Imagem: Kristoffer Trolle, Flickr

O papel internacional do capital chinês

“Toda a ciência seria supérflua se a forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem imediatamente.” (O Capital, Vol. 3, Cap. 48)

Para os materialistas, a fonte da verdade é a realidade concreta. Mas, ao contrário dos impressionistas, não observamos a realidade como quem observa sombras na parede de uma caverna. Nós a observamos com as lentes do marxismo, uma poderosa tradição com um acúmulo teórico que nos permite enxergar o que está por trás dos fatos — sua essência.

Na introdução de sua “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, Marx afirma:

“É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra nas massas.”

Já no volume 3, capítulo 48 de “O Capital”, Marx afirma:

“Ainda assim, mesmo seus mais destacados representantes, como não poderia deixar de ser do ponto de vista burguês, continuam, mais ou menos, prisioneiros do mundo da aparência que sua crítica extinguiu e, por isso, recaem todos eles, em maior ou menor grau, em inconsequências, semiverdades e contradições irresolvidas. Em contrapartida, é natural que os agentes reais da produção se sintam plenamente à vontade nessas formas estranhadas e irracionais de capital-juros, terra-renda, trabalho-salário, pois elas constituem precisamente as configurações da aparência em que tais agentes se movem e com as quais lidam todos os dias.”

Os dados e fatos apresentam a realidade, mas principalmente sua aparência imediata. É preciso ir mais fundo, encontrar sua essência. A presente contribuição tem o objetivo de analisar a fundo os dados disponíveis sobre o capital chinês e, principalmente, associá-los à teoria marxista para que avancemos na compreensão do que é a China hoje e de seu papel no capitalismo mundial.

Para os marxistas, a base teórica para a discussão sobre o imperialismo é o livro “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, de Lênin. Nele consta não apenas uma análise dos dados disponíveis sobre os países imperialistas do início do século XX, mas, principalmente, uma análise global sobre o que significa o imperialismo no estágio mais avançado do capitalismo.

É importante ressaltar que, em nenhum momento, Lênin teve a intenção de oferecer ferramentas para se definir se um país é ou não imperialista, mas sim enxergar o imperialismo como um fenômeno global. Tomar os cinco pontos expostos por Lênin como um “checklist” é um erro que já foi cometido.

Na introdução às edições francesa e alemã, Lênin afirma:

“É que a prova do verdadeiro caráter social ou, melhor dizendo, do verdadeiro caráter de classe de uma guerra não se encontrará, naturalmente, na sua história diplomática, mas na análise da situação objetiva das classes dirigentes em todas as potências beligerantes. Para refletir essa situação objetiva, há que colher não exemplos e dados isolados (dada a infinita complexidade dos fenômenos da vida social, podem-se encontrar sempre os exemplos ou dados isolados que se queira, suscetíveis de confirmar qualquer tese), mas sim, obrigatoriamente, todo o conjunto dos dados sobre os fundamentos da vida econômica de todas as potências beligerantes e do mundo inteiro.”

Para observar um país específico, a China, a fim de concluir se é possível caracterizá-lo como país imperialista, precisamos não apenas observar os números desse país, mas sua posição em relação aos outros países. E isso não significa observar apenas as cifras totais de exportações e PIB, mas o capital financeiro e o que está por trás dele. Como Lênin deixou claro ao debater com a posição de Kautsky, “o que é característico do imperialismo não é justamente o capital industrial, mas o capital financeiro”.

Ao falar sobre a expansão das ferrovias na Europa e nas colônias, Lênin afirma:

“Assim, cerca de 80% de todas as ferrovias estão concentradas nas cinco maiores potências. Mas a concentração da propriedade dessas vias, a concentração do capital financeiro, é ainda incomparavelmente mais significativa, porque, por exemplo, a imensa maioria das ações e obrigações das ferrovias estadunidenses, russas e de outros países pertence aos milionários ingleses e franceses.”

Nas próximas seções, vamos nos debruçar diretamente sobre os números disponíveis a respeito da economia chinesa, para tirar deles conclusões que contribuam para o presente debate.

Segundo dados do State Administration of Foreign Exchange (SAFE), órgão ligado ao Banco Central da China, o total de investimento da China no exterior passou de US$ 936,2 bilhões em 2002 para US$ 10,2 trilhões em 2024. No mesmo período, o total de investimento estrangeiro na China passou de US$ 695,4 bilhões para US$ 6,92 trilhões, um saldo de US$ 3,3 trilhões.

À primeira vista, tais valores podem parecer uma prova clara da posição da China como país imperialista (ou um “imperialismo regional”).

No entanto, se analisarmos a composição desse capital, veremos que o investimento que a China faz no exterior e o investimento que ela recebe são de naturezas muito diferentes. Enquanto a maior parte do investimento estrangeiro na China é produtivo, ou seja, consiste na exploração de mão de obra barata e de recursos naturais, o investimento chinês no exterior é, em sua maior parte, composto por reservas.

Em 2024, dos US$ 10,2 trilhões de investimento chinês no exterior, US$ 3,4 trilhões consistiam em reservas, US$ 3,1 trilhões foram investimento direto (capital produtivo), US$ 1,4 trilhão em ações do mercado financeiro e US$ 2,1 trilhões em outros investimentos (moeda, depósitos bancários, empréstimos, crédito comercial etc.).

No mesmo ano, o investimento estrangeiro na China chegou a US$ 6,9 trilhões: US$ 3,6 trilhões em investimento direto, US$ 1,9 trilhão em ações e US$ 1,3 trilhão em outros investimentos.

Vemos, então, que, enquanto a maior parte do capital externo chinês consiste em reservas (usadas principalmente como garantias de pagamento da dívida e amortecimento de crises), o capital estrangeiro na China é majoritariamente composto por investimento direto, isto é, capital produtivo.

Isso fica evidente na importância das chamadas Foreign-Invested Enterprises (FIEs) na economia chinesa. Segundo dados da General Administration of Customs (GAC), em 2024, 27% das exportações (US$ 978 bilhões de US$ 3,5 trilhões) e 32% das importações (US$ 820 bilhões de US$ 2,5 trilhões) do país foram realizadas por empresas de capital estrangeiro.

Em fevereiro de 2025, o vice-ministro do Comércio, Ling Ji, declarou que as FIEs são responsáveis atualmente por 7% dos empregos chineses e por um sétimo do valor arrecadado em impostos.

É verdade que, nos últimos anos, o investimento direto chinês aumentou consideravelmente (29% entre 2019 e 2024), mas ainda está em segundo lugar e tem crescido a um ritmo menor depois da pandemia. O investimento em ações, por outro lado, cresceu 22% de 2023 para 2024. Nas próximas seções, vamos analisar cada um desses elementos.

Crescimento do investimento chinês no exterior por categoria em relação ao ano anterior:

Segundo o Tesouro Americano, a China possuía, em 2024, US$ 759 bilhões em títulos do Tesouro Americano (22% dos US$ 3,4 trilhões de reservas chinesas). Isso coloca a China como uma das principais “credoras” da dívida norte-americana, atrás apenas do Japão. A composição total das reservas não é divulgada, mas o relatório anual do SAFE, publicado em 2023, informa que, em 2019, 55% eram em dólar.

O que significam essas reservas e investimentos em dólar? À primeira vista, uma salvaguarda em moeda forte para tempos de crise. De modo mais profundo, significa que o capital chinês no exterior financia o Estado norte-americano por meio dos títulos da dívida pública, ao mesmo tempo em que fortalece o sistema financeiro norte-americano e aumenta o seu controle sobre a economia do país.

Embora seja considerado um investimento muito seguro, o Tesouro Americano tem o poder de, entre outras medidas, congelar os ativos chineses diante de qualquer tentativa de venda massiva ou mesmo de uma desdolarização gradual. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a Rússia em 2022, como sanção pela guerra na Ucrânia.

Mas, ao contrário da Rússia, cujas principais exportações são combustíveis e óleos minerais (dos quais seus parceiros comerciais são altamente dependentes), a China exporta principalmente eletroeletrônicos, maquinário e veículos, o que a coloca em posição muito mais dependente dos grandes mercados de consumo e muito mais vulnerável a crises no mercado internacional.

Podemos entender as reservas chinesas, portanto, como um tributo não declarado ao imperialismo americano, algo muito distante de uma expressão do “imperialismo chinês”.

Segundo dados do National Bureau of Statistics of China, do total de US$ 177,2 bilhões de investimentos diretos chineses no exterior em 2023, US$ 141,6 bilhões tiveram como destino países asiáticos, US$ 13,4 bilhões foram para a América Latina, US$ 9,9 bilhões para a Europa, US$ 7,7 bilhões para a América do Norte, US$ 3,9 bilhões para a África e US$ 0,5 bilhão para a Oceania.

No entanto, se observarmos os valores dentro dos países asiáticos, o verdadeiro retrato do investimento direto chinês fica ainda mais claro. Dos US$ 141,6 bilhões investidos, US$ 108,7 bilhões tiveram como destino Hong Kong, uma das regiões administrativas especiais da China, e o restante foi dividido entre Cingapura, Indonésia, Vietnã, Tailândia, Macau (outra região administrativa especial chinesa), Coreia do Sul e Japão.

Já o investimento na América Latina, em 2023, teve como destino três países principais: US$ 8,73 bilhões foram para as Ilhas Cayman, US$ 2,55 bilhões para as Ilhas Virgens Britânicas e US$ 1 bilhão para o México. Podemos dar o benefício da dúvida e considerar que o capital investido no México tenha sido produtivo, mas é muito difícil dizer o mesmo dos valores destinados a paraísos fiscais no Caribe. Na melhor das hipóteses, trata-se de uma massiva devolução de capital para o centro do sistema financeiro mundial.

Se observarmos a tendência de investimentos chineses produtivos no exterior em 2024, veremos que boa parte é impulsionada pela produção de baterias de lítio e de automóveis. Entre as empresas chinesas que investem no exterior, destaca-se a BYD, que encontrou nos veículos elétricos e híbridos um filão de mercado pouco explorado e é impulsionada pelo investimento de gigantes estrangeiros como a BlackRock e a Berkshire Hathaway (Warren Buffett).

Ainda utilizando dados do State Administration of Foreign Exchange (SAFE), podemos organizar a seguinte visualização das ações chinesas no exterior (em bilhões de dólares):

A maior parte do portfólio chinês está concentrada em ações bancárias e de outras instituições do setor financeiro, com uma mínima parcela investida em setores não financeiros. O que isso significa?

Novamente, não se trata da compra de ações de empresas produtivas do exterior, como o Walmart ou a Apple, mas de uma devolução de capital para o centro do sistema financeiro internacional, através da compra de ações financeiras — isto é, do financiamento dessas instituições que representam o capital financeiro internacional. Curiosamente, os maiores percentuais de ações em setores não financeiros estão localizados em Hong Kong, que é território chinês, e no famigerado paraíso fiscal das Ilhas Cayman.

Isso se deve ao sistema VIE (Variable Interest Entity), uma manobra que permite a compra de ações de forma indireta e que é muito utilizada para driblar restrições do Estado chinês, além de impostos e outras obrigações legais. Muitas empresas chinesas proibidas de vender ações para estrangeiros utilizam esse mesmo recurso para escapar da regra.

Para determinarmos a posição de um país na divisão internacional do trabalho, precisamos observar o volume de trabalho incorporado em mercadorias importadas e exportadas por esse país. Em outras palavras: a partir de sua balança comercial, esse é um país que exporta ou importa trabalho em forma de mercadorias?

Minqi Li, economista político chinês autodeclarado marxista, propõe uma metodologia em seu livro China and the 21st Century Crisis (sem tradução para o português). Vale ressaltar que, do ponto de vista político, as posições de Li são claramente reformistas, mas seu método é útil para a discussão que estamos realizando.

Balança de Transferência Internacional de Trabalho, 2017 (milhões de horas-trabalho):

A construção da tabela acima leva em conta mais de 200 indicadores fornecidos pelo Banco Mundial, além de cálculos de produtividade do trabalho e ocupação por setor, o que tornaria impossível uma atualização em tempo hábil.

No entanto, os dados de 2017 já deixam clara a posição da China como país exportador de trabalho em forma de mercadorias. Os países imperialistas, por outro lado, cumprem o papel de absorver trabalho através de suas exportações. Os EUA, sozinhos, absorveram um terço da mais-valia produzida pelos mais pobres.

Nas conclusões do próprio Minqi Li:

“Se a China se tornasse um país do centro [do capitalismo], ela então deixaria de ser uma fornecedora de mais-valia líquida para o sistema capitalista mundial e se tornaria uma receptora de mais-valia líquida do restante do mundo. Assumindo que a média dos termos de troca de trabalho da China cresça do nível atual de cerca de 0,5 (uma unidade de trabalho chinês sendo trocada por cerca de meia unidade de trabalho estrangeiro) para cerca de 2 (uma unidade de trabalho chinesa sendo trocada por cerca de duas unidades de trabalho estrangeiro, semelhante aos termos de troca de trabalho atuais dos países ricos, com a exceção dos EUA), então o trabalho total incorporado nas importações chinesas de bens e serviços teria que crescer para cerca de 180 milhões de horas-trabalho. Em vez de fornecer uma transferência líquida de trabalho de quase 50 milhões de horas-trabalho, a China terá que extrair 90 milhões de horas-trabalho do restante do mundo. A mudança total de 140 milhões de horas-trabalho representa cerca de três quartos do total da mais-valia atualmente recebida do restante do mundo pelo centro e pela semiperiferia [do capitalismo] de nível mais alto e é quase comparável ao total da transferência líquida de trabalho atualmente fornecida por todos os países de renda baixa e média (exceto a China).”

Ou seja, dentro dos limites do capitalismo, seria necessária uma expansão gigantesca da produtividade e do trabalho incorporado para que um país como a China se tornasse imperialista e passasse, portanto, a importar trabalho em vez de exportar. Em outras palavras, o capitalismo teria que ser capaz de desenvolver enormemente as forças produtivas para que isso se tornasse possível.

É verdade que o caso chinês é bastante único e que o volume de riqueza produzido pela classe trabalhadora chinesa é espantoso. É verdade também que o Estado chinês e a burocracia política que o controla souberam fazer uso do investimento estrangeiro e mantiveram parte da planificação econômica como um trunfo para produzir um salto logístico e industrial em um país atrasado.

No entanto, enquanto marxistas, não devemos nos impressionar com grandes números. Que um país, ainda que atrasado, possa ter relações exploratórias com outros países, atrasados ou não, é um fato inegável e uma característica do capitalismo em seu estágio superior. Mas concluir, a partir dessas relações, que um país é imperialista enquanto mantém todas as relações de dominação é um erro que deve ser combatido teoricamente.