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“Morte ao Ditador” significa “Viva o Xá”? Os novos levantes no Irã

O histórico território persa, que desde a revolução de 1979 se converteu na República Islâmica do Irã, vive novos dias de convulsão e revolta social. Em dezembro de 2025, a inflação passou dos 40% e a absoluta desvalorização do rial, moeda iraniana, bateu recorde em relação ao dólar. Em comparação com 2024, os preços dos alimentos ainda subiram 72% e os de saúde médica 50%. Esse colapso econômico, presente em todo o mundo pela crise capitalista, somado a um ano onde o Irã esteve por 12 dias em guerra com Israel, sob o bombardeio norte-americano e sanções da ONU, ganha peso ainda mais brutal na sociedade controlada pela burguesia islâmica com a mão de ferro do Aiatolá Ali Khamenei.

De Aristóteles a Spinoza, aprendemos que a natureza abomina o vácuo. E, diante destas condições materiais locais e das ações imperialistas dos EUA em todo o planeta, as grandiosas manifestações iranianas expressam tal doutrina.  Esses atos não são homogêneos, ou mesmo estão dirigidos por partidos proletários. A única coisa que tem unido o bloco de manifestantes nas ruas é o ódio ao regime dos Aiatolás, e a raiva acumulada de anos e anos de opressão e piora nas suas condições de vida. Como ficou marcado nos levantes de massa das últimas décadas, a classe trabalhadora na falta de uma direção sua, converte seu sentimento revolucionário no ódio ao sistema de maneira genérica. Entretanto, esse vácuo está sendo ocupado por Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã, direto de Washington, e seus representantes no país persa. Assim, o “morte ao ditador” tem se diluído nas ruas de gritos pela libertação desse povo em “viva o Xá”, a monarquia iraniana devota dos interesses imperialistas na região, destituída em 1979, perdendo o acesso à riqueza do petróleo para si e à burguesia europeia.

Essa distância em nada representa os interesses dos trabalhadores iranianos. Podemos ver o real fundo desta grande revolta no Irã na correta declaração do Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Ônibus de Teerã e Subúrbios, em 7 de janeiro de 2026, que afirma: 

“De janeiro de 2018 a novembro de 2019 e setembro de 2022, o povo oprimido do Irã demonstrou repetidas vezes — ao tomar as ruas — que não tolerará a ordem político-econômica vigente e as estruturas construídas sobre exploração e desigualdade. Esses movimentos não dizem respeito a um retorno ao passado. Eles surgiram para construir um futuro livre da dominação do capital — um futuro baseado em liberdade, igualdade, justiça social e dignidade humana.

[…] Acreditamos que a libertação genuína só é possível por meio da participação consciente, organizada e da direção da classe trabalhadora e dos oprimidos — e não pela reprodução de velhas e autoritárias formas de poder. Nesta luta, trabalhadores, professores, aposentados, enfermeiros, estudantes, mulheres e especialmente os jovens — apesar da repressão generalizada, das prisões, demissões e do agravamento das condições de vida — continuam na linha de frente. O Sindicato dos Trabalhadores da Companhia de Ônibus de Teerã e Subúrbios enfatiza a necessidade de manter protestos independentes, conscientes e organizados.

[…] O sindicato também condena veementemente qualquer propaganda, justificativa ou apoio a intervenções militares por parte de governos estrangeiros, incluindo Estados Unidos e Israel. Tais intervenções não apenas levam à destruição da sociedade civil e ao massacre do povo, como também dão às autoridades mais um pretexto para continuar a violência e a repressão.”1

As chamadas “velhas e autoritárias formas de poder”, referida por este sindicato, são justamente os representantes de Reza Pahlavi e o imperialismo norte-americano com Donald Trump declarando que a “ajuda está a caminho”,2 ao mesmo tempo que dá abertura para uma “negociação” com o governo teocrático, explicitando que os interesses imperialistas não tem nada a ver com a “democracia”. 

Vale lembrar que o primeiro Pahlavi a ser declarado Xá da Pérsia sobe ao poder em 1921, através de um golpe orquestrado pelo imperialismo Britânico. O objetivo desse golpe foi primeiro o domínio dos ricos campos petrolíferos, e um regime mais amigável facilitaria tais interesses imperialistas na região, e segundo, era a necessidade de barrar a expansão das forças da revolução Bolchevique que tinha acontecido há 4 anos e colocava as burguesias do mundo em estado de constante pavor. Isso significa que aqueles que hoje se colocam como os melhores amigos do povo, dos trabalhadores, e da juventude iraniana, são aqueles que venderam o país para o capital imperialista e esmagaram as esperanças dos trabalhadores da região em construir um novo mundo.

Neste 13 de janeiro, já se passaram 16 dias de manifestações das massas pelo país. Segundo a Iran Human Rights, são mais de 500 mortos, sendo vários menores de idade. A repressão do regime capitalista islâmico também já prendeu mais de 2 mil manifestantes. Mas o fato é que não é possível confirmar o número de mortes nos últimos dias, onde outras agências chegam a apontar mais de 2 mil vidas perdidas. 

Os protestos foram iniciados por comerciantes de Teerã, especialmente do centro comercial Grande Bazar, uma espécie de termômetro econômico do país, que realizaram uma greve em 28 de dezembro. Rápida e explosivamente, os atos se espalharam para 31 províncias e 110 cidades, tendo a juventude a ponta de lança com grande papel nas redes sociais. Estes jovens vêm sendo simbolizados pelas aspas de um comunicado dos estudantes da Universidade de Beheshti, em Teerã, onde dizem que: “este sistema criminoso mantém o nosso futuro como refém há 47 anos. Não mudará com reformas nem com falsas promessas.”

Os protestos foram iniciados por comerciantes de Teerã, especialmente do centro comercial Grande Bazar, uma espécie de termômetro econômico do país, que realizaram uma greve em 28 de dezembro / Imagem: RS, Fotos Públicas

Justamente pelo uso massivo das redes sociais, o regime de Khamenei promove, desde do dia 7 de 2026, um “apagão” no Irã. A censura digital está em vigor, o que, como já vimos no Nepal em 2025, ao invés de paralisar as manifestações, promove ainda mais revolta. Nesta sexta (09/01), Ali Khamenei discursou na TV e rádio estatais tentando amenizar a situação. Afirmou serem alguns “agitadores” que buscam “tumultuar” o país, agindo “em nome de Trump”, que, por sua vez, declarou estar disposto à atacar o Irã se a repressão aumentar aos manifestantes.

Mas, nos atos, o que vemos são mais que meros agitadores. São marchas enormes com diversos setores da população, alguns que nunca haviam participado de manifestações, queimas de ônibus e carros, incluindo o fogo ateado na estátua do mártir da ditadura, o general Qasem Soleimani, em Kerman, sua cidade natal, executado pelos EUA em 2020, no Iraque. Estabelecimentos e destruições variadas pelas ruas fazem ecoar o ódio ao regime. A expressão desse ódio está nessa rápida expansão dos protestos, que se converteram em um verdadeiro levante popular contra o regime. Nas últimas horas, foram compartilhadas imagens de manifestantes trocando tiros com as forças de repressão em plena luz do dia, e durante os massivos protestos. Esse é o verdadeiro ânimo das massas iranianas, que cansadas da podridão que esse sistema tem jogado sobre eles, se coloca disposta a ir até às últimas consequências.       

Vale lembrar que o presidente decorativo do Irã, Masoud Pezeshkian, eleito ainda em 2025, busca ser mais “democrático”, garantindo o que ele chamou de “direito constitucional ao protesto pacífico”. Contudo, Pezeshkian não possui qualquer controle das forças de repressão, ordenadas pelo Aiatolá, que segue prendendo e matando.

Em seu pronunciamento, o ditador iraniano apontou aos interesses imperialistas no país, tentando acender um espírito antiimperialista. Inegavelmente, o golpe dos EUA operado na Venezuela contra Maduro, com Trump mantendo suas ações bonapartistas, seja contra os trabalhadores norte-americanos — violentados e, agora, assassinados pelo ICE —, seja contra Cuba, Colômbia e toda a América Latina, coloca o também o Irã sob alerta de uma hipotética intervenção militar para derrubar Khamenei.

Como marxistas, porém, precisamos concentrar nossa compreensão desta conjuntura sob as lentes da luta de classes, a real relação que faz mover a humanidade. Esta posição nos demonstra que nem o regime dos Aiatolá — que tenta manejar o discurso contra os EUA —, nem um suposto retorno do Xá fantoche de Trump podem ser defendidos pelos trabalhadores iranianos e de todo o mundo. 

Nos últimos anos a classe trabalhadora iraniana vem aumentando a temperatura do combate ao regime, feitos os históricos atos de 2022 que eclodiram após o assassinato da jovem Mahsa Amini, de 22 anos, pelas mãos da polícia da moral islâmica, sob a justificativa do uso inadequado do hijab. Em maio de 2025, caminhoneiros também realizaram greves, na cidade portuária de Bandar Abbas, no sul do país, bloqueando o porto e as estradas contra os baixos salários, as altas taxas e o preço dos combustíveis.

Mesmo que na presente convulsão o vácuo político esteja sendo preenchido por monarquistas e defensores de Trump, o que temos no Irã são nada mais que novos tremores revolucionários. É a busca dos trabalhadores e sua juventude em pôr fim às opressões e as misérias capitalistas, que se apresentam com os contornos ditatoriais islâmicos neste país.

Assim, o cenário posto com as atuais manifestações, de proporções nunca vistas por Ali Khamenei, é de descontrole do regime e suas forças de repressão diante de atos muito potentes. Em um país onde, por exemplo, enfermeiros e professores recebem entre 150 a 250 milhões de riais por mês e o aluguel de um pequeno apartamento custa 200 milhões de riais, a revolta está na ordem do dia. Em um país onde o trabalho informal para complementar renda é praticamente obrigatório e direitos democráticos são escassos, o combate de peito aberto contra o opressor imediato são as ações mais urgentes. Esse é o verdadeiro fundo da luta de classes no Irã.

Para que esse movimento se converta em uma real transformação do Irã, sem líderes supremos religiosos, nem reis servos do capital norte-americano, é preciso que a classe trabalhadora organizada de forma independente entre em cena / Imagem: RS, Fotos Públicas

Para que esse movimento se converta em uma real transformação do Irã, sem líderes supremos religiosos, nem reis servos do capital norte-americano, é preciso que a classe trabalhadora organizada de forma independente entre em cena. É o proletariado a classe mais poderosa da sociedade, capaz de paralisar de vez todo o país e pôr fim ao regime da burguesia islâmica. 

Foi esta classe a responsável pela revolução de 1979, que liderou a greve geral dos trabalhadores do petróleo. Porém, foi traída pela direção do Partido Tudeh, nacionalista, autoproclamado “marxista-leninista”, sucursal, em programa e método, da burocracia soviética. Foi a ausência da direção, abdicada pelo Tudeh, que entregou a revolução nas mãos dos religiosos islâmicos que, desde então, mantém a ditadura teocrática no país.

No presente momento, é preciso, portanto, a reconstrução das shuras. Elas, que foram os conselhos de trabalhadores iranianos, organizadoras da revolução de 1979, devem, desta vez, dinamitar o regime do Aiatolá. Somente esta autoorganização dos trabalhadores e jovens pode arrancar para si as riquezas de sua própria produção, expropriada pela burguesia nacional e, indiretamente, pelo imperialismo. São essas ações as capazes de realizar o que o capitalismo iraniano nunca conseguiu oferecer: existência digna, emancipação e liberdade. 

A luta iraniana é um passo fundamental da luta socialista internacional!

  1. Ler declaração completa em: <https://laboursolidarity.org/en/n/3727/supporting-the-peoples-struggle-for-their-rights>. Acesso em: 13 de janeiro de 2026. ↩︎
  2. Estadão. Trump incita protestos iranianos: “a ajuda está a caminho”. <https://www.estadao.com.br/internacional/trump-incita-protestos-iranianos-a-ajuda-esta-a-caminho-npr/>. Acesso em: 13 de janeiro de 2026. ↩︎