Sérvia: a revolução superou sua fase ingênua

Desde o desabamento da cobertura que matou 16 pessoas em novembro passado, a Sérvia tem testemunhado mobilizações massivas, incluindo a maior de sua história, em 15 de março. Elas seguem até hoje, mas ainda não houve justiça para as vítimas. A paciência se esgotou.

Em vez de justiça, o regime respondeu às massas com violência contínua, o que apenas intensificou a indignação social.

Em janeiro, membros do partido no poder, o SNS, saíram de seus escritórios e quebraram o maxilar de uma estudante. Outros estudantes buscaram conter os ânimos isolando os escritórios, numa tentativa de evitar a escalada da violência.

Desde então, os responsáveis por esse ataque foram perdoados por Vučić. Temos visto ainda novos episódios de agressões por parte de bandos e até atropelamentos de estudantes. Apesar disso, durante todo esse período, a posição oficial dos estudantes foi a de que a violência do regime de Vučić deveria ser enfrentada com moderação e dignidade.

Agora, porém, os limites foram ultrapassados. O cansaço se instalou sem que a justiça fosse alcançada, e muitos começaram a sentir que os estudantes não tinham como seguir adiante. Os bloqueios às universidades vinham se desfazendo lentamente, e ficou evidente que as tentativas pacíficas dos estudantes para alcançar justiça eram ineficazes.

Foi nesse contexto que, no feriado nacional de Vidovdan, em 28 de junho, os estudantes deram sinal verde para que as massas recorressem a qualquer forma de desobediência civil. Até então, apenas a moderação dos próprios estudantes, cuja autoridade lhes havia assegurado a liderança do movimento, contivera as massas.

Em um discurso, os estudantes deram sinal verde para que as massas não mais se retraíssem diante de um regime que claramente não se abstém de usar a violência.

No protesto de 28 de junho, quando os estudantes autorizaram esse passo adiante, uma parte significativa dos manifestantes dirigiu-se a Ćaciland, um acampamento que o regime havia instalado em frente ao parlamento, repleto de membros do partido e de escória criminosa pan-sérvia.

Enormes cordões policiais foram posicionados em postos de controle para impedir qualquer aproximação ao acampamento. Bloqueados e tomados pela fúria contra o regime e contra a situação social, muitos manifestantes atacaram a polícia. Tentaram romper o cordão de isolamento de Ćaciland, mas não tiveram êxito.

No dia seguinte, o regime iniciou prisões em massa de estudantes. Imagens de brutalidade policial circularam amplamente. Os estudantes foram acusados de incitar a derrubada violenta da ordem constitucional.

Em resposta, as massas intensificaram sua luta de outras formas: ergueram barricadas em Zemun e em outros pontos, que a polícia foi obrigada a remover; organizaram bloqueios de estradas em diversas cidades; em Novi Sad, toda a avenida principal foi bloqueada e transformada em um calçadão; enquanto em Užice os manifestantes romperam o cordão policial para fechar a rodovia local. Novos e grandes protestos também ocorreram em Šabac e Valjevo, no combate contra a Rio Tinto.

A partir de então, a luta se espalhou para cidades menores da Sérvia. Embora muitas prisões tenham ocorrido, a maioria foi por delitos leves, e os detidos foram rapidamente liberados mediante pagamento de multas.

Em poucas semanas, a situação voltou a se acalmar e o ritmo diminuiu. Os estudantes chegaram a um acordo com seus professores sobre o encerramento do ano letivo. Isso mergulhou os bloqueios e a vida estudantil no caos. O regime, percebendo a oportunidade, avaliou que aquele era o momento certo para atacar.

Em 9 de agosto, uma exposição fotográfica foi realizada na pequena cidade eslovaca de Bački Petrovac, apresentando principalmente imagens de protestos anteriores. Capangas e apoiadores do Partido Progressista Sérvio invadiram a exposição, rasgaram as fotos e, em certo momento, agrediram fisicamente os presentes.

Veteranos de guerra, que estavam responsáveis pela segurança dos estudantes e manifestantes, não apenas receberam golpes sem revidar, como também foram detidos. Nenhum dos agressores ligados ao regime foi preso, embora o ataque tenha ocorrido diante da polícia.

No mesmo dia, um número significativo de apoiadores do partido reuniu-se em Vrbas para ameaçar oradores em um comício da oposição. Já no dia seguinte, cerca de 200 deles se juntaram para pintar fachadas com as cores da bandeira sérvia em Liman, bairro de Novi Sad onde o SNS havia vencido as eleições locais. O objetivo era principalmente intimidar e assediar os moradores. Em meio ao episódio, um membro da oposição acabou ferido.

As massas não toleraram esses acontecimentos em silêncio. No dia seguinte ao ataque em Bački Petrovac, um ato de solidariedade foi organizado na cidade, e a exposição fotográfica foi novamente realizada. Foram registradas imagens de colunas de carros dirigindo-se à cidade. A polícia chegou a bloquear literalmente a entrada do município. Ainda assim, os cidadãos conseguiram contornar o bloqueio e garantir a realização da mostra. Em outro incidente, um morador de Bačka Palanka foi atacado por capangas do regime, que também impediram o acesso à cidade.

Em meio a todas essas provocações, no dia 12 de agosto foram organizados protestos de solidariedade simultâneos em Bačka Palanka e Vrbas. Capangas do regime, vindos de várias partes do país — especialmente da Voivodina e até da Bósnia e Herzegovina — também se mobilizaram para ambas as manifestações.

Em determinado momento, eles passaram a lançar objetos contra os manifestantes. A escalada mais repugnante ocorreu em Vrbas, quando membros do SNS atiraram rojões sobre a multidão. Quase não havia presença policial.

Mas as massas não se intimidaram. Não apenas não recuaram, como também lançaram rojões contra os apoiadores do regime, aceitando o confronto. Quando foram atacados pelos bandidos, ninguém retrocedeu. Os agressores foram forçados a interromper a ofensiva e abandonar o ataque.

Somente depois do lançamento dos rojões — e quando os capangas do regime já estavam exaustos — é que forças policiais adicionais chegaram para “restaurar a ordem”. Nenhum dos agressores foi detido, apesar da prática recorrente de prender manifestantes até mesmo em suas casas. Isso demonstra de forma inequívoca que se tratava de uma provocação planejada pelo regime. O episódio despertou uma raiva indescritível entre as massas.

No dia seguinte, 13 de agosto, protestos foram organizados em toda a Sérvia. Ficou evidente que o regime estava realizando uma mobilização geral de seus membros e associados do submundo criminoso, com um número expressivo de apoiadores do SNS concentrando-se em frente às sedes do partido em todas as cidades onde os protestos ocorreram.

Para aumentar ainda mais a tensão, não apenas comandantes locais estavam presentes, mas o próprio Aleksandar Vučić compareceu a Ćaciland, onde fez um discurso, acompanhado por seu irmão, Andrej Vučić, amplamente apontado como chefe não oficial da bandidagem. Ao mesmo tempo, na prefeitura de Novi Sad, o ex-primeiro-ministro Miloš Vučević — que havia renunciado à presidência do partido em meio ao movimento — também discursou. Ficou claro que o Partido Progressista Sérvio se preparava para aquilo que esperavam ser o “dia do juízo final”.

As manifestações e a repressão assumiram formas distintas em cada cidade. Em Belgrado, houve forte repressão policial. Em algumas outras localidades, os manifestantes conseguiram romper os cordões de isolamento. No entanto, o centro da luta estava em Novi Sad, onde o regime buscava abertamente o confronto — a mesma cidade onde tudo havia começado, com a queda de uma cobertura que matou 16 pessoas.

A coluna de manifestantes passou em frente aos escritórios do SNS, próximos ao campus universitário, onde cerca de cem apoiadores do regime estavam reunidos. Naquele momento, os simpatizantes do partido voltaram a disparar rojões contra os manifestantes assim que estes se aproximaram. Não havia presença policial em lugar algum. Em seguida, vândalos armados com cassetetes e sinalizadores atacaram a coluna pela retaguarda. Em nenhum momento os manifestantes recuaram; ao contrário, revidaram com socos e rojões. O confronto foi iniciado pelo regime, e as massas responderam.

O episódio culminou na sede da filial de Novi Sad do Partido Progressista Sérvio. Imagens de um confronto aberto e violento entre manifestantes e vândalos inundaram a internet, mostrando os agressores do regime sendo contidos e empurrados para trás. Ao que tudo indica, saíram em desvantagem.

Um vídeo que se tornou particularmente viral registrou o embate com um membro da unidade especial do Exército para proteção pessoal, conhecida como Cobras. Quando os manifestantes perseguiram os bandidos, que recuavam em direção à entrada dos fundos de seus escritórios, estes acabaram deixando os Cobras do lado de fora, à mercê da multidão. A função dessa unidade é proteger pessoas — mas não estava claro quem exatamente eles deveriam proteger. Suspeita-se que fosse o ex-primeiro-ministro Miloš Vučević.

Houve duas razões pelas quais as massas não demonstraram misericórdia, apesar dos avisos dos Cobras de que estavam em serviço oficial. Primeiro, em meio ao confronto físico direto e ao caos generalizado, quem seria capaz de distinguir entre agressores e “funcionários públicos”?

Segundo, se os Cobras literalmente permitiram que os bandidos armados do regime recuassem, seria ilusão esperar compaixão das massas enfurecidas, em um momento em que nem a polícia nem os próprios Cobras faziam qualquer esforço para prender e neutralizar esses criminosos e, na prática, lhes ofereciam proteção. Até mesmo alguns policiais acabaram sendo agredidos em retaliação.

Vučić já havia ameaçado dispersar as manifestações em dezembro utilizando os mesmos Cobras. Durante as fortes agressões sofridas, um deles chegou a sacar uma arma e disparar para o alto. Comentando o estado de espírito das massas, o suboficial que efetuou o disparo declarou:

“Faço isso há 20 anos e posso afirmar com responsabilidade que nunca vi tanta raiva, tanto ódio contra as autoridades.”

À medida que criminosos eram trazidos de diferentes localidades, estacionavam seus carros — muitas vezes veículos caros — ao longo das ruas, frequentemente removendo as placas. Os manifestantes destruíam esses automóveis com tudo o que tinham à mão. Foi uma cena verdadeiramente inspiradora ver um número tão grande de pessoas mobilizadas, preparadas para enfrentar os bandidos.

Muitos manifestantes usavam capacetes, máscaras e cassetetes — sua mensagem ao regime era clara: não eram covardes nem ingênuos. Eram jovens determinados e trabalhadores fartos da violência do regime, prontos para revidar.

Embora a maioria dos rojões viesse da direção dos escritórios do SNS contra a multidão, houve também casos de manifestantes que responderam com seus próprios rojões.

O envolvimento aberto do regime no conflito resultou em sua humilhação. Ficou exposto o fato de que, mesmo contando com a polícia, os Cobras e criminosos a seu serviço, o regime não é capaz de impor sua vontade às massas.

Até então, estudantes e manifestantes haviam demonstrado moderação e paciência, apesar da imensa raiva que vinham acumulando. Agora, com o fim dessa fase de contenção, a revolução entrou em um novo estágio, e o que se vê são apenas as últimas tentativas desesperadas do regime de se sustentar pelo medo.

Lênin observou certa vez que um homem à beira de um precipício não raciocina. À medida que o regime entra em colapso, Aleksandar Vučić também perde os últimos vestígios de lucidez. Torna-se cada vez mais difícil compreender por que o governo decidiu seguir um caminho tão insano, capaz de despertar toda a Sérvia. Quais fatores decisivos podem ter desencadeado tudo isso?

Um dos principais elementos foram as prisões de altos funcionários conduzidas pelo Ministério Público por crime organizado e corrupção, entre eles Goran Vesić e Tomislav Momirović, dois ex-ministros da Infraestrutura responsáveis pela reconstrução da estação ferroviária de Novi Sad.

Embora as massas tenham recebido a notícia com ceticismo — sentindo que provavelmente se tratava apenas de uma ação populista de “prisão para posterior libertação” —, ficou claro que Vučić não reagiu bem a esse desdobramento. Levou mais de um dia para se pronunciar sobre um acontecimento nada irrelevante, especialmente considerando que, há oito meses, não houve avanço algum no processo judicial referente ao desmoronamento da cobertura.

Quando finalmente falou, limitou-se a repetir o que os tabloides do regime já haviam publicado: que a ala pró-europeia do Judiciário, oposta a ele, havia tomado a iniciativa, enquanto outra ex-ministra da Infraestrutura, Zorana Mihajlović, evocava a ideia de um “Estado profundo”. Embora devamos encarar as palavras desses notórios mentirosos com a devida cautela, pode haver uma dose de verdade em suas declarações. O fato de o SNS ter iniciado uma campanha contra o promotor responsável pelo processo reforça a ideia de que a medida foi tomada apesar da vontade de Vučić.

Com o referendo de 2022, o Judiciário tornou-se formalmente independente do governo parlamentar. Como todos os órgãos capitalistas do poder estatal, sua função essencial é defender os interesses da classe capitalista dominante como um todo — tanto nacionais quanto internacionais —, aos quais Vučić também serve. O capitalismo na Sérvia encontra-se desestabilizado pela crise política. A economia desacelera. Os preços aumentam. É bastante plausível que setores da burguesia europeia desejem encerrar esse foco de instabilidade revolucionária antes que ele se espalhe.

Ainda assim, chama atenção o silêncio da mídia europeia diante da verdadeira miniguerra civil em curso na Sérvia, na qual o regime recorre abertamente a elementos criminosos em sua defesa. As críticas permanecem tímidas e contidas. Vučić é um servidor de todas as potências imperialistas possíveis — da Europa e dos Estados Unidos, mas também da Rússia e da China. Até aqui tem sido um parceiro confiável, e, sem dúvida, sofre pressão de todos os lados para garantir que os negócios dessas potências imperialistas prossigam sem entraves em território sérvio.

É possível também que Vučić tema que a investigação sobre os acordos corruptos relacionados à reconstrução da cobertura possa levá-lo à prisão. Ele próprio, assim como muitos outros de seu partido, já manifestou essa preocupação.

Sem dúvida, há profundas divisões dentro do SNS sobre como lidar com a atual crise revolucionária — e todos temem quem será o próximo a apunhalar quem pelas costas. Em um de seus discursos, Vučić chegou a reclamar que alguns de seus apoiadores e funcionários estavam de férias “quando o Estado deveria estar sendo defendido”. Uma ala desse partido mafioso certamente o pressionou a incitar os protestos por meio da demonstração de força. O esforço, no entanto, lhes custou caro: um de seus ministros chegou a sofrer um derrame ao vivo na televisão. Sem especular em excesso, não é impossível que esse episódio tenha sido consequência da pressão extrema a que todos os membros do regime estão submetidos.

Outro fator é que os estudantes anunciaram uma nova onda de protestos intensificados, planejada para setembro, e Vučić busca formas de contê-los. O verão havia sido relativamente calmo em termos de mobilização. Muitos estudantes estavam ocupados com provas após negociarem com seus professores para concluir o ano letivo. Vučić pode ter acreditado que essa distração momentânea tornaria o período ideal para atacar, já que os estudantes seguem sendo a principal vanguarda do movimento.

Mas, em vez de intimidar os manifestantes, ele apenas conseguiu encorajá-los e expor a fragilidade do regime. O moral da polícia está tão baixo que não se pode esperar que obedeçam cegamente às ordens. Enquanto isso, criminosos recrutados pelo governo foram espancados por um adversário que subestimaram, acostumados que estavam a enfrentar apenas inimigos mais fracos.

Só que as massas não são fracas. Como os comunistas sempre afirmaram: uma vez em movimento, nada pode detê-las. Elas constituem a força mais poderosa da sociedade, enquanto criminosos, policiais e políticos não passam de uma minoria à sua mercê.

Até agora, o movimento vinha demonstrando moderação. Mas isso chegou ao fim. Não podemos parar neste ponto: é preciso levar a luta até as últimas consequências. Não podemos simplesmente esperar por uma reação ainda mais insana do regime. Amadureceu a consciência de que não há nada a ganhar com prudência ou apelos ingênuos à consciência dessa camarilha psicopata no poder. Os acontecimentos acelerar-se-ão de forma significativa, haverá reviravoltas e escaladas repentinas — mas a tendência aponta para o colapso final do regime de Aleksandar Vučić.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.