“Apocalipse nos Trópicos”? Uma crítica marxista

Recém lançado na Netflix, o novo documentário de Petra Costa, diretora de “Democracia em Vertigem” (confira a crítica aqui), investiga o papel crescente do movimento evangélico na política contemporânea do Brasil. O documentário também resgata marcos históricos relevantes, desde a disseminação do evangelho anticomunista nos anos de Guerra Fria até os efeitos da pandemia de Covid-19, buscando, por meio desses acontecimentos, compreender as transformações recentes que vêm moldando a política brasileira.

Nesssa crítica, Chico Aviz busca analisar tanto os aspectos positivos quanto os limites e o pessimismo da presente obra, destacando a forma como são apresentados os trabalhadores, que aparecem para a autora apenas como agentes passivos, sem potencial revolucionário.

Analisamos o que é o (neo)pentecostalismo e sua ressonância no proletariado em um artigo publicado em 2024 em nosso site. Nele, apresentamos dados, o histórico desse movimento religioso e social e hipóteses para sua adoção por cerca de 47 milhões de brasileiros. 

O Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em junho de 2025, nos deu um novo quadro desse elemento cultural. Nele, vemos a queda dos fiéis ao catolicismo apostólico romano e a confirmação da ascensão evangélica, especialmente ligado ao movimento explicado no artigo acima. Essa população, concentrada entre os trabalhadores mais pobres e negros, chegou aos 26,9% dos brasileiros no meio a histórica crise capitalista. 

A pesquisa também apresentou uma surpresa: o desaceleramento do crescimento previsto anteriormente por acadêmicos e grandes pastores-empresários, que apontavam para o alcance dos 30% da população nacional convertendo-se às pulverizadas igrejas evangélicas até 2030. Possivelmente isso não ocorrerá, o que não diminui a importância desse movimento no país diante da crise das direções proletárias. Como marxistas, ressaltamos que as religiões são sempre resultado da luta entre as classes sociais e as relações de produção, o que nos explica as estatísticas deste Censo.

Nesse contexto, surgiu em 2025 mais um documentário impressionista da renomada cineasta Petra Costa, que expõe, na prática, o desmanche no ar dos ideais “progressistas” e liberais desta autora. Politicamente defensora idealista do Estado Democrático de Direito, Costa apresentou uma obra apocalíptica sobre sua percepção da disputa pelo poder político de pastores como Silas Malafaia. 

Seu novo documentário foi iniciado, segundo a própria autora, durante as gravações do seu mais famoso filme “Democracia em Vertigem” (2019), que tratava do impeachment de Dilma Rousseff. Assim começa “Apocalipse nos Trópicos” (2025), anunciando a linha adotada para narrar a história da tentativa dos mercadores da fé em dominar a política brasileira. Como ilustração, é utilizada uma fala do pastor e ex-deputado federal Cabo Daciolo que expressa a, assim chamada, “Teologia do Domínio”, explicada em nosso artigo mencionado anteriormente.

Para Petra Costa, seja em seu filme ou em entrevistas da divulgação da peça, esse é o principal indício de sua previsão do “Evangelistão”, isto é, a substituição da democracia liberal brasileira por uma teocracia (neo)pentecostal, governada por Malafaia e companhia / Imagem: Divulgação, Netflix

Essa teoria é basilar para Costa nesta produção. Tal teoria propõe analisar a busca dessas lideranças religiosas por infiltrar-se e dominar as “sete esferas” da sociedade: as artes e entretenimentos, a mídia e a comunicação, o governo e a política, a economia e os negócios, a educação e a ciência, a família e, apenas por último, a religião, para o controle cristão (PINI, 2023). 

Daciolo vocaliza essa ideia ao afirmar que o “governo dos ímpios irá cair” para a tomada do poder pelos evangélicos. Essa proposta é avalizada por uma fala de Malafaia em cima do púlpito de sua igreja em um culto de jovens. Para Petra Costa, seja em seu filme ou em entrevistas da divulgação da peça, esse é o principal indício de sua previsão do “Evangelistão”, isto é, a substituição da democracia liberal brasileira por uma teocracia (neo)pentecostal, governada por Malafaia e companhia. 

Contudo, para nós, os comunistas, os modos produtivos e os regimes políticos instaurados em cada tempo e espaço, mesmo quando baseados em uma religião, não são resultados de um mero plano maligno – neste caso, “divino” – de um grupo de religiosos fundamentalistas. Na realidade, se impõem a partir dos fatores objetivos (econômicos e sociais) e subjetivos (direção política) envolvidos na sociedade, em suma, na luta de classes, elemento inexistente no filme de Petra Costa.

Um elemento interessante da pesquisa da autora e sua produção, apesar de manejada de forma limitada, foi revelar com fontes de extrema relevância mais uma face da intervenção imperialista norte-americana no Brasil durante a Ditadura Militar. Seu documentário demonstrou como um grupo evangélico financiado por setores da burguesia americana, intitulado A Família, se instalou no Parlamento brasileiro dos anos 1960 à abertura democrática para a conversão dos políticos às suas fés. Foram também fundamentais as famosas Cruzadas evangelísticas e anticomunistas do midiário pastor norte-americano Billy Graham, que lotavam estádios no Brasil e doutrinavam gerações de evangélicos.

O plano foi bem-sucedido, visto que, em 2025, cerca de 20% dos congressistas formam a “Bancada da Bíblia”, como relata o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL), líder desta reacionária bancada e fantoche de Silas Malafaia no Congresso Nacional. Costa alerta que foram esses grupos evangélicos as bases militantes para a eleição de Ronald Reagan, nos EUA, em 1981, e, replica esse dado, apontando para os 70% de evangélicos que votaram no derrotado Jair Bolsonaro em 2022.

Indubitavelmente, o protagonista do documentário é o milionário pastor Silas Malafaia. Petra Costa faz questão de narrar sua história colocando-o como pessoa central para todo o plano de poder evangélico no Brasil. Das falas enérgicas às suas viagens com o jatinho de sua igreja para Brasília, com a tarefa de orientar Jair Bolsonaro, Malafaia é um verdadeiro quadro político desse movimento, exercendo um papel determinante do indivíduo na história. Nesse sentido, uma de suas maiores ações foi o lobby para a eleição de André Mendonça, jurista e pastor presbiteriano (“terrivelmente evangélico”, mas integrante desta tendência protestante apartada do movimento evangélico pentecostal), para o cargo de Ministro do Supremo Tribunal Federal, indicado por Bolsonaro enquanto presidente. Esse foi um processo muito bem relatado pelo documentário.

Porém, ressalto que Costa ignora – ou desconhece – os verdadeiros líderes pentecostais do país: José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) com mais de 6 milhões de membros e inúmeros de deputados, e Samuel Ferreira, mandatário da Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério de Madureira (CONAMAD). São as Assembleias de Deus as igrejas que controlam as massas evangélicas, das capitais aos rincões do Brasil.

Como a própria autora admite seu desconhecimento do “mundo evangélico”, decidiu dar holofote à quem gosta das câmaras, o líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), Malafaia. Embora sua propriedade carregue o nome que legitime seu pentecostalismo diante das massas, ele não possui vínculo direto com as duas grandes cúpulas assembleianas, a CGADB e a CONAMAD. O projeto econômico de Malafaia não pode ser compartilhado com outros figurões, nem ser “uma igreja de bairro”, como ele afirma na peça de Costa. Em suas mãos, a igreja herdada de seu sogro saiu de 15 mil membros para mais de 100 mil filiados, pagadores de dízimo, oferta e “militantes” das publicações e produções da editora de Malafaia, alcançando todo o território nacional.

Com essa posição, Malafaia doutrina fiéis de todas as idades. O documentário mostra trechos de suas pregações com seu combate político em cima do púlpito, vociferando contra o “marxismo cultural” e a Escola de Frankfurt, além da defesa consciente do papel político que os pastores devem ter a partir da teoria da Teologia do Domínio.

Incontestavelmente, utilizar Malafaia como protagonista chancela a proposta de Petra Costa em construir o movimento evangélico como uma “força política sem precedentes”. Com uma montagem cinematográfica dramática, heroica e cativante, porém, ela elimina qualquer possibilidade de ação revolucionária da classe trabalhadora, colocando-a como refém ou absolutamente cooptada por esse plano diabólico teocrático. O pessimismo histórico é o objetivo traçado por “Apocalipse nos Trópicos”: “Eu me pego imaginando: como seria nossa teocracia” (Petra Costa).

Ao mesmo tempo, não inclui nenhuma crítica ao PT e a Lula. Pelo contrário, destaca-o como um líder sóbrio, que dialoga com todas as religiões, vítima de fake news e destaca uma grotesca frase do atual presidente: “o que levou o socialismo ao fracasso foi a negação da religião”. Nessa linha, Costa defende que a católica Teologia da Libertação foi a escola religiosa capaz de realizar esse enlace de direitos sociais e trabalhistas com a fé, e que, por isso, foi condenada pelo Vaticano e pelo protestante imperialismo norte-americano, a partir dos anos de chumbo. Esse seria o “ovo da serpente”.

Novamente, essa análise extrai qualquer responsabilidade dos governos traidores de Lula e Dilma pelo bolsonarismo. O documentário atrela a consolidação desse movimento reacionário exclusivamente à ascensão evangélica no Brasil, pintando nosso tempo com essa nova Aquarela do Brasil (canção de Ary Barroso que abre o filme), uma espécie de “fascismo evangélico” narrado por Petra Costa.

Embora fale corretamente que o “fantasma do comunismo” sempre foi um eixo transformador da política na República do Brasil, Petra Costa apresenta esse espectro como vazio de conteúdo. Uma mofada retórica historiográfica de “esquerda” que afirma os movimentos golpistas e reacionários na história brasileira como frutos de falsas alegações para seus atos, como em 1937, 1964 e 2023. Essa posição exclui a guerra de classes na sociedade brasileira, que, em diferentes graus, sempre esteve tensionada pela miséria vivida pelos trabalhadores. 

Contudo, o Comunismo, as lutas sindicais, as revoltas e ações do proletariado brasileiro e internacional não são meros fantasmas, e a burguesia sabe muito bem disso. Como sabemos, as religiões – quaisquer que sejam – servem a esse papel, de ocultamento da realidade, dos antagonismos sociais, das necessidades objetivas da humanidade e a burguesia lança mão delas quando lhe convém.

Apesar desse erros centrais em sua análise, Petra Costa acerta uma conclusão, vocalizada, inclusive, por Lula: os evangélicos, especialmente ligados a Teologia da Prosperidade, representados por homens como Silas Malafaia, Edir Macedo e Valdomiro Santiago, respondem aos desejos imediatos dos trabalhadores vivendo sob a crise capitalista: “não dá para esperar o paraíso no céu”, diz Malafaia. 

Lula, cinicamente, afirma que quando o trabalhador desempregado vai ao sindicato, o dirigente o chama para a luta política, dizendo que é tudo difícil, e quando vai ao padre este, por sua vez, diz que a vida é sofrida mesmo e a paz será encontrada apenas ao lado de deus. Já quando este trabalhador vai à igreja evangélica, o pastor afirma que “o problema é o diabo, a solução é Jesus” e que em 7 semanas de corrente de oração, esse trabalhador estará empregado, com carro e casa nova e sem as doenças que o acomete.

Como marxistas, entendemos que é realmente isso que acontece. Enquanto a esquerda, as direções sindicais, partidárias e estudantis retiram do centro da disputa política a classe trabalhadora e luta para derrotar a raiz dos nossos males, o capitalismo, são os pastores (neo)pentecostais que respondem o que os desesperados desejam ouvir. 

Enquanto do lado “progressista”, defende o Estado que esmaga nossos direitos, empregos e vidas, foi Bolsonaro, Malafaia e seus asseclas que afirmaram que iriam “mudar tudo que está aí”. E o filme de Petra Costa mantém a narrativa resignada das direções de esquerda, mesmo quando acerta em uma ou outra conclusão.

Ao mesmo tempo, não inclui nenhuma crítica ao PT e a Lula. Pelo contrário, destaca-o como um líder sóbrio, que dialoga com todas as religiões, vítima de fake news e destaca uma grotesca frase do atual presidente: “o que levou o socialismo ao fracasso foi a negação da religião” / Imagem: Divulgação, Netflix

Afirmamos, desde o governo Bolsonaro, que as religiões, neste caso as práticas evangélicas manejadas pelo bolsonarismo, são expressões do retrocesso pré-capitalista que esse regime acaba por produzir em sua crise, principalmente em um país dominado e semi-colonial como o Brasil. O governo Bolsonaro foi marcado por esse obscurantismo medieval, a repúdia à ciência e aos próprios princípios burgueses liberais. Esses são os sinais dos tempos, o apocalipse, do grego, revelação, da crise existencial desse sistema.

Mas, oposto ao pessimismo de Costa, os comunistas compreendem que o motor e o parteiro da história é a luta de classes. A classe trabalhadora não está derrotada, nem dominada por completo pelos reacionários de plantão. Está sim dirigida por traidores da classe, que abandonaram a luta contra a exploração e a opressão, questão central não mencionada por Petra Costa em seu filme.

Com rica produção e excelente habilidade em contar uma história do tempo presente, a escolha da autora foi a desilusão e a completa descrença nos trabalhadores. Ela acredita no soterramento da laicidade e no que considera ser uma democracia, o regime liberal que, segundo a própria cineasta, é “acrobático” e “frágil”. Temos acordo, e por isso explicamos e combatemos pela real democracia, a operária e comunista, conquistada pelas massas trabalhadoras em ação com um governo dos trabalhadores, sem patrões nem pastores e generais.

Diante de tudo isso, as horrendas cenas da destruição da intentona bolsonarista do 8 de janeiro 2023, gravadas pelos trabalhadores do documentário na manhã do dia 9, encerraram a vertigem de Petra Costa de forma, no mínimo, contraditória ao som de “Juízo Final”, do genial operário brasileiro Nelson Cavaquinho. Esse é um clássico do samba que brinca com o paraíso divinal entre Terra e Céu, e com ele temos acordo: “o sol há de brilhar” o obscurantismo religioso e “o mal será queimado a semente” através da revolução socialista, que trará a “plena libertação material e espiritual dos trabalhadores”, como defendeu Trotsky.

Agradeço ao camarada Mateus Tavares pelas trocas de considerações quanto ao documentário de Petra Costa, auxiliando nas reflexões para esta análise