Em novembro de 2025, a Juventude Comunista Internacionalista iniciou a publicação de seu novo podcast, o Bandeira Vermelha. Essa nova ferramenta de propaganda é a expressão de nossos combates na juventude e na classe trabalhadora contra o capitalismo e sua fase superior, o imperialismo e suas guerras. Um combate que é também contra as ideias alheias à luta de nossa classe, contra os “profetas” e seus atalhos nessa luta entre as classes.
Nos episódios, os camaradas ouvintes encontrarão: uma análise dos acontecimentos do presente, a luta da juventude trabalhadora e dos povos oprimidos por liberdade e sobrevivência, e, com a Universidade Vermelha, poderão se iniciar nos clássicos da teoria marxista, tendo, assim, a base para a ação. Como ensinou o revolucionário Vladimir Lênin: sem teoria revolucionária, não há ação revolucionária.
Por esses motivos, escolhemos como nome para o podcast Bandeira Vermelha, pois entendemos que esse é expressão da luta em defesa do marxismo e do comunismo internacionalista. Entendemos também que a melhor maneira de apresentar nosso novo podcast é explicando a origem histórica da Bandeira Vermelha e como ela foi amplamente utilizada no movimento operário internacional.
A bandeira vermelha e a luta histórica dos trabalhadores
É difícil afirmar, com exatidão, quando a bandeira vermelha surge sendo relacionada à luta de classes dos explorados e oprimidos. Aqui, para fins narrativos, vamos usar como marco as revoluções lideradas pela burguesia do final do século XVIII, momento em que esta ainda desempenhava um papel revolucionário contra a velha ordem feudal. Nestas revoluções, a bandeira vermelha estava associada às alas mais radicais e proletárias entre os revolucionários.
No decorrer do século XIX, esse jovem proletariado das grandes cidades, ainda uma classe em sua infância — que, na França, era conhecido como os sans-culottes, pois não tinha nada além de sua própria força de trabalho e, assim, não podia adquirir nem mesmo o calção típico da aristocracia da época, o culotte — vai estabelecer as primeiras organizações independentes do proletariado, em que a bandeira vermelha tremulava como símbolo da ruptura com a ordem vigente. Em contrapartida, a burguesia, já como classe dominante, abandonava a linha revolucionária e adotava a linha conservadora. Assim, a bandeira vermelha mantém-se associada à luta da classe trabalhadora e dos povos oprimidos.
Na Comuna de Paris, em 1871, a bandeira vermelha, já consolidada como símbolo do proletariado desde 1848, retornou como símbolo da raiva do proletariado em luta e também adquiriu o peso de símbolo de esperança. Pois é com a Comuna de Paris que, pela primeira vez na história, o proletariado mostrava a força da ação independente enquanto classe e, como Marx disse, assaltava os céus. Esse processo vai mostrar aos trabalhadores do mundo inteiro que, a partir da luta de classe do proletariado revolucionário, um novo mundo poderia ser construído. A Comuna de Paris adota oficialmente a bandeira vermelha como símbolo da vitória dos trabalhadores e a hasteia no Hôtel de Ville, que tornou-se a sede do poder comunal.

A bandeira vermelha torna-se também memória permanente para o proletariado, pois o vermelho também representa o sangue derramado pelos communards no massacre feito pelas burguesias da França e da Prússia contra os revolucionários na Semana Sangrenta. Que, como podemos ver na obra de Hippolyte Lissagaray, História da Comuna de Paris: “naqueles dias, todas as bandeiras foram tingidas de vermelho pelo sangue do proletariado em luta.”
Assim, a bandeira vermelha tornou-se símbolo da exploração sofrida pela classe trabalhadora, de sua unidade internacional e de suas conquistas e derrotas, significando cada gota de sangue derramado por esta na sua luta por um novo mundo. Portanto, esse símbolo se converte no acúmulo de experiências e aprendizados de centenas de gerações em luta. Essa é a importância da bandeira vermelha para os proletários e comunistas.
Sobre essas bases, o nome Bandeira Vermelha vai ter outros usos na história do movimento operário. Destacamos aqui aqueles ligados à defesa dos princípios do marxismo revolucionário no movimento operário alemão, junto aos espartaquistas, na luta por um partido proletário e contra a guerra imperialista, e a luta dos trotskystas brasileiros contra o fascismo e contra a degeneração burocrática. Nessa citação de Lênin, sobre o que representa o legado de Rosa Luxemburgo, podemos encontrar um resumo e uma descrição de todos esses camaradas revolucionários espartaquistas e mesmo dos trotskystas que estiveram inseridos nesses processos:
“Luxemburgo dedicou-se inteiramente ao trabalho na Alemanha, assumindo uma posição radical de esquerda e levando adiante a luta contra o centro e a ala direita… Sua participação na insurreição de janeiro de 1919 fez de seu nome a bandeira da revolução proletária.”
Vamos começar pelo uso desse nome pelo proletariado alemão. Na ferramenta de propaganda da Liga Spartacus, que viria a formar o núcleo do Partido Comunista Alemão, o jornal Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha) surgiu durante a revolução de 1918, quando um grupo de operários e trabalhadores de Berlim, ligados à Liga Spartacus, ocupou o Berliner Lokal-Anzeiger, jornal conservador e reacionário da capital alemã, e o colocou para funcionar sob controle operário. Esse jornal se tornaria, a partir dos meses revolucionários, a expressão da luta dos espartaquistas contra o imperialismo, contra os horrores das guerras capitalistas, contra a adaptação e o oportunismo do Partido Socialista Alemão (SPD)1 e pela necessidade de revolução socialista através da construção da república dos sovietes para a Alemanha.
Como organizadores e redatores desse jornal, estão figuras de grande destaque para as lutas do período. Por exemplo, Rosa Luxemburgo — que em sua obra buscou entender as bases do imperialismo e sua necessidade militarista, uma das engrenagens indispensáveis para o funcionamento do capitalismo na época do capital monopolista — e Karl Liebknecht, que, em 1914, indo contra o seu próprio partido à época, o SPD, colocou-se contra os créditos de guerra.2 Sendo o único dentre 110 deputados no parlamento alemão a votar contra, declarou o que viria a ser a palavra de todos os revolucionários contra o imperialismo e as guerras: “Nossos verdadeiros inimigos estão dentro de casa, em nosso próprio país, são nossa burguesia […] Façamos guerra contra a guerra.”
Portanto, esse jornal nasceu da luta viva dos operários, e seu nome simboliza todo o esforço dos espartaquistas e, em sentido mais amplo, de todos os revolucionários, que, frente à traição dos social-democratas, mantiveram viva e tremulando a bandeira vermelha do comunismo revolucionário, como expressão de sua fé na revolução do proletariado internacional. Durante os anos do regime nazista, o Die Rote Fahne foi um dos poucos jornais de esquerda que continuou sendo difundido, ainda que na clandestinidade. Nos anos 1960, especialmente em 1968, e nos anos posteriores, esse nome ressurgiu com a juventude da Alemanha Oriental, que se organizou contra o caráter antirrevolucionário e antidemocrático do regime burocratizado. Esse expressava o sentimento geral do proletariado em luta contra esses regimes burocráticos por todo o “bloco socialista”, mas também o da juventude de todo o mundo que se colocou em revolta contra o capitalismo naquele ano.
No Brasil, também tivemos um jornal com esse nome. O Bandeira Vermelha foi um jornal do Movimento Comunista Internacionalista (MSI), que teve como redator principal Hermínio Sacchetta. Ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro em 1932 e, a partir de 1937, foi expulso sob a acusação de organizar uma “dissidência trotskysta”. Após sua prisão durante o Estado Novo, Sacchetta fundou o Partido Socialista Revolucionário, seção brasileira da 4a Internacional. O jornal Bandeira Vermelha existiu entre os anos de 1967 e 1969 e foi marcado por uma crítica aos métodos burocráticos do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à sua degeneração em uma política de revolução por etapas e de colaboração com a suposta “burguesia nacional libertadora”, assim como fez uma luta contra a linha de uma oposição armada à ditadura militar descolada das massas.
Uma bandeira vermelha para nosso tempo
No momento em que lançamos esse podcast, uma nova onda de levantes contra as mazelas do sistema capitalista toma conta do mundo. Milhões de jovens e trabalhadores enfrentam os programas de austeridade, os efeitos da crise em cada país, a repressão aos mais básicos direitos conquistados por nossa classe e guerras localizadas que o imperialismo impõe sobre nós. Dos levantes populares do Nepal ao Irã, a soma desses fatos afeta de maneira mais intensa a juventude trabalhadora, e é esta, livre das derrotas do passado, que primeiro se joga na luta pela mudança dessa realidade. Muitos estão, pela primeira vez, adentrando o palco da luta de classes e, na ação prática, vão se formando e procurando uma bandeira para chamar de sua, uma bandeira que seja a expressão de um programa de mudança.
A posição de Trotsky de que a crise da humanidade se resumia à crise da direção revolucionária torna-se clara em nosso momento histórico. Na falta de um partido, de uma direção e de um programa de mudança, toda essa nova camada de combatentes busca métodos para agir e para entender o mundo. Em meio a esse processo e na falta dessa direção, surgem ideias alheias à nossa classe, como as de oposição entre gerações, que nada têm a ver com a luta histórica da juventude e do proletariado. Entretanto, não existe caminho fácil na história para a construção do partido revolucionário, arma essencial para a construção de um novo mundo. Na medida em que as tensões de classe aumentam, os movimentos e revoltas de classe se tornam cada vez mais frequentes; a juventude se forja e entende os limites das instituições e programas reformistas.
Lênin sempre afirmou a importância da juventude para a construção do partido, e, para ele, a nossa tarefa é: “estudar, estudar e estudar”. Assim, é possível entender o mundo bem mais além de sua aparência, mas em sua essência. Entender e se apropriar dos métodos históricos de nossa classe, que são fruto da experiência e do acúmulo prático e teórico de dezenas de gerações. Não apenas como exercício abstrato, mas entender o mundo para transformá-lo, que é o essencial da práxis de qualquer revolucionário, em qualquer lugar do mundo e em qualquer época. Esse movimento histórico tem na bandeira vermelha do comunismo sua expressão.
Esse é o objetivo do podcast Bandeira Vermelha e de nossa organização. Mostrar que a saída para a crise do capitalismo está na luta pela construção de um partido revolucionário, através da aliança operária-estudantil. E a bandeira desse partido não está na divisão por gerações, cores, fronteiras e identidades, mas sim na histórica bandeira vermelha do comunismo revolucionário e internacionalista.
Notas
- Fizemos a tradução do nome do partido, no original Sozialdemokratische Partei Deutschlands, mas mantemos a sigla para melhor entendimento do leitor. ↩︎
- Orçamento militar destinado para as forças armadas alemãs na Primeira Guerra Mundial. ↩︎
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional