Imagem: Workers' Party of Belgium (PTB-PVDA)

Renasce a luta de classes na Bélgica, contra os ataques da burguesia e as direções reformistas

As contradições do capitalismo, em sua fase imperialista, não poupam mais nenhum canto do planeta. Guerras, austeridade e contínuos ataques contra as condições de vida dos trabalhadores são o “novo normal”. Nessa tensão entre capital e trabalho, a juventude e os trabalhadores rompem com os velhos métodos reformistas e se lançam ao radicalismo. A solidariedade internacional se junta ao ódio contra os ataques da burguesia, e isso cria um barril de pólvora para o sistema. A crise do capitalismo, que atravessa o mundo todo, atinge um novo patamar, e um país que antes era visto como um dos países-símbolo do Estado de bem-estar social europeu é um exemplo disso. Esse país é a Bélgica.

Desde as eleições federais de 2024, a Bélgica atravessa um período de instabilidade política. A formação do novo governo exigiu dez meses de negociações entre os nacionalistas, democrata-cristãos e social-democratas. A administração liderada pelo nacionalista conservador De Wever adotou um programa que promete “restaurar a disciplina orçamentária”, reduzir o déficit público e “modernizar” o sistema previdenciário e trabalhista. Na prática, as reformas implicam cortes de benefícios sociais, congelamento da indexação automática dos salários e endurecimento das regras de aposentadoria.

Desde sua posse em fevereiro, o novo governo anunciou cortes em direitos sociais, salários e uma reforma previdenciária que eleva a 67 anos a idade mínima para se aposentar. O primeiro-ministro Bart De Wever justifica as medidas em nome do “equilíbrio das contas públicas”:

“Entendo as preocupações, mas o país envelhece e a dívida cresce. Não podemos continuar gastando mais do que arrecadamos.”

O roteiro da crise é previsível: os trabalhadores são sacrificados para que a cartilha de austeridade capitalista seja cumprida. A União Europeia pressiona o país a reduzir o déficit público, hoje em mais de 100% do PIB (a recomendação da UE é de que o teto seja de 60%). O ministro das Finanças, Koen Geens, propôs medidas de austeridade fiscal que pioram significativamente a qualidade de vida da população, entre as quais se destacam: (1) aumento da idade mínima de aposentadoria para 67 anos até 2030; (2) revisão do cálculo das pensões, diminuindo a progressividade dos benefícios; (3) limitação da correção salarial automática (o mecanismo belga de proteção contra a inflação); (4) corte de subsídios públicos aos transportes e ao sistema de saúde; (5) redução de verbas para políticas de habitação social.

A situação belga e as medidas tomadas pelo governo deixam claro o atual estado dos partidos burgueses e de seus colaboracionistas social-democratas. Entra e sai governo, e a burguesia não pode apresentar uma saída concreta para a crise mundial do capitalismo. A única saída possível para esses é jogar sobre a classe trabalhadora o custo da crise. A isso se somam as contradições históricas do desenvolvimento do país que, no norte, tem uma Flandres comercialmente rica, supostamente mais à direita e identificada com a cultura holandesa, e que tende a apoiar o discurso liberal-burguês de austeridade. Já no sul, uma Valônia industrial e francófona, mais “progressista”, vê nas políticas do governo um ataque inaceitável aos direitos dos trabalhadores. Para nós, marxistas, sabemos que a única divisão é a de classe, entre trabalhadores e burgueses. E está na união de classe, com independência política e de ação, a saída para barrar os ataques do governo e romper com a sociedade de crise do capitalismo.

Sobre essas bases, a Bélgica viveu, em outubro de 2025, a maior greve geral em mais de duas décadas. No último 14 de outubro, nas primeiras horas da manhã, linhas de trem, metrô e ônibus foram suspensas. O porto de Antuérpia, segundo maior da Europa, operou com apenas 10% da capacidade, e até escolas e hospitais funcionaram em regime mínimo. O país inteiro parou. Convocada pelas três principais centrais sindicais — BVV (socialista), ACV (cristã) e ACLVB (liberal) —, o país entrou em uma greve geral que mobilizou mais de 150 mil trabalhadores somente na capital, Bruxelas.

Na capital, os manifestantes concentraram-se na Praça de Monnaie e marcharam até a sede do Parlamento Europeu. Nas valônicas Liège, Charleroi e Namur, as manifestações tiveram presença expressiva de sindicatos metalúrgicos e trabalhadores da saúde. Em Ghent e Bruges, históricas cidades flamengas, houve atos significativos contra as decisões do primeiro-ministro. Em todo o país, calcula-se que centenas de milhares de cidadãos tenham participado, direta ou indiretamente, dos protestos e das paralisações. Junto aos trabalhadores, estavam milhares de jovens e estudantes que somaram à mobilização contra o governo a solidariedade ao povo palestino. Assim, o movimento ganhou um novo caráter de luta internacional, que tem sido visto por toda a Europa.

A greve geral do dia 14 de outubro colocou em movimento, pela primeira vez, toda uma nova camada de jovens trabalhadores, que já se encontram cansados da incapacidade dos velhos partidos em apresentar uma saída concreta para a crise, a corrupção e a queda da qualidade de vida. Os sindicatos tradicionais, ligados à indústria e ao mercado formal, continuam sendo o eixo da mobilização, mas suas direções adaptadas ao sistema buscam fazer movimentos engessados, como uma greve de um dia apenas. Entretanto, há crescimento expressivo da pressão das bases desses sindicatos sobre seus dirigentes, assim como existe um movimento de entrada na luta sindical de novas áreas da produção, como os trabalhadores do setor de tecnologia, autônomos e intermitentes, sintoma da precarização do trabalho.

Estimativas apontam que quase 70% dos belgas apoiam a greve, incluindo mais da metade dos eleitores da região de Flandres, mais alinhada ao governo. Isso expressa não somente a falta de confiança da classe trabalhadora nos representantes do capitalismo, mas também em suas próprias direções reformistas, que foram atropeladas pelas massas nas ruas durante o dia de greve geral. O que as direções sindicais queriam que fosse uma simples demonstração de força frente ao governo converteu-se em uma verdadeira rebelião da juventude e dos trabalhadores. Esses incendiaram as ruas de Bruxelas e combateram a polícia durante todo o dia e a noite de greve, chegando ao ponto de as próprias direções chamarem pelo encerramento da greve — chamado que foi ignorado pelos trabalhadores já postos em ação.

A greve geral do dia 14 de outubro colocou em movimento, pela primeira vez, toda uma nova camada de jovens trabalhadores, que já se encontram cansados da incapacidade dos velhos partidos em apresentar uma saída concreta para a crise / Imagem: @vakbond.abvv, Instagram

A força dos trabalhadores mobilizados se explica pela coordenação inédita entre as três grandes centrais sindicais. Historicamente divididas por linhas ideológicas — socialistas, cristãs e liberais —, os trabalhadores encontraram um terreno comum na defesa dos direitos. Thierry Bodson, presidente do sindicato BVV, afirmou: “Quando as três centrais agem juntas, o país para”, e também: “E quando o país para, o governo é obrigado a escutar”. Mas, a verdadeira força está na mobilização da classe trabalhadora sem distinções regionais ou religiosas. E é essa força que empurrou as direções adaptadas ao movimento e, frente à imobilidade dessas, coloca-as em xeque, buscando uma saída para os problemas de classe.

A greve representa um novo ciclo de mobilização dos trabalhadores na Bélgica, como expressão da onda de ódio de classe que surge em todo o mundo. Os sindicatos planejam mais ações até o final do ano, enquanto organizações civis e estudantes articulam uma frente comum contra a austeridade. O país parece reviver o espírito das grandes greves de 1960-1961. Os trabalhadores da Bélgica estão redescobrindo que a força para a mudança está na luta operária. Por décadas, acreditou-se que o consenso político da democracia liberal asseguraria prosperidade; entretanto, o novo momento da luta de classes e da crise do capitalismo mostra que isso já não é possível.

O levante dos trabalhadores belgas reveste-se de um significado simbólico muito além do factual. É uma rebelião operária na sede do poder político europeu, com potencial para se espalhar por todo o continente. O que fica de aprendizado para esses trabalhadores, assim como para seus camaradas por toda a Europa, é o limite das direções reformistas e adaptadas ao sistema. O cenário global projeta ainda mais confrontos contra a burguesia nos próximos anos. A crise do capitalismo é irreversível, assim como é imparável a luta dos trabalhadores em todo o globo.

Para esses trabalhadores que retomam o caminho da luta de classes e para a juventude que desperta para a luta contra esse sistema, surge a necessidade de reconstruir suas ferramentas de ação de classe. E isso passa pela construção de um partido que não tenha como objetivo uma simples vitória eleitoral, mas sim um verdadeiro partido comunista revolucionário que mobilize as massas exploradas de todo o continente, do mundo, contra os cortes de direitos dos trabalhadores, com ação independente das instituições burguesas e com um programa revolucionário de mudança objetiva da realidade.