Cuba enfrenta seu pior momento econômico desde o triunfo da revolução de 1959. Desde seu primeiro mandato, Trump tem apertado cada vez mais o cerco ao país e tornado o famigerado bloqueio internacional cada vez mais pesado. Hoje, a ilha enfrenta escassez generalizada de petróleo, base do seu sistema energético, e também de itens básicos para alimentação e saúde da população. O país está à beira de uma grave crise humanitária.
Durante a gestão Obama, houve uma mudança de linha do imperialismo ianque em relação a Cuba: como estrangular a economia do país por décadas não levou à queda do regime criado pela revolução, em 2015 apostou-se na reaproximação diplomática com vistas a reintegrar Cuba ao mercado mundial e, com isso, favorecer a entrada de capitais, além de barganhar mais espaço de atuação para a oposição contrarrevolucionária. A burocracia governante, à época com Raúl Castro à sua frente, dançou conforme a música, pois já desejava implementar aberturas econômicas no estilo “socialismo de mercado”, e desde então tem ganhado força uma nova burguesia no país.
Mas a atual crise do capitalismo norte-americano não permite uma política de longo prazo, e o grande capital demanda novos espaços para investimentos o quanto antes. Por isso, Trump retomou a linha do estrangulamento, e Biden não a reverteu. E por isso Trump agora aumenta ainda mais o cerco a Cuba, buscando acelerar uma derrubada contrarrevolucionária do regime e, com isso, uma rápida abertura aos capitais imperialistas. Em 5 de março, ele declarou que primeiro quer lidar com o Irã e que Cuba virá na sequência, sendo mera “questão de tempo”.
Desde o sequestro de Nicolás Maduro, a Venezuela foi proibida pelos EUA de exportar petróleo a Cuba. A Venezuela era a principal fonte de combustível da ilha, apesar da redução nas exportações ter sido bastante grande desde que Maduro chegou ao poder e cortou os acordos de venda subsidiada da época Chávez – ainda assim, a Venezuela fornecia cerca da metade dos mais de 100 mil barris diários de que Cuba necessita. Sem petróleo, Cuba não consegue manter sua rede elétrica e seus transportes funcionando, de forma que a escassez desse produto há anos já vem causando graves problemas para a economia e para a população em geral.
Para piorar a situação, além de impedir a importação via Venezuela, Trump ameaçou impor tarifas aos demais países que venderem petróleo a Cuba. Isso fez, por exemplo, com que o governo mexicano de Claudia Sheinbaum suspendesse remessas que já estavam previstas, sendo que o México era o segundo maior fornecedor de petróleo a Cuba (cerca de 22 mil barris por dia, já reduzidos a 7 mil em 2025.

Até meados de fevereiro, o governo cubano anunciou que, desde o início de 2026, ainda não havia chegado nenhuma remessa de petróleo à ilha e que os estoques não durariam muito mais. Os apagões, que até o início do ano eram mais longos e frequentes nas cidades do interior, agora são mais gerais e duram até 15 ou 20 horas. Na capital, que tem sido mais preservada pelo regime para evitar o descontentamento da população, os apagões têm sido de 10 horas ou mais.
A Rússia, que já se encontra sob diversas sanções econômicas dos EUA e da União Europeia, prometeu ajuda à ilha e, ao final de fevereiro, notícias apontaram que um petroleiro supostamente pertencente à “frota fantasma” russa estava carregando diesel para Cuba – o que não foi confirmado. Mesmo que seja verdade, a ajuda russa isoladamente não será suficiente para restabelecer o pleno funcionamento do sistema elétrico cubano. No dia 4 de março, dois terços da ilha ficaram sem energia por incapacidade de funcionamento das usinas termoelétricas, levando mais de 60 horas para que algumas regiões voltassem a ter energia.
Desde 2021, protestos populares têm pipocado em diferentes partes de Cuba devido aos apagões constantes e à escassez crescente de itens básicos. A aposta de Trump é clara: causar um colapso econômico e, com isso, empurrar setores da população contra o governo, para colocar no lugar agentes contrarrevolucionários ou, ao menos, forçar setores da burocracia a ficarem totalmente subordinados à política norte-americana – como está ocorrendo na Venezuela com Delcy Rodríguez e Jorge Gómez.
No dia 25 de fevereiro, uma lancha vinda da Flórida foi interceptada pela Marinha cubana e houve troca de tiros com seus ocupantes, todos eles cubanos residentes nos EUA. Segundo comunicado do governo cubano, os dez tripulantes estavam fortemente armados com fuzis, pistolas e equipamentos táticos, e quatro foram mortos no confronto. Não está claro ainda se foi uma ação de contrarrevolucionários isolados ou um plano articulado com a CIA, mas não há por que duvidar dessa possibilidade: em 1961 aconteceu exatamente isso, na fracassada invasão da “Baía dos Porcos”. Na ocasião, o plano era que o grupo de guerrilheiros desembarcasse na ilha, se conectasse a setores da oposição contrarrevolucionária e derrubasse o governo de Fidel Castro, que, no dia anterior, havia proclamado o “giro socialista” da Revolução Cubana.
Defender Cuba das ações do imperialismo dos EUA é uma obrigação não só dos socialistas revolucionários, mas de qualquer pessoa minimamente progressista. Hoje o alvo principal dos EUA na América Latina é Cuba; amanhã pode ser qualquer outro país. Com o sequestro de Maduro, o governo venezuelano foi posto de joelhos e entregou suas riquezas naturais às empresas dos EUA. É isso que os imperialistas desejam fazer agora em Cuba – e no Irã e em tantos outros lugares que também têm sido brutalmente atacados por ações econômicas ou mesmo militares do imperialismo. Devemos mobilizar a classe trabalhadora em ações contra o bloqueio a Cuba, exigindo das organizações e partidos que representam a classe trabalhadora a realização de manifestações de rua e greves que atinjam a operação das multinacionais norte-americanas. Nisso é fundamental a ação do proletariado dos próprios EUA.
No Brasil, é absurdo que o governo Lula, que se diz favorável à classe trabalhadora e se apresenta como defensor da soberania dos países, fique calado quanto ao estrangulamento de Cuba pelos EUA. Fosse minimamente comprometido com a soberania e o combate às agressões imperialistas, o governo Lula enfrentaria as ameaças de sanções e exportaria petróleo para socorrer a população cubana. A verdade é que o compromisso de Lula é com o grande capital, por isso ele não vai arriscar sanções à Petrobras ou novas tarifas às exportações brasileiras para os EUA. Por isso devemos realizar ações de solidariedade a Cuba não só denunciando o imperialismo dos EUA, mas também o governo Lula, que se declara solidário ao povo cubano, mas se nega a enviar petróleo à ilha.

Também cabe ressaltar que essa situação expõe a profunda hipocrisia do governo chinês. Apesar de se dizer socialista e hoje empolgar setores da juventude radicalizada que desejam uma alternativa à barbárie capitalista, o governo chinês não tem feito absolutamente nada para ajudar Cuba. Notas de repúdio não vão manter os hospitais e lares cubanos funcionando. Denunciar isso é fundamental para quebrar as ilusões que têm crescido em relação ao governo chinês.
O imperialismo e o bloqueio não são o único problema: a burocracia cubana também joga água no moinho da contrarrevolução
Por fim, é necessário falarmos do papel nefasto que cumpre a burocracia que dirige o Estado cubano. Nos solidarizarmos ativamente com a população cubana contra o bloqueio não deve e não pode nos impedir de fazer as críticas necessárias ao fato de que essa burocracia tem criado um terreno cada vez mais fértil para uma contrarrevolução interna. Para entender isso, é importante retomarmos a própria origem da revolução e as características do regime político que dela surgiu.
A Revolução Cubana levou à expropriação da burguesia nativa e dos capitais imperialistas. Com os recursos que antes pertenciam a uma minoria de exploradores, foi possível garantir emprego, moradia, saúde e educação para toda a classe trabalhadora. Em pouco tempo após a revolução, Cuba virou uma referência mundial no combate ao analfabetismo, e seu sistema de saúde até hoje é um exemplo para o mundo, mesmo com todas as dificuldades impostas pelo bloqueio. Isso mostra o enorme potencial de uma revolução que socializa os meios de produção: sem a burguesia embolsando a riqueza na forma de lucro, a classe trabalhadora pode dar saltos incríveis na sua qualidade de vida.
A classe trabalhadora cubana teve papel central no sucesso e na radicalização da revolução. Foi uma greve geral que assegurou que o Exército Rebelde chegasse até a capital e que impediu a burguesia e o imperialismo de impor um governo de continuidade após a fuga do ditador Fulgencio Batista. Nos anos anteriores, diversas greves e greves gerais regionais ajudaram a erodir as bases da ditadura. Mas o proletariado cubano não parou por aí. Entre 1959 e 1961, essa classe realizou diversas greves, manifestações de rua e ocupações de empresas e fábricas, exigindo melhores salários, redução de jornada e readmissão de demitidos políticos da época da ditadura. Em vários casos também demandaram a estatização das empresas devido à colaboração dos patrões com Batista ou à sabotagem contra o novo governo revolucionário.1
Quando a contrarrevolução bateu às portas, o Movimento 26 de Julho (M-26-7) precisou se apoiar nessas ações para enfrentar a burguesia e o imperialismo. Foi aí que realizou o “giro socialista”, pois originalmente seu programa era apenas restabelecer a Constituição de 1940 e, com isso, criar uma república democrática, soberana e comprometida com a justiça social. Porém, a burocracia castrista do M-26-7 reprimiu os setores mais radicais que atuavam na Revolução Cubana — como o Partido Obrero Revolucionário, de orientação trotskysta, e até mesmo setores do próprio M-26-7 — e impediu que surgissem e se desenvolvessem órgãos de autogestão da classe trabalhadora. Isso impôs uma deformação burocrática à revolução, pois estabeleceu o monopólio político de uma burocracia estatal-partidária. Por mais que haja eleições em Cuba, o Partido Comunista Cubano é o único oficialmente permitido, e ele tem o poder de filtrar as listas de candidatos, garantindo que o parlamento seja sempre composto por pessoas alinhadas às suas diretrizes — o modelo clássico das ditaduras stalinistas.

Porém, a propriedade socializada não pode ser gerida adequadamente de cima para baixo, sem que o proletariado participe ativamente do processo. A democracia proletária não é mero adereço para a construção do socialismo; sem ela, a gestão não tem como funcionar adequadamente, pois a burocracia estará sempre fazendo aproximações grosseiras sobre os potenciais de produção e as demandas de consumo da sociedade. A essa grave deformação burocrática se somou ainda o isolamento nacional imposto pelo bloqueio dos EUA e também pelo abandono do internacionalismo revolucionário que o governo cubano adotou nos seus primeiros anos. O bloqueio e a deformação burocrática são as duas grandes fontes das dificuldades que a sociedade cubana enfrenta.
O isolamento nacional foi parcialmente mitigado nos anos 1970 pela ajuda soviética. Porém, com a contrarrevolução que destruiu a União Soviética, em 1991, Cuba viveu uma grave crise ao longo dos anos 1990 (o “Período Especial”), e setores da burocracia governante resolveram que o “socialismo de mercado” era a solução para dinamizar a economia. Isso significa abrir certo espaço para a propriedade privada e para relações de mercado, gerando receitas para o Estado via impostos, porém também gerando desigualdade social para o proletariado.
Ao longo dos anos 1990, Raúl Castro dirigiu experimentos pontuais de “socialismo de mercado” usando empresas ligadas ao Exército. A situação deu um salto com a abertura ao turismo, que envolveu a entrada de capital privado na gestão de resorts de luxo. Quando assumiu a presidência, entre 2008 e 2018, Raúl Castro aprofundou esses experimentos, mas foi com a chegada à presidência de seu protegido, Miguel Díaz-Canel, que a situação mudou de verdade.
Em 2019, Díaz-Canel coordenou a aprovação de uma nova Constituição para Cuba e, em 2021, iniciou o pacote de reformas econômicas Tarea Ordenamiento. Em poucas palavras, foi legalizada a propriedade privada e a exploração de mão de obra, e foram criados incentivos estatais para a formação de empresas capitalistas e ampliados os incentivos para a entrada de capital estrangeiro. Também foram promovidas privatizações. Com isso, uma nova burguesia se desenvolveu, principalmente no ramo da gastronomia voltada aos turistas e também no ramo do comércio. O capital inicial dessa nova burguesia veio da autorização para a venda de imóveis e carros, do capital acumulado por burocratas via corrupção e também de agentes do mercado negro. Com esse capital e as facilidades criadas pelo regime, essa burguesia pôde começar seus negócios, com milhares de empresas privadas sendo criadas nos últimos anos.
Para transferir recursos a essa nova burguesia, houve uma verdadeira cruzada contra os subsídios estatais à população, com órgãos oficiais criticando o “igualitarismo” por supostamente gerar “preguiça” e “falta de iniciativa”. Após sucessivos cortes de subsídios, em fevereiro deste ano foi extinta a famosa libreta, instrumento através do qual as famílias cubanas tinham acesso a itens de cesta básica por preços quase simbólicos (esses preços já vinham sofrendo aumentos, e o número de itens vinha sendo cortado). Os alimentos que antes eram subsidiados à população passaram a ser disponibilizados em mercados atacadistas destinados aos novos restaurantes privados. Algo similar ocorreu com outros itens em geral. O Estado passou a importar cada vez menos produtos, ao passo que foi ampliando a autorização para que mercados privados o fizessem. Isso tem gerado uma crescente inflação, a qual também é alimentada pelas dificuldades que o bloqueio impõe à importação. O resultado é uma escassez crescente para a população – agravada pelo fato de o Estado ter reduzido drasticamente os investimentos na agricultura (meros 2,3% em 2025), para concentrar todo o possível no turismo.2
Tudo isso obviamente gerou insatisfação popular. Em julho de 2021, estouraram manifestações espontâneas contra os constantes apagões e a escassez crescente (desde a crise dos anos 1990 algo assim não ocorria). Em setembro de 2022, essas manifestações se tornaram mais frequentes e duradouras. Setores contrarrevolucionários têm tentado se aproveitar da situação, mas até o momento eles têm ficado restritos à intelectualidade liberal e sido incapazes de convocar manifestações próprias (houve uma tentativa fracassada em novembro de 2021).3
Contudo, tampouco há hoje em Cuba uma organização revolucionária capaz de captar essa insatisfação com o regime burocrático e lhe dar uma direção progressista: a substituição desse regime por um autogoverno proletário, democrático e comprometido com a revolução mundial – tal qual foi o governo bolchevique nos primeiros anos da Revolução Soviética.

A burocracia cubana baila à beira do precipício. Fomenta a formação de uma nova burguesia, produz escassez com sua política de aberturas ao capitalismo, ao mesmo tempo em que reprime a classe trabalhadora e os setores progressistas. Setores dessa burocracia se fundem cada vez mais à nova burguesia, pois preferem a estabilidade de serem proprietários privados à instabilidade de serem meros gestores privilegiados da propriedade social, dependentes de alianças políticas ao nível da cúpula do regime para manterem seus cargos. A meta de alcançar o comunismo foi até mesmo removida da nova Constituição, indicando que setores expressivos da cúpula do regime já não têm nenhum compromisso com as conquistas da revolução, nem mesmo no plano retórico.
Já vimos essa história antes na União Soviética e em todo o Leste Europeu. Apesar de todo o esforço do imperialismo, não foi uma contrarrevolução externa que extinguiu as conquistas da Revolução Soviética, mas sim setores da própria burocracia que capitanearam um processo de restauração capitalista, ainda por cima se apoiando demagogicamente em setores da classe trabalhadora que estavam insatisfeitos com o regime ditatorial e que igualavam socialismo a stalinismo, iludidos de que a alternativa para democracia e prosperidade seria o retorno ao capitalismo. Por isso, não basta sermos ativamente contra o bloqueio imperialista a Cuba. A continuação da ditadura da burocracia e sua política de “socialismo de mercado” fomenta e fortalece uma nova burguesia e cria enorme insatisfação entre a população. Trata-se de um barril de pólvora que explodirá a qualquer momento.
É necessário que a classe trabalhadora cubana tome o Estado em suas mãos, eliminando o monopólio político da burocracia e então se enfrente com a nova burguesia e o imperialismo, revertendo as concessões feitas às custas das condições de vida do proletariado cubano sob a bandeira do mal-nomeado “socialismo de mercado” e enfrentando o bloqueio internacional a partir do internacionalismo revolucionário. Desde o Brasil, devemos fazer o possível para auxiliar nessa enorme tarefa de nossos irmãos e irmãs de classe em Cuba. A cada dia que a burocracia segue no poder, além do risco da contrarrevolução externa via EUA, mais aumenta também o risco de uma contrarrevolução interna. Se essa burocracia faz do seu grito de guerra “pátria ou morte”, o proletariado cubano deve fazer do seu “socialismo ou morte”!
Notas
- Sobre esse aspecto tão pouco falado da revolução, devido ao mito da “revolução camponesa”, ver o importante estudo de Steve Cushion, A Hidden History of the Cuban Revolution: How the Working Class Shaped the Guerillas’ Victory, Monthly Review Press, 2016; também vale conferir o artigo de divulgação “O papel da classe trabalhadora na Revolução Cubana” ↩︎
- Um recente estudo da história cubana, feito desde a perspectiva trotskysta por um historiador e sociólogo cubano, analisa a fundo esses elementos: Frank García Hernández, Cuba: una historia crítica (1959-2025), Marea Editorial, Buenos Aires, 2025 ↩︎
- Sobre isso, ver também o livro de Hernández ↩︎
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista)