À medida que a ofensiva militar israelense sobre Gaza se aprofunda, com a recente decisão do governo Netanyahu de ocupar inteiramente a cidade, a solidariedade internacional da classe trabalhadora tem se manifestado de forma cada vez mais contundente. A continuidade das manifestações de jovens e trabalhadores ao redor do mundo entra em uma nova fase, não se tratando apenas de declarações ou protestos simbólicos. Trabalhadores de portos, fábricas e estradas em diversas partes do planeta estão colocando em prática os métodos mais consequentes da classe trabalhadora: além de bloquearem carregamentos de armas e mercadorias destinados a alimentar o genocídio em curso, realizam uma greve geral.
Na Itália, a mobilização alcançou uma escala sem precedentes. Portuários de Gênova, Ravenna e Livorno organizaram bloqueios e greves, impedindo caminhões e navios de seguirem viagem com cargas suspeitas de conter armamentos. Em Ravenna, trabalhadores se recusaram a liberar dois caminhões que, segundo denúncias, transportavam explosivos destinados ao exército israelense. Já em Gênova e Livorno, as paralisações impediram operações regulares, ecoando nas ruas através de grandes manifestações, como mostram vídeos que circularam nas redes sociais, nos quais trabalhadores barram comboios e impedem movimentações no cais.
Esses gestos não estão isolados. Em julho, estivadores de Piraeus, na Grécia, se recusaram a descarregar o navio Ever Golden, que transportava aço militar destinado a Israel. Pouco antes, em junho, sindicalistas da CGT no porto de Marselha-Fos, na França, bloquearam o carregamento de peças para armas, forçando um navio a deixar o porto sem sua carga. Na Austrália, em setembro, centenas de ativistas fecharam os acessos ao Webb Dock, em Melbourne, paralisando caminhões das gigantes Maersk, Toll e Zim. No Marrocos, a campanha internacional Mask Off Maersk denunciou e atrasou operações de navios suspeitos de transportar componentes para caças F-35, ampliando a pressão sobre a multinacional dinamarquesa.
Nas Américas, esse movimento também começa a ganhar forma. Em Santos, Brasil, militantes realizaram um protesto em frente ao porto, denunciando o envio de aço brasileiro para Israel e exigindo que as autoridades interrompessem qualquer relação comercial que abasteça o massacre em Gaza. Esses atos ecoam experiências anteriores, como a recusa do sindicato de estivadores de Barcelona, em 2023, de movimentar qualquer material militar, estabelecendo um precedente que hoje se generaliza.
Mas a solidariedade não se restringe aos portos. No Reino Unido, trabalhadores e ativistas têm organizado piquetes em fábricas de armas da BAE Systems, exigindo o fim imediato da produção destinada ao arsenal israelense. Em várias cidades, caminhadas e bloqueios de estradas denunciam o papel cúmplice das empresas bélicas na manutenção da máquina de guerra. Enquanto isso, a repressão dos Estados burgueses prende manifestantes (principalmente na Inglaterra, nos EUA e na Alemanha) acusando-os falsamente de antissemitismo. Trata-se da tática de criminalizar politicamente aqueles que se levantam contra os atos de genocídio praticados pelo Estado de Israel.

Essas ações dos trabalhadores, muitas vezes não divulgados pela imprensa burguesa, ganham corpo graças à circulação de imagens e relatos em redes sociais ligadas ao movimento palestino. Elas demonstram que a classe trabalhadora internacional possui um poder imenso quando decide usar sua força objetiva na produção e distribuição de mercadorias para paralisar a engrenagem da guerra. Mais ainda: quando paralisa a produção e a realização de valor em um país inteiro — ao bloquear um caminhão, atrasar um navio ou cruzar os braços diante de um carregamento —, esses trabalhadores demonstram concretamente que é possível enfrentar o genocídio não apenas com palavras, mas com atos de classe. A classe trabalhadora se torna imparável quando está coesa e atua contra sua burguesia, com o objetivo internacionalista de solidariedade de classe.
Tais ações independentes do proletariado internacional também vêm pressionando governos burgueses. Na 80ª Assembleia Geral da ONU, realizada neste momento em Nova York, sua Comissão Independente de Inquérito (COI) classificou oficialmente os atos na Palestina histórica como genocídio promovido por Israel. Outra expressão disso ocorreu na última segunda-feira (22/09), quando o presidente da França, Emmanuel Macron, juntou-se aos governos do Reino Unido, Austrália, Canadá e Portugal, formalizando o reconhecimento do Estado da Palestina durante uma audiência convocada pelo mandatário francês para “solucionar” o genocídio. Essa audiência contou com o boicote dos representantes de Israel e a participação online do “presidente” do inexistente Estado palestino, Mahmud Abbas, proibido de entrar nos EUA por Trump.
Trata-se de um teatro, de uma hipócrita posição da burguesia dita “progressista”, que, após financiar, lucrar com e silenciar o genocídio palestino durante anos, agora se coloca contra os crimes de Israel. Buscam adotar a “resolução de paz” da Conferência de Oslo, de 1993, que reivindicava a coexistência de dois Estados.
Enquanto isso, Lula, reiterou essa posição, denunciando uma limpeza étnica na região ao mesmo tempo em que mantém o país em relações comerciais e diplomáticas com Israel. Tanto em sua breve fala durante essa audiência quanto em seu discurso de abertura da Assembleia Geral, nesta terça-feira (23/09), Lula clamou pelo fim do genocídio palestino, mas rifou vidas de crianças, mulheres e homens palestinos na ilusão da “solução” de Oslo.
Nesse processo que pretende “resolver” a questão, o que ficou evidente foi o domínio do imperialismo norte-americano, que, mais uma vez, vetou o cessar-fogo na ONU. Independentemente de Lula ou qualquer outro chefe de Estado burguês chamar de “tirania do veto”, essa é a realidade imposta pelo império dos EUA e por seu candidato a Bonaparte, Donald Trump.
O que vemos agora, dos cais italianos às fábricas britânicas, dos portos gregos e franceses às manifestações em Santos, é uma demomstração viva da força da classe trabalhadora. Nas palavras de Engels1:
“Essas greves… são a prova mais segura de que se aproxima o confronto decisivo entre o proletariado e a burguesia. Elas são a escola da guerra na qual os operários se preparam para a grande batalha.”
A luta pela Palestina revela-se, assim, parte inseparável da luta global da classe operária contra a exploração, a opressão e a barbárie, que só podem ser contidas com o fim do capitalismo, de forma definitiva. Por isso, a Organização Comunista Internacionalista (OCI) apoia a luta dos trabalhadores organizados e os chama a ajudar na construção de uma organização revolucionária, internacionalista e com influência de massas. Somente assim poderemos, no futuro, atuar lado a lado da única classe verdadeiramente revolucionária, a classe trabalhadora, e, de forma organizada e em escala mundial, pôr fim a essa matança e transformar as guerras imperialistas em seu contrário: uma guerra de classes pelo fim total do capitalismo.
Nota
- ENGELS, Friedrich. A Situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 258. ↩︎
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional