Em 24 de março, manifestações lembrando o golpe ocorreram em diversas cidades da Argentina. Cinquenta anos após o golpe de 1976, multidões marcham não apenas para recordar os desaparecidos, mas para reafirmar que as lutas dos trabalhadores seguem ainda no presente, em especial nos embates com o governo de Javier Milei.
O golpe de 1976, que levou ao poder a junta militar liderada por Jorge Rafael Videla, inscreve-se em um processo mais amplo de crise, no qual as classes dominantes buscavam derrotar as organizações e lutas dos trabalhadores. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Argentina viveu um ciclo intenso de mobilizações operárias, estudantis e insurgentes, como o Cordobazo, em Córdoba, no ano de 1968. Vivia-se um processo de resistência a outra ditadura, iniciada em 1966 e derrubada em 1973. Greves, ocupações de fábricas e mesmo a luta armada indicavam uma disputa política que colocava em crise a democracia burguesa.
O golpe aparece como uma resposta que evidencia a violência de Estado. Essa ação, que redundou em mais de 30 mil desaparecidos e mortos, teve como alvo não apenas militantes armados, mas toda uma geração de trabalhadores, estudantes e intelectuais que ameaçavam os limites da ordem capitalista. Em 1976, o golpe e a ditadura que nasceu dele implementaram um programa econômico que se voltou para ataques contra os trabalhadores e seus direitos.
O golpe de 1976 também se insere em um contexto mais amplo no âmbito internacional. Chile e Uruguai tinham passado por suas próprias experiências golpistas, em 1973. No Brasil, o governo militar, que havia dado apoio logístico a outras ditaduras por meio da Operação Condor, via seus primeiros sinais de crise a partir de 1974. Na Argentina, a queda da ditadura teve como pano de fundo a Guerra das Malvinas, uma manobra do próprio regime para tentar mobilizar o sentimento nacionalista contra a Inglaterra. Em seus últimos momentos, a ditadura argentina viu eclodirem greves e amplas mobilizações operárias, até seu fim, em 1983.
Nas últimas décadas, a Argentina construiu políticas de memória, verdade e justiça. Os julgamentos dos responsáveis pelos crimes da ditadura e o reconhecimento das vítimas foram importantes conquistas, impulsionadas pela luta de organizações como as Mães e Avós da Praça de Maio. Contudo, esses processos também revelam seus limites, na medida em que deixam intactas as estruturas sociais que a sustentaram. Com isso, tanto a exploração da classe trabalhadora permanece quanto as disputas por memória e verdade mostram recuos e avanços, a depender do governo de plantão.

O governo de Javier Milei tem sido marcado por uma agenda de reformas que retoma, sob nova roupagem, elementos centrais daquele projeto de reorganização social. Sua proposta de flexibilização trabalhista, entre outras medidas, aponta para a redução de direitos historicamente conquistados. Além disso, suas políticas de ajuste fiscal e desregulamentação econômica aprofundam a desigualdade e levam à piora das condições de vida da classe trabalhadora. Por outro lado, mesmo diante de todo o ataque do governo reacionário de Milei, manifestações e mobilizações históricas dos trabalhadores foram realizadas na Argentina nos últimos anos. E, nas últimas semanas, contra a reforma trabalhista, não foi diferente. Mas o que vimos é que as direções dos trabalhadores atuaram como um freio ao movimento.
Essas lutas devem estar conectadas ao passado da ditadura. O golpe e a memória dele funcionam como um elemento de politização, não apenas como um lembrete do que aconteceu, mas como uma chave para interpretar o que está acontecendo. Quando as políticas atuais dialogam com os ataques do passado contra a classe trabalhadora, mostram as continuidades estruturais que desafiam as narrativas oficiais de ruptura.
Cinquenta anos depois, o golpe segue sendo um ponto de inflexão na história argentina. Mas sua compreensão exige ir além da narrativa institucional, devendo ser situada em um processo mais amplo de luta de classes. Nesse sentido, a memória não é apenas um passado, mas uma luta ainda viva, que conecta gerações e articula resistências. Essas marchas que recordam o golpe e os desaparecidos afirmam que os embates por memória e justiça permanecem abertos e não podem estar separados da luta de classes.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional