Prefácio de Lênin a “Um passo em frente, dois passos atrás”

Publicamos a seguir o prefácio1 de Lênin ao livro “Um passo em frente, dois passos atrás”, de 1904, que contém sua análise e balanço da crise estabelecida no Partido Operário Social-Democrata Russo após seu 2º Congresso, em 1903. Nesse livro, Lênin examina as causas e consequências da cisão que originou a ala menchevique (“minoria”) e a ala bolchevique (“maioria”), defendendo a necessidade de um partido centralizado, disciplinado e guiado pelo marxismo revolucionário. Mais do que uma polêmica circunstancial, o texto apresenta as bases teóricas e práticas da concepção leninista de partido, decisiva para a vitória da Revolução de Outubro de 1917.

Quando se trava uma luta prolongada, tenaz e apaixonada começam a delinear-se, geralmente ao fim de certo tempo, os pontos de divergência centrais, essenciais, de cuja solução depende o resultado definitivo da campanha, e em comparação com os quais os episódios menores e insignificantes da luta passam cada vez mais para segundo plano.

E o que se passa também com o combate que se trava no seio do nosso partido e que, há já meio ano, chama a atenção de todos os membros do partido. E precisamente porque foi necessário, no esboço de toda a luta que ofereço ao leitor, aludir a uma série de pormenores de interesse mínimo e a inúmeras querelas que não oferecem no fundo qualquer interesse, eu queria, desde o início, chamar a atenção do leitor para duas questões verdadeiramente centrais, essenciais, de enorme interesse e de projecção histórica incontestável, que constituem as questões políticas mais urgentes na ordem do dia do nosso partido.

A primeira diz respeito ao significado político da divisão do nosso partido em “maioria” e “minoria”, divisão que tomou forma no segundo congresso do partido2 e que deixou muito para trás todas as anteriores divisões dos sociais-democratas russos.

A segunda questão diz respeito ao significado de princípio da posição do novo Iskra em matéria de organização, tanto quanto se trata de uma posição efectivamente de princípio.

A primeira questão é a do ponto de partida da luta no nosso partido, a questão da sua origem, das suas causas, do seu caráter político fundamental. A segunda questão é a do resultado final da luta, do seu desenlace, do balanço que, no terreno dos princípios, se obtém somando tudo o que se refere aos princípios e subtraindo tudo o que se refere a querelas mesquinhas. A primeira questão resolve-se analisando a luta no congresso do partido; a segunda analisando o novo conteúdo de princípios do novo Iskra. Uma e outra destas análises, que constituem nove décimos desta brochura, levam à conclusão de que a “maioria” é a ala revolucionária do nosso partido, e que a “minoria” é a sua ala oportunista; as divergências que separam atualmente estas duas alas dizem respeito sobretudo a questões de organização, e não a questões de programa ou de tática; o novo sistema de concepções que se desenha no novo Iskra com tanto mais clareza quanto mais ele procura aprofundar a sua posição, quanto mais esta posição se vai libertando de todas as querelas sobre a cooptação, é oportunismo em matéria de organização.

O principal defeito da literatura de que dispomos sobre a crise do nosso partido é, no que diz respeito ao estudo e esclarecimento dos fatos, a ausência quase total duma análise das atas do congresso do partido, e no que respeita ao esclarecimento dos princípios fundamentais do problema de organização, é a falta de uma análise da ligação que inegavelmente existe entre o erro cometido pelo camarada Martov e pelo camarada Axelrod na formulação do parágrafo primeiro dos estatutos e a defesa desta formulação, por um lado, e todo o “sistema” (tanto quanto se pode falar aqui de um sistema) dos princípios atuais do Iskra em matéria de organização, por outro lado. Pelo visto a atual redação do Iskra não nota sequer esta ligação, embora a importância da discussão do parágrafo primeiro tenha sido já muitas vezes assinalada nas publicações da “maioria”. Hoje, os camaradas Axelrod e Martov em essência não fazem mais do que desenvolver e alargar o seu erro inicial sobre o parágrafo primeiro. Em essência, toda a posição dos oportunistas em matéria de organização começou a revelar-se já na discussão do parágrafo primeiro: na sua defesa de uma organização do partido difusa e não fortemente cimentada; na sua hostilidade à ideia (à ideia “burocrática”) da edificação do partido de cima para baixo, a partir do congresso do partido e dos organismos por ele criados; na sua tendência para atuar de baixo para cima, permitindo a qualquer professor, a qualquer estudante do liceu e a “qualquer grevista” declarar-se membro do partido; na sua hostilidade ao “formalismo”, que exige a um membro do partido que pertença a uma organização reconhecida pelo partido; na sua tendência para uma mentalidade de intelectual burguês, pronto apenas a “reconhecer platonicamente as relações de organização”; na sua inclinação para essa subtileza de espírito oportunista e as frases anarquistas; na sua tendência para o autonomismo contra o centralismo; numa palavra, em tudo o que hoje floresce tão exuberantemente no novo Iskra, e que contribui para o esclarecimento cada vez mais profundo e evidente do erro inicial.

Quanto às atas do congresso do partido, a falta de atenção verdadeiramente imerecida de que são objeto só pode explicar-se pelas querelas que envenenam as nossas discussões e possivelmente, além disso, pelo excesso de verdades demasiado amargas que essas atas contêm. As atas do congresso apresentam o quadro da verdadeira situação do nosso partido, quadro único no seu genêro, insubstituível pela sua exatidão, plenitude, diversidade, riqueza e autenticidade; um quadro das concepções, do estado de espírito e dos planos traçados pelos próprios participantes do movimento, um quadro dos matizes políticos existentes no nosso partido e que mostra a sua força relativa, as suas relações mútuas e a sua luta. As atas do congresso do partido, e só elas, mostram-nos em que medida nós conseguimos verdadeiramente varrer tudo o que restava das velhas relações puramente de círculos e conseguimos substituí-las por uma única grande ligação, a de partido. Todo o membro do partido desejoso de participar conscientemente nos assuntos do seu partido deve estudar com cuidado o nosso congresso do partido, precisamente: estudar, porque a simples leitura do amontoado de materiais brutos que as atas contém é insuficiente para dar um quadro do congresso. Só com um estudo minucioso e independente se pode conseguir (e deve-se procurar fazê-lo) fundir num todo os resumos sucintos dos discursos, os excertos secos dos debates, as pequenas controvérsias sobre questões secundárias (secundárias na aparência), para que ante os membros do partido surja o rosto vivo de cada orador destacado, se revele com precisão a fisionomia política de cada um dos grupos de delegados ao congresso do partido. O autor destas linhas considerará que o seu trabalho não terá sido em vão se conseguir pelo menos dar um impulso ao estudo, amplo e individual, das atas do congresso do partido.

Ainda uma palavra a respeito dos adversários da social-democracia. Eles seguem com caretas de alegria maligna as nossas discussões; evidentemente procurarão utilizar para os seus fins algumas passagens isoladas desta brochura dedicada aos defeitos e lacunas do nosso partido. Os sociais-democratas russos estão já suficientemente temperados nas batalhas para não se deixarem perturbar por essas alfinetadas, e para prosseguir, apesar delas, o seu trabalho de autocrítica, continuando a revelar implacavelmente as suas próprias lacunas, que serão corrigidas, necessária e seguramente, pelo crescimento do movimento operário. E que os senhores adversários tentem apresentar-nos da situação verdadeira dos seus próprios “partidos” um quadro que se pareça, mesmo de longe, com o que apresentam as atas do nosso segundo congresso!

Maio de 1904
N. Lênin

  1. Publicado originalmente em marxists.org ↩︎
  2. O 2º Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) realizou-se de 17 (30) de Julho a 10 (23) de Agosto de 1903. As primeiras 13 sessões do congresso cocorreram em Bruxelas. Depois, devido às perseguições por parte da polícia, as sessões do congresso foram transferidas para Londres.

    As mais importantes questões do congresso eram a aprovação do programa e dos estatutos do partido, e as eleições dos seus centros dirigentes. Lênin e os seus partidários travaram no congresso uma luta decidida contra os oportunistas.

    O congresso aprovou por unanimidade (com uma abstenção) o programa do partido, em que foram formuladas tanto as tarefas imediatas do proletariado e da próxima revolução democrático-burguesa (programa mínimo), como as tarefas que visavam a vitória da revolução socialista e o estabelecimento da ditadura do proletariado (programa máximo).

    No decurso das discussões sobre os estatutos do partido travou-se uma luta aguda quanto à questão dos princípios organizativos da edificação do partido.

    Lênin e os seus partidários lutavam pela criação de um partido revolucionário combativo da classe operária e consideravam necessário que se adotassem estatutos que dificultassem a adesão ao partido de todos os elementos instáveis e vacilantes. A formulação de Martov, que tornava mais fácil a adesão ao partido de todos os elementos instáveis, foi apoiada no congresso não só pelos anti-iskristas e pelo “pântano” (“centro”), como também pelos iskristas brandos, e foi aprovada pelo congresso por uma insignificante maioria de votos. Mas, no fundamental, o congresso aprovou os estatutos elaborados por Lênin. O congresso aprovou também uma série de resoluções sobre as questões de tática.

    No congresso deu-se a cisão entre os partidários consequentes da orientação iskrista, leninistas, e os iskristas brandos partidários de Martov. Os partidários da orientação leninista obtiveram a maioria dos votos durante as eleições dos organismos centrais do partido e passaram a ser denominados bolcheviques (da palavra russa bolchinstvó, que quer dizer maioria), enquanto os oportunistas, que obtiveram a minoria, receberam a denominação de mencheviques (da palavra russa menchinstvó, que quer dizer minoria).

    O congresso teve um enorme significado para o desenvolvimento do movimento operário na Rússia. Ele acabou com o trabalho artesanal e com o espírito de círculo no movimento social-democrata e deu início a um partido marxista revolucionário na Rússia, o Partido Bolchevique. ↩︎