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Pedro Sánchez: um freio à luta contra o imperialismo

“Não, Língua de Cobra, a mão de seu mestre está sobre você. Desde há muito ele o comprou, e você vendeu a si mesmo. Há muito você era um espião em Meduseld e um traidor… Sua recompensa, eu temo, você terá que buscá-la em Isengard.” (Gandalf – As Duas Torres)

A situação na Espanha, frente ao genocídio em Gaza, serve como um exemplo evidente dos limites do reformismo frente ao imperialismo. O governo de Pedro Sánchez, uma coligação frágil do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) e do Sumar, tentou pavimentar uma “via progressista” que, na prática, atua como uma barreira para a luta de massas e um aliado objetivo do sionismo. Os atos de seu governo contrastam com a imensa pressão popular e revela o papel de um partido que, apesar de ter “socialista” em sua sigla, atua como um agente contrarrevolucionário, desmobilizador e administrador do capitalismo. Os acontecimentos dos últimos dois anos, em especial as recentes manifestações no país, revelam o temor dos governos diante dos métodos históricos dos trabalhadores e da juventude, como se vê a seguir.

No final de 2023, pressionado pela indignação massiva que tomou as ruas da Espanha, Pedro Sánchez anunciou um “giro” em sua política externa em relação ao que acontecia em Gaza. Esta suposta mudança teve como resultado, em fevereiro de 2024, uma declaração conjunta (Espanha, Irlanda e Eslovênia) de reconhecimento ao Estado palestino, fruto de manifestações e acampamentos solidários que, apenas em Madri, reuniram 20 mil pessoas. No mesmo período, o governo Sánchez anunciou um embargo de armas a Israel. No entanto, ambas as políticas foram extremamente limitadas e, mais importante, não significaram a ruptura de relações diplomáticas, comerciais ou militares com o Estado genocida de Israel. Foi, sobretudo, uma medida cosmética, destinada a acalmar a base social que se insurgiu no país, sem afetar os pilares estruturais da aliança com a Otan e o imperialismo americano, do qual Israel é um dos maiores beneficiados no Oriente Médio.

Ademais, este reconhecimento de um Estado palestino sem soberania real, sob ocupação militar, foi apenas uma manobra para salvar a “solução de dois Estados” – uma fórmula reacionária que serve apenas para mascarar a continuação da ocupação e do apartheid na região. Esta posição não abala, nem por um milímetro, os interesses do imperialismo; pelo contrário, aposta pela manutenção de uma solução dentro das quatro paredes do capitalismo, garantindo a estabilidade dos investimentos e a segurança do Estado sionista. Desta forma, a figura de Sánchez, como representante de uma esquerda reformista limitada à defesa da constituição, continua a desempenhar seu papel: administrar a crise do sistema, redirecionando o descontentamento popular para as vias institucionais.

A verdadeira força por trás dos tímidos gestos do governo Sánchez veio por pressão dos trabalhadores e da juventude. Recentemente, as ruas da Espanha foram tomadas por milhares de pessoas que impediram um apoio mais explícito de Sánchez a Israel. Durante a última etapa da “Vuelta España” em 14 de setembro, uma tradicional competição ciclística realizada desde 1935, vários trechos da corrida foram bloqueados por protestos contra Israel. Em Madri, 100 mil manifestantes interromperam o circuito de ciclistas e milhares de policiais foram convocados para dar conta da situação, mas não conseguiram cobrir as centenas de quilômetros do evento. Os manifestantes bloquearam ruas, desfizeram grades de proteção e o vencedor da competição nem ao menos conseguiu cruzar a linha de chegada. Manifestações deste tipo continuam eclodindo pelo país. Até o fechamento deste artigo, uma greve nacional de estudantes havia sido convocada para 2 de outubro e inclusive as principais centrais sindicais do país, UGT e CCOO, pressionadas por suas bases, convocaram atos em favor da Palestina para o dia 15 de outubro.

Como resultado dessas manifestações, Sánchez encenou, no dia 23 de setembro, a formalização de um decreto real com “nove medidas emergenciais” que vão do apoio à flotilha, até ajudas humanitárias e a proibição de trânsito de combustíveis e material bélico para o exército israelense. Na realidade, como aponta Centre Dèlas, o governo espanhol não fez um embargo profundo, nem sequer no âmbito militar. Em cláusula, o documento estabelece, por exemplo, que o governo pode decidir por “exceções ao embargo” para proteger “interesses nacionais” de forma geral. Com base nesta cláusula, a Espanha poderá autorizar novas exportações e importações em relação a Israel e não revogar as autorizações destas movimentações que estiveram vigentes antes do decreto real. O embargo a Israel não afeta os contratos de armamento já existentes (46, no total) com empresas israelenses, que totalizam mais de 2 bilhões de euros, pois o decreto real não os menciona.

O PSOE, um partido historicamente ligado à monarquia, à Otan e aos interesses do capital espanhol, não pode e não quer romper com o imperialismo. Sua política é a de “conter o ímpeto” do movimento dos trabalhadores, oferecendo migalhas simbólicas (como o reacionário reconhecimento do Estado palestino) para evitar que a luta avance para questionamentos mais profundos: a saída da Otan, o real rompimento econômico com Israel, o apoio incondicional à resistência palestina e o fim de um sistema que não tem mais nada a oferecer à humanidade.

Diante deste cenário, fica evidente que a aposta nas soluções de conciliação e contenção de jovens e trabalhadores é um caminho sem saída. A política de Sánchez não é um “mal menor” e insignificante, mas uma forma sofisticada de apoiar o genocídio. Ele dá uma cobertura “de esquerda” ou “progressista” à continuidade da opressão e morte ao povo palestino – uma tática usada com maestria pelo governo brasileiro.

O embargo a Israel não afeta os contratos de armamento já existentes (46, no total) com empresas israelenses, que totalizam mais de 2 bilhões de euros, pois o decreto real não os menciona / Imagem: IRNA, Fotos Públicas

Nós, da Organização Comunista Internacionalista, reafirmamos com toda clareza nossa posição histórica:

Defendemos a criação de um único Estado, laico e democrático, do rio ao mar, em todo o território da Palestina histórica. Exigimos, ainda, que o governo brasileiro também faça essa defesa.

Esta é a única solução para o conflito:

1. Um único Estado: a “solução de dois Estados” é reacionária. Consagra a limpeza étnica de 1948 (a Nakba) e legitima um Estado de apartheid baseado em privilégios religiosos e étnicos (Israel). A única forma de desmontar o apartheid é acabando com o Estado que o institucionaliza.

2. Laico e democrático: este Estado único não será um “Estado judeu” nem um “Estado islâmico”. Será um Estado não confessional, onde a religião será um assunto privado. Todas as leis de caráter racista, como a Lei do Retorno sionista e a Lei do Estado-Nação, serão abolidas.

3. Do rio ao mar: o território, da Jordânia ao Mediterrâneo, deve ser território comum de todos os seus habitantes: palestinos árabes (muçulmanos e cristãos), judeus, drusos e todos os demais, com igualdade de direitos plena e irrestrita.

4. Direito de retorno: garantia do inalienável direito de retorno de todos os refugiados palestinos expulsos desde 1948, com indenizações pelos anos de exílio e sofrimento.

5. Convivência de religiões e ideologias: neste Estado democrático, todas as religiões e ideologias poderão coexistir e ser praticadas livremente, desde que não sirvam de base para a opressão e a discriminação.

É um péssimo dia para os derrotistas e conciliadores. É um péssimo mês para os que apostam em vias institucionais e para os que teorizam sobre a “ascensão do fascismo”. É um mau período para os que duvidam da classe trabalhadora e da juventude.

Trabalhadores do Nepal, Timor Leste, Itália, Espanha, EUA, Austrália, entre outros, mesmo impedidos pelos governos, mostram sua capacidade de união internacionalista em causa única contra o imperialismo e o genocídio em Gaza. Apenas com uma estratégia revolucionária poderemos avançar rumo a um futuro sem opressão nem exploração. Pela Palestina Livre, do rio ao mar! Por um Estado único, laico e democrático! Pela revolução socialista internacional!