Imagem: Mark Garten, Fotos Públicas

“Química excelente” ou luta de classes nos EUA? O aceno de Trump a Lula na ONU

A luta de classes é implacável. Na última terça-feira, dia 23 de setembro, Donald Trump, candidato a Bonaparte com suas tropas anti-imigração do ICE (Imigração e Alfândega dos EUA), seu nacionalismo econômico e seu big stick imperialista, discursou por quase uma hora na 80ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

Fugindo do roteiro, utilizando a falha do teleprompter da ONU como justificativa, Trump paralisou seus ataques ao Brasil e ao mundo para elogiar Lula, que havia acabado de descer do púlpito das falidas Nações Unidas. A imprensa burguesa, não apenas brasileira, mas mundial, repercutiu o aceno de Trump ao presidente brasileiro, frisando o que o mandatário norte-americano chamou de “química excelente” com o “cara muito legal” após 30 segundos de encontro entre os dois.

O que os partidários do governo de união nacional no Brasil tentaram apregoar como mais uma expressão do gigantismo de Lula, uma espécie de “quando a luz dos olhos teus…”, como versou Vinícius de Moraes, do “grande estadista” e carismático, rapidamente se demonstrou outra coisa: a implacável luta de classes. Como o bom e velho marxismo explica, é ela o motor da história, e não os jogos de interesses entre as nações e seus figurões.

Na realidade, o que Trump expressou, inclusive convidando Lula para um encontro especial, foi justamente a pressão que sente pelo acirramento da luta de classes em seu país, aprofundado com o tarifaço de seu governo imposto ao Brasil. Esse país semicolonial, dominado pelo capital financeiro imperialista, de forma desigual e combinada, por incrível que pareça, também é capaz de fazer a Águia do Norte penar. Claro, nem por isso devemos considerar o Brasil um imperialismo emergente ou algo que se valha.

Devido à taxação da carne brasileira, o custo do alimento nos EUA se elevou e pesou diretamente no cotidiano dos trabalhadores norte-americanos. Segundo o Bureau of Labor Statistics, o valor da carne bovina subiu 50% nos EUA desde 2020, o maior já registrado. Com a ausência da carne brasileira, principalmente do dianteiro bovino, após o tarifaço de Trump, restaram os cortes mais nobres, especialmente oriundos da Europa, inacessíveis à massa do proletariado norte-americano. Isto é, o custo de vida explodiu nos EUA, e a luta de classes chama Donald Trump e os capitalistas.

Surgem, nesse contexto, as figuras de dois brasileiros. Mais precisamente, dois burgueses nascidos no Brasil, proprietários do grupo J&F, os irmãos Wesley e Joesley Batista. Esses dois membros da classe dominante possuem um caminho livre até Trump, pois foram responsáveis por doar US$ 5 milhões apenas para a festa de posse do presidente dos EUA, além do que já haviam realizado anteriormente na corrida eleitoral.

Notem: um financiamento maior do que o realizado pelas Big Techs, motivo da fúria de Trump contra o Supremo Tribunal Federal brasileiro. Assim como os comunistas sabem, Trump põe em prática a máxima: quem paga a banda escolhe a música. E ressalto que o financiamento de grupos como o J&F acontece para as duas correntes do partido da burguesia americana: Kamala Harris e Donald Trump receberam igualmente de marcas como essa.

Como autêntico negociador do capital que é, foi revelado pela Folha de S.Paulo que, há poucos dias, Trump encontrou-se com Joesley Batista para discutir a situação do tarifaço contra o Brasil. A inflação bate à porta dos EUA e, com ela, a pressão da burguesia, de um lado, e do proletariado, de outro.

Nessa disputa, os números dos irmãos Batista diluem a subjetividade da “química excelente” de Lula diante dos interesses materiais do capital. Só no Brasil, a J&F emprega 180 mil trabalhadores, enquanto, nos EUA, com sede no estado do Colorado, fundamental politicamente, são 75 mil proletários. Com sua ampliação de plantas industriais nos EUA, esse grupo investirá US$ 1 bilhão no país. Uma produção desse porte tem resultado direto na alimentação cotidiana dos trabalhadores norte-americanos.

Sendo parte da apuração da imprensa brasileira, descobriu-se também que um dos irmãos Batista, há menos de dois meses, esteve com Lula em Brasília. Nada menos que o presidente da união nacional com um dos empresários “nacionais” mais importantes, que semanas depois buscou seus interesses junto ao “xerife” do mundo.

Vale lembrar que, além da carne bovina, a J&F também entrou no mercado do frango e do ovo. Realizou isso sabendo que os EUA passaram, há pouco tempo, por uma espécie de gripe aviária que afetou diretamente essa produção nacional, fazendo-os importar tais produtos, por exemplo, da Turquia de Erdogan, inspiração para Trump.

Definitivamente, o governo Trump vem sentindo as pressões de ambos os lados da sociedade, de proprietários e de vendedores da força de trabalho, diante dos resultados de sua política econômica e da crise do capitalismo. As relações com o Brasil, assim como com dezenas de outros países produtores para o imperialismo, jogam evidente papel nesse processo, sempre determinadas pela correlação de forças da luta de classes.

Os analistas políticos da situação apontam que, além dos produtos citados acima, o aceno de Trump a Lula também diz respeito à redução da tarifa do etanol, especialmente o do milho. Aprovado em 2025 pelo governo Lula, o Brasil faz uma composição de maior degradação ambiental, misturando mais etanol na gasolina, o que baratearia o valor final para o consumidor. Essa prática de mais etanol na gasolina tem barreiras legais nos EUA devido às questões ambientais, as quais Trump vem buscando superar.

Os EUA são o maior produtor desse material no mundo, mas o Brasil é o segundo, com essas flexibilidades ambientais. Assim, Trump busca que o Brasil reduza suas tarifas nesse produto para a maior entrada do etanol norte-americano em terras tupiniquins. Ou seja, é a barganha de Trump: o império retira tarifas para o empresariado brasileiro em troca da inundação de produtos, como o etanol de milho norte-americano, no Brasil. Da mesma forma, voltaria a aumentar a compra do próprio etanol brasileiro, que já chegou a ser 60% de todo esse produto dentro dos EUA.

Esses são elementos fundamentais para entendermos além dos fatores psicológicos ou do jogo de xadrez dos Estados nacionais e seus chefes. Como explicou Karl Liebknecht, o principal inimigo está em casa, tanto para os trabalhadores quanto para a burguesia. Donald Trump sabe e sente isso, e seus acenos pouco ou nada têm de empatia à velha raposa do movimento sindical brasileiro, Lula. Muito menos à irrelevância do lesa-pátria Eduardo Bolsonaro e seu capanga Paulo Figueiredo, filho do ex-ditador João Figueiredo, que produzem somente ideologia, ao contrário dos irmãos Batista, que controlam a produção de hambúrgueres e outros produtos da dieta diária dos trabalhadores dos EUA.

Do ponto de vista de nossa classe, não basta analisarmos corretamente essas relações, como fazemos sob as lentes do marxismo. O discurso de Trump na ONU, ao demonstrar simpatia por Lula, não pode iludir ninguém sobre o verdadeiro terreno da luta anti-imperialista no Brasil. Um combate consequente ao imperialismo não pode se dar sob a direção de um governo burguês como o de Lula/Alckmin, que em última instância mantém os laços de dependência e submissão ao imperialismo norte-americano.

A tarefa real é a organização do proletariado, do conjunto dos trabalhadores e da pequena burguesia em unidade contra o inimigo comum que ataca seus direitos. Isso exige reforçar concretamente a construção do “Encontro Nacional Fora o Imperialismo e suas Guerras!” como forma de ação prática na luta anti-imperialista. É preciso um combate internacionalista contra nossos inimigos de classe.