Na noite de 21 de novembro, durante o Pré-Encontro Fora o Imperialismo e Suas Guerras, os camaradas Flávia Antunes e Chico Aviz fizeram intervenções em nome do Movimento Negro Socialista (MNS) sobre o significado do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, para a luta antirracista.
Suas falas, apresentadas na íntegra abaixo, reafirmam que o racismo é produto do capitalismo, que inventou as raças humanas para dividir e intensificar a exploração dos trabalhadores. Do sequestro e da desumanização de africanos e indígenas à violência policial e ao encarceramento em massa que hoje recaem majoritariamente sobre jovens e trabalhadores negros, segue evidente que o Estado burguês opera para reproduzir essa opressão. O caso de Mumia Abu-Jamal e as recentes chacinas no Rio de Janeiro são expressões claras dessa engrenagem.
Recuperando elementos históricos e políticos, Flávia e Chico também destacaram que nenhuma representatividade pode transformar as instituições burguesas em defensoras do proletariado. Chico enfatizou o papel das revoltas que impulsionaram a abolição e resgatou Zumbi dos Palmares como símbolo máximo da resistência negra, não como figura mítica, mas como um “Espártaco brasileiro”, cuja luta organizada confrontou a conciliação representada por Ganga Zumba. Assim, as falas abaixo reforçam a compreensão marxista de que ser antirracista é ser anticapitalista.
Nunca existiu capitalismo sem racismo!
Exatamente porque o capitalismo utiliza o racismo para seu desenvolvimento e sobrevivência, é preciso que, cada vez mais, a gente reafirme a interdependência incontestável das faces dessa moeda. O racismo não é um fenômeno à margem do capitalismo, mas uma das engrenagens desse modo de produção.
A característica de hierarquizar grupos de pessoas para promover a exploração e a expropriação é uma prática que vai se iniciar na Europa com a escravidão mercantil e o colonialismo e se manter sob a fase superior do capitalismo, o imperialismo.
Mesmo que mude o discurso, a verdade é que a democracia burguesa nunca garantiu aos negros os direitos prometidos, apenas a subjugação e as práticas racistas.
É impressionante que o conceito de raça do século XVIII, que justificou a exploração do trabalho não pago e a desumanização de africanos e indígenas, continue promovendo e reforçando, ainda hoje, divisões racializadas do trabalho, o encarceramento e a morte (especialmente sobre a população negra e aqueles que ousam denunciar e se opor a um nível de repressão insustentável).
E aqui nós devemos saudar a luta e o combate do líder sindical e metalúrgico Santo Dias, morto pela PM em um piquete da greve da Silvania durante a ditadura militar em 1979.
Saudamos também e reivindicamos a liberdade de Mumia Abu-Jamal, ex-membro do Partido Panteras Negras, que combateu o imperialismo, a justiça burguesa e o racismo. Mumia permanece prisioneiro político, negligenciado pelos médicos, com saúde altamente frágil, com pena de prisão perpétua há mais de 40 anos, como forma exemplar da repressão estatal dos EUA contra os movimentos de libertação negra.
Esses são apenas dois exemplos de como o racialismo e o racismo servem para enfraquecer e dividir a organização da classe trabalhadora. E essa prática tem garantido uma fonte excedente de mão de obra barata aos capitalistas não só nativos, mas, fundamentalmente, aos imperialistas.
Como produtos de primeira linha, o capitalismo oferece para o trabalhador e para a juventude negra as piores condições de vida e trabalho: a informalidade, a marginalidade, o desemprego, o crime e a repressão ostensiva… E esses são frutos diretos da ausência planejada do Estado burguês.
De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, só no ano passado, 86% das vítimas mortas pela polícia eram negras, entre elas crianças e jovens entre 12 e 29 anos… No Brasil, uma pessoa negra tem até 6 vezes mais chances de ser morta pela polícia do que uma pessoa branca… É da barbárie que se trata, camaradas! É da necessidade de exigir o fim da Polícia Militar!
Há algumas semanas, o Brasil televisionou para o mundo a chacina promovida pelo governo e pelo aparato policial e repressivo do Rio de Janeiro, que, além de matar pessoas ligadas ao crime organizado, demonstrou mais uma vez o caráter permanente de ataque e controle da população pobre, negra, branca e mestiça da classe trabalhadora.
Como comunistas, nosso papel é, cada vez mais, discutir com a nossa classe que há um horizonte para além da cova, especialmente para a juventude negra, e que o combate organizado contra o capitalismo só existe sob a perspectiva da classe trabalhadora.
Não há representatividade de cor, gênero ou credo que converta a polícia, o parlamento e a justiça burguesa em instituições que defendam o proletariado, essencialmente porque não foram criadas para isso.
- Ser antirracista é ser anti-imperialista e anticapitalista!
- Viva a unidade internacional da classe trabalhadora!
Flávia Antunes
Joinville, 21 de novembro de 2025
Intervenção em homenagem à Zumbi
O 20 de Novembro no Brasil não é uma data qualquer. Assim como o 1° de Maio internacional, seu significado é carregado da luta do proletariado em um país semi-colonial. Com a maioria negra, somos uma classe trabalhadora com uma história de grandes revoltas e rebeliões que conquistaram a abolição da escravidão no 13 de maio de 1888 e os direitos civis que lutamos diariamente para manter sob o imperialismo e uma burguesia nativa sócia-menor do capital estrangeiro.
O colonialismo europeu e, depois, o imperialismo norte-americano construíram aqui uma economia baseada na escravidão negra, indígena e na intensa exploração dos trabalhadores brancos. Mesmo a abolição da escravatura foi precedida por medidas do Estado que impediam os negros libertos de receberem propriedade, como a Lei de Terras de 1850. Com a abolição, essa condição não se alterou, o que explica a obrigatoriedade dos ex-escravizados e seus descendentes terem apenas como saída os bolsões de miséria nas periferias das cidades, buscando qualquer tipo de trabalho e moradia para sobreviver.
É essa massa de trabalhadores sem absolutamente nada, além da sua própria força de trabalho, que forma o desenvolvimento da estrutura econômica e social brasileira. Contra essa estrutura temos como símbolo de luta o 20 de novembro. Nele rememoramos o dirigente Zumbi dos Palmares, executado em 1695 à mando da Coroa pelo mercenário Domingos Jorge Velho, justamente pelo papel histórico que desempenhou.
Como ensinou Plekhanov: “O grande homem é […] dotado de particularidades que o tornam o indivíduo mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época, surgidas sob a influência de causas gerais e particulares”. Zumbi foi esse indivíduo. Ele emergiu como a expressão mais resoluta da necessidade de resistência em um Brasil que recebeu cerca de 40% de todos os negros escravizados trazidos à América, sendo o país com o maior fluxo de escravizados na história da humanidade.
Sob essas causas gerais ergueu-se o Quilombo dos Palmares e, das particulares de Zumbi — raptado por padres jesuítas que lhe deram educação formal e ensinamentos militares — surgiram elementos fundamentais para sua formação enquanto dirigente e inimigo da Coroa portuguesa. Assim, Zumbi transformou Palmares em uma proto-República com 200 km² e cerca de 20 mil habitantes, formada por negros, indígenas e brancos, resistindo por décadas às invasões escravagistas.
Isso foi possível porque Zumbi organizou os quilombolas contra o traidor e monarca Ganga Zumba, derrubado em 1678. No controle de Palmares, rompeu todas as conciliações anteriores com a Coroa e o ideário monárquico de Ganga. O exército de Zumbi guerreou contra os inimigos de classe — dando-lhe a alcunha de “senhor das guerras”, como canta Jorge Ben — ao libertar mais e mais negros da escravidão e cooptar brancos e indígenas para Palmares.
Esses feitos transformaram Zumbi no principal alvo do poder colonial nos fins do século XVII. Para matá-lo, a Coroa e o governo de Pernambuco realizaram uma longa expedição mercenária, vitoriosa em 20 de novembro de 1695. Zumbi teve sua cabeça exposta no centro do Recife, e a carta do governador Caetano de Mello e Castro para o rei Pedro II de Portugal, de 1696, dizia que aquele horror servia para “atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi imortal”.
Nós, como marxistas, não acreditamos em ídolos e deuses imortais, mas nos nutrimos da história e dos papéis exercidos pelos dirigentes dos explorados e oprimidos na luta por sua libertação. Pela história da luta de classes no nosso país, Zumbi deve ser compreendido como o Espártaco brasileiro.
A tentativa imperialista de apagar ou falsear Zumbi é falida, pois é o proletariado do nosso tempo, na luta contra o racismo, o racialismo e o capitalismo, quem se nutre desta história e combate pela real libertação da humanidade: o Comunismo Internacional!
- Viva Zumbi!
- Viva a classe trabalhadora!
Chico Aviz
Joinville, 21 de novembro de 2025
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional