Ao longo de 2025, a editoria de Américas da nossa imprensa teve bastante trabalho ao buscar transmitir para a nossa militância, e para a nossa rede de contatos, a agitação da luta de classes no continente. Certamente não conseguimos cobrir todos os episódios que gostaríamos. Mas, desde dezembro, os acontecimentos têm se intensificado, e agora compartilhamos um balanço do que foi o primeiro ano deste segundo mandato de Trump à frente da maior potência imperialista, que, durante a crise, age como uma besta ferida.
No início de dezembro, a Secretaria de Estado dos Estados Unidos, que é responsável pela política externa daquele país, divulgou um documento chamado Nova Estratégia de Segurança Nacional. É comum os governos atualizarem sua política por meio desse documento; porém, o governo Trump, de fato, buscou interromper a trajetória pregressa dessa política e colocá-la sobre novas bases, o que já estamos vendo na prática, com a invasão à Venezuela sendo o exemplo mais flagrante. A imprensa americana já está falando em uma “Doutrina Donroe”, que seria a atualização da Doutrina Monroe por Donald Trump. Pretendo analisar esse documento e os fatos ocorridos ao longo do ano, visando tirar conclusões que ajudem na nossa batalha pela construção de um movimento comunista internacional e que tenham repercussões nas nossas tarefas práticas. Iniciamos essa discussão em São Paulo ainda em outubro de 2025, que foi aprimorada pela contribuição de camaradas em diferentes organismos e atividades da OCI, e agora desejo compartilhar com o conjunto da nossa militância.
É preciso lembrar que as ações e os discursos da burguesia são também um instrumento de propaganda, que têm a função, portanto, de transmitir e consolidar a ideologia da burguesia. Quando vemos a serenidade com que o dirigente da principal economia imperialista estabelece taxas sobre outros países por meio de publicações em redes sociais, ou simplesmente bombardeia, invade e sequestra o presidente de outro país por vontade própria, além de ser um lembrete para os capitalistas de quem manda nesse regime, é também uma mensagem para a classe trabalhadora, buscando consolidar na sua consciência a sensação de impotência diante de todo o aparato que a burguesia construiu. É necessário retirar o véu que encobre os acontecimentos. Em política, a explicação não pode ser apenas uma descrição pura do fenômeno; é preciso demonstrar por que ele se deu de uma determinada maneira, e não de outra.
Na imprensa burguesa, a nova política americana tem sido reduzida, erroneamente, ao entendimento de que os EUA estão reforçando sua influência na América Latina em enfrentamento à China — ou à Rússia. E eles agora estão tendo que se desdobrar com a inação desses países diante dos ataques de Trump a todos os lados. Mas esse tipo de conclusão é típico da burguesia, que olha o mundo sob a ótica da geopolítica. É um método contrarrevolucionário que surgiu na geografia alemã imediatamente após a unificação daquele país, na segunda metade do século XIX. Como uma potência emergente, era necessária alguma justificação política para a sua dominação colonial. Assim, surgiram teorias que buscavam naturalizar o expansionismo imperialista a partir das condições geográficas do mundo, com países pretensamente vocacionados a explorar outros. Na Alemanha, o teórico mais proeminente da geopolítica foi Friedrich Ratzel, mas também surgiram outros com o mesmo objetivo, como Vidal de la Blache, na França, e Mackinder, no Reino Unido. Não convém aqui expor o que pensavam.
Por óbvio, as condições geográficas são essenciais para a exploração capitalista. O desenvolvimento das técnicas permite a exploração de recursos antes indisponíveis, e isso requer mudanças políticas na forma como a burguesia se divide no mundo. O controle das terras raras hoje é um fator incontornável, bem como o acesso a determinadas rotas de comércio. Mas não podemos esquecer que o que determina a disposição e a capacidade de se disputar esses recursos é a luta de classes. Ou seja, o quanto a burguesia pode vencer tanto a sua classe trabalhadora quanto a sua contraparte de outros países e impor os seus interesses.
O que todos esses teóricos deixaram de herança para os analistas burgueses é uma abordagem que, por vezes, se infiltra em organizações de esquerda, a qual observa a movimentação dos governos como se fossem destituídos de interesses de classe, sendo simplesmente resumidos a uma disputa entre nações.
Interpretar o mundo desta forma é especialmente problemático para nós, comunistas, pois escanteia o principal agente da luta de classes, que é a classe trabalhadora — a única capaz de bloquear as ações da burguesia. Não nos basta olhar essas movimentações como quem descreve a rota dos planetas; é necessário compreender as causas, buscar os seus limites dentro da luta de classes e, o mais importante, encontrar a saída para guiar os trabalhadores a romperem com essa trajetória. Foram condições objetivas e subjetivas determinadas que permitiram o desfecho que temos diante de nós. Por isso, uma compreensão profunda desses processos se faz necessária.
Antes de analisar a atual política externa dos EUA como uma folha solta no ar, é necessário colocá-la em perspectiva histórica, de modo que os camaradas possam apreender as circunstâncias que determinaram as escolhas feitas pelo imperialismo ao longo do tempo.
Doutrina Monroe: consolidar o capitalismo americano
“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia […] (Mensagem do Presidente James Monroe ao Congresso dos EUA, 1823)”
Quando James Monroe enviou esta mensagem ao Congresso americano, em dezembro de 1823, não havia condição alguma de os EUA declararem que o continente seria sua zona de influência frente às potências europeias. Foram necessárias algumas guerras e a passagem definitiva dos EUA à condição de uma potência imperialista para que essa mensagem se tornasse realidade. Mas ela cumpriu o papel de guiar a consolidação do capitalismo americano até o final do século XIX.
Mesmo que o capitalismo americano tenha feito algumas reformas importantes depois da Guerra de Independência, em 1775, as divisões na burguesia permaneceram abertas ao longo da primeira metade do século XIX. A Doutrina Monroe foi um instrumento de, ao expandir o país em direção ao Oeste em busca do projeto vendido para a burguesia como seu “Destino Manifesto”, buscar superar as suas contradições internas. A necessidade de expandir a fronteira para o Pacífico, além de permitir o acesso ao mercado asiático, supriria as indústrias nascentes do Norte do país com produtos agrícolas.

No período compreendido entre a Segunda Guerra de Independência (1812–1814), com a vitória americana, e o final da guerra contra o México (1846–1848), houve um acelerado crescimento da economia americana. Sua população saltou de 7 para 17 milhões de pessoas em 20 anos, com forte participação de imigrantes. Também a indústria, a urbanização, o comércio e a financeirização cresceram no período, com o estabelecimento de grandes centros como Nova York, Boston e Filadélfia. A política defendida por esses setores era a do protecionismo e do fortalecimento do mercado interno. Contudo, à medida que o domínio territorial avançava, reforçava-se o caráter desigual da economia americana. Havia um expressivo setor ao sul vinculado à plantation, baseado no monocultivo de algodão, no trabalho escravo e dependente do mercado inglês. A enormidade do novo território e o crescimento econômico dos anos 1850 aceleraram essa desigualdade entre diferentes projetos da burguesia. A vitória na Guerra Civil Americana (também chamada Guerra de Secessão, 1861–1865) foi a maneira pela qual a burguesia do Norte impôs seu projeto de independência para a economia americana.
Isso significa dizer que, por mais de oitenta anos, o lema de “América para os Americanos”, de James Monroe, foi letra morta. Na verdade, durante a maior parte do século XIX e, em grande medida, ainda no início do século XX, o continente americano servia à principal potência econômica do período, o Reino Unido. Em determinados momentos, esse controle era ainda repartido com outras potências europeias.
Olhando para a América do século XIX, há uma série de iniciativas das potências europeias buscando restituir o seu domínio sobre os países que, há pouco, haviam declarado sua independência política. Em geral, era efeito de uma política contrarrevolucionária que dominou a Europa após o fim da era napoleônica e diante dos levantes da classe trabalhadora nascente. A França ainda tinha expectativas de dominar a região da bacia do Prata e o México. E o mar do Caribe teve a presença da Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Suécia e Dinamarca.
Mesmo a Espanha, que nesse momento era uma potência de segunda grandeza, teve intenções de recuperar suas possessões coloniais. Durante a Guerra de Secessão, ocupou a ilha de Santo Domingo, que abrange a República Dominicana e o Haiti. Ainda em 1863, ocupou também as ilhas Chincha, na costa do Peru, e teve de enfrentar uma aliança formada entre Chile, Peru, Bolívia e Equador. Em 2 de maio de 1866, após um ataque covarde ao porto desguarnecido de Valparaíso, as forças espanholas foram derrotadas na Batalha de Callao pelas forças revolucionárias peruanas.
A França de Napoleão III (O Pequeno, como chamou Victor Hugo) também buscou na América o seu quinhão. Em uma disputa pelo pagamento da dívida mexicana, na década de 1860, a França desembarcou seus soldados naquele país e empossou Maximiliano da Áustria como imperador do México. A situação revolucionária que se abriu na França fez o governo francês recuar e, sem apoio, Maximiliano foi fuzilado pelas forças republicanas, com a contribuição militar dos EUA, em 1867.
Mas, de fato, o domínio do continente americano, entre as independências e a Primeira Guerra Mundial, foi do Reino Unido. Eram os ingleses os principais fornecedores de produtos manufaturados e bens de capital para a América Latina durante esse período, fosse pela concessão de empréstimos e pelo endividamento dos países, fosse pelo investimento direto. Os bancos que financiavam, os insumos da produção agrícola, a marinha mercante que transportava e os mercados que distribuíam: toda a produção estava nas mãos do Reino Unido.
Já nos anos 1840, metade das importações do Brasil vinha diretamente da Inglaterra. E a América Latina consumia 5% da produção inglesa. Esses números aumentaram significativamente nas décadas seguintes. Mas, já nesse momento, não eram desprezíveis, considerando que o mercado inglês era todo o seu vasto “império onde o sol nunca se põe”. Na metade do século, a relação comercial do Reino Unido com a América Latina ainda estava se recuperando das revoltas de independência, tendo o comércio descido a níveis abaixo do que era praticado antes do fim do período colonial. Ainda assim, o Reino Unido auferiu vantagens estratégicas na região ao financiar a reconstrução das economias agora politicamente independentes e estabelecer tratados desiguais, como os que praticou contra o Brasil. Ocorreu também, nesse período, um grande afluxo de metais preciosos para pagar o excedente de importação de bens de consumo ingleses.

Mas o período de ouro da exploração inglesa na América Latina iniciou-se nos anos 1870. O aumento da demanda de gêneros alimentícios e de matérias-primas tornou necessária uma revolução nas comunicações e nos transportes na América Latina. A partir desse período, aumentaram consideravelmente os investimentos em títulos públicos e diretamente em setores de infraestrutura. O Reino Unido tinha o domínio das ferrovias do Brasil, da Argentina, do Peru, do Uruguai, do Chile e da Venezuela. Além disso, controlava o processamento de alimentos, como os moinhos de trigo, as refinarias de açúcar, cervejarias e fiações. Os serviços públicos essenciais estavam nas mãos inglesas: transporte urbano, serviços de água, sistemas de esgoto, drenagem, companhias de gás e eletricidade. As exportações latino-americanas para a Inglaterra quadruplicaram entre 1880 e 1914, a ponto de, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em 1913, cerca de 30% das importações das maiores repúblicas latino-americanas serem de produtos ingleses. A América Latina já era o destino de 10% de toda a produção inglesa. Nesse momento, não eram apenas os têxteis que eram consumidos aqui, mas também se absorviam bens ingleses intermediários e de capital, como ferro e aço, carvão, insumos para a construção de estradas, máquinas agrícolas e industriais, equipamentos telegráficos e produtos metalúrgicos em geral.
Nesse período, os EUA ainda não tinham o pretendido controle sobre a América, como vimos. Mas, tendo saído consolidados da Guerra de Secessão, o capitalismo americano precisava se lançar ao status de potência imperialista para afirmar a sua própria existência enquanto economia independente. Era uma condição de vida ou morte para uma potência emergente.
A vitória da burguesia industrial do Norte permitiu uma profunda modernização da economia americana entre 1865 e 1889, um crescimento que se manteve apesar da primeira grande depressão da década de 1870. Inclusive, é somente após esse período que os EUA puderam, e deveriam, colocar em prática o seu projeto de expansionismo externo. A vantagem dos EUA, frente a outras potências, estava no seu desenvolvimento industrial de guerra, iniciado inclusive com investimento inglês antes da Guerra Civil, incrementado por ela e continuado no período posterior. A produção para a indústria de guerra, as altas barreiras tarifárias, a estabilização da moeda e o investimento em infraestrutura foram as bases da ascensão americana. O consumo da nova população urbana, o fornecimento de insumos para a agricultura, a indústria e os transportes, além da extinção de concorrentes durante a crise de 1873, permitiram o fortalecimento de determinados ramos da produção. É nesse contexto que se criam os trustes que Lênin vai analisar no livro “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” e que alçam os EUA a essa condição. O melhor exemplo é a trajetória da Standard Oil Trust, criada sob a direção de Rockefeller em 1882, consolidando as maiores refinarias do país. Porém, no período entre 1888 e 1905, foram formados 328 conglomerados, concentrando 40% da produção americana.
Essa nova condição do capitalismo americano demandava uma nova política externa. Apesar dessa pujança econômica, ao final do século XIX, os EUA perderam espaço comercial. Em 1880, os EUA importavam da América Latina US$ 176 milhões e exportavam para a região apenas US$ 58 milhões. A sua frota mercante também decrescia. Se, em 1850, cerca de 50% de sua mercadoria era transportada pela frota americana, em 1900 transportavam apenas 17% de sua produção. Finalmente, era necessário tomar a “América para os americanos”.
O Corolário Roosevelt: a política externa de uma potência imperialista
O debut dos EUA na disputa inter-imperialista se deu após a vitória sobre a Espanha, em 1898. Ao longo do século XIX, os EUA investiram na produção de açúcar em Cuba. Em 1895, o país iniciou seu movimento de independência da Espanha, que se arrastou até 1898, quando os EUA entraram na guerra e encerraram a disputa em três meses. Como resultado, os EUA passaram a ter controle sobre Cuba, Porto Rico e as Filipinas. Em 1902, os EUA saíram, apenas formalmente, de Cuba, deixando gravado na Constituição o que seria a política imperialista desejada para todo o continente, a chamada Emenda Platt, que, entre outras coisas, dizia:
III. Que o governo de Cuba consinta que os Estados Unidos exerçam o direito de intervir pela preservação da independência cubana, pela manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual e pelo cumprimento das obrigações com respeito a Cuba impostas pelo Tratado de Paris aos Estados Unidos, agora a serem assumidas pelo governo de Cuba.
VII. Que, para permitir aos Estados Unidos manter a independência de Cuba e para proteger seu povo, bem como para sua própria defesa, o governo de Cuba venderá ou arrendará aos Estados Unidos as terras necessárias para carvão ou estações navais em determinados pontos a serem acordados com o Presidente dos Estados Unidos.
Na prática, o que os EUA desejavam era o controle sobre o território dos países da América Latina e do Caribe. Evidentemente, em cada lugar essa estratégia precisou ser adequada, segundo as forças contrárias que o poderio americano encontrou. Outro elemento dessa estratégia foi a chamada “diplomacia do dólar”, formulada pelo general Leonard Wood, interventor militar americano em Cuba, e depois popularizada por Theodore Roosevelt. Consistia basicamente em garantir que os governos locais mantivessem a ordem sobre o seu território para buscarem investimentos americanos. Caso os governos títeres não fossem capazes de cumprir o seu papel, os EUA tinham o direito de intervir militarmente para restaurar a ordem burguesa e, depois, inundar o país com seu capital, gerando dívidas para as próximas gerações de trabalhadores.
Entre 1898 e 1934, os EUA realizaram mais de 20 campanhas militares, intervindo em toda a região do Caribe. Mas, logo após a intervenção em Cuba, outros dois feitos são emblemáticos da política que seria desenvolvida: a invasão da Venezuela e a criação da República do Panamá mediante uma separação da Colômbia.

Em dezembro de 1902, um consórcio inter-imperialista formado pelo Reino Unido, Alemanha e Itália decidiu bloquear e bombardear a Venezuela a fim de cobrar dívidas que não estavam sendo pagas. Os EUA, que desejavam estender o seu domínio na região, intervieram, dissuadindo as forças europeias com a mobilização de sua frota naval. Outra intervenção na região deu-se na Colômbia. Desde há décadas havia interesse em estabelecer uma conexão marítima entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Inicialmente, os projetos previam utilizar a cadeia de lagos existentes na Nicarágua. Mas, em 1903, o governo Roosevelt utilizou um projeto francês de criação de um canal na Colômbia. Como não tiveram seu projeto aprovado pelo Congresso colombiano, os EUA fomentaram um movimento separatista no país e, em 12 dias, criaram uma nova república, a República do Panamá, para construir o seu canal. Os EUA preservaram o domínio formal do canal ao longo do século XX.
Vale mencionar que, em 1902, o primeiro-ministro britânico Arthur Balfour declarou que o seu governo esperava que os EUA atuassem para conter as “arruaças” — leia-se, revoltas — na América Latina. Aliás, esse mesmo senhor Balfour foi quem propôs aos Rothschild o apoio financeiro ao Reino Unido durante a Primeira Guerra em troca da criação do Estado de Israel. Depois de dar demonstrações práticas de quais eram seus planos de política externa, diante de uma crise financeira na República Dominicana, em 1904, Roosevelt interveio com a seguinte declaração, que seria conhecida como o “Corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe:
Tudo o que este país deseja é ver os países vizinhos estáveis, ordeiros e prósperos. Qualquer país cujo povo se conduza bem pode contar com nossa grande amizade. Se uma nação mostra que sabe agir com razoável eficiência e decência em questões sociais e políticas, se mantém a ordem e paga suas obrigações, não precisa temer a interferência dos Estados Unidos. Uma transgressão crônica, ou uma impotência que resulta em um afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada, pode, na América, como em outros lugares, em última análise exigir a intervenção de alguma nação civilizada; e, no Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, embora com relutância, em casos flagrantes de tais transgressões ou impotência, a exercer um poder de polícia internacional.
Esse senhor, disposto a intervir em qualquer país da América que não atendesse aos interesses imperialistas dos EUA, seria agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 1906. Convém mencionar que outros sucessores de Roosevelt foram atualizando essa política, mas seguindo as linhas gerais estabelecidas por ele.
Junto à Primeira Guerra Mundial, essa política foi bastante útil para alavancar os EUA à condição que conhecemos atualmente. Já na década de 1890, o capital americano foi transferido para a América Latina em grande escala. Passou-se a adquirir títulos públicos e ações de estradas de ferro nacionais e de companhias de serviços públicos. Também se passou a investir diretamente na mineração, na agricultura e na industrialização. No Chile, no Peru e no México, passou-se a investir em cobre; em petróleo peruano e mexicano; em açúcar, em Cuba; e em bananas, na Colômbia e na América Central. Além disso, havia presença no processamento de carnes na Argentina e no Uruguai.
Porém, a maior parte dos investimentos dos EUA ainda estava concentrada em Cuba e no México. E, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, enquanto seus bancos ainda estavam impedidos de estabelecer filiais fora dos EUA, o capital americano na América do Sul era de US$ 137 milhões, frente aos US$ 3 bilhões investidos pelo Reino Unido.
O cenário mudou completamente a partir da Primeira Guerra Mundial. A América Latina, que em 1913 absorvia apenas 16% da produção americana, passou a receber 38% em 1918. Somente entre 1924 e 1928, os investimentos diretos americanos na América Latina foram superiores às cifras investidas pela Inglaterra no seu apogeu, entre 1904 e 1913. Na América do Sul, os investimentos americanos chegaram a US$ 2 bilhões em 1929, quando mais de um terço do capital americano investido no exterior estava na América Latina.
Por fim, gostaria de frisar a importância que essa política teve para a consolidação dos EUA enquanto potência imperialista. Como vimos, isso não poderia ter acontecido em outro momento, enquanto os EUA não tivessem feito as revoluções internas realizadas na sua economia e sociedade. Por outro lado, sem essa política de domínio das economias dependentes da América, os EUA não conseguiriam impor a sua independência diante do Reino Unido. Portanto, a Doutrina Monroe, especialmente quando pôde exercer plenamente os seus intentos a partir da era Roosevelt, é uma política imperialista e tem razões para estar sendo retomada atualmente, em condições ainda mais radicais.
O Corolário Trump: uma política para a crise do regime capitalista
Nesta nova situação mundial, o traço fundamental é o aprofundamento das crises e dos choques entre diferentes frações da burguesia e no interior da classe trabalhadora. Esse quadro de crises e choques, classe contra classe, insere-se no quadro geral da contradição orgânica do sistema capitalista em sua fase final, o imperialismo: a incapacidade da burguesia e de seus Estados de dirigirem as forças produtivas que criaram e a rebelião dessas mesmas forças produtivas contra o despotismo do capital, sob a forma de crises cada vez mais profundas e extensas. O domínio do capital financeiro em nossa época, com um milhão de fios por todo o planeta, e sua necessidade de autovalorização impõem o aprofundamento dos choques entre setores da classe dominante que, contudo, permanecem com sua unidade fundamental: o aumento da taxa de lucro, a absurda concentração de riqueza de um lado e a miséria crescente do outro. O que significa destruir forças produtivas por meio de guerras localizadas e ampliar a extração de mais-valia dos mercados existentes. Disso decorrem a violenta imposição de tarifas, as privatizações, a implementação de tecnologias e a subjugação dos países dominados por meio do pagamento das dívidas internas e externas. (Informe do Comitê Central preparatório ao 9º Congresso Nacional da OCI)
Conforme declaramos no informe ao nosso 9º Congresso, a nova situação mundial aberta no último período é de aprofundamento de crises e choques, de agudização da luta de classes. Essa disputa nas frações da burguesia, e desta contra a classe trabalhadora, está sendo bem praticada pelo governo Trump em sua segunda passagem pela Casa Branca. É o que ele já tem feito, na prática, nesse primeiro ano, e é o que está sintetizado no documento de “Estratégia de Segurança Nacional”.

A política que o governo Trump desenhou terá aplicações distintas para as diferentes regiões. Mas todas seguem as linhas gerais, que são expressas no início do documento. A declaração inicial é de que se pretende redesenhar a política externa dos EUA praticada desde a Guerra Fria. Há um entendimento protecionista de que, em um período de crise, é necessário colocar em prioridade os interesses dos EUA. E, para isso, o governo americano não vai tolerar que seus aliados não atendam às suas expectativas. Os princípios da nova política externa americana são os seguintes:
Fim do multilateralismo. A ordem institucional criada, ou derivada, pelos acordos de Yalta e Potsdam está colocada em descrédito pelo governo americano. O documento é expresso ao dizer que “Defendemos a reforma dessas instituições para que auxiliem, em vez de dificultar, a soberania individual e promovam os interesses americanos”. Os EUA têm a clareza de que, sendo a principal potência, é mais vantajoso negociar diretamente com cada país. Inclusive, na primeira semana de janeiro, o governo Trump ordenou a saída dos EUA de mais de 30 instituições vinculadas diretamente à ONU — e outras dezenas indiretamente relacionadas. É necessário reafirmar que os organismos internacionais da burguesia jamais puderam fazer qualquer pressão efetiva sobre as potências imperialistas. Em verdade, o sistema ONU é controlado pelo seu Conselho de Segurança, que, por sua vez, conta com o poder de veto dos EUA. Essas medidas só podem ser interpretadas como rachaduras no edifício da burguesia, que agora precisa ser refeito sobre novas bases. Essa é a disposição dos EUA.
Disposição militar. Ao longo do texto, veremos que a palavra de ordem é encher o mundo de armas. E isso tem uma justificativa econômica explícita por parte do governo americano. Ao contrário do que Trump dizia quando foi eleito, de que queria acabar com as guerras, o que o governo americano quer é disseminar conflitos e intervenções militares, e que elas sejam as mais objetivas possível: “queremos recrutar, treinar, equipar e mobilizar as forças armadas mais poderosas, letais e tecnologicamente avançadas do mundo para proteger nossos interesses, dissuadir guerras e — se necessário — vencê-las de forma rápida e decisiva, com o mínimo de baixas possível em nossas tropas”. Por essa razão, o governo americano se vangloria das operações que fez no Irã e na Venezuela, uma vez que um conflito mais duradouro colocaria em questão o próprio governo, tanto internamente quanto ao redor do mundo. Os EUA não podem repetir a campanha que levou ao esgotamento das forças americanas no Afeganistão.
Logo em seguida, os EUA correm para deixar claro que tais intervenções não podem fugir do seu controle: “Para um país cujos interesses são tão numerosos e diversos quanto os nossos, a adesão rígida ao não intervencionismo não é possível. Contudo, essa predisposição deve estabelecer um padrão elevado para constituir uma intervenção justificada”. Essa declaração não se trata apenas de uma hipocrisia retórica. É, antes, uma afirmação de temor da luta de classes e do poder de resistência dos trabalhadores. Mais importante do que remover Maduro, era necessário desestabilizar o regime e impedir um levante das forças bolivarianas em defesa das suas conquistas.
Essa é a grande contradição da situação dos EUA. Eles não intervêm militarmente por sadismo, e sabem os riscos que correm. Mas a indústria militar é indispensável para a sua economia. E isso eles mesmos explicitam no seguinte trecho: “Queremos a base industrial mais robusta do mundo. O poder nacional americano depende de um setor industrial forte, capaz de atender às demandas tanto em tempos de paz quanto em tempos de guerra. Isso exige não apenas a capacidade de produção industrial direta para defesa, mas também a capacidade de produção relacionada à defesa”. Além dos objetivos de segurança nacional e de controle sobre os recursos das economias, a produção militar dos EUA é fundamental para o funcionamento de sua indústria. Afinal, o seu Departamento de Defesa é o maior comprador individual do mundo e sustenta cadeias industriais complexas e de longo prazo, relacionadas à metalurgia, aos semicondutores, à química fina e ao setor aeroespacial.
E, para fechar esse ciclo da produção, sabendo que apenas as suas guerras não consumirão todo o estoque militar disponível, os EUA contam com seus aliados para comprarem seus equipamentos militares, mesmo que sejam defasados, e se colocam à disposição inclusive para o financiamento. Nesse ponto, eles utilizam o exemplo dos países aliados da Otan, que aumentaram os seus orçamentos de guerra para 5% do PIB: “[…] esperamos que nossos aliados invistam uma parcela muito maior do seu PIB nacional em sua própria defesa […]. Também incentivaremos a revitalização das bases industriais de todos os nossos aliados e parceiros para fortalecer a defesa coletiva”.
Pilhagem do mundo. Por fim, um dos pilares da nova política americana é a extração de recursos para a sua indústria, especialmente do Hemisfério Ocidental. Não se trata apenas da exploração que os EUA sempre praticaram como potência imperialista, mas diz respeito a uma reorganização das cadeias de produção que, ao buscar restabelecer as indústrias nos EUA, necessita explorar recursos de regiões mais seguras. Para que todo o seu esforço produtivo dê certo, o documento afirma ser essencial não apenas o controle sobre novas matérias-primas, como as terras raras, mas, essencialmente, sobre fontes de energia tradicionais, como o petróleo, o gás, o carvão e a energia nuclear. O documento alerta explicitamente que ter o domínio desses componentes é crucial para a geração de empregos nos EUA.
Vejamos, então, como essas prioridades se apresentam na estratégia para cada região. Em razão da proximidade que o tema tem conosco, apresento o programa das diferentes regiões em ordem inversa à prioridade dada pela política americana.
A África Oriental é mencionada no documento como uma região para investimento de capital americano e tomada de recursos naturais. São mencionadas as suas reservas de energia e materiais críticos para a indústria americana. Já para o Oriente Médio, o documento relembra que esta foi por muito tempo uma região central para a política externa americana, em razão do controle do petróleo na região. Isso já não é mais necessário, visto que agora os EUA possuem o controle da maior reserva de petróleo do mundo, que é a Venezuela. O documento também reforça seus governos aliados, como Israel e Turquia. Inclusive, mencionam ter neutralizado o Irã com o ataque nuclear do ano passado. O que os EUA não esperavam era uma revolta sem precedentes, como temos visto nos últimos dias. Certamente vão atuar com seus aliados na região para buscar frear o movimento. Os objetivos declarados do governo americano na região são os investimentos em energia, inteligência artificial e tecnologias de defesa.
Ao buscar manter e reforçar os investimentos militares, abrir novos mercados e disciplinar a Otan, o documento menciona o apoio que dará aos governos de extrema-direita. Inclusive, compartilham a agenda anti-imigração.

Já para a Ásia, o documento começa a dar maior atenção. A imprensa burguesa tem falado sobre uma divisão do mundo em áreas de influência a partir desse documento, como se os EUA assumissem o Hemisfério Ocidental e deixassem a Ásia a cargo da China. Não é o que está explícito; pelo contrário. O documento inicia justamente afirmando que quer assumir o mercado asiático, que concentra atualmente 50% do PIB mundial. Fazendo uma retrospectiva do que foi a política externa para a China desde 1970, os EUA avaliam que o país asiático alterou sua posição nas cadeias globais de produção nas últimas décadas, e é isso que os americanos desejam reverter. Para tanto, contam com o apoio econômico e militar dos aliados na região.
Além disso, buscam alianças comerciais com parceiros como a Índia, que deve passar a receber um investimento americano pesado e, com isso, sofrer grandes transformações políticas no próximo período. Os EUA afirmam que vão reforçar sua proximidade comercial também com países do Pacífico, como a Austrália e o Japão. Além disso, o documento orienta seus parceiros, como a Europa, o Japão, a Coreia, a Austrália, o Canadá e o México, a alterarem suas políticas comerciais com relação à China. Espera-se que deixem de absorver a capacidade ociosa chinesa, forçando o país a produzir para o seu próprio mercado interno. Isso elevaria os custos dos salários e do trabalho em geral, a fim de garantir que o consumo interno se realize, o que deve acirrar ainda mais a luta de classes dentro do próprio país. Assim, a economia chinesa perderia um dos pilares de sua competitividade, baseada nos baixos salários e na exportação em massa.
Por fim, o documento é explícito também com relação ao reforço militar na região. Com a justificativa de “proteger” Taiwan da China, os EUA convocam o Japão, a Coreia do Sul e outros países do Pacífico a aumentarem seus gastos de defesa. É importante ressaltar que, a cada ano, especialmente nas presidências de Trump, os EUA alegam que, no ano seguinte, a China vai invadir a ilha. Tem-se falado atualmente que a invasão se dará em 2027. Com esse discurso, em dezembro os EUA aprovaram um empréstimo de US$ 11 bilhões em armas americanas para a ilha. O que está em questão na região é, antes, a realização de negócios, e não uma “disputa geopolítica”.
Finalmente, devemos falar sobre o novo foco da política externa americana, o desafortunado Hemisfério Ocidental. Tendo em vista aquelas linhas gerais do início do documento, na região será empregado todo tipo de tática para garantir a rapina de recursos, o investimento militar e, eventualmente, escoar o seu arsenal bélico. Assim diz o documento:
“Recorreremos a aliados já estabelecidos no hemisfério para controlar a migração, deter o fluxo de drogas e fortalecer a estabilidade e a segurança em terra e mar. Expandiremos a nossa atuação cultivando e fortalecendo novas parcerias, ao mesmo tempo em que reforçamos a disposição de nossa nação como parceiro preferencial em termos econômicos e de segurança no Hemisfério.”
O centro da estratégia é recrutar parceiros para cumprir seus objetivos e impor-se como aliado preferencial em termos comerciais e militares. Inclusive, o documento categoriza os países da região entre aqueles que são seus aliados imediatos — e podemos pensar no exemplo da Argentina — e aqueles com os quais discordam, mas que podem ser aliados em potencial, como têm feito com o Brasil.
Entre os objetivos para a região estão a retomada de áreas militares estratégicas, o reforço de rotas marítimas, a garantia de acesso a recursos naturais estratégicos, a abertura de mercados a seus produtos e investimentos, além da chamada “cooperação militar” — por meio da qual pretendem vender armas, compartilhar informações e realizar exercícios militares conjuntos. A lista de objetivos parece muito ampla. Já sabemos o sentido disso tudo: guerra, pressão econômica e exploração dos recursos e dos trabalhadores da região. Mas considero que o mais importante a perceber é que a presença americana vai remodelar toda a região. Se esses objetivos forem alcançados, muito do que conhecemos hoje será completamente transformado.
Esse é o documento que eles publicaram em dezembro. Ao lado dessas informações que eu trouxe, os camaradas verão muitas mentiras, como a de que os EUA estariam declarando o fim do genocídio na Palestina. Mas, na prática, assim como fez Roosevelt um século atrás, essa política já está em vigor, e nós podemos ver os seus efeitos depois de um ano de governo Trump.
Ato II, ano I
Permanentemente, e cada vez mais, os camaradas serão impactados por notícias sobre uma nova medida do governo Trump no sentido de avançar sobre algum país. E nada pode nos fazer duvidar da disposição de efetivamente implementar esses atentados, como fez na Venezuela e pode vir a fazer na Groenlândia, por exemplo. É a dinâmica desse tempo que vivemos. Não vou repassar por todos os ataques praticados pelo governo americano contra a classe trabalhadora na América Latina no último ano. Mas vou ressaltar alguns episódios que são bastante emblemáticos dessa nova política, para que consigamos tirar as conclusões quando surgirem os próximos ataques.
Uma das primeiras medidas tomadas por Trump no início desse segundo mandato foi a retomada do controle sobre o Canal do Panamá. Vimos como isso foi importante no passado para a consolidação do poderio americano. Enquanto os investidores americanos buscam retomar a administração, o governo americano impôs um acordo militar para o controle do canal pelo Exército dos EUA, já em abril de 2025. Desde então, as forças americanas passaram a utilizar o país como campo de treinamento em exercícios militares.

Também no início do ano, para executar um dos pilares da sua nova política, que é o combate à imigração para os EUA, o governo americano negociou investimentos de US$ 6 bilhões no sistema prisional de El Salvador para a recepção de imigrantes deportados do país. Além de ser inaceitável esse tipo de medida contra a classe trabalhadora imigrante, os objetivos dos EUA com o governo de Bukele são fazer do país uma colônia militar americana. O regime de Bukele busca reconhecimento por sua política de extermínio e, atualmente, é o país com a maior taxa de encarceramento per capita do mundo.
Novas propostas desse tipo de “cooperação” militar já têm aparecido em outros países. No Equador, os EUA chegaram a propor a ocupação militar das Ilhas Galápagos. A iniciativa só não foi adiante porque, depois de mais de um mês de greve geral contra o aumento do preço dos combustíveis e enfrentando forte repressão, os trabalhadores equatorianos se opuseram à instalação militar em um plebiscito realizado em novembro. A luta de semanas da classe trabalhadora organizada fez aflorar a consciência anti-imperialista e impôs essa derrota ao governo de Noboa. Ainda em dezembro, os EUA e o Paraguai assinaram um acordo para a realização de treinamentos e operações militares conjuntas no país.
Na Argentina de Milei, o desempenho eleitoral de seu partido nas eleições legislativas de 2025 contou com a contribuição direta do governo americano. Às vésperas das eleições, os EUA concederam um empréstimo de US$ 20 bilhões ao governo argentino. Além disso, o próprio Trump declarou que socorros financeiros posteriores ao país estavam condicionados à vitória do grupo de Milei. Também sem apoio do Congresso, a Argentina autorizou operações militares das Forças Armadas americanas em seu território. No quadro de aliados, Trump agora pode também contar com o Chile. O eleito Antônio Kast já declarou que vai aplicar as mesmas políticas anti-imigração de Trump e fez visitas a El Salvador para importar as políticas de Bukele.
São incontáveis os exemplos de atuação americana na região. Talvez o mais emblemático seja a Venezuela. Sempre tivemos clareza de que o que estava em questão era o controle sobre as maiores reservas de petróleo do mundo. Gostaria de chamar atenção para alguns aspectos desse episódio. Primeiro, a longa construção da invasão. Não apenas diretamente: os EUA mobilizaram expressivas forças militares, mas também buscaram aliados na região, como demonstrei acima. Um segundo elemento é a precisão da operação. Os EUA estiveram muito cientes das forças que poderiam enfrentar em um ataque aberto contra a classe trabalhadora venezuelana; por isso, precisaram operar quase sem nenhuma resistência do regime. O efeito disso foi justamente a percepção de impotência da classe, que sequer pôde reagir. Uma tripla vitória, portanto: econômica, militar e política. Aliás, os dias devem estar sendo muito duros para aqueles que falavam em uma disputa inter-imperialista dos EUA contra China e Rússia. Os principais parceiros econômicos da Venezuela eram justamente esses países. Um emissário da China esteve com Maduro na noite anterior ao ataque. O navio venezuelano escoltado pela Rússia foi interceptado pelos militares americanos. E nada foi feito em socorro à Venezuela, além de notas frias de pesar. Vimos o que foram as verdadeiras disputas entre potências imperialistas do passado, as quais os EUA precisaram enfrentar como uma economia em ascensão e cuja única saída para a sua independência era se tornar, eles mesmos, uma potência imperialista. Talvez a inação dos parceiros seja exatamente porque concordam com a afirmação de Trump de que, agora, com a administração americana sobre o petróleo venezuelano, terão mais petróleo para consumir.
Vale dizer que ataques semelhantes podem ocorrer contra a Colômbia, afinal Gustavo Petro foi o único dirigente que ousou enfrentar Trump. O desfecho disso vai depender dos interesses da burguesia no país e da disposição de luta dos trabalhadores colombianos.
Por fim, o Brasil. Não podemos nos enganar. Inclusive militarmente, o Brasil está na mira do país. Além de ser um bom mercado para as armas americanas, a própria chacina praticada pelo governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro teve a ciência do governo americano. Colocou-se em questão, inclusive, caracterizar as organizações criminosas como narcoterroristas, o que abriria espaço para uma justificativa de intervenção militar no país — esse é o argumento que os EUA têm utilizado. Mas há aqui, especialmente, a capacidade de frear a luta de classes que tem Lula. Certamente não foram os seus encantos que produziram a química com Trump, mas sim o quanto ele foi capaz de rifar a classe trabalhadora.
Aliás, a mídia burguesa já revelou quais foram os principais argumentos para a retirada das tarifas. Os produtos brasileiros taxados eram, em grande parte, destinados ao consumo da classe trabalhadora americana, como o café, o suco de laranja e a carne, mas também a celulose, que é responsável por 82% dos insumos americanos da indústria de higiene básica. A empresa americana Kimberly-Clark, responsável pela produção de papel sanitário e equipamentos cirúrgicos nos EUA, concluiu que, sem os insumos da Suzano, sua produção trimestral teria um aumento de US$ 300 milhões. Isso impediria o consumo elementar dos trabalhadores americanos. Está registrado também que, em conversa com empresários brasileiros, Trump ficou espantado ao saber do aumento da popularidade de Lula ao se opor às taxações americanas. Havia disposição da classe trabalhadora em reagir, caso houvesse uma liderança que encaminhasse para isso. Lula deu uma clara demonstração dessa disposição de cooperar com o governo americano ao se colocar como “negociador” de uma renúncia de Maduro. Lula não tem a capacidade de exercer esse papel, mas, ao fazê-lo, colocou-se ao lado do complô que deixou a classe trabalhadora venezuelana refém dos EUA.

Todos esses exemplos apontam os desafios que o imperialismo americano deseja impor a nós. Mas a realidade da luta de classes é mais dinâmica. Os ataques que impõe à sua própria classe trabalhadora podem obrigar a burguesia americana a retroceder, até que seja derrotada. Ataques aos serviços públicos, como as demissões feitas durante o shutdown ou a aplicação da escala 996 em empresas de tecnologia, podem levar a reações massivas no coração do imperialismo. E já temos visto esses exemplos, como a reação às práticas do ICE contra a imigração, que gerou manifestações de milhões no movimento No Kings, ou mesmo, agora, em Mineápolis, contra os assassinatos de ativistas. Podemos também mencionar a eleição do autoproclamado “socialista” Zohran Mandani. Mesmo que agora seus interesses de classe burguesa estejam explícitos, sua eleição massiva foi uma demonstração da disposição de luta da classe trabalhadora. E é a luta de classes que define o futuro.
Lutar com os métodos da 4ª Internacional
O Programa de Transição é válido ainda hoje porque apresenta aos revolucionários os métodos corretos de atuação no movimento operário, métodos do bolchevismo genuíno, e se comprovam na atualidade por sua análise igualmente válida.
Por exemplo, quando caracteriza quais são os traços políticos do atual estágio de decomposição do capitalismo:
“Em geral, quando não há mais lugar para reformas sociais sistemáticas nem para a elevação do nível de vida das massas; quando cada reivindicação séria do proletariado, e mesmo cada reivindicação progressista da pequena burguesia, conduz, invariavelmente, para além dos limites da propriedade capitalista e do Estado burguês.”
Ou seja, não vivemos mais um momento de reformas, mas sim um tempo de revolução. O efeito disso no nosso trabalho é que:
“Todos os setores do proletariado, todas as suas camadas, profissões e grupos devem ser trazidos para o movimento revolucionário. O que distingue a época atual não é o fato de desobrigar o partido revolucionário do trabalho cotidiano, mas o de permitir que este trabalho seja conduzido em união indissolúvel com as reais tarefas da revolução.”
Ou seja, o nosso trabalho não está descolado da realidade concreta dos trabalhadores. Pelo contrário, é nas reivindicações mais imediatas que devemos atuar, pois é por meio delas, sendo a fração mais determinada do movimento operário, que vamos construir a plataforma política que colocará em questão a existência do modo de produção capitalista, que há muito já cumpriu o seu papel histórico. Nas palavras do “Programa de Transição”:
“Defende incansavelmente os direitos democráticos dos operários no quadro de uma perspectiva correta, real, ou seja, revolucionária. À medida que as velhas reivindicações parciais, ‘mínimas’, das massas chocam-se com as tendências destrutivas e degradantes do capitalismo decadente — e isto ocorre a cada passo —, a IV Internacional levanta um sistema de reivindicações transitórias, cuja essência reside no fato de que, cada vez mais aberta e resolutamente, elas estarão dirigidas contra as próprias bases do sistema burguês. O velho ‘programa mínimo’ é ultrapassado pelo programa de transição, cuja tarefa consiste na mobilização sistemática das massas em direção à revolução proletária.”
Esse mesmo método foi empregado em vários momentos e pode ser percebido inclusive na luta anti-imperialista. No mesmo congresso de fundação da 4a Internacional, foram aprovadas as “Teses sobre o papel mundial do imperialismo norte-americano”. O que está proposto é a união internacional da classe trabalhadora, inclusive dos trabalhadores dos países dependentes da América Latina com os trabalhadores americanos, em lutas conjuntas contra todo tipo de opressão imperialista. Ou seja, que os trabalhadores americanos denunciem, na sua imprensa operária, os ataques aos latino-americanos, que criem um trabalho conjunto com os imigrantes e que atuem com manifestações e greves. O mesmo deveria ser feito no sentido inverso. Isso não ficou no passado. Um exemplo recente foram as manifestações e greves em apoio ao povo palestino ao redor do mundo, que forçaram um recuo do governo de Israel.
Os métodos que reivindicamos não são uma panaceia. São a expressão científica do acúmulo político de gerações de militantes que deram a sua vida pela construção do socialismo. E, portanto, devem ser aplicados de acordo com cada caso concreto.

Não nos faltam reivindicações imediatas conectadas com o combate ao imperialismo. Temos alguns exemplos. Os camaradas que combatem na luta sindical contra as privatizações das águas e do saneamento demonstram permanentemente que a garantia dos empregos e da manutenção dos serviços públicos estão vinculadas com o combate ao avanço do imperialismo. Quando nos erguemos contra as demissões e terceirizações das categorias bancárias, explicamos que a luta pela manutenção dos empregos e dos direitos da categoria é uma luta contra a remessa de lucros e pela estatização do sistema bancário sob o controle operário. Ou mesmo quando construímos o nosso pré-encontro “Fora o Imperialismo e as suas guerras”, todos os jovens vestibulando com os quais conversamos entendiam perfeitamente que a existência do vestibular é fruto da rapina imperialista que se faz sobre o orçamento público com o pagamento da dívida. E que, portanto, o acesso universal à educação superior está vinculado a essa reivindicação.
Declaramos, no ano passado, que uma nova situação se abriu na luta de classes mundial. Os desenvolvimentos do último ano comprovam isso. Trata-se de uma situação sem precedentes, mas que seremos capazes de superar se tivermos os métodos e as práticas corretas daqui para a frente. Espero que esse texto contribua para as nossas próximas batalhas, que serão muitas! E que façamos mais um vitorioso encontro “Fora o Imperialismo e as suas guerras” em abril. Pois o futuro da humanidade está, como sempre esteve, nas mãos da nossa classe. Ao trabalho!
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional