Detalhe de "Barricada na rua de Soufflot, em Paris, em 25 de junho de 1848", de Horace Vernet (1848-49)

Erguemos a Bandeira Vermelha! O significado histórico da bandeira do proletariado

Em novembro de 2025, a Juventude Comunista Internacionalista iniciou a publicação de seu novo podcast, o Bandeira Vermelha. Essa nova ferramenta de propaganda é a expressão de nossos combates na juventude e na classe trabalhadora contra o capitalismo e sua fase superior, o imperialismo e suas guerras. Um combate que é também contra as ideias alheias à luta de nossa classe, contra os “profetas” e seus atalhos nessa luta entre as classes.

Nos episódios, os camaradas ouvintes encontrarão: uma análise dos acontecimentos do presente, a luta da juventude trabalhadora e dos povos oprimidos por liberdade e sobrevivência, e, com a Universidade Vermelha, poderão se iniciar nos clássicos da teoria marxista, tendo, assim, a base para a ação. Como ensinou o revolucionário Vladimir Lênin: sem teoria revolucionária, não há ação revolucionária.

Por esses motivos, escolhemos como nome para o podcast Bandeira Vermelha, pois entendemos que esse é expressão da luta em defesa do marxismo e do comunismo internacionalista. Entendemos também que a melhor maneira de apresentar nosso novo podcast é explicando a origem histórica da Bandeira Vermelha e como ela foi amplamente utilizada no movimento operário internacional.

É difícil afirmar, com exatidão, quando a bandeira vermelha surge sendo relacionada à luta de classes dos explorados e oprimidos. Aqui, para fins narrativos, vamos usar como marco as revoluções lideradas pela burguesia do final do século XVIII, momento em que esta ainda desempenhava um papel revolucionário contra a velha ordem feudal. Nestas revoluções, a bandeira vermelha estava associada às alas mais radicais e proletárias entre os revolucionários.

No decorrer do século XIX, esse jovem proletariado das grandes cidades, ainda uma classe em sua infância — que, na França, era conhecido como os sans-culottes, pois não tinha nada além de sua própria força de trabalho e, assim, não podia adquirir nem mesmo o calção típico da aristocracia da época, o culotte — vai estabelecer as primeiras organizações independentes do proletariado, em que a bandeira vermelha tremulava como símbolo da ruptura com a ordem vigente. Em contrapartida, a burguesia, já como classe dominante, abandonava a linha revolucionária e adotava a linha conservadora. Assim, a bandeira vermelha mantém-se associada à luta da classe trabalhadora e dos povos oprimidos.

Na Comuna de Paris, em 1871, a bandeira vermelha, já consolidada como símbolo do proletariado desde 1848, retornou como símbolo da raiva do proletariado em luta e também adquiriu o peso de símbolo de esperança. Pois é com a Comuna de Paris que, pela primeira vez na história, o proletariado mostrava a força da ação independente enquanto classe e, como Marx disse, assaltava os céus. Esse processo vai mostrar aos trabalhadores do mundo inteiro que, a partir da luta de classe do proletariado revolucionário, um novo mundo poderia ser construído. A Comuna de Paris adota oficialmente a bandeira vermelha como símbolo da vitória dos trabalhadores e a hasteia no Hôtel de Ville, que tornou-se a sede do poder comunal.

A barricada na place Blanche, defendida por mulheres durante a Semana Sangrenta (Museu Carnavalet)

A bandeira vermelha torna-se também memória permanente para o proletariado, pois o vermelho também representa o sangue derramado pelos communards no massacre feito pelas burguesias da França e da Prússia contra os revolucionários na Semana Sangrenta. Que, como podemos ver na obra de Hippolyte Lissagaray, História da Comuna de Paris: “naqueles dias, todas as bandeiras foram tingidas de vermelho pelo sangue do proletariado em luta.”

Assim, a bandeira vermelha tornou-se símbolo da exploração sofrida pela classe trabalhadora, de sua unidade internacional e de suas conquistas e derrotas, significando cada gota de sangue derramado por esta na sua luta por um novo mundo. Portanto, esse símbolo se converte no acúmulo de experiências e aprendizados de centenas de gerações em luta. Essa é a importância da bandeira vermelha para os proletários e comunistas.

Sobre essas bases, o nome Bandeira Vermelha vai ter outros usos na história do movimento operário. Destacamos aqui aqueles ligados à defesa dos princípios do marxismo revolucionário no movimento operário alemão, junto aos espartaquistas, na luta por um partido proletário e contra a guerra imperialista, e a luta dos trotskystas brasileiros contra o fascismo e contra a degeneração burocrática. Nessa citação de Lênin, sobre o que representa o legado de Rosa Luxemburgo, podemos encontrar um resumo e uma descrição de todos esses camaradas revolucionários espartaquistas e mesmo dos trotskystas que estiveram inseridos nesses processos:

“Luxemburgo dedicou-se inteiramente ao trabalho na Alemanha, assumindo uma posição radical de esquerda e levando adiante a luta contra o centro e a ala direita… Sua participação na insurreição de janeiro de 1919 fez de seu nome a bandeira da revolução proletária.”

Vamos começar pelo uso desse nome pelo proletariado alemão. Na ferramenta de propaganda da Liga Spartacus, que viria a formar o núcleo do Partido Comunista Alemão, o jornal Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha) surgiu durante a revolução de 1918, quando um grupo de operários e trabalhadores de Berlim, ligados à Liga Spartacus, ocupou o Berliner Lokal-Anzeiger, jornal conservador e reacionário da capital alemã, e o colocou para funcionar sob controle operário. Esse jornal se tornaria, a partir dos meses revolucionários, a expressão da luta dos espartaquistas contra o imperialismo, contra os horrores das guerras capitalistas, contra a adaptação e o oportunismo do Partido Socialista Alemão (SPD)1 e pela necessidade de revolução socialista através da construção da república dos sovietes para a Alemanha.

Como organizadores e redatores desse jornal, estão figuras de grande destaque para as lutas do período. Por exemplo, Rosa Luxemburgo — que em sua obra buscou entender as bases do imperialismo e sua necessidade militarista, uma das engrenagens indispensáveis para o funcionamento do capitalismo na época do capital monopolista — e Karl Liebknecht, que, em 1914, indo contra o seu próprio partido à época, o SPD, colocou-se contra os créditos de guerra.2 Sendo o único dentre 110 deputados no parlamento alemão a votar contra, declarou o que viria a ser a palavra de todos os revolucionários contra o imperialismo e as guerras: “Nossos verdadeiros inimigos estão dentro de casa, em nosso próprio país, são nossa burguesia […] Façamos guerra contra a guerra.”

Portanto, esse jornal nasceu da luta viva dos operários, e seu nome simboliza todo o esforço dos espartaquistas e, em sentido mais amplo, de todos os revolucionários, que, frente à traição dos social-democratas, mantiveram viva e tremulando a bandeira vermelha do comunismo revolucionário, como expressão de sua fé na revolução do proletariado internacional. Durante os anos do regime nazista, o Die Rote Fahne foi um dos poucos jornais de esquerda que continuou sendo difundido, ainda que na clandestinidade. Nos anos 1960, especialmente em 1968, e nos anos posteriores, esse nome ressurgiu com a juventude da Alemanha Oriental, que se organizou contra o caráter antirrevolucionário e antidemocrático do regime burocratizado. Esse expressava o sentimento geral do proletariado em luta contra esses regimes burocráticos por todo o “bloco socialista”, mas também o da juventude de todo o mundo que se colocou em revolta contra o capitalismo naquele ano.

No Brasil, também tivemos um jornal com esse nome. O Bandeira Vermelha foi um jornal do Movimento Comunista Internacionalista (MSI), que teve como redator principal Hermínio Sacchetta. Ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro em 1932 e, a partir de 1937, foi expulso sob a acusação de organizar uma “dissidência trotskysta”. Após sua prisão durante o Estado Novo, Sacchetta fundou o Partido Socialista Revolucionário, seção brasileira da 4a Internacional. O jornal Bandeira Vermelha existiu entre os anos de 1967 e 1969 e foi marcado por uma crítica aos métodos burocráticos do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e à sua degeneração em uma política de revolução por etapas e de colaboração com a suposta “burguesia nacional libertadora”, assim como fez uma luta contra a linha de uma oposição armada à ditadura militar descolada das massas.

No momento em que lançamos esse podcast, uma nova onda de levantes contra as mazelas do sistema capitalista toma conta do mundo. Milhões de jovens e trabalhadores enfrentam os programas de austeridade, os efeitos da crise em cada país, a repressão aos mais básicos direitos conquistados por nossa classe e guerras localizadas que o imperialismo impõe sobre nós. Dos levantes populares do Nepal ao Irã, a soma desses fatos afeta de maneira mais intensa a juventude trabalhadora, e é esta, livre das derrotas do passado, que primeiro se joga na luta pela mudança dessa realidade. Muitos estão, pela primeira vez, adentrando o palco da luta de classes e, na ação prática, vão se formando e procurando uma bandeira para chamar de sua, uma bandeira que seja a expressão de um programa de mudança.

A posição de Trotsky de que a crise da humanidade se resumia à crise da direção revolucionária torna-se clara em nosso momento histórico. Na falta de um partido, de uma direção e de um programa de mudança, toda essa nova camada de combatentes busca métodos para agir e para entender o mundo. Em meio a esse processo e na falta dessa direção, surgem ideias alheias à nossa classe, como as de oposição entre gerações, que nada têm a ver com a luta histórica da juventude e do proletariado. Entretanto, não existe caminho fácil na história para a construção do partido revolucionário, arma essencial para a construção de um novo mundo. Na medida em que as tensões de classe aumentam, os movimentos e revoltas de classe se tornam cada vez mais frequentes; a juventude se forja e entende os limites das instituições e programas reformistas.

Lênin sempre afirmou a importância da juventude para a construção do partido, e, para ele, a nossa tarefa é: “estudar, estudar e estudar”. Assim, é possível entender o mundo bem mais além de sua aparência, mas em sua essência. Entender e se apropriar dos métodos históricos de nossa classe, que são fruto da experiência e do acúmulo prático e teórico de dezenas de gerações. Não apenas como exercício abstrato, mas entender o mundo para transformá-lo, que é o essencial da práxis de qualquer revolucionário, em qualquer lugar do mundo e em qualquer época. Esse movimento histórico tem na bandeira vermelha do comunismo sua expressão.

Esse é o objetivo do podcast Bandeira Vermelha e de nossa organização. Mostrar que a saída para a crise do capitalismo está na luta pela construção de um partido revolucionário, através da aliança operária-estudantil. E a bandeira desse partido não está na divisão por gerações, cores, fronteiras e identidades, mas sim na histórica bandeira vermelha do comunismo revolucionário e internacionalista.

  1. Fizemos a tradução do nome do partido, no original Sozialdemokratische Partei Deutschlands, mas mantemos a sigla para melhor entendimento do leitor.  ↩︎
  2. Orçamento militar destinado para as forças armadas alemãs na Primeira Guerra Mundial. ↩︎
* Artigo publicado originalmente no site da Juventude Comunista Internacionalista (JCI) em 4 de fevereiro de 2026.