Após o assassinato da refugiada ucraniana Iryna Zarutska, esfaqueada no metrô por um homem negro com problemas psicológicos, o fundador do movimento de direita Turning Point USA, Charlie Kirk, declarou que “a América não será a mesma”. Militantes de direita passaram a associar o caso às suas pautas racistas. Charlie foi assassinado 19 dias depois por um atirador solitário, que declarou: “já tinha tido o suficiente do ódio de Charlie”.
Em 2024, Charlie chamou de “lei perfeita de Deus” o versículo da Bíblia que faz referência a apedrejar pessoas gays até a morte. Em outras ocasiões, relativizou a escravidão, disse que a Lei de Direitos Civis de 1964 nos EUA foi um erro, comparou o aborto ao Holocausto, entre outras declarações. A verdade é que o assassinato de Charlie Kirk não comove nem muda a opinião de jovens e membros de minorias nos Estados Unidos, que o conhecem pela defesa de uma política reacionária e racista.
Iniciou-se então uma campanha de assédio e demissões contra qualquer pessoa que, nas redes sociais, criticasse a comoção com o assassinato de Charlie Kirk. O site “Charlie’s Murders” passou a divulgar as postagens de pessoas comuns. Há vários relatos de demissões envolvendo usuários do X, professores universitários, jornalistas, escolas e até a DC Comics. O apresentador Jimmy Kimmel teve seu programa suspenso depois de apontar que a turma do MAGA (Make America Great Again) “está fazendo tudo para tirar proveito disso”.
Outro episódio, ocorrido poucos dias depois, foi o ataque contra a sede do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), que deixou um morto e dois em estado grave. O atirador se matou no local, e foi encontrada junto ao corpo uma munição com os dizeres “Anti-ICE”. Este atentado ocorreu em resposta às batidas anti-imigração do ICE, que em junho levaram a manifestações de massa em Los Angeles, Califórnia, onde há mais de 10 milhões de imigrantes.
O governo Trump respondeu a esses protestos enviando a Guarda Nacional e fuzileiros navais, mesmo sem consultar o governador do estado, que é do Partido Democrata e um rival de Trump. Trata-se de mais um capítulo em que Trump utiliza as forças federais. Em agosto, enviou a Guarda Nacional às ruas de Washington e ameaça fazer o mesmo em Baltimore e Chicago, cidades que têm em comum o fato de serem governadas por adversários. Este tipo de intervenção é incomum nos EUA, onde os estados possuem relativa autonomia legislativa.

No dia 27 de setembro, Trump ordenou o envio de tropas para a cidade de Portland, no estado de Oregon, autorizando o uso de “força total” caso seja necessário como o objetivo de reprimir crimes e reforçar a fiscalização da imigração. Três dias depois, 30/09, o presidente norte-americano afirmou “que pretende usar cidades americanas como ‘campos de treinamento’ para as Forças Armadas”. De acordo com Trump:
“É uma guerra interna. Controlar o território físico das nossas fronteiras é essencial para a segurança nacional. Não podemos deixar essas pessoas entrarem.”
Em uma fábrica da Hyundai, uma batida do ICE prendeu 475 imigrantes, a maioria coreanos. Em outra ocasião, prenderam 100 em uma boate, 118 em Los Angeles, entre outros casos. O total de prisões de imigrantes pode ter passado de 60 mil; muitos possuem green cards (vistos de residência), outros são apenas turistas. A Suprema Corte dos EUA atendeu ao recurso do Departamento de Justiça que apelava pela revogação da proibição de prisões baseadas em suspeita de raça, sotaque ou idioma.
O que está ocorrendo é que, enquanto Trump lança uma guerra tarifária e intensifica a exploração imperialista com uma política de nacionalismo econômico, precisa também atacar a classe trabalhadora nos EUA, cuja parte essencial é formada por imigrantes. É impossível manter uma guerra fora sem controlar a classe trabalhadora do próprio país; esta é a forma do imperialismo lidar com a insatisfação diante da inflação de alimentos e da sensação geral de queda da qualidade de vida.
Para cumprir essa tarefa, Trump se lança candidato a Bonaparte e utiliza a espada (forças federais, censura, processos) contra a classe trabalhadora, e até mesmo contra frações da burguesia, a fim de reordenar a política econômica em favor dos interesses centrais da classe dominante. Essas tendências bonapartistas não significam que os EUA irão se tornar uma ditadura no próximo período, como alardeia a imprensa burguesa. Para isso, seria necessária uma guerra civil, e a classe trabalhadora dos Estados Unidos não está derrotada, como demonstram as mobilizações contra as batidas do ICE e contra o genocídio em Gaza.
Somente a organização é a arma da classe trabalhadora para resistir aos ataques do imperialismo nos EUA e no mundo. Trotsky, em “Por que os marxistas se opõem ao terrorismo individual“, nos fornece uma perspectiva correta que pode ser aplicada aos últimos acontecimentos nos Estados Unidos:
“Digam o que digam os eunucos e fariseus morais, o sentimento de vingança tem seus direitos. Fala muito bem a favor da moral da classe operária a não contemplação indiferente do que ocorre neste, o melhor dos mundos possíveis. Não extinguir o insatisfeito desejo proletário de vingança, mas, pelo contrário, avivá-lo uma e outra vez, aprofundá-lo, dirigi-lo contra a verdadeira causa da injustiça e da baixeza humanas… Nos opomos aos atentados terroristas porque a vingança individual não nos satisfaz. A conta que nos deve pagar o sistema capitalista é demasiado elevada para ser apresentada a um funcionário chamado ministro. Aprender a considerar os crimes contra a humanidade, todas as humilhações a que se vêem submetidos o corpo e o espírito humanos como excrescências e expressões do sistema social imperante, para empenhar todas as nossas energias em uma luta coletiva contra este sistema: essa é a causa na qual o ardente desejo de vingança pode encontrar sua maior satisfação moral.”
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional