Em memória de Catarina Kasten: pelo fim da violência contra a mulher

A barbárie é um elemento indissociável da vida cotidiana da mulher trabalhadora na sociedade capitalista.

Com muita tristeza, recebi a notícia de que minha companheira de estudos, Catarina Kasten, foi vítima de um crime brutal que tirou a sua vida. De imediato, precisei parar tudo que estava fazendo e me reservar às memórias de Catarina. Cata, como a chamávamos, fazia mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde nos conhecemos. Uma professora, estudante e pesquisadora brilhante, que sempre se demonstrou sensível e interessada às questões sociais durante as discussões de que participamos juntas. Mas Cata era muito mais do que sua vida acadêmica: ela era uma mulher de solidariedade incomparável, que nunca se absteve de acolher colegas, tanto no espaço físico de sua casa como também na sua vida em geral, e com uma imensidão de sonhos e planos a realizar.

Depois de muito refletir e relembrar, enquanto o choque da notícia foi lentamente se transformando em ódio pela vida perdida de uma amiga, pareceu-me certo escrever em solidariedade a todos que permanecem absortos em revolta depois dessa perda. Mas não é possível escrever só sobre Cata, pois o que parece um caso isolado reflete o estado crescente de barbárie em que vivemos. O que fazer com a cólera que afoga os que permanecem aqui? Quantas mais terão que morrer?

No dia 21 de novembro, Catarina Kasten foi vítima de abuso sexual seguido de assassinato em uma trilha de Florianópolis. Catarina, uma jovem de 31 anos, mestranda da UFSC, sofreu o ataque logo de manhã, em uma trilha perto de casa, enquanto estava a caminho de sua aula de natação. A sua morte causou imediatamente uma onda de choque e revolta que ultrapassou os limites da comunidade à qual pertencia. Afinal de contas, de um dia para o outro, uma vida deixou de existir para se tornar parte da estatística que evidencia, dia após dia, a incapacidade do sistema capitalista de garantir o direito à vida e à segurança da mulher trabalhadora.

Ontem pela manhã (22), um ato em sua memória foi realizado na Praia da Armação. O Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da UFSC convocou o “Ato para Catarina” a ser realizado no Varandão do CCE com início às 10:30 de segunda-feira (24), além de decretar três dias de luto e suspensão de todas as atividades acadêmicas (de 24 a 26 de novembro) em respeito aos colegas e professores de Catarina. A Organização Comunista Internacionalista (OCI), junto com o movimento Mulheres Pelo Socialismo (MPS), se fará presente no ato de segunda-feira para prestar solidariedade e continuará acompanhando a situação.

O que aconteceu com Catarina não é um caso isolado que deve ser analisado como uma fatalidade sem explicação. O que levou o seu assassino a cometer o crime é aquilo que também motiva o assassinato de mais de 100 mil mulheres anualmente no mundo. É a ideologia que está intrínseca em nossa sociedade de classes, que reduz a mulher à “escrava da luxúria do homem”, como Engels explica. O MPS e a OCI se somam à manifestação em repúdio ao crime cometido não somente contra Catarina, mas contra todas as mulheres. Exigimos a prisão imediata de seu assassino!

Para compreender a fundo a questão que se coloca diante da barbárie de um crime como esse, é preciso ir além da superfície. É fato que, na sociedade capitalista, a mulher possui uma posição de propriedade. Isso faz com que seja possível que situações como essa aconteçam, além de todas as outras maneiras pelas quais as mulheres são subjugadas, exploradas e, por fim, levadas à morte. Mas não é ao acaso que as mulheres ocupam essa posição na sociedade de classes.

A origem dessa opressão está diretamente ligada ao surgimento da propriedade privada, a partir do momento em que se possuem bens excedentes, ou seja, a partir do momento em que se produz mais do que se precisa, surge a necessidade de ter um controle maior sobre a família e herdeiros. Isso faz com que o casamento surja, e, com isso, a monogamia se torne obrigatória para a mulher, é preciso garantir que o homem deixe a sua herança somente para o herdeiro legítimo. A partir disso, com uma parcela da humanidade acumulando uma quantidade maior de bens do que a outra, a sociedade de classes tem origem. Ou seja, a primeira camada da sociedade a sentir o impacto direto do surgimento da sociedade de classes é a mulher.

Engels, em “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, ilustra muito bem essa questão:

“O desmoronamento do direito materno, a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução.”

Desde então, a sociedade passou por diversas transformações, porém todas baseadas na divisão de classes. Durante todas essas fases, a mulher — mais especificamente, a mulher das classes oprimidas — sempre foi submetida às piores condições de vida e trabalho. O capitalismo, apesar de tentar velar a opressão da mulher trabalhadora com um discurso supostamente progressista em relação aos seus direitos, continua no mesmo caminho em direção à barbárie.

Agora, a mulher trabalhadora pode atuar em campos que, em outros momentos, eram reservados somente aos homens, mas geralmente recebendo menos por isso. O que o sistema capitalista realmente deu à mulher foi a oportunidade de ser explorada em um grau ainda mais alto que o homem de sua classe. Esse sistema não é capaz de garantir liberdade e segurança para a mulher trabalhadora, e isso fica mais claro, ano após ano, ao observarmos o número crescente de mulheres violentadas e assassinadas no Brasil e no mundo. O capitalismo não consegue fornecer a libertação da mulher trabalhadora, pois, para isso, seria necessário garantir uma série de coisas: saúde e educação públicas, gratuitas e para todos; o direito ao aborto público, gratuito e seguro; creches, restaurantes e lavanderias públicas; direito ao salário igual pelo trabalho igual; segurança, moradia e, principalmente, o direito à vida. O sistema capitalista não é capaz de fornecer tudo isso à mulher trabalhadora pois, se todas essas reivindicações fossem atendidas, então não seria mais capitalismo. Ao invés disso, garante miséria e exploração, cujos reflexos surgem principalmente em forma de violência moral, sexual, física e morte.

A nós que permanecemos, diante da ausência de perspectivas de melhora da condição de nossas vidas sob esse sistema apodrecido e sob todo e qualquer sistema baseado em classes e na opressão da mulher, resta apenas uma opção: lutar até o final pela emancipação da mulher trabalhadora, por um mundo onde não sejamos constantemente submetidas a situações de violência, exploração e crueldade. E, para isso, é necessário combater tudo que nos trouxe a este ponto, no qual o fim brutal da vida de uma das nossas é reduzido a apenas mais um número no meio de tantos outros. É preciso combater todo tipo de violência e opressão às quais as mulheres trabalhadoras são sujeitas, mas não se combate a raiz do problema tratando somente de suas consequências. É preciso combater o capitalismo, a divisão da sociedade em classes e a propriedade privada, que continuarão a subjugar a mulher enquanto existirem.

  • Pelo fim da violência contra as mulheres!
  • Prisão para os estupradores e assassinos!
  • Abaixo o capitalismo!
  • Catarina, presente!