Na sexta-feira, 21 de novembro, aconteceu no Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Joinville e Região (Sinsej) o Pré-Encontro Fora o Imperialismo e Suas Guerras. A atividade foi organizada pela OCI e é uma preparação para o encontro nacional que será realizado em abril de 2026.
Na abertura do evento, os presentes ouviram a poderosa fala de Ana Dias, viúva do operário Santo Dias, assassinado pela polícia em um piquete de greve nos anos 1970. Em seguida, foi reproduzido o “Hino da Greve”, música que se tornou símbolo do movimento das fábricas ocupadas iniciado em Joinville e com ecos em diversas cidades do país.
Representando o comitê regional da OCI de Joinville, Francine Hellmann destacou a importância da presença tanto de jovens quanto de militantes mais experientes no encontro para discutir não apenas as lutas imediatas por melhores salários e condições de vida, mas também como derrubar o atual sistema e pôr um fim às suas guerras.
Na mesa de abertura, Serge Goulart, secretário-geral da OCI, falou sobre a importância de organizar no Brasil a luta contra o imperialismo e suas guerras. Com uma conexão direta com os problemas diários da classe trabalhadora, o imperialismo está presente em todos os aspectos da nossa vida.
A guerra na Ucrânia, por exemplo, mantida viva pela injeção de recursos bilionários por parte do imperialismo, ampliou a produção e as vendas da indústria militar em 30% nos últimos anos. Isso acontece enquanto diversos setores econômicos estão vivendo uma crise de superprodução, ou seja, produzem mais do que pode ser comprado.
Serge comentou ainda sobre os ataques da burguesia que, principalmente por meio do capital financeiro, lança suas garras sobre a previdência dos trabalhadores para destruí-la e empurrar goela abaixo a privatização.
No setor de infraestrutura, todas as privatizações são organizadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financia até 95% do valor da compra em longas prestações e a juros quase zero. Assim como as Águas de Joinville, a Sabesp, em São Paulo, e a Corsan, no Rio Grande do Sul, já foram privatizadas, financiadas pelo dinheiro público que deveria estar indo para os serviços públicos.
Na época do imperialismo, a classe dominante não tem mais saída para a crise que ela mesma criou. Na busca pelo aumento de seus lucros, ela não tem qualquer escrúpulo em produzir guerras e roubar as riquezas produzidas pela classe trabalhadora através de fundos públicos e outras fontes de financiamento.
No entanto, em todo o mundo, a população se revolta contra as condições de vida impostas pela burguesia. O que falta nessas rebeliões contra a barbárie capitalista, no entanto, é uma direção capaz de dar sentido e varrer todo o sistema de propriedade privada e dos Estados nacionais.
Mesmo em uma cidade com cerca de 600 mil habitantes, como Joinville, a classe trabalhadora é composta por milhares de irmãos de classe vindos de países como Venezuela, Haiti e Bolívia. A classe trabalhadora não tem fronteiras, assim como a luta também não deve ter.

Apesar da retórica do Governo Federal de que “quem manda no Brasil são os brasileiros”, a verdade é que o controle real da economia brasileira está nas mãos da classe dominante mundial. As taxas de Trump são um ótimo exemplo disso, afetando a vida dos trabalhadores brasileiros e americanos com aumento de preços e desemprego.
Empresas que podem parecer “genuinamente brasileiras”, como a Três Corações, embora conservem seus nomes brasileiros, hoje pertencem a multinacionais gigantescas que controlam as cadeias produtivas e a economia de setores inteiros em nível global. É preciso nacionalizar essas empresas sob o controle dos trabalhadores, tarefa que a classe já provou ser capaz de realizar, diminuindo a jornada de trabalho e aumentando os salários sem qualquer prejuízo à produção, como aconteceu na Cipla e na Interfibra ocupadas.
A esquerda, subjugada e dependente financeiramente do sistema, considera que a luta contra o sistema é “impossível” ou apenas um sonho distante. Para os socialistas, no entanto, lutar por outro mundo é estar ao lado das grandes mentes da humanidade que também sonharam com isso. Os realistas, por outro lado, criaram e mantêm um mundo em que a decadência social é evidente e só se aprofunda.
Trump, expressão maior da crise do capitalismo, bombardeia barcos e assassina pessoas no Mar do Caribe para aterrorizar a América Latina e o mundo. Criar guerras onde elas ainda não existem é tudo o que o imperialismo tem a oferecer. Trata-se de uma resposta a discursos como o do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, mesmo ele não tendo avançado e concretizado a tomada de qualquer banco ou empresa norte-americana em território colombiano.
As grandes manifestações contra a chamada PEC da Blindagem mostram a força da classe trabalhadora e o pavor que a classe dominante tem das massas em movimento, mesmo quando não há qualquer direção capaz de colocar a questão da tomada do poder.
É preciso organizar uma luta comum no Brasil que seja exemplo também para o restante do mundo e discutir, por exemplo, o papel do imperialismo na exploração das mulheres trabalhadoras. Nas universidades, precisamos lembrar aos novos estudantes que a educação pública gratuita está sendo destruída e que a imensa maioria dos que realizam o Enem sequer chega perto de entrar na universidade.
Serge destacou ainda que todos os presentes devem se lançar à tarefa de construir um encontro nacional vencedor em abril de 2026, para que todos possam se expressar, discutir e tirar encaminhamentos para organizar a luta e abrir caminho para uma nova situação política no Brasil a partir da luta contra o imperialismo e suas guerras.
Movimento Negro Socialista (MNS)
Após a fala de Serge, Flávia Antunes e Chico Aviz saudaram a atividade em nome do Movimento Negro Socialista (MNS) e em alusão ao 20 de Novembro. Flávia começou explicando que, para os socialistas, ser antirracista é ser anticapitalista, uma vez que o sistema precisa do racismo e o reforça como parte de suas engrenagens. A divisão e a hierarquização de pessoas são ferramentas do capitalismo para melhor explorá-las, de onde surge o conceito de raça e a desumanização de africanos e indígenas em toda a América Latina.
Ainda hoje, os salários rebaixados, o encarceramento e a morte seguem como ferramentas da classe dominante para subjugar os jovens e trabalhadores negros. Mumia Abu-Jamal, ex-membro dos Panteras Negras, permanece encarcerado há 40 anos e é um exemplo claro de como o sistema responde aos movimentos de liberação negra.

Enquanto isso, oferece aos jovens e trabalhadores negros as piores condições de trabalho e moradia, com a ausência planejada do Estado burguês nos bairros operários. No Brasil, uma pessoa negra tem seis vezes mais chances de ser morta pela polícia. Exemplo disso foi a chacina ocorrida no Rio de Janeiro, que demonstrou o caráter permanente do ataque aos trabalhadores e jovens negros, em quem a política sempre atira para matar.
Para os socialistas, nenhuma representatividade pode converter qualquer uma das instituições burguesas em defensoras do proletariado, essencialmente porque elas não foram criadas para isso.
Em sua fala, Chico Aviz destacou a importância das revoltas responsáveis pela Abolição da Escravidão. O colonialismo europeu, seguido pelo imperialismo norte-americano, construiu no Brasil um sistema de exploração dos trabalhadores negros e indígenas. A abolição não ofereceu aos recém-libertos qualquer alternativa que não a miséria e o refúgio nos bolsões de pobreza na cidade e no campo.
Assassinado a mando da classe dominante, Zumbi dos Palmares se tornou um símbolo da luta contra a escravidão e emerge como expressão mais resoluta desse combate no país que mais recebeu fluxo de escravizados na história da humanidade. Zumbi teve educação formal e militar desde cedo após ser raptado pelos jesuítas. Mais tarde, colocaria em prática seus conhecimentos na luta e organização de Palmares a partir de uma resistência organizada contra o então líder Ganga Zumba, responsável pela conciliação com a Coroa portuguesa e manutenção do ideário monarquista.
Como marxistas, não acreditamos em figuras míticas ou religiosas, mas compreendemos Zumbi como um Espártaco brasileiro.
Juventude Comunista Internacionalista (JCI)
Lucy Dias, em nome da Juventude Comunista Internacionalista, fez uma saudação com foco nos efeitos do acirramento da luta de classes sobre a chamada “geração Z”. A juventude, sem carregar o peso das derrotas e das traições do passado, é a camada mais resoluta da classe trabalhadora em sua luta revolucionária. No entanto, os jovens têm carência de experiência nos métodos revolucionários históricos da classe trabalhadora. A nova geração proletária deve se inspirar em sua força e em seu futuro, aprendendo pacientemente a vincular suas necessidades específicas, como o fim do vestibular, às necessidades históricas da luta contra o capitalismo.

Sobre a juventude recai a tarefa de lutar pelo socialismo, única bandeira capaz de “curar as mil feridas sangrentas da humanidade”. O próximo passo é reunir, agrupar e educar os novos combatentes e lutar pela organização do encontro em 2026.
Contribuições de todo o Brasil
Abertas as contribuições do plenário, participantes de diversos estados do Brasil falaram sobre como o imperialismo e seus efeitos são sentidos em suas realidades.
Flávio Reis, do Rio de Janeiro, falou sobre a mais recente operação policial nos bairros da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, e como ela explicita o processo de decomposição do Estado brasileiro dirigido por Lula e seus sucedâneos como Cláudio Castro, etc. Ao questionar sobre “quem pode barrar a barbárie que é o capitalismo?”, Flávio explicou que na situação atual, lutar contra esse sistema é a única coisa que pode conter essa barbárie.
Edson Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Serviços de Água e Esgotos Sanitários de Joinville (Sintraej), destacou que a classe trabalhadora jamais poderá ser indiferente à guerra, pois ela é uma das principais armas do imperialismo para destruir o que os trabalhadores construíram a vida inteira. Essa destruição é a principal fonte de exploração a partir da reconstrução, que drena uma quantidade gigantesca de dinheiro público. Ao mesmo tempo, a privatização é mais uma forma de concentrar riqueza nos monopólios e oligopólios privados. É a classe trabalhadora que mais sofre as consequências desses ataques, por isso deve se organizar para lutar contra a privatização, contra a guerra e contra o imperialismo.
Maciel Frigotto, diretor do Sinsej, falou sobre a luta de classes como motor da história. Ao longo dos séculos, muitos jovens e trabalhadores sentiram o que nós sentimos hoje nos últimos meses e anos: a inquietação de observar nossa classe sendo massacrada e a vontade de mudar essa realidade. Só existe uma saída para isso, que é a organização e o aprendizado das lutas e dos métodos tradicionais da classe trabalhadora. É preciso uma organização que permita que os militantes vão além do ativismo e possam discutir a intervenção de forma cuidadosa. O copo está por uma gota para transbordar; é nosso papel organizar essa luta.
Daniel da Cunda, de Florianópolis, ressaltou a distância entre o que é dito e o que é feito no Brasil a respeito da luta anti-imperialista. O Brasil gosta de se imaginar como um país que exporta muito e por isso tem uma posição destacada no mercado mundial. Mas o imperialismo cumpre um papel importante nas exportações invisíveis, uma massa de valor produzida no Brasil e drenada para o exterior pelas relações de dominação do capital imperialista em nosso país. Os valores bilionários que o Brasil paga por royalties de patentes internacionais e pelas multinacionais são fundamentais para alimentar o capital imperialista internacional.
Levy Sant’Anna, organizador da Comunatec, comentou como reformistas como Lula, que conciliam com a burguesia, acusam os revolucionários de querer algo irrealizável e utópico. No entanto, a realidade é que a Alemanha, que desde 1945 não tinha um exército fora de suas fronteiras, tem uma brigada blindada estacionada na Lituânia desde maio deste ano, na fronteira com Belarus. Isso é o que o imperialismo prepara para a humanidade. A juventude percebe que o sistema capitalista prepara as guerras e que a verdadeira utopia é conviver em paz com esse sistema e com todos os problemas que ele traz.
Raphael Leite, de Porto Alegre, falou sobre a luta do movimento quilombola na cidade e sobre sua conexão com a luta anti-imperialista e contra a opressão do povo palestino. É preciso ainda conectar essas lutas no combate à especulação imobiliária e relembrar as táticas operárias de luta. A Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), por exemplo, foi privatizada enquanto os sindicatos apostavam na justiça burguesa. Precisamos apostar nas nossas próprias forças e nos nossos próprios métodos de luta.
Iago Paqui, de Joinville, iniciou citando a frase célebre de Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie”. Para muitas regiões, essa frase não é só retórica, mas concreta. A qualquer momento, os EUA podem realizar bombardeios ou ataques por solo na Venezuela, cujo espaço aéreo está fechado. A guerra nunca esteve tão perto do nosso país e nos coloca mais próximos do que acontece na Palestina e no Sudão, país onde as divisões étnicas aprofundadas pelo colonialismo britânico provocam um genocídio que já matou 2 milhões de pessoas nas duas primeiras guerras civis. Na Ucrânia, 1 a 2 milhões de pessoas já morreram. Não podemos ser indiferentes à guerra, pois ela é o que mais demonstra que o sistema chegou aos seus limites e que não tem mais nada a oferecer à humanidade além da destruição das forças produtivas.
Yuri Santoriello, de Brasília, falou sobre como a capital federal surge a partir dos interesses do imperialismo representado pelas montadoras de automóveis, o que influenciou a própria organização urbana. A classe trabalhadora não consegue se manter mais na capital, que tem um dos maiores custos de vida do país e onde 30,4% da juventude está desempregada. Junto a isso, o governador Ibaneis Rocha é investigado por desvios no Banco de Brasília (BRB) e privatiza desde os estacionamentos e a rodoviária até o sistema de saúde e a empresa de energia. A UnB, uma das maiores universidades do país, está com o orçamento contingenciado e há dois anos não consegue manter as bolsas de permanência estudantil. Por esses e outros motivos, é preciso que os estudantes se coloquem em aliança com a classe trabalhadora na luta contra o imperialismo.
Benigno Lopes, de Florianópolis, relatou que veio de Guiné-Bissau para o Brasil há mais de 20 anos e que ficou muito satisfeito por saber que existem pessoas preocupadas com o imperialismo e dispostas a construir uma atividade como a que foi realizada ontem. Os efeitos do imperialismo sentidos em seu país de origem são os mesmos sentidos aqui no Brasil; por isso, a classe trabalhadora é internacional e deve estar unida nessa luta.
Leonardo Rocha, do Rio Grande do Sul, participou on-line e falou sobre a movimentação financeira no mundo e a imensa dívida acumulada não só pelo governo dos EUA, mas por vários outros, inclusive o Brasil. O acúmulo de dívidas criado pelo modelo econômico atual vai gerar uma crise tão grande que fará a de 2009 parecer uma piada. Não há forças produtivas sendo criadas para gerar novas fontes econômicas e só há crescimento da especulação financeira, que não produz nada — é simples aposta de dinheiro. No entanto, precisamos manter a confiança na classe trabalhadora e na revolução, pois outros outubros virão.
Onir Araújo, também do Rio Grande do Sul e integrante da Frente Quilombola do RS, compara a capitulação de Ganga Zumba ao Império Português à capitulação do movimento negro atual ao capital imperialista. Ele abordou a luta das comunidades quilombolas e a ausência de uma resposta concreta do Estado às reivindicações desses territórios.
Emanuel Basílio, de Brasília, destacou que a situação do mundo hoje é inaceitável para qualquer jovem ou trabalhador. Existe a consciência de que o mundo está em uma crise sem precedentes e cada vez mais camadas precisam admitir isso. Diferente das crises anteriores, o capitalismo não tem mais recursos para se recuperar. A classe trabalhadora busca desesperadamente uma saída, e isso pode ser visto nos levantes em diversos lugares do mundo.
Após as contribuições, Serge Goulart encerrou dizendo que todas as falas expressaram como o imperialismo e a sociedade baseada no lucro, na opressão de classes e no privilégio da minoria rebaixam a vida de todos. Ao mesmo tempo, a conclusão que se impõe a todos os que realmente produzem riqueza é que só haverá um futuro se conseguirmos varrer o sistema da propriedade privada dos grandes meios de produção. Parafraseando uma das contribuições, o encontro a ser realizado em 2026 deverá ter um caráter não de tradição ou orientação de Palmares na época de Ganga Zumba, mas sim de Zumbi dos Palmares, o Espártaco brasileiro, que ousou levantar-se contra o poder.
Serge destacou ainda que todos devem se lançar à construção do encontro que ocorrerá em abril de 2026, em São Paulo. Foram anunciadas uma série de atividades que precederão o evento, como intervenções da juventude nas calouradas, atos em frente a embaixadas e atividades no dia 8 de maio. Nossa batalha é de alcance internacional e cada um dos presentes deve ter orgulho de construí-la.
Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista) Corrente Marxista Internacional
































