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Estados Unidos: assassinato de Renee Good por um agente do ICE reacende as chamas em Mineápolis

Apesar de os termômetros registrarem temperaturas abaixo do zero, Mineápolis, nos Estados Unidos, está em chamas uma semana após o assassinato de Renee Good por Jonathan Ross, policial do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), no dia 7 de janeiro. Poucas horas após o assassinato, Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, acusou a vítima de terrorismo doméstico. Trump e seu vice-presidente, J.D. Vance, rapidamente se juntaram à campanha difamatória para justificar a execução.

Desde então, manifestações e enfrentamentos ao ICE se intensificaram na capital do estado de Minnesota e, diante do aumento dos protestos e reforçando a repressão, centenas de novos agentes do ICE foram enviados para o estado norte-americano.

Na terça-feira, dia 13, seis procuradores federais de Minnesota renunciaram devido à pressão do Departamento de Justiça norte-americano para investigar a esposa de Renee, em vez do agente do ICE que cometeu o assassinato. A demissão dos procuradores expôs uma racha dentro da estrutura federal diante da condução do caso.

Na noite da última quarta-feira (14), uma investida do serviço de imigração terminou em enfrentamento madrugada adentro. Nesse mesmo dia, um imigrante venezuelano foi baleado na perna ao tentar escapar de uma blitz do ICE.

A Operation Metro Surge, iniciada em dezembro de 2025, deslocou quase 3 mil agentes para as Cidades Gêmeas, como são conhecidas Mineápolis e a vizinha Saint Paul, o que tem resultado no aumento das prisões, deportações e do enfrentamento por parte da população às ações do ICE contra imigrantes.

Desde que essas investidas se iniciaram no último ano, manifestações e ações de solidariedade ocorrem e, a cada ataque do serviço de imigração, trabalhadores saem às ruas para denunciar o ICE e para ajudar aqueles que não possuem documentos a se esconderem para não serem presos.

Renee era uma dessas ativistas que buscavam denunciar o que ocorre e, se por um lado sua morte desencadeou uma série de mobilizações nas ruas de Mineápolis, por outro, o governo Trump dobra a aposta, intensificando ainda mais a repressão.

Uma reportagem recente publicada pelo The Intercept mostra como tem sido comum, após o dia 7, a ameaça por parte dos agentes do ICE que, ao abordar manifestantes, logo perguntam: “Vocês não aprenderam nada nos últimos dias?”, em alusão à morte de Renee Good.

A Operation Metro Surge, iniciada em dezembro de 2025, deslocou quase 3 mil agentes para as Cidades Gêmeas, como são conhecidas Mineápolis e a vizinha Saint Paul / Imagem: Chad Davis, Flickr

Trump também ameaçou, por meio de sua rede social Truth Social, que acionará o Insurrection Act se os manifestantes não forem contidos pelas autoridades locais, isto é, que fará uso de militares sem ou contra o consentimento do governo do estado de Minnesota para conter as manifestações. O uso de fuzileiros navais e da Guarda Nacional tem se tornado rotineiro desde as explosões na Califórnia, em junho do ano passado, quando tropas foram enviadas para Los Angeles para conter as mobilizações contra as investidas do ICE. Trump fez uso de tropas federais também em cidades como Baltimore, Chicago e Portland, sob o pretexto de combater os imigrantes e a criminalidade nessas regiões.

Esses são desdobramentos e o aprofundamento da política de Trump para promover o caos e tentar disciplinar a própria classe trabalhadora norte-americana. Como explicamos anteriormente:

“[Trump] precisa também atacar a classe trabalhadora nos EUA, cuja parte essencial é formada por imigrantes. É impossível manter uma guerra fora sem controlar a classe trabalhadora do próprio país; esta é a forma como o imperialismo lida com a insatisfação diante da inflação de alimentos e da sensação geral de queda da qualidade de vida.

Para cumprir essa tarefa, Trump se lança candidato a Bonaparte e utiliza a espada (forças federais, censura, processos) contra a classe trabalhadora, e até mesmo contra frações da burguesia, a fim de reordenar a política econômica em favor dos interesses centrais da classe dominante.”

Para se ter uma ideia, dados reunidos pelo portal Agência Brasil mostram que o orçamento destinado ao ICE triplicou desde o início da gestão Trump, no último ano, chegando a US$ 29,9 bilhões ao ano. “O valor destinado à fiscalização e à deportação de imigrantes supera o das Forças Armadas de quase todas as nações do mundo, com exceção de 16 países.” O ICE contratou mais 12 mil agentes no último ano, chegando a 22 mil policiais, um aumento de 120% em relação ao efetivo anterior. Isso representa um aumento de 265% no orçamento anual do ICE para detenção.

Segundo relatório do Conselho Americano de Imigração, publicado em 14 de janeiro, quando Trump assumiu a presidência, em janeiro de 2025, “havia cerca de 40 mil pessoas detidas em centros de imigração. No início de dezembro, esse número havia aumentado em quase 75%, chegando a cerca de 66 mil pessoas mantidas sob custódia migratória em todos os Estados Unidos — e o sistema, segundo relatos, já tinha capacidade para manter 70 mil pessoas em um único dia, o nível mais alto da história.”

Com o aumento das detenções, as mortes sob custódia do ICE em 2025 também registraram recordes. Só nesses primeiros 15 dias de janeiro, já morreram 10 imigrantes.

O relatório também aponta um aumento expressivo de 91% das instalações para suportar e aumentar a quantidade de detentos:

“Hoje, a detenção está no nível mais alto da história. Em julho de 2025, o Congresso autorizou US$ 45 bilhões para o sistema de detenção do ICE, a serem gastos até o ano fiscal de 2029. Esse montante se soma aos US$ 4 bilhões — já um recorde — aprovados para o orçamento de 2025, valor anual que deve aumentar nos próximos anos.”

Apesar da reação em defesa dos imigrantes, as mobilizações ainda possuem um caráter bastante espontâneo.

Mesmo diante da radicalização, é preciso recordar que Mineápolis já foi palco de grandes atos no passado, como vimos durante as manifestações do movimento Black Lives Matter, em 2020, após o assassinato de George Floyd por um policial. No auge desse movimento, uma delegacia de polícia chegou a ser incendiada, tamanho o ódio da população em relação à polícia, mas o movimento esbarrou no principal problema: a ausência de uma direção. Mesmo as grandes demonstrações em Los Angeles e outras cidades da Califórnia, no ano passado, esbarraram no mesmo problema.

Mesmo diante da radicalização, é preciso recordar que Mineápolis já foi palco de grandes atos no passado / Imagem: Chad Davis, Flickr

Nesse sentido, a iniciativa de mais de 30 organizações e sindicatos que estão chamando uma greve geral para o dia 23 de janeiro, em resposta ao assassinato de Renee Good, aponta o caminho a seguir: é preciso dar uma resposta de classe aos ataques de Trump e de seus carrascos.

Mas é preciso ir além. A classe trabalhadora norte-americana vem aquecendo seus músculos ao longo dos últimos anos, buscando se organizar em novos sindicatos — como foi o caso dos trabalhadores da Amazon —, participando de greves, organizando acampamentos em universidades e mobilizações contra o genocídio na Palestina, enfrentando o ICE no que ficou conhecido como o movimento No Kings, realizando inúmeras manifestações em solidariedade ao povo venezuelano contra a invasão de Trump e o sequestro de Maduro.

A eleição de Zohran Mamdani para prefeito de Nova York — candidato dos Democratas Socialistas da América (DSA, na sigla em inglês), que canalizou uma raiva contra o sistema, vendeu uma série de ilusões em sua campanha e que dificilmente irá cumprir —, bem como o início da já considerada a maior greve de enfermeiros da cidade, contando com a participação de mais de 15 mil trabalhadores da saúde, são expressões dessa radicalização crescente no principal país imperialista do mundo.

Dos Estados Unidos ao Irã, o ano de 2026 começa intenso, com ataques da classe dominante de um lado, mas com demonstrações de que a classe trabalhadora e a juventude não estão dispostas a aceitar a barbárie capitalista.