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¡Que se vayan todos! Os trabalhadores argentinos já deram o seu recado

Essa bandeira, “¡Que se vayan todos!”, que podemos traduzir como “Fora todos!”, foi erguida pela classe trabalhadora, não por acaso, em 2001, quando os argentinos se revoltaram contra os efeitos das medidas de austeridade tomadas pelo governo Menem nos anos 1990, em completa subserviência aos ditames de Washington. Milei foi eleito entoando esse slogan, como fazem todos os demagogos de direita, buscando se apresentar como um anti-sistema. Depois de terem feito a experiência com seu governo, os trabalhadores voltam a expressar essa insatisfação agora nas urnas.

Nas eleições deste domingo (26/10), o partido de Milei, La Libertad Avanza (LLA), conseguiu ampliar sua participação no Congresso, saltando de 28 para 64 cadeiras no Parlamento. Mesmo não tendo os dois terços necessários para dominar sozinho, o resultado permitirá a Milei implementar vetos contra a oposição, se fizer alianças. Uma boa parte dessas cadeiras era antes ocupada por partidários do ex-presidente Macri, que se uniu ao governo quando Patricia Bullrich tornou-se ministra. Por outro lado, o partido peronista-kirchnerista, Fuerza Patria, perdeu um terço de sua participação, reduzido de 48 a 31 cadeiras. Mas também a Frente de Izquierda, que reúne partidos que reivindicam o trotskismo, teve uma eleição histórica: passou de 1 a 3 deputados na Câmara, sendo que uma das deputadas obteve a expressiva votação de 9% em Buenos Aires.

A mídia tem classificado a vitória de 41% do LLA, sobre os 25% do Fuerza Patria, como um feito surpreendente e acachapante. É preciso compreender que as eleições burguesas são uma expressão distorcida da luta de classes. Ao lado do crescimento do campo de esquerda, um dos fatos mais importantes deste episódio é que essas eleições tiveram a maior abstenção eleitoral desde o fim da ditadura na Argentina. Mais de 34% dos trabalhadores argentinos deixaram de comparecer às urnas porque não acreditam mais nesse sistema. Com todo o aparato do Estado e o apoio econômico e militar do imperialismo, não seria impossível a direita ganhar as eleições. Além disso, a experiência recente mostrou que o kirchnerismo não é mais considerado uma alternativa real pelos trabalhadores.

Em agosto ocorreram as eleições legislativas de Buenos Aires, a principal província do país. A vitória do campo kirchnerista catapultou, na imprensa burguesa, o governador Axel Kicillof como pré-candidato às eleições presidenciais de 2027. O resultado das eleições legislativas federais deste domingo foi um banho de água fria para o kirchnerismo — mas não para os trabalhadores!

Milei também tem prestado um excelente serviço ao imperialismo americano, com total subserviência a Trump / Imagem: argentina.gob.ar

O caráter demagógico de Milei reside no fato de que ele se aproveitou da insatisfação da classe trabalhadora com os governantes burgueses para se eleger como um opositor do sistema e implementar o programa da burguesia. E, desde os primeiros dias de seu governo, tem atacado os trabalhadores: privatizações, exoneração de servidores, extinção da estabilidade dos aluguéis e ajuste fiscal. Além disso, uma série de medidas de repressão à classe trabalhadora, como a proibição de manifestações e de realização de greves por alguns setores.

Milei também tem prestado um excelente serviço ao imperialismo americano, com total subserviência a Trump. No início de outubro, por meio de decretos, Milei autorizou que as tropas americanas ocupem três bases militares na Argentina até o próximo mês. Se, de um lado, isso dá a Milei um reforço na luta contra a classe trabalhadora, é também um pagamento pela sustentação financeira que os EUA têm dado ao governo argentino. Toda a política de arrocho implementada por Milei tem como efeito a piora das condições de vida da classe trabalhadora. Diante disso, todo o aparato financeiro do imperialismo tem despejado dinheiro no país, com dívidas que, no futuro, serão pagas pela classe trabalhadora, a fim de preservar esse seu vassalo que é o governo Milei.

Mas o apoio de Trump não é feito sem doses de humilhação permanentes. Depois da derrota de Milei nas eleições legislativas de Buenos Aires, Trump fez uma série de ameaças: primeiro, disse a Milei, em uma visita à Casa Branca, que não admitiria o estabelecimento de cooperação econômica ou militar com a China. Nas vésperas das eleições legislativas gerais de outubro, condicionou a continuidade do socorro financeiro ao governo, que ainda tem mais dois anos pela frente, à vitória do partido de Milei nas eleições deste domingo.

Não bastasse a subserviência à burguesia e ao imperialismo, que só geram a ira da classe trabalhadora, Milei ainda precisa lidar com os elementos de corrupção de seu governo. Primeiro, vieram as acusações contra sua irmã e ministra, Karina Milei, acusada de administrar um esquema de propinas sobre os medicamentos comprados pelo governo. Mais recentemente, no início de outubro, o deputado e candidato do partido de Milei, José Luis Espert, renunciou à candidatura após admitir ter recebido propina de narcotraficantes.

Tudo isso tem sido firmemente combatido pela classe trabalhadora argentina nos últimos anos. Desde janeiro de 2024, as centrais sindicais já realizaram três greves gerais. Vimos também manifestações massivas contra o protocolo Bullrich, outras manifestações contra a ditadura, as maiores da história, e até manifestações de aposentados, com a proteção de torcidas organizadas, contra a repressão do governo. Tudo isso demonstra uma incontestável disposição de luta dos trabalhadores.

Desde janeiro de 2024, as centrais sindicais já realizaram três greves gerais / Imagem: CGT

Há alguns anos temos alertado para uma radicalização na luta de classes em nível mundial. Essas figuras demagogas de direita se aproveitam da insatisfação contra o sistema para implementar seu programa burguês. De outro lado, crescem as forças daqueles que compreendem que a saída não pode ser pela conciliação de classes, mas pela ruptura desse regime.

Os argentinos fizeram sua experiência e, por enquanto, não possuem uma força política capaz de expressar sua insatisfação. Porém, a roda da história é implacável, e as massas já se colocaram em movimento na Argentina, assim como estão fazendo trabalhadores em todo o mundo. Agora, é preciso travar essa batalha até o fim. A saída não será pelas instituições da burguesia, mas pela transformação das lutas contra as medidas isoladas desses governos em uma luta política e decidida contra o sistema capitalista. É preciso dizer: Fora todos os burgueses!