, e se os povos da África forem deixados de lado, serão os mais explorados pelos empresários, etc., muito mais que agora, quando têm ao menos alguma medida de proteção legal.

Até certo ponto, esse argumento pode estar correto. Mas, nesse caso, é também uma questão primária dos trabalhadores europeus: sem sua emancipação, a verdadeira emancipação das colônias também não é possível. Se o trabalhador branco desempenha o papel de opressor, ele não pode se emancipar, menos ainda os povos das colônias. O direito à autodeterminação dos povos das colônias pode levar, em certos momentos, a diferentes resultados; em última instância, contudo, levará à luta contra o imperialismo e à libertação dos povos das colônias.

Antes da guerra [Primeira Guerra Mundial], a social-democracia austríaca (em particular, [Karl] Renner) também colocou a questão das minorias nacionais de maneira abstrata. Eles argumentaram igualmente que a palavra de ordem da autodeterminação apenas afastaria os trabalhadores do ponto de vista de classe c que economicamente esses estados minoritários não poderiam existir de forma independente. Essa maneira de colocar a questão foi correta ou falsa? Foi abstrata. Os sociais-democratas austríacos disseram que as minorias nacionais não eram nações. E o que vemos hoje? As partes separadas [do antigo Império Austro-Húngaro] existem, muito precariamente, pode estar certo, mas existem. Na Rússia, os bolcheviques sempre lutaram pela autodeterminação das minorias nacionais, incluindo o direito à separação completa. E, no entanto, alcançando a autodeterminação, esses grupos permaneceram na União Soviética. Se a social-democracia austríaca tivesse aceitado mais cedo uma política correta nessa questão, teriam dito aos grupos de minorias nacionais: “vocês têm todo o direito à autodeterminação, não temos interesse em mantê-los nas mãos da monarquia de Habsburgo”7 – então teria sido possível, depois da revolução, criar uma grande federação do Danúbio. A dialética do desenvolvimento mostra que, onde o centralismo rígido existia, o Estado se fragmentou, e onde a completa autodeterminação foi promulgada, um Estado real emergiu e permaneceu unido.

A questão negra é de enorme importância para os Estados Unidos da América. A Liga deve empreender uma discussão séria sobre essa questão, possivelmente em um boletim interno.

  1. No original, “color line”, “linha de cores”, literalmente. Trata-se de expressão que se refere à segregação racial existente nos EUA antes da abolição da escravatura. Amplamente usada no jornalismo e em textos académicos e não académicos, ganhou fama após William Edward Burghardt Du Bois usá-la em seu livro The Souls of Black Folk (As almas do povo negro]. (N.T.). ↩︎
  2. Referência à teoria da revolução permanente de Leon Trótski. ↩︎
  3. Referência às Leis de Jim Crow. Cf. “índice de nomes e referências” neste volume. ↩︎
  4. Os stalinistas usaram o termo nos anos de 1920 e 1930 para justificar seu apoio a certas forças burguesas, especialmente no extremo Oriente. Declaravam que uma vitória de Chian Kai-shek na segunda revolução chinesa (1925-1927) resultaria em uma “ditadura democrática do proletariado e do campesinato”. A vitória de Chiang Kai-shek, de fato, acabou por constituir uma ditadura contrarrevolucionário burguesa-militar que suprimiu os trabalhadores e os camponeses até que fosse derrubado em 1949 (N.E.O.). ↩︎
  5. Aqui, possivelmente, a palavra mais adequada seja “opressão”, contudo, optou-se por seguir as publicações originais adotadas para esta edição (N.T.). ↩︎
  6. A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas Não Brancas (em inglês: National Association for the Advancement of Colored People, NAACP) foi organizada em 1909 por liberais, social-democratas e civis libertários, incluindo W.E.B. Du Bois. (N.E.O.). ↩︎
  7. Trata-se de uma família de príncipes alemães que reinou sobre a Áustria do século XIII até que foram derrubados pela revolução de 1918, que colocou fim na Primeira Guerra Mundial. ↩︎

Coyoacán, México

James: As sugestões para o partido de trabalhadores estão nos documentos e não há necessidade de se debruçar sobre eles. Proponho que seja considerada pelo Comitê Político [SWP] a ideia de um número especial para a New International [Nova Internacional] sobre a questão negra. É urgente a necessidade de um panfleto escrito por alguém familiar com as tratativas do PC sobre a questão negra e relacionando-as à Internacional Comunista e sua degeneração. Isso seria um trabalho teórico preliminar para a organização do movimento negro e o trabalho do próprio partido junto aos negros. O que não é necessário é um panfleto lidando de modo geral com as dificuldades dos negros e afirmando que, em geral, negros e brancos devem se unir. Seria outra coisa de uma longa lista.

A organização dos Negros

Teórica

1. O estudo da história dos negros e da propaganda histórica deve ser:

        a. Emancipação dos negros em São Domingos relacionada à Revolução Francesa.

        b. Emancipação dos escravos no Império Britânico relacionada à Lei da Reforma Britânica de 1832.

        c. Emancipação dos negros nos Estados Unidos relacionada à Guerra Civil dos EUA. Isso leva naturalmente à conclusão de que a emancipação dos negros nos Estados Unidos e no exterior está relacionada à emancipação da classe branca trabalhadora.

        d. As raízes econômicas da discriminação racial.

        e. Fascismo.

        f. A necessidade de autodeterminação dos povos negros na África e uma política similar na China, Índia, etc.

        N.B.: o partido deveria produzir um estudo teórico da revolução permanente e os povos negros. Deve ser em um estilo muito diferente do panfleto sugerido anteriormente. Não deveria ser uma polêmica com o PC, mas uma análise política e econômica positiva, mostrando que o socialismo é o único caminho e tratando a teoria definitivamente no mais alto nível. Isso, no entanto, deve partir do partido.

        2. Uma análise escrupulosa e uma exposição da situação econômica dos negros mais pobres e o modo como isso retarda não apenas os próprios negros, mas toda a comunidade. Levar aos próprios negros uma descrição elaborada de sua condição por meio de diagramas simples, ilustrações, gráficos, etc. é de máxima importância.

        Teoria – Meios de organização

        1. Jornais semanais e panfletos da organização dos negros.

        2. Estabelecer a International African Opinion [Opinião Africana Internacional] como uma revista teórica mensal, financiada até certo ponto a partir dos Estados Unidos, dobrar seu tamanho atual e, após alguns meses, entrar de forma ousada na discussão do socialismo internacional, enfatizando o direito à autodeterminação, tomando o cuidado de mostrar que o socialismo será decisão dos próprios estados negros com base em sua própria experiência. Chamar uma participação internacional de todas as organizações do movimento operário, intelectuais negros, etc. Espera-se que o camarada Trótski possa participar disso. Essa discussão sobre socialismo não deve fazer parte do jornal de agitação semanal.

        Organizativa

        1. Convocar um pequeno grupo de negros e de brancos, se possível: quarta-internacionalistas, lovestonistas, — revolucionários sem partido — esse grupo deve ter clareza sobre (a) a questão da guerra e (b) o socialismo. Não podemos começar colocando uma questão abstrata como socialismo ante os trabalhadores negros. Me parece que não podemos promover confusão no que diz respeito a essa questão na direção; pois é desta questão que depende toda a orientação da nossa política cotidiana. Nós tentaremos remendar o capitalismo ou destruí-lo? Na questão da guerra não pode haver desacordos. O Secretariado tem uma posição e essa deve ser a base para a nova organização.

          Programa

          1. Uma cuidadosa adaptação do programa das demandas transitórias, com ênfase nas demandas por igualdade. Isso é tudo o que pode ser dito no momento.

            Etapas práticas

            1. Escolher, após um estudo cuidadoso, um sindicato onde a discriminação afeta um número grande de negros e onde exista a possibilidade de sucesso. Mobilizar uma campanha nacional com todos os meios possíveis de frente única: AFL, CIO, SP, SWP, igrejas negras, organizações burguesas, etc, numa tentativa de acabar com essa discriminação. Essa deve ser a primeira campanha, para mostrar claramente que a organização está lutando como uma organização de negros, mas que não tem nada a ver com o garveyismo.

            2. Construir uma organização nacional por moradia para os negros e contra os altos preços dos aluguéis, buscando atrair mulheres para a militância.

            3. A discriminação em restaurantes deve ser combatida por meio de uma campanha. Um número de negros em qualquer região vai a um restaurante em grupo, pedindo, por exemplo, um café e recusando-se a sair até que sejam servidos. É possível que se passe o dia inteiro ali sentado de modo ordeiro e jogar para a polícia a necessidade de remover os negros. Uma campanha a ser construída em torno dessa ação.

            4. A questão da organização dos empregados(as) dos serviços domésticos é muito importante e, apesar de difícil, uma investigação minuciosa deve ser feita.

            5. Desemprego entre os negros – embora aqui seja necessário ter muito cuidado para evitar a duplicação de organizações; e este é provavelmente o papel do partido.

            6. A organização dos negros deve considerar a Organização dos Meeiros do Sul como sua. Deve fazer dela uma das bases para a solução da questão negra no Sul, popularizar o seu trabalho, seus objetivos, suas possibilidades no Leste e no Oeste, tentar influenciá-la numa direção mais militante; convidar seus porta-vozes; urge tomar uma atitude contra os linchamentos; e sensibilizar toda a comunidade negra e a branca de sua importância na luta regional e nacional.

            Orientação política

            1. Iniciar a luta militante contra o fascismo e garantir que os negros estejam sempre à frente de qualquer manifestação ou atividade contra o fascismo.

            2. Insistir na impossibilidade de que qualquer ajuda venha dos partidos Republicano ou Democrata. Os negros devem impulsionar seus próprios candidatos com um programa da classe trabalhadora e formar uma frente única apenas com aqueles candidatos cujo programa se aproxime do seu.

            Organização interna

            As unidades locais dedicarão a essas questões de acordo com a urgência da situação local e das campanhas nacionais planejadas de forma central. Estas só poderão ser decididas após estudos.

            a. Começar com uma campanha em larga escala por fundos para estabelecer um jornal e, pelo menos, duas sedes — uma em Nova York e uma em alguma cidade como St. Louis, a curta distância do Sul.

            b. Um jornal de agitação semanal que custe dois centavos.

            c. O objetivo deve ser ter rapidamente ao menos cinco revolucionários profissionais — dois em Nova York, dois em St. Louis (?) e um constantemente viajando a partir do centro. Uma turnê nacional no outono, depois que o jornal estiver estabelecido, e um rascunho programático e objetivos estabelecidas. Uma conferência nacional no verão.

            d. Buscar um militante negro da África do Sul para uma turnê por aqui o mais rápido possível. Há pouca dúvida de que isso possa ser facilmente arranjado.

            Os membros do partido na organização formarão uma fração, e todos os documentos importantes submetidos pela fração à organização dos negros deve ser ratificado pelo Comitê Político ou seus representantes designados.

            Curtiss: A respeito de abrir a discussão sobre o socialismo no boletim [o periódico teórico proposto], mas excluindo-a, ao menos por um tempo, do jornal semanal: me parece que isso é um pouco perigoso. Acaba caindo na ideia de que o socialismo é para intelectuais e para a elite, mas que as pessoas de baixo só devem se interessar pelos assuntos comuns e do cotidiano. O método deve ser diferente em ambos os lugares, mas acho que deve ter, pelo menos, um direcionamento em relação ao socialismo no jornal semanal, não apenas do ponto de vista das questões do dia a dia, mas, ainda, no que costumamos chamar de discussão abstrata. Isso é uma contradição — o jornal de massas teria que tomar uma posição clara sobre a questão da guerra, mas não sobre o socialismo. É impossível fazer o primeiro sem o segundo. É uma forma de “economicismo” que os trabalhadores devam se interessar pelas questões cotidianas, mas não pelas teorias do socialismo.

            James: Eu vejo as dificuldades e a contradição, mas tem algo que não consigo ver muito bem — se queremos construir um movimento massivo, não podemos mergulhar numa discussão sobre o socialismo, porque acho que isso causaria mais confusão do que faria ganhar apoio. O negro não tm interesse pelo socialismo. Pode ser conduzido ao socialismo com base em suas experiências concretas. Caso contrário, teríamos que formar uma organização de negros socialistas. Acho que devemos apresentar um programa mínimo, um programa concreto. Concordo que não devemos colocar o socialismo como algo distante no futuro, mas o que estou tentando evitar são longas discussões sobre o marxismo, a Segunda Internacional, a Terceira Internacional, etc.

            Lankin: Essa organização abriria as portas para negros de todas as classes?

            James: Sim, com base em seu programa. Os negros burgueses podem entrar para ajudar, mas apenas com base no programa da organização.

            Lankin: Eu não consigo ver como a burguesia negra pode ajudar o proletariado negro a lutar pelo seu avanço econômico.

            James: Em nosso movimento, alguns de nós são pequeno-burgueses. Se um burguês negro é excluído de uma universidade por conta de sua cor, essa organização provavelmente vai mobilizar as massas a lutar pelos direitos do estudante negro burguês. A ajuda para a organização será mobilizada com base em seu programa e não poderemos excluir nenhum negro dela se ele estiver disposto a lutar por aquele programa.

            Trótski: Acredito que a primeira questão é a atitude do Partido Socialista dos Trabalhadores [SWP] em relação aos negros. É bastante inquietante descobrir que até agora o Partido não fez quase nada nesse campo. Não publicou um livro, um panfleto, um folheto, nem mesmo um artigo na New International. Dois camaradas que compilaram um livro sobre a questão, um trabalho sério, continuam isolados. Esse livro não foi publicado, nem mesmo há citações dele publicadas. Isso não é um bom sinal. É um mau sinal. O que caracterizava os partidos de trabalhadores nos EUA, as organizações sindicais e assim por diante era seu caráter aristocrático. Esta é a base do oportunismo. Os trabalhadores qualificados que se sentem inseridos na sociedade capitalista ajudam a classe burguesa a manter os negros e os trabalhadores não qualificados em uma escala muito baixa. Nosso partido não está a salvo da degeneração se continuar a ser um lugar para intelectuais, semi-intelectuais, trabalhadores qualificados e trabalhadores judeus que se mantêm quase isolados das massas genuínas. Sob essas condições, nosso partido não pode se desenvolver; vai se degenerar.

            Precisamos manter esse grande perigo diante dos nossos olhos. Muitas vezes propus que cada membro do partido, especialmente os intelectuais e semi-intelectuais que, em um período, digamos, de seis meses, não consigam ganhar um trabalhador para o partido deveriam ser rebaixados à posição de simpatizantes. Podemos dizer o mesmo em relação à questão negra. As antigas organizações, começando pela AFL, são as organizações da aristocracia operária. Nosso partido faz parte do mesmo meio e não das massas exploradas na base, entre as quais os negros são os mais explorados. O fato de que nosso partido até agora não se voltou para a questão negra é um sintoma muito inquietante. Se a aristocracia operária é a base do oportunismo, uma das fontes de adaptação à sociedade capitalista, então as camadas mais oprimidas e discriminadas são as mais dinâmicas da classe trabalhadora.

            Precisamos dizer aos elementos negros conscientes que eles estão convocados, pelo desenvolvimento histórico, a se tornarem vanguarda da classe trabalhadora. O que serve de freio nas camadas mais altas? Os privilégios, os confortos que os impedem de se tornar revolucionários. Isso não existe para os negros. O que pode transformar uma certa camada, fazendo-a mais capaz de coragem e sacrifício? Isso está concentrado nos negros. Se nós, no SWP, não formos capazes de encontrar o caminho em direção a essa camada, então, não teremos valor algum. A revolução permanente e todo o resto será apenas uma mentira.

            Nos Estados Unidos, nós temos agora várias disputas. Competição para ver quem vai vender mais jornais, e assim por diante. Isso é muito bom. Mas precisamos estabelecer uma competição mais séria – a captação de trabalhadores e, especialmente, de trabalhadores negros. Até certo ponto, isso independe da criação de uma organização especial de negros.

            Acredito que o partido deve usar a permanência temporária do camarada James nos EUA (a turnê foi necessária para que ele se familiarizasse com as condições), mas agora para os próximos seis meses, para trabalho organizativo e político de bastidores a fim de evitar atrair muita atenção das autoridades. Um programa de seis meses pode ser elaborado para a questão negra, para o caso de James ser obrigado a retornar à Grã-Bretanha por razões pessoais ou sob pressão da polícia. Antes de meio ano de trabalho teremos uma base para o movimento negro e um núcleo sério de negros e brancos trabalhando juntos nesse plano. Trata-se de uma questão da vitalidade do partido. É uma questão importante. Refere-se a se o partido vai se tornar uma seita ou se será capaz de encontrar seu caminho para acamada mais oprimida da classe trabalhadora.

            Propostas ponto a ponto

            1. Panfleto sobre a questão negra e os negros no PC, relacionando isso à degeneração do Krêmlin.

            Trótski: Bom. E, também, talvez não seria bom mimeografar esse livro, ou partes dele, e enviar junto a outros materiais sobre a questão às várias seções do partido para discussão?

            1. Um número da New International sobre a questão negra.

            Trótski: Acredito que isso é absolutamente necessário.

            Owen: Me parece perigoso lançar um número sobre a questão negra antes de ter uma organização negra capaz de garantir sua distribuição.

            James: Não é planejado primordialmente aos negros. É planejado para o próprio partido e demais leitores da revista teórica.

            1. O uso da história dos próprios negros para formá-los.

            Acordo geral

            1. Um estudo sobre a revolução permanente e a questão negra.

            Acordo geral

            1. A questão do socialismo — ou trazemos pelo jornal ou pelo boletim [o periódico teórico proposto].

            Trótski: Eu não acho que possamos começar excluindo o socialismo da organização. Você propõe uma organização ampla, um tanto heterogênea, que vai inclusive aceitar pessoas religiosas. Isso poderia significar que se um trabalhador, um camponês, ou um comerciante negro faz um discurso na organização afirmando que a única salvação para os negros é a igreja, seremos tolerantes demais para expulsá-lo e, ao mesmo tempo, tão sábios para não o deixarmos advogar a religião, mas nós mesmos não vamos advogar o socialismo. Se entendermos o caráter desse meio social, adaptemos a ele a apresentação das nossas ideias. Seremos cautelosos; mas amarrar nossas mãos de saída – dizer que não introduziremos a questão do socialismo por ser um tema abstrato – não é possível. Uma coisa é apresentar um programa socialista geral; outra coisa é estar muito atento às questões concretas das vidas dos negros e opor o capitalismo ao socialismo nessas questões. Uma coisa é aceitar um grupo heterogêneo e trabalhar com ele, outra coisa é ser absorvido por ele.

            James: Concordo bastante com o que você está dizendo. O que tenho medo é de levar adiante um socialismo abstrato. Você vai lembrar que eu disse que o grupo dirigente precisa entender precisamente o que está fazendo e aonde está indo. Mas que a formação socialista das massas deve emergir das questões cotidianas. Estou ansioso apenas em evitar que as coisas se desenvolvam em uma discussão interminável. A discussão deve ser livre e plena através do órgão teórico.

            No que diz respeito à questão do socialismo, no órgão de agitação, minha opinião é que a organização deve definitivamente se estabelecer a partir do trabalho com o cotidiano dos negros de forma que as massas de negros possam se envolver com este antes de se envolver nas discussões sobre o socialismo. Embora, é claro, um indivíduo possa levantar quaisquer pontos que deseje e apontar sua solução para os problemas dos negros, a questão é se aqueles que estão dirigindo a organização como um todo devem começar falando em nome do socialismo. Acho que não. É importante lembrar que aqueles que tomam a iniciativa devem ter algum acordo comum quanto às questões fundamentais da política hoje, de outra forma, haverá grandes problemas à medida que a organização se desenvolva. Mas, embora estes, como indivíduos, tenham o direito de apresentar seu ponto de vista particular na discussão geral, ainda assim a questão é se eles devem falar como um corpo de socialistas desde o início, e na minha visão pessoal não devem.

            Trótski: No órgão teórico, você pode ter discussão teórica, e no órgão de massas, uma discussão política de massas. Você diz que eles estão contaminados pela propaganda capitalista. Diga a eles, “Vocês não acreditam no socialismo. Mas vocês verão que, nos combates, os membros da Quarta Internacional não apenas estarão com vocês como serão, provavelmente, os mais militantes.” Eu chegaria ao ponto de que todos os nossos oradores terminassem seus discursos dizendo: “Meu nome é Quarta Internacional!” Eles verão que nós somos os lutadores, enquanto aqueles que pregam a religião, no momento crítico, vão para a igreja em vez do campo de batalha.

            1. Os grupos organizadores e indivíduos da nova organização devem estar em completo acordo sobre a questão da guerra.

            Trótski: Sim, é a questão mais importante e a mais difícil. O programa pode ser muito modesto, mas, ao mesmo tempo, deve permitir a todos liberdade de expressão em seus discursos, e assim por diante; o programa não deve ser o limitador da nossa atividade, mas apenas nossa obrigação comum. Todos devem ter o direito de ir além, mas todos são obrigados a defender o mínimo. Veremos como esse mínimo será cristalizado à medida que avançamos nas primeiras etapas.

            1. Uma campanha em alguma indústria pelos negros.

            Trótski: Isso é importante. Isso trará conflito com alguns trabalhadores brancos que não vão querer. É uma mudança dos elementos trabalhadores mais aristocráticos para os elementos das camadas mais baixas. Atraímos para nós algumas das camadas mais altas dos intelectuais quando eles sentiram que precisávamos de proteção: Dewey, LaFollete, etc. Agora que estamos empreendendo um trabalho sério eles estão nos deixando. Acredito que perderemos mais duas ou três camadas e penetraremos mais profundamente nas massas. Essa será a pedra de toque.

            1. Campanha de habitação e aluguel.

            Trótski: É absolutamente necessário.

            Curtiss: Também funciona muito bem com nossas demandas de transição.

            1. Manifestação em restaurantes.

            Trótski: Sim, e conferir-lhe um caráter ainda mais militante. Poderia haver piquete do lado de fora para chamar atenção e explicar o que está acontecendo.

            1. Empregados(as) dos serviços domésticos.

            Trótski: Sim, eu acredito que isso é muito importante; mas acho que há uma consideração a priori de que muitos desses negros trabalham para pessoas ricas e estão desmoralizados e foram transformados em criados moraiscriadagem moral. Mas há outros, uma camada maior, e a questão é ganhar aqueles que não são tão privilegiados.

            Owen: Este é um ponto sobre o qual eu gostaria de intervir. Há alguns anos eu morava em Los Angeles, perto de um setor de negros – um que ficava separado dos outros. De negros que eram os mais prósperos. Perguntei sobre o trabalho deles e os próprios negros me disseram que eram criados – muitos deles em casas da movie colony6. Me surpreendeu o fato de haver criados nos altos estratos. Essa colônia de negros não era pequena; consistia de algumas milhares de pessoas.

            James: É verdade. Mas se você é sério, não é difícil chegar às massas negras. Eles vivem juntos e se sentem juntos. Essa camada de negros privilegiados é menor que qualquer outra camada. Os brancos lhes tratam com tal desprezo, que, apesar de si mesmos, estão mais próximos dos outros negros do que você pensa. Nas Índias Ocidentais, por exemplo, há grandes divisões entre os negros – determinadas classes de negros não confraternizam com outra classe. Mas isso não é verdade aqui. Aqui, são mantidos em guetos.

            1. Mobilizar os negros contra o fascismo.

            Acordo geral

            1. A relação dos negros com o Partido Republicano e o Partido Democrata.

            Trótski: Quantos negros há no Congresso? Um. Existem 440 membros na Câmara dos Deputados e 96 no Senado. Então, se os negros tiverem quase 10% da população, eles têm direito a 50 membros, mas têm só um. É uma imagem clara da desigualdade política. Nós podemos , com frequência, opor um candidato negro a um candidato branco. Essa organização de negros pode sempre dizer: “Nós queremos um negro que conheça nossos problemas”. Isso pode ter consequências importantes.

            Owen: Me parece que o camarada James ignorou uma parte muito importante do nosso programa — o de um partido trabalhista.

            Johnson: A região de maioria negra quer apresentar um candidato negro. Dizemos-lhes que não devem se apresentar apenas como negros, mas ter um programa adequado às massas negras pobres. Eles não são estúpidos e eles podem entender isso e isso deve ser encorajado. Os trabalhadores brancos colocam um candidato trabalhista em outra seção. Então dizemos aos negros na região de maioria branca: “Apoie esse candidato porque suas demandas são boas demandas dos trabalhadores”. E dizemos aos trabalhadores brancos na região negra: “Você deve apoiar o candidato negro, porque, além de negro, você pode ver que o programa dele é eficaz para toda a classe trabalhadora”. Isso significa que os negros têm a satisfação de ter seus próprios candidatos em regiões onde eles são maioria e, ao mesmo tempo, construímos a solidariedade operária. Isso se encaixa no programa do partido trabalhista.

            Carlos: Isso não se aproxima da Frente Popular7, votar em um negro só por que é negro?

            James: Essa organização tem um programa. Quando os democratas colocam um candidato negro, dizemos: “De maneira alguma. Precisa ser um candidato com um programa que possamos apoiar”.

            Trótski: Isso é uma questão de outra organização pela qual não somos responsáveis, assim como eles não são responsáveis por nós. Se essa organização apresenta um certo candidato, e nós como partido achamos que devemos apresentar o nosso próprio candidato em oposição, temos pleno direito de fazê-lo. Se somos fracos e não conseguimos que a nossa organização escolha um revolucionário, e eles escolhem um negro democrata, podemos até retirar nosso candidato com uma declaração concreta de que estamos nos abstendo de concorrer não contra um democrata, mas contra um negro. Consideramos que a candidatura do negro em oposição à candidatura do branco, mesmo que ambos sejam do mesmo partido, é um fator importante na luta dos negros por igualdade; e neste caso podemos apoiá-los criticamente. Acredito que em certos casos isso pode ser feito.

            1. Um negro da África do Sul ou Ocidental para uma turnê pelos Estados Unidos.

            Trótski: O que ele ensinará?

            James: Tenho em mente vários jovens negros, e qualquer um destes poderá transmitir uma imagem anti-imperialista e antiguerra nítida. Acho que seria muito importante para construir uma compreensão do internacionalismo.

            1. Submeter documentos e planos ao Comitê Político.

            Acordo geral

            James: Concordo com sua postura sobre o trabalho do partido em conexão com os negros. Eles são uma força tremenda e dominarão o conjunto dos estados do Sul. Se o partido se mantiver aqui, a revolução está ganha nos Estados Unidos. Nada pode pará-la.