Forjado em meio à turbulência global: o primeiro Congresso Mundial da Internacional Comunista Revolucionária (ICR)

Vivemos uma crise sem precedentes do capitalismo. A desigualdade alcançou níveis nunca antes vistos. Atualmente, há mais guerras do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial. A economia mundial está mergulhada na estagnação, na inflação e em uma dívida esmagadora. Agora, com a reeleição de Trump, toda a estrutura da ordem do pós-guerra – marcada pelo domínio incontestado dos Estados Unidos – começa a ruir.

Esses eventos devastadores formam o pano de fundo no qual 350 líderes comunistas se reuniram, na Itália, para o Primeiro Congresso da Internacional Comunista Revolucionária (ICR), acompanhados por 2.500 camaradas online e centenas de outros que se reuníram para assistir em todo o mundo.

Apenas entre aqueles identificados pelos organizadores do congresso, sabe-se de mais de 60 grupos espalhados pelo planeta e, sem dúvida, houve muitos outros.

Recebemos fotos de camaradas reunidos para assistir na Bulgária, na Colômbia, no Canadá (com 14 grupos em todo o país, incluindo Toronto, Montreal e Calgary), na Grã-Bretanha (Leeds, Sul de Londres, Norte de Londres, Leste de Londres, Cambridge, Manchester, Preston, Reading, Sheffield, Bristol e Bath), na Irlanda (Belfast e Dublin), na Áustria (onde 75 camaradas compareceram), no Estado Espanhol (Barcelona, País Basco e Cartagena), na Holanda, na Finlândia (Helsinque, Tampere, Pori e Turku), na França (mais de 50 participantes em Paris, Lyon, Grenoble e Toulouse), na Suécia (Umeå, Malmö, Estocolmo, Värmland e Gotemburgo), na Suíça (mais de 100 participantes em mais de seis cidades), no Paquistão e em mais de 100 grupos reunidos nos EUA (Nova York, Seattle, Filadélfia, Chicago, St. Louis, Houston, Dallas-Fort Worth, Minneapolis e New Haven).

Também recebemos relatos de milhares de dólares, euros e libras arrecadados pelos que nos assitiam, prova do entusiasmo transmitido com êxito da Itália para os comunistas de todo o mundo. No total, a arrecadação superou a marca de € 500 mil!

Em meio a uma situação mundial completamente nova, que está revolucionando a consciência e preparando o terreno para eventos revolucionários, os comunistas precisam ter uma visão cristalina dos processos que impulsionam esses desenvolvimentos. Essa clareza é fundamental para oferecer uma perspectiva às amplas camadas de jovens e trabalhadores que buscam explicações e para orientar nosso trabalho de construção de uma poderosa Internacional Revolucionária, no menor tempo possível, a fim de intervir nesses acontecimentos.

Por essa razão, o congresso mundial – que não é apenas o mais alto órgão democrático da Internacional, mas também uma verdadeira escola do comunismo – dedicou dois de seus cinco dias à discussão das perspectivas mundiais.

Os eventos devastadores de 2025 – a reeleição de Trump, a escalada do genocídio em Gaza, o Ocidente caminhando de forma irresistível para a derrota na Ucrânia, a guerra comercial em curso e muitas outras crises – indicam que estamos entrando em uma nova era.

Como Jorge Martín explicou em sua introdução, no fundo, esses sintomas estão enraizados na crise orgânica do capitalismo, deflagrada em 2008. No entanto, compreender que o sistema está em um impasse não é suficiente para os revolucionários. É necessário entender o porquê: por que estamos assistindo a uma convulsão política massiva, ao declínio de partidos antigos e à ascensão de novas organizações e figuras políticas? O que está impulsionando a mudança no equilíbrio de forças mundiais, o declínio relativo do imperialismo estadunidense e a crescente rivalidade inter-imperialista? E quais são as consequências para a luta de classes?

O congresso presenciou uma animada discussão sobre todas as questões-chave que tocam o cerne da nova situação mundial. Qual é a natureza do governo Trump? Para onde caminha o imperialismo americano? Toda a conjuntura mundial está condicionada pela mudança na relação da potência imperialista mais poderosa do planeta com o restante do mundo: na Europa, no Oriente Médio, na América Latina e em outros lugares. E, finalmente, qual é a natureza das novas potências e rivais do imperialismo estadunidense que estão surgindo: a Rússia e, acima de tudo, a China?

Essas são questões absolutamente fundamentais, às quais o congresso se dedicou para alcançar a maior clareza possível. Esse, acima de tudo, é sempre o nosso objetivo: elevar o nível de compreensão de toda a Internacional. E isso só pode ser alcançado por meio de um debate pleno, livre e democrático.

O marxismo, como qualquer ciência, não substitui o estudo dos fatos concretos em uma nova situação. Pelo contrário, a teoria deve ser aplicada à compreensão desses fatos e constantemente confrontada com a realidade em desenvolvimento. E, de fato, esta foi uma discussão rica em fatos, números e argumentos. Como explicou o camarada Hamid Alizadeh:

“Não podemos prever o caminho exato que as coisas tomarão. Nem sabemos a quais fenômenos elas darão origem. Temos que estudar cuidadosamente a situação, passo a passo, sem nos precipitarmos. Acompanhamos o processo à medida que ele se desenrola e entendemos que não podemos confiar em generalizações e rótulos inúteis. A única coisa em que podemos confiar 100% é no método do marxismo.”

Agora que fundamos a Internacional Comunista Revolucionária – o núcleo em torno do qual buscaremos construir um futuro partido mundial de massas da revolução socialista – cabe-nos resgatar nossa herança e a luta incansável de décadas que lançou as bases da nossa Internacional.

Os camaradas Alan Woods e Ana Muñoz, que não puderam comparecer a este congresso, enviaram poderosas mensagens em vídeo para a sessão de abertura. Em sua mensagem, Alan relatou os esforços que permitiram preservar essa herança e transmiti-la à atual geração de jovens revolucionários:

“Estou neste movimento desde 1960. É muito tempo. Vi de tudo: de bom, de mau e de indiferente. E, durante quase todo esse período, eu e os camaradas que estavam comigo – como Ana, Rob e Fred – lutamos contra a corrente, enfrentando forças muito poderosas: as forças do reformismo, do reformismo de esquerda e, em particular, do stalinismo, que era um obstáculo terrível, enorme…

Estávamos completamente isolados; éramos uma força pequena, lutando como um grupo minúsculo contra obstáculos colossais. Isso foi difícil, mais difícil do que qualquer um de vocês já enfrentou até agora. Foi difícil, desesperadamente difícil. Mas foi absolutamente necessário, porque conseguimos realizar algo: preservar, ao longo de todos esses anos duros, a arma essencial que possuímos – a teoria marxista, as ideias genuínas do marxismo sobre as quais nos apoiamos hoje. Essa é a herança que possuímos. Essa é a herança que defendemos e que este Congresso representa.”

Consideramos esse legado inestimável. Nos anos que se seguiram à morte de Leon Trotsky, sua preservação foi garantida, em grande parte, pelo trabalho de um homem: Ted Grant, fundador da nossa organização.

O terceiro dia do congresso foi, portanto, dedicado à discussão da história da Quarta Internacional e do papel desempenhado por Ted Grant na defesa e no desenvolvimento das ideias do marxismo, em meio à ascensão do pós-guerra e à degeneração daquela organização.

Nossa republicação de História do Trotskismo Britânico, de Ted Grant, foi o livro mais vendido no congresso

Como Rob Sewell explicou em sua introdução, a última luta de Trotsky foi dedicada à fundação da Quarta Internacional. Naquele momento, a Segunda Internacional (Socialista) e a Terceira Internacional (Comunista) já haviam se mostrado totalmente falidas e transformadas em obstáculos contrarrevolucionários no caminho da revolução socialista.

Uma liderança revolucionária alternativa era necessária, adequada às tarefas impostas pela história. Esta foi, nas palavras de Trotsky, “…a obra mais importante da minha vida — mais importante que 1917, mais importante que o período da Guerra Civil ou qualquer outro.”

A Quarta Internacional foi fundada em 1938. Infelizmente, porém, seus dirigentes não estiveram à altura. Após o assassinato de Trotsky por um agente stalinista em 1940, a Internacional foi, na prática, decapitada.

Antes da Segunda Guerra Mundial, Trotsky previu que o conflito levaria a um período ainda mais devastador de crise e declínio capitalista, ao descrédito dos stalinistas e reformistas e a uma onda revolucionária que catapultaria os partidos da Quarta Internacional à liderança do movimento operário.

No entanto, o marxismo não é uma bola de cristal. Podemos formular hipóteses condicionais sobre o que consideramos ser o desenvolvimento mais provável, mas, em última análise, devemos confrontar nossas perspectivas com os fatos concretos. Após a guerra, o stalinismo expandiu-se por metade da Europa, os partidos comunistas e socialistas se fortaleceram, a onda de revoluções que irrompeu por todo o continente foi traída e, em vez de um rápido declínio, seguiu-se o maior ciclo de crescimento da história do capitalismo, que perdurou até a década de 1970.

Os dirigentes da Quarta Internacional se recusaram a encarar a realidade. Como relataram os delegados, em vez de estudar o curso real dos acontecimentos, limitaram-se a repetir a perspectiva de Trotsky de 1938 como se fosse um dogma. Isso os levou a todo tipo de ideias equivocadas e bizarras e, por fim, à destruição da Quarta Internacional. O prestígio pessoal desempenhou um papel central para impedir que a direção admitisse seus erros. E, para justificar um equívoco, acabavam cometendo outros.

Como explicou um delegado:

“Se não conseguimos explicar a realidade, se não conseguimos dar uma perspectiva clara, se não conseguimos mostrar aos camaradas o seu lugar na história e na luta de classes, que outros métodos nos restam além do prestígio pessoal e da intriga?”

Ted Grant se afastou desses métodos. Dedicou sua vida a assimilar o espírito e o método – não apenas a letra – das obras de Marx, Engels, Lênin e Trotsky. Como eles, estudou o desenvolvimento real da sociedade e da luta de classes. Somente ele, portanto, foi capaz de realizar uma avaliação científica e precisa de fenômenos como o stalinismo, os regimes do Leste Europeu, a natureza do boom do pós-guerra e o desenvolvimento da Revolução Chinesa, entre outros.

Recomendamos fortemente aos nossos leitores a leitura do documento A Degeneração e o Colapso da Quarta Internacional: Em Defesa de Nossa Herança e da lista de leitura que preparamos antes deste congresso.

Foi Ted Grant, sozinho, quem transmitiu as ideias e o método genuínos do marxismo a uma nova geração. Seus escritos são uma herança preciosa que preservaremos e levaremos adiante, iniciando com a publicação do terceiro e quarto volumes de suas obras reunidas, prevista para o próximo ano.

Como explicou Rob Sewell, o próprio Ted não era particularmente sentimental. Ele raramente falava sobre seu passado:

“Ele achava que o que importava era o agora e o futuro!”

Rob concluiu:

“Não se trata de um homem morto! Trata-se das ideias de emancipação da classe trabalhadora!

A Quarta Internacional está morta e enterrada. Foi traída por seus supostos líderes. Agora, nós encarnamos as ideias genuínas do marxismo.

Coloquem essas ideias em prática – construam o partido sobre bases sólidas!”

Nosso último congresso, realizado em 2023, marcou o lançamento da campanha “Você é Comunista?” em toda a Internacional. Percebendo a radicalização de uma camada da juventude, demos uma guinada ousada em sua direção, com um perfil comunista aberto. Como resultado, nossas fileiras cresceram significativamente.

Com base no êxito dessa campanha, a maioria das seções nacionais da nossa Internacional transformou seu perfil e, em muitos casos, foi refundada como Partidos Comunistas Revolucionários. Em 2024, fundamos a Internacional Comunista Revolucionária (ICR).

Esse processo foi registrado em um documentário produzido por membros da ICR, que estreou durante o congresso. Não é apenas uma cápsula do tempo daquele ano – que representou uma verdadeira revolução interna em nosso trabalho – mas também um manifesto revolucionário visual, que expõe nosso programa, nossa filosofia e os desenvolvimentos na luta de classes que, em última instância, sustentam nosso sucesso. O documentário será lançado ao público em breve.

Agora, como resultado dessa mudança, crescemos de 4.551 membros, em 2023, para 7.127 membros, atualmente organizados em 24 seções e 19 grupos.

O Primeiro Congresso da Internacional Comunista Revolucionária foi uma oportunidade para fazer um balanço de nossos êxitos e extrair as lições dos últimos dois anos. Enquanto 2023 foi marcado por um rápido crescimento, o último ano serviu para fortalecer nossas fileiras, formar novos quadros e preparar uma base sólida para um crescimento renovado.

A seção britânica, por exemplo, conseguiu recrutar mais de 200 pessoas nos últimos três meses. Como comprovaram diversos relatórios de seções — entre elas, as seções austríaca, suíça e dinamarquesa, que também estão preparando “ofensivas de recrutamento de outono” —, a chave é aprender, ouvir e refletir, a fim de conquistar pessoas que talvez ainda não saibam que são comunistas.

Uma sessão especial foi dedicada ao trabalho de nossa seção no ventre da besta: os Comunistas Revolucionários da América (RCA, na sigla em inglês). À medida que os EUA, bastião do imperialismo mundial, mergulham em crise e declínio, cresce o número de revolucionários em potencial. Como relatou Anthonio Balmer, durante o congresso, a seção recebeu uma solicitação escrita de filiação aproximadamente a cada duas horas.

Assim como em toda a Internacional, a seção americana é predominantemente jovem e encara o futuro com otimismo. O que atraiu esses militantes para nossa organização — e que os está transformando de recrutas inexperientes em bolcheviques — é o único aspecto que nos distingue como Internacional: o marxismo. Anthonio Balmer descreveu assim a atitude desses jovens comunistas pioneiros:

“Os camaradas estão organizando suas vidas em torno do marxismo. Eles tiveram um vislumbre de seus poderes irresistíveis. É disso que eles querem falar.”

As bases de nossa seção nos Estados Unidos foram lançadas após décadas de trabalho árduo e persistente. Levamos 15 anos para passar de um para 100 camaradas. Agora, saltamos de 320 para 820 em apenas dois anos.

Mas, como disse um delegado, enquanto tivermos quadros, a determinação necessária e o apoio da Internacional, o crescimento que vimos nos EUA é possível em qualquer lugar.

Um dos pontos altos de todo o congresso foi a formação de uma nova seção na Irlanda, que, nos últimos dois anos, passou de apenas cinco camaradas reunidos online para uma organização dinâmica de 64 membros, com filiais em todo o país. Mas isso é apenas o começo. Como afirmou Andrea, a primeira revolucionária em tempo integral da organização irlandesa:

“Representar a ICR na Irlanda é uma grande honra e também uma grande responsabilidade. Nossa Internacional fincou a bandeira na Irlanda. Mas agora começa a verdadeira luta: construir uma organização que possa levar adiante a revolução que James Connolly iniciou há 109 anos!”

Os camaradas irlandeses foram aceitos por unanimidade como a mais nova seção da ICR.

Em todas as nossas organizações nacionais, grandes e pequenas, o segredo — nas palavras de um camarada mexicano — é “a clareza das ideias, o sacrifício militante, a determinação e a capacidade de aprender com os métodos e experiências das outras seções da Internacional”.

A importância prática da Internacional ficou evidente em nossa comissão especial sobre a campanha pela libertação dos líderes presos do Comitê de Ação Awami – Gilgit Baltistan. Desde que Eshan Ali e outros 13 importantes ativistas de Gilgit Baltistan foram detidos, a Internacional tem organizado protestos em frente às embaixadas paquistanesas em todo o mundo, além de realizar um intenso trabalho de conscientização sobre a situação dos camaradas, recolhendo assinaturas e mensagens de solidariedade de sindicatos, políticos e ativistas de esquerda de destaque.

Desde que Ehsan Ali e outros 13 importantes ativistas de Guilguite-Baltistão foram presos, a Internacional vem organizando protestos em frente a embaixadas do Paquistão em todo o mundo

Nossa campanha já obteve êxitos significativos: todos os líderes, exceto dois, estão agora em liberdade. Mas a situação ainda persiste, e os protestos continuarão até que os últimos camaradas sejam libertados.

O compromisso de todos os camaradas com o desenvolvimento da nossa Internacional refletiu-se de forma clara na coleta de fundos. Seções de todo o mundo, assim como grupos de vigília que acompanharam o congresso, arrecadaram um total de € 502 mil. Do mesmo modo, a sede insaciável dos camaradas por teoria ficou demonstrada pelo recorde de 753 livros vendidos, somando US$ 5 mil. Os títulos mais procurados foram História do Trotskismo Britânico, uma coletânea de escritos de Trotsky e Ted Grant sobre Democracia, Bonapartismo, Fascismo, e China: Da Revolução Permanente à Contrarrevolução — reflexo do enorme interesse tanto nas questões candentes da atualidade quanto em nossa herança política.

Nem sempre foi assim. Fred Weston relatou que, quando se mudou para Londres, o centro internacional consistia apenas em Alan Woods, Ana Muñoz, uma máquina de escrever e algumas escrivaninhas. Hoje, nosso centro internacional conta com 25 funcionários em tempo integral, com mais dois a caminho. No último congresso, os sacrifícios de toda a Internacional nos permitiram adquirir uma sede em Londres. Após anos de trabalho árduo, algumas de nossas seções se aproximam da marca de mil membros, e começamos a nos tornar uma referência — ainda que pequena — para a juventude revolucionária em diversos países.

Tanto agora quanto antes, o que garantiu nosso desenvolvimento foi o foco obstinado na educação e no treinamento nos métodos do marxismo. Como concluiu Hamid:

“O mais importante que fazemos é afiar nossas armas, aguçar nossas mentes e aprofundar nossa compreensão, para que possamos enfrentar este novo período não como estrangeiros em terra desconhecida, mas como pioneiros desbravando novos caminhos.

Tornamos o mundo nosso para que possamos mudá-lo. E, o mais importante, transmitimos esse conhecimento à nova geração, que também busca respostas.

Já passamos por muitas coisas. Percorremos um longo caminho e fizemos enormes avanços. Ninguém mais conseguiu fazer o que fizemos. Mas não estamos satisfeitos. Como disse Alan, o que queremos é virar o mundo de cabeça para baixo. E estamos construindo uma grande alavanca para isso.

Não podemos desviar o olhar dessa tarefa. Estamos construindo a Internacional Comunista Revolucionária em cada país e em cada cidade. E, se nos mantivermos firmes na nossa teoria e nas nossas ideias, nada poderá nos deter.”

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.