Imagem: QM Keen, Wikimedia Commons

Luta de classes no Peru: expressão da nova situação mundial

Atravessamos uma nova situação mundial. Os acontecimentos recentes no Peru, marcados pela onda de protestos que levou à destituição da presidente ilegítima, Dina Boluarte, e que prossegue mesmo diante desse fato, são marcas dessa nova situação.

A instabilidade política e social no Peru não é um fato isolado, mas parte da nova situação mundial. A crise peruana expressa, de forma concentrada e local, a desagregação política e econômica do capitalismo e a urgência da construção de uma direção revolucionária de massas. O aprofundamento da crise orgânica do capitalismo, que se expressa em uma série de fatores, tem entre eles dois especiais: a incapacidade da classe dominante de apresentar qualquer saída minimamente satisfatória às massas e a disposição das massas de se colocar em luta contra os ataques da classe dominante, no sentido de arrancar, diretamente e com os meios à sua disposição, uma nova perspectiva de futuro.

Encontramos diversos elementos dessa situação em nosso vizinho latino-americano e também em uma série de países, na conjuntura recente, que experimentam verdadeiras sublevações das massas, tendo na forte adesão da juventude um advento especial da conjuntura.

Sem o peso das traições e derrotas de classe do passado, sem perspectivas de futuro e também sem instrumentos claros de luta, ou seja, sem sindicatos, entidades, organizações ou partidos de classe independentes, combativos e enraizados nas massas, essa camada se lança em movimento, demonstrando grande força e disposição de luta e demonstrando também o que é capaz de alcançar. No Peru, assim como no Nepal, o poder executivo foi abalado. A presidente ilegítima, que desde seus primeiros dias na presidência tem as mãos sujas com o sangue do assassinato de manifestantes, foi destituída. Esse é o nosso ponto de partida do nosso artigo.

Imagem: QM Keen, Wikimedia Common

Uma breve contextualização dos últimos acontecimentos nesse país, que tem em seu DNA a marca da luta dos oprimidos por melhores condições, pela sua devida parte das imensas riquezas que são exploradas há séculos e que enchem os bolsos e cofres da burguesia, sobretudo internacionalmente, é importante.

O Peru conhece uma série de expressões de lutas; a guerrilha Sendero Luminoso e a influência do marxista peruano Carlos Mariátegui talvez sejam as mais destacadas e tenham exercido influências de massas, seja na mobilização de importantes camadas sociais — especialmente os povos indígenas e os camponeses —, seja na influência para a construção de partidos de aspirações socialistas e revolucionárias. De todo modo, um elemento a ser destacado são as contundentes e significativas mobilizações de massas que o país presenciou.

Em 2000, o ditador Alberto Fujimori, que se estabeleceu no poder em 1990 com o pretexto de “defender o país” da guerrilha Sendero Luminoso (o que significava fazer tudo o possível, inclusive assassinar, sequestrar e torturar, para manter intactos os interesses da classe dominante peruana, sobretudo das mineradoras de capital estrangeiro), foi finalmente arrancado do cargo após intensas mobilizações de massa.

Um movimento especial, que ficou conhecido como marcha de los cuatro suyos, foi determinante para a deposição de Fujimori. Marcharam de todas as regiões do país, as quatro regiões (suyos) do Império Inca, massas de trabalhadores e camponeses, em direção à capital, exigindo o fim da ditadura de Fujimori, que não teve outra alternativa senão fugir do país.

Estabeleceu-se no Peru, após a queda de Fujimori, uma série de governos instáveis, ameaçados pela revolta e pelos levantes das massas peruanas, mas todos com a mesma marca registrada: manter os interesses da classe dominante, em especial das mineradoras, que continuaram a submeter o povo peruano a uma brutal exploração, retirando as riquezas do país e fornecendo migalhas na forma de péssimas condições de vida, salários rebaixados, retirada de direitos e avanço das privatizações, ou seja, a mesma agenda de austeridade e ataques à classe trabalhadora que a burguesia buscou emplacar em todo o mundo.

O aprofundamento da crise mundial do capitalismo e o acirramento da luta de classes, que, entre outros fatores, intensificam a exploração e a polarização, se expressaram fortemente nas eleições peruanas de 2020. De um lado, a filha do ditador Fujimori, representação direta dos interesses da classe dominante peruana; de outro, um candidato de aspiração e origem popular, Pedro Castillo, um professor e sindicalista que adotou como lema “nunca mais pobres em um país rico”, prometendo defender os interesses dos camponeses e dos trabalhadores contra a oligarquia, em especial as mineradoras, colocando uma perspectiva de nacionalizações e distribuição das riquezas.

Castillo foi eleito, no entanto, foi incapaz de colocar em marcha um programa capaz de entregar aquilo que prometeu, ou seja, extinguir a pobreza. Com o intuito de promover um governo de conciliação nacional, sem entrar em confronto direto com a burguesia peruana e internacional, foi acumulando uma série de derrotas, que se expressaram em destituições de ministros considerados radicais e em recuos que, em linhas gerais, demonstraram à classe dominante peruana fraqueza e vacilação.

Diante disso, a burguesia local entendeu como possível avançar na retirada de Pedro Castillo da presidência, pois, mesmo vacilante e conciliador, ele carregava um lema e uma tradição de radicalidades inaceitáveis. Assim, em 2022, depois de apenas um ano na presidência, e após uma sucessão de manobras parlamentares, Castillo foi retirado do cargo e enviado para a prisão. Sua vice, Dina Boluarte, foi imediatamente empossada e, também de imediato, iniciou um governo de brutal repressão frente às mobilizações que se iniciaram.

Desde seu primeiro dia de mandato, Dina Boluarte enfrentou massivas mobilizações, manifestações de rua e até mesmo greves gerais. Sua presidência, iniciada em 7 de dezembro de 2022, enfrentou uma greve geral já no dia 15 do mesmo ano, uma nova marcha de los cuatro suyos em janeiro de 2023 e, também em janeiro, novas ondas de greves. No entanto, apoiada em um fortíssimo aparelho de repressão — mobilizando o Exército por meio do estabelecimento de estados de exceção e reprimindo brutalmente as mobilizações (repressões que resultaram em dezenas de mortes, sendo 30 apenas nas mobilizações de 15 de dezembro) —, conseguiu arrefecer a ira social e, com um discurso de luta contra o terrorismo, manteve-se na presidência.

Castillo foi retirado do cargo e enviado para a prisão. Sua vice, Dina Boluarte, foi imediatamente empossada e, também de imediato, iniciou um governo de brutal repressão frente às mobilizações que se iniciaram

No entanto, isso acabou em outubro de 2025. Na esteira de novas explosões sociais, Dina Boluarte foi deposta e, como marca local da nova situação mundial, uma nova etapa histórica se abre no Peru.

Vale destacar que o ano de 2025 apresenta elementos especiais para essa equação: inflação galopante, que resulta em extrema carestia e rebaixamento dos salários; queda na produção mineral e avanço da destruição ambiental promovida pelas mineradoras, com carta branca para fazerem tudo o que quiserem; persistência e aumento das desigualdades sociais; escândalos de corrupção, como o caso do Rolexgate; e, especialmente, o caso da aprovação da Lei n.º 32.123, conhecida como Lei de Modernização do Sistema Previsional (ou “reforma previsional peruana”), que atinge em cheio a juventude e faz estourar uma nova onda de protestos que paralisaram estradas, portos e cidades do interior. Em setembro, devido à onda de manifestações e greves, ocorreu um caso emblemático: turistas ficaram impossibilitados de sair da cidade histórica de Machu Picchu, sendo essa apenas uma demonstração do reflexo da luta em diversas esferas do país.

As greves e manifestações que irromperam ao longo de agosto e setembro no Peru, sobretudo nas regiões andinas, apresentam a marca da nova situação mundial: a juventude se lança às ruas, mesmo sem um partido, entidade ou central sindical que concentre e apresente um horizonte de lutas e conquistas. Há uma espécie de ação direta das massas como demonstração da total insatisfação e desejo de mudança.

Tal qual pode ser observado nas manifestações do Nepal e das Filipinas, no Peru temos na juventude um fator político de destaque. Livre do peso das derrotas do passado, sem perspectivas de um mínimo de dignidade para o futuro e com total disposição de luta, ela entra em cena e promove manifestações massivas e radicais.

Sendo assim, podemos afirmar que o que se passa no Peru é um reflexo concentrado da nova situação mundial. A desestruturação do mercado mundial, promovida principalmente pelos Estados Unidos, e a incapacidade das burguesias nacionais de promover qualquer tipo de desenvolvimento compõem um mesmo quadro histórico: o capitalismo perdeu a capacidade de reproduzir-se; as forças produtivas se convertem em forças destrutivas; e, para a manutenção de seus interesses, as classes dominantes não têm outro caminho que não seja a ampliação irrestrita da austeridade, os ataques aos direitos mais básicos, a ampliação da repressão e, até mesmo, quando necessário — como é o caso do Peru —, o atropelo das instituições burguesas e de sua representatividade padrão.

As imensas e intensas mobilizações no Peru, mesmo com seu caráter difuso e descentralizado, mostram imenso potencial. Afinal, a presidente ilegítima acabou de ser deposta. Claro, a classe dominante tem experiência e, tradicionalmente, move, ao seu modo e com sabedoria, os peões no tabuleiro. Aqui vale a velha máxima: entregar os anéis para não perder os dedos. A remoção de Dina Boluarte indica que a classe dominante sente as mobilizações e busca uma forma de arrefecer a revolta.

Sendo assim, podemos afirmar que o que se passa no Peru é um reflexo concentrado da nova situação mundial / Imagem: Txolo, Wikimedia Commons

No entanto, as massas continuam em cena. O elemento central é entender até onde vai o potencial dessa força e qual será o grau de dispersão. A ausência de uma direção política revolucionária permite que o movimento oscile entre reivindicações legítimas, tais como a destituição de um presidente, no entanto, ainda assim reformistas e limitadas à ordem burguesa.

O papel das direções tradicionais da esquerda, presas ao parlamentarismo ou a frentes de conciliação, atuando como verdadeiros freios, é central. Assim, as explosões sociais, apesar de legítimas e heroicas, acabam se chocando contra o vazio organizativo da classe trabalhadora.

Essa contradição é a marca de toda a nova situação mundial: massas em movimento, mas sem um centro dirigente revolucionário capaz de unificar e transformar a revolta em poder.

É essencial que os batalhões da classe trabalhadora peruana entrem em cena, com seus métodos e tradições, colocando novamente na ordem do dia greves locais e gerais, no sentido de paralisar a produção e encurralar definitivamente a classe dominante peruana. Ou seja, indicar que nenhum de seus representantes é bem-vindo e que o que está em questão é a tomada do poder econômico e político por parte da classe trabalhadora.

A grande lição do Peru, e do mundo, é que, para esse passo decisivo, faz-se necessário um partido revolucionário, ancorado no marxismo e capaz de se dirigir às massas, impedindo que a energia e a disposição de luta se dissipem. Ou seja, que seja capaz de apresentar um programa claro de nacionalização sob controle operário de toda a indústria do país, começando pelas mineradoras. A construção desse partido deve ser a tarefa central dos lutadores no Peru, no Brasil e em todo o mundo!