Imagem: Alisdare Hickson, Flickr

O genocídio sionista em Gaza e o crescimento do antissemitismo

O ataque antissemita a uma sinagoga em Manchester, durante o Yom Kipur, o dia mais sagrado do calendário judaico, reforçou o debate sobre o aumento da violência contra judeus desde o início do genocídio na Faixa de Gaza.

A incursão do exército israelense iniciada em outubro de 2023 matou mais de 67 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças, e provocou uma onda de protestos que reuniu centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, entre elas muitos judeus que se colocam contra o genocídio e o sionismo. Dentro do próprio Estado de Israel, principalmente entre a juventude e as camadas mais precarizadas da sociedade, um movimento contra o estado contínuo de guerra já toma corpo. Isso traz à ordem do dia a discussão de que judaísmo e sionismo não são sinônimos.

Com o apoio financeiro e militar dos EUA, Israel se baseia no sionismo para se reivindicar como “Estado judeu”, ou seja, como representante legítimo dos judeus de todo o mundo, independentemente de sua origem. Essa ideologia surge com uma base excepcionalista e anacrônica, que reivindica uma suposta continuidade histórica do “povo judeu”. Os sionistas seriam, assim, os continuadores de um Estado judeu ancestral que teria o direito de ocupar a Palestina.

Essa ideia aparece no final do século XIX e ganha força no século XX, na esteira dos movimentos nacionalistas que se espalharam pela Europa e das teorias pseudocientíficas que defendiam a existência de “raças humanas”. As diferenças biológicas, portanto, seriam vistas como a explicação para as diferenças culturais e linguísticas entre os diversos povos.

Para os antissemitas, essas teorias significavam que os judeus também compunham um “povo bastardo”, de constituição física inferior, que vivia entre as nações, mas sem pertencer de fato a nenhuma delas. Velho conhecido da Europa desde a Idade Média, o antissemitismo abandona lentamente a crisálida religiosa em que repousou por séculos e se metamorfoseia em um monstro racista ainda mais perigoso.

Diversos intelectuais judeus absorveram, à sua maneira, as ideias racistas e nacionalistas e deram origem ao que hoje conhecemos como sionismo. Para os sionistas, os judeus seriam de fato uma raça e um povo únicos que, para se realizar plenamente, precisavam de um Estado próprio. A criação do “Estado judeu” seria, assim, a única maneira de garantir liberdade e segurança plenas a esse povo.

Nos anos anteriores à criação do Estado de Israel, diversas levas de judeus de origem europeia, conhecidos como asquenazes, se mudaram para a Palestina. Alguns fugiram dos pogroms no Império Russo e adjacências; outros tinham como motivação a construção de vilas, cidades e fazendas coletivas para o “repovoamento” da Palestina.

Esses últimos eram bastante diferentes de outros grupos judeus, como os sefarditas, de origem hispânica e magrebina, e os de origem árabe, que já conviviam há séculos na Palestina histórica com muçulmanos, cristãos, drusos e outros grupos étnicos e religiosos. Hoje, estes compõem as camadas mais pobres e exploradas da classe trabalhadora israelense.

Após a partilha da Palestina pela ONU, em 1948, o recém-criado Estado de Israel assume de vez seu papel de cabeça de ponte do imperialismo no Oriente Médio e passa a ocupar o território que deveria pertencer a um Estado palestino. A atual destruição e o genocídio na Faixa de Gaza são apenas o capítulo mais recente dessa história.

Para mascarar a barbárie que promove, o Estado sionista investe milhões em ações de comunicação e relações públicas, tanto entre as comunidades judaicas quanto entre grupos não judaicos, principalmente evangélicos. O resultado é que a ideia de que o sionismo e seu Estado representam os judeus tornou-se praticamente unânime, mesmo entre críticos de Israel e defensores da causa palestina.

É verdade que há um aumento nos ataques antissemitas, promovidos também por grupos de extrema direita e supremacistas brancos, principalmente nos EUA. Mas mesmo esses se sentem mais à vontade para agir quando a opinião pública, horrorizada com o massacre palestino, estende sua revolta contra o Estado de Israel a todos os judeus.

Essa é uma posição que os comunistas e todos os demais militantes sérios pela causa palestina combatem firmemente, cientes de que o antissemitismo não é uma ferramenta real na luta contra o sionismo e de que, inclusive, comunidades e associações judaicas se opõem à ideia de um Estado judeu na Palestina.

Fica claro, portanto, que o sionismo não é capaz de garantir a segurança dos judeus, nem dentro dos limites de Israel, nem no restante do mundo. Pelo contrário, como a ideologia pútrida que é, enraizada sobre o sangue de milhares de inocentes, o sionismo só é capaz de promover mais guerra, mais mortes e mais ódio.

Essa é uma posição que os comunistas e todos os demais militantes sérios pela causa palestina combatem firmemente, cientes de que o antissemitismo não é uma ferramenta real na luta contra o sionismo / Imagem: Alisdare Hickson, Flickr

No prefácio de “O Capital, Marx escreve que “o trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro”. Os comunistas acreditam que não há liberdade real possível para qualquer grupo oprimido enquanto todas as outras formas de opressão não forem destruídas.

É preciso, sim, dividir a Palestina, mas em linhas de classe. É preciso mostrar aos trabalhadores de todas as origens que o verdadeiro inimigo é o capitalismo e sua classe dominante podre e parasita. É preciso que a classe operária de toda a região se una em torno de um movimento unificado de solidariedade e ação conjunta, capaz de fazer parar não só as máquinas das fábricas israelenses, mas principalmente a máquina de guerra sionista.

Muitos podem acreditar que isso é impossível, que o ódio e o chauvinismo já tomaram conta de todas as relações e que não é possível avançar. Mas ações como as que descrevemos já aconteceram, e acontecem todos os dias, dos dois lados da fronteira, tanto entre grupos religiosos quanto entre grupos laicos que não suportam mais a guerra e a morte.

É preciso pôr fim ao Estado sionista de Israel e construir um Estado único na Palestina, onde todos os judeus, muçulmanos, cristãos, árabes e demais grupos étnicos  tenham os mesmos direitos políticos e possam viver em paz. Para isso, é preciso que os trabalhadores tomem o poder em suas próprias mãos, rompam com o capitalismo e decidam seu próprio futuro.