No início de novembro, a cidade de El-Fasher, depois de quase 500 dias de cerco, a última grande cidade sob controle do governo sudanês na região de Darfur, foi tomada pelas forças paramilitares das Forças de Apoio Rápido (FAR). As imagens de satélite e os vídeos divulgados mostram que o horror absoluto do genocídio e da barbárie se instalou sobre o Sudão. A queda de El-Fasher para as FAR está sendo marcada pelo massacre de civis, a utilização do estupro contra crianças e mulheres como arma de guerra e a expulsão da população local por questões religiosas. Segundo a International Organization for Migration (IOM), 62 mil pessoas tiveram que migrar, ou foram expulsas, da cidade somente entre 26 e 29 de outubro. As notícias do genocídio praticado contra a população local levaram a uma série de condenações dos ministros das Relações Exteriores da Alemanha e do Reino Unido. Entretanto, de forma hipócrita, os mesmos imperialistas que se colocam contra a barbárie a financiam e lucram com ela.
Banhos de sangue sob a ingerência imperialista
A atual região do Sudão esteve sob controle colonial britânico (1899–1956), em um consórcio com o Egito. Durante o período colonial britânico, o Sudão era visto como uma região estratégica, por sua posição geográfica, para o controle do rio Nilo e por fazer a ligação entre a África subsaariana, o Egito e o Canal de Suez. Para impedir a unidade nacional, o imperialismo britânico explorou as divisões religiosas e étnicas entre árabes e africanos, dividindo o país em duas zonas administrativas: uma árabe e islâmica e outra africana, que foi cristianizada. O árabe era proibido no sul, e a migração de uma região para a outra dependia de autorização.
Em 1953, uma revolução derrubou o rei Faruque I no Egito e instalou uma república. Isso criou condições para que o Sudão declarasse sua independência em 1956, mas as marcas do imperialismo britânico permanecem, assim como o controle político e econômico que se manteve no norte árabe. Essas questões pendentes no movimento de libertação nacional se converteram e se somaram às contradições de classe, criando no novo país um ambiente instável e suscetível a guerras civis.
A primeira guerra civil sudanesa, entre rebeldes sulistas e o governo nortista, data já de 1955 e durou até 1972, quando o general Jaafar Nimeiry tomou o poder e, com o Acordo de Addis Abeba, mediado pela Igreja e pela Etiópia, concedeu autonomia regional e liberdade religiosa para o sul.
A segunda guerra civil explode em 1983, quando Nimeiry revoga o acordo e tenta impor a sharia (lei islâmica). Ela termina em um impasse militar em 2005 e em um período de transição que, em 2011, vai levar à realização de um referendo e à separação oficial entre Sudão e Sudão do Sul. Estimam-se de 2 a 3 milhões de mortes nas duas primeiras guerras civis sudanesas.
Em 2003, na região sudanesa de Darfur, como um reflexo das divisões étnicas aprofundadas pelo colonialismo britânico, inicia-se um novo conflito entre o governo árabe e rebeldes das etnias africanas Fur, Masalit e Zaghawa. O governo apoia as milícias árabes conhecidas como Janjaweed, famosas por massacres, estupros e genocídio, que mais tarde se tornam as Forças de Apoio Rápido (FAR), um grupo paramilitar legalizado pelo governo de Omar Al-Bashir.
A Primavera Árabe
Em 2011, a “Primavera Árabe” vai varrer ditaduras de décadas na Tunísia e no Egito e levar à guerra civil na Líbia e na Síria. A palavra de ordem “o povo quer a queda do regime” vai alcançar o Sudão, onde a ditadura de Omar Al-Bashir utiliza as FAR para reprimir brutalmente o movimento. Mas o impacto na consciência das massas é duradouro, e uma segunda onda de mobilizações históricas vai levar à queda de Omar em 2019. Assim como no Egito, a ausência de um partido revolucionário permitiu ao Exército, sob o comando de Abdel Fattah al-Burhan, e às FAR, sob o comando de Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti), tomar o poder e iniciar uma sangrenta reação.
O novo governo estabelece um Conselho Militar de Transição e inicia, em 2021, um processo de transferência de poder para um comando civil, nomeando Abdalla Hamdok como primeiro-ministro. Porém, um novo golpe liderado por Abdel Fattah resulta na prisão de Hamdok, que é rapidamente respondida pelas massas, que se lançam às ruas. Após um mês de sangrentos conflitos, Hamdok foi restabelecido como primeiro-ministro, mas mediante acordos com os próprios militares que o depuseram.
Hamdok já não era bem visto pelas massas sudanesas quando sofreu o golpe, mas a enorme reação popular à derrubada do primeiro-ministro carregava, em seu germe, a defesa das conquistas arrancadas em 2019. O restabelecimento do governo “civil”, sob o comando de Hamdok, foi visto com desconfiança pelas massas.
O elemento central ausente em todas as mobilizações massivas recentes no Sudão foi uma direção revolucionária capaz de guiar as massas ao poder por meio de um partido revolucionário. A ausência do elemento subjetivo resultou em um vácuo que levou ao acentuamento das contradições do regime sudanês e à consolidação das alas reacionárias, que agora iniciam mais um episódio marcado por um banho de sangue.
Lutar contra o imperialismo
As FAR se tornaram uma organização paramilitar poderosa durante os anos de Omar Al-Bashir e ficaram fora de controle, apesar da tentativa de integrá-las ao Estado. É amplamente conhecido que as FAR têm relações com a Arábia Saudita e com os Emirados Árabes, e que as ricas reservas de ouro do Sudão abastecem os cofres e a ostentação da monarquia reacionária. Agora, estão se digladiando com outra fração da reação, liderada pelo comandante das Forças Armadas do Sudão, Al-Burhan.
No Índice de Percepção da Corrupção de 2024, o Sudão aparece em 170º lugar entre 180 países. A situação do país é de barbárie absoluta: é um vislumbre do futuro que o capitalismo tem a oferecer à humanidade.
Na recente tomada de El-Fasher, na região de Darfur, as FAR teriam matado 2 mil civis deliberadamente e cometido estupros em massa, inclusive contra crianças. Fotos de satélite mostram filas com dezenas de caminhões carregando corpos. Em um dos vídeos, uma mulher árabe aponta para que uma africana seja estuprada por um dos soldados das FAR.
Tudo isso acontece com a conivência do imperialismo, que plantou e colheu as sementes da barbárie. Contra todos aqueles que acreditam em alguma perspectiva de desenvolvimento global das forças produtivas, que se deslumbram com as cidades modernas que ostentam prédios altos e luzes de néon, cabe olhar o horror que o capitalismo produz, do Sudão à Palestina.
As recentes demonstrações de solidariedade dos trabalhadores ao povo palestino, as manifestações, greves etc. organizadas contra o genocídio em Gaza apontam o caminho da luta que deve ser travada em cada país contra o imperialismo. No Sudão, os trabalhadores estão colocados diante da necessidade de construir um verdadeiro partido revolucionário capaz de barrar essa situação de barbárie. Somente uma nova Primavera Árabe, com um partido revolucionário à frente, pode apontar a única saída: o socialismo.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional