Sindpd-SP na CCT 2026/27 e o papel da burocracia sindical como amortecedor da exploração no setor de TI

A negociação da Campanha Salarial 2026/27 entre o Sindpd-SP e o sindicato patronal Seprosp mostra que os patrões atacam os trabalhadores mesmo quando o sindicato tem uma direção dócil, que tem uma pressa imensa, pois só pensa nas eleições de 2026.

Os vídeos no canal do Sindpd-SP são uma demonstração escancarada de como a burocracia sindical só pensa em cargos enquanto diz atuar em favor dos trabalhadores e, na verdade, atua como um agente de conciliação de classes, servindo como amortecedor para que a exploração capitalista pareça mais suave, enquanto amarra os trabalhadores explorados. Sob uma fachada de cordialidade e “parceria”, o que se viu foi a tentativa de legalizar a máxima exploração em um dos setores mais lucrativos da economia brasileira.

O presidente do sindicato, que está na direção desde 1990, ao se dirigir ao patronal, vangloriou-se da suposta “representatividade” da entidade, citando uma pauta aprovada com 96% dos votos. Contudo, a realidade por trás dos números é de uma falsa democracia sindical. Militantes e trabalhadores críticos foram banidos das assembleias no Microsoft Teams durante todas as últimas assembleias desde a pandemia. Quando questionavam as propostas recuadas do sindicato via chat, eram banidos do chat pelo IP.

O fato de apenas o próprio presidente ter permissão para falar — o que é tradição desse sindicato desde antes das assembleias online — expõe a “unidade” apresentada na mesa de negociação como uma construção artificial, erguida às custas da exclusão dos setores mais combativos da categoria, pois ninguém pode se inscrever para falar nas assembleias. Após a pandemia, com as votações online, temos apenas referendos das propostas recuadas que foram produzidas diretamente pela direção do sindicato, sem consulta democrática à base, pois esta nunca pode falar nas assembleias.

Essa ausência de democracia se expressa diretamente na tática de negociação adotada. A contraproposta patronal de 3,9%, limitada à reposição do INPC, foi apresentada apenas durante a reunião, configurando uma verdadeira tática de emboscada. Outro erro ocorre na forma como o sindicato responde à proposta patronal, pois, de maneira mansa, apresenta-se uma tática perdedora quando nega a proposta patronal e cita o quão dócil é o sindicato por ter feito apenas uma greve em 30 anos: a greve de 2011. Como se desse um recado de que não vai organizar uma greve nunca mais, o dirigente fortalece os patrões e recebe uma contraproposta vexatória de apenas 0,1%. Ou seja, depois de três reuniões em que os patrões batem no sindicato e ficam chamando o presidente de despreparado, a direção sindical continua a ser cordial e servil.

Depois de três reuniões, a proposta dos patrões subiu para apenas 4%. Enquanto isso, uma série de recuos é apresentada pelo presidente do sindicato como aceitável, caso os patrões concordem com um valor um pouco maior de dissídio. Direitos das mulheres, o fim da escala 6×1, correções no banco de horas: tudo isso o presidente do sindicato diz que aceita cortar se o valor do dissídio subir um pouco, com um mês a mais de VR.

O objetivo é evidente: impedir que a base tenha tempo e condições de analisar o conteúdo pecaminoso da proposta e da contraproposta e deliberar coletivamente, empurrando um acordo decidido por cima do sindicato. O que prevalece não é a decisão consciente dos trabalhadores, mas aquilo que é negociado pela cúpula sindical, esvaziando a participação, a conscientização e neutralizando um desenvolvimento sadio da luta nas bases.

Do ponto de vista econômico, a proposta patronal é uma afronta aberta, quando um setor lucra cada vez mais, como o de tecnologia da informação, cujas empresas, em média, aumentaram seus lucros em mais de 10%.

Enquanto isso, um reajuste de 4% representa, na prática, aumento real zero. Para uma categoria responsável por sustentar a infraestrutura digital do país, em um setor que acumula lucros bilionários ano após ano, trata-se de um mercado que subiu de R$ 155 bilhões para R$ 316 bilhões em oito anos de receita (ver gráfico abaixo).

A proposta da patronal, e em menor medida a do sindicato, significam ambas que vamos aprofundar a já gigantesca transferência de riqueza do trabalho para o capital, intensificar a extração de mais-valia — extração esta cada vez maior, que está no seio da luta de classes — e que também intensifica a miséria e a pobreza entre os trabalhadores.

O piso normativo proposto, de R$ 1.769,00, é um valor aviltante, que desvaloriza a qualificação técnica e empurra trabalhadores especializados para condições próximas ao mínimo de subsistência. O vale-refeição de R$ 32,00, ainda por cima facultativo nas férias, representa um ataque direto a direitos já conquistados, buscando reduzir os custos básicos de reprodução da força de trabalho. A vigência da nova CCT por dois anos completa o quadro de desmobilização proposto pela direção sindical, funcionando como um mecanismo de congelamento da luta da categoria por condições melhores, como o fim da escala 6×1 e a redução do banco de horas.

A discussão sobre a PLR aparece, muitas vezes, como um alívio imediato para quem recebe salários rebaixados. No entanto, ela opera como um instrumento funcional aos interesses do capital. Trata-se de uma remuneração instável, condicionada a metas frequentemente arbitrárias, que não incorpora encargos sociais e não se consolida no salário. O trabalhador é empurrado a aceitar essa lógica para compensar um salário-base insuficiente, enquanto o patronato se desresponsabiliza de obrigações trabalhistas estruturais.

Não existe conciliação possível quando os interesses em jogo são antagônicos. O capitalista atua permanentemente para reduzir o valor da força de trabalho e ampliar seus lucros, enquanto os trabalhadores lutam para garantir condições mínimas de existência e dignidade. A retórica de “modernização”, “transição tecnológica” ou “parceria” serve apenas para mascarar novas formas de controle, intensificação do trabalho e precarização.

O que a rodada de negociação de 2026/27 escancara é o labirinto em que se mete o sindicalismo de conciliação. Ao aceitar como premissa a necessidade de garantir a “tranquilidade do mercado”, a burocracia sindical abandona qualquer perspectiva de enfrentamento real, como organização, assembleias nos locais de trabalho, greve, piquete e manifestação, que seriam métodos testados para uma vitória, mas, ao invés disso, a direção se converte em gestora da derrota. A ofensa não está apenas nos números rebaixados, mas na naturalização de uma relação em que o trabalhador é tratado como custo descartável, enquanto sua produção sustenta uma acumulação obscena.

Diante desse cenário, a tarefa que se impõe é a organização independente e combativa da categoria. A luta não será resolvida em mesas fechadas nem por acordos impostos de cima para baixo. Ela exige mobilização consciente, enfrentamento político e ruptura com a lógica da conciliação. É nesse terreno que se constrói uma alternativa real, e é por isso que fortalecer espaços de organização da classe, como a ComunaTec, é fundamental. Somente com trabalhadores organizados, críticos e dispostos a enfrentar o capital e seus mediadores até o fim do capitalismo será possível romper com a farsa, reconstruir a luta e avançar na defesa intransigente de nossos interesses de classe. Junte-se à OCI, venha construir um futuro em que o Sindpd possa se orgulhar de atuar com democracia sindical e, para isso, seja um sindicato revolucionário, de luta por uma sociedade em que os trabalhadores possam ter o controle da produção, com acesso a tudo o que produzimos.