Vanguardas Russas: por uma arte independente revolucionária

Trotsky foi presidente do maior soviet da Rússia com apenas 24 anos, fundou o Exército Vermelho, dirigiu a maior revolução da história, deu a vida pelo internacionalismo proletário e era, concomitantemente, um amante das artes. Em “Literatura e Revolução”, publicado em 1924, ele foi capaz de detalhar a cultura russa antes e depois de 1917 e explicar, sob as lentes do materialismo histórico-dialético, que os comunistas anseiam pela cultura da humanidade. 

Já em 1938, junto do surrealista André Breton, Trotsky lançou o Manifesto por uma Arte Revolucionária e Independente. Suas defesas eram pela absoluta liberdade das artes, compreendidas como produtos da luta de classes, mas que não podem ser controladas, doutrinadas e moldadas nem pelo partido, nem por qualquer anomalia como tentaram fazer os fascistas e os stalinistas e tentam, ainda hoje, os “democratas” e pós-modernos. Para Trotsky e Breton, é a liberdade criativa que torna as artes revolucionárias.

Todas essas produções, e as de outros revolucionários soviéticos, foram concebidas pelas próprias revoluções russas. As contradições, belezas e tragédias dessa sociedade, que livrou-se do absolutismo monárquico em fevereiro de 1917 e assaltou os céus em outubro daquele ano, foi gestada na guerra. Portanto, como explicaram Lênin e Trotsky, tais revoluções foram resultados da agudização da luta de classes e das guerras imperialistas. 

Entre essas produções artísticas destacam-se três movimentos que compuseram as Vanguardas Russas do início do século XX: o Futurismo, o Suprematismo e o Construtivismo. Foram vanguardas no sentido estrito do termo francês: aqueles que marcham na frente. Anunciam o novo, não apenas no simbólico e intangível, mas gerados pelo concreto, neste caso, a revolução, dispostos a lutar agressivamente por novos caminhos para a arte. 

O Futurismo, desenvolvido inicialmente na Itália sob influência protofascista em 1909 e 1910, foi fundado na Rússia pelo grupo Hylaea, de Vielimir Khlébnikov, Aleksiéi Krutchônik, Vladimir Maiakovski, Vassíli Kamiêski e David Burliuk, que publicaram em 1912 o manifesto “Um tapa na face do gosto público”. O ideal futurista italiano apresentou a necessidade de uma renovação contínua das vivências humanas. Tinha o espírito opositor ao conformismo e às tradições. 

Os russos, na década de 1910, bebendo desses preceitos, buscaram lançar ao mar o academicismo artístico russo, eletrificados pela nova Rússia que estava sendo parida pelos soviets. Maiakovski afirmou que: “depois de conhecer a eletricidade, a natureza para mim não tem mais interesse. Não é bastante perfeita”1. O grande poeta soviético expressou o anseio pelo novo mundo, como todos os demais artistas revolucionários de sua geração.

A consequência disso foi o Suprematismo Russo, inaugurado em 1915, com sua conceituação filosófica, cultural e política desenvolvida principalmente por Kazimir Malevich. Historiadores da Arte consideram-no a pedra fundamental do Modernismo, também superando regras e estéticas consolidadas da Rússia czarista. 

O marxismo, introduzido no país por Plekhanov aos fins do século XIX, influenciou o “pai” do Suprematismo, Malevich, por meio de um matemático chamado Piotr Ouspensky, que produziu escritos propondo reflexões sobre o Tempo a partir de análises geométricas e psicológicas. As formas geométricas passaram a ser a grande hipótese dos suprematistas, que cunharam o movimento desta forma justamente por considerá-las superiores a qualquer linguagem. 

Malevich entendeu que para representar elementos abstratos, como o Tempo de Ouspensky, teria de superar o cubismo e o próprio futurismo, dando vazão aos sentimentos para além da estética, com o quadrado, o retângulo, o círculo, o triângulo e a cruz. Em letras, demonstrou isso no Manifesto “Do Cubismo e Futurismo ao Suprematismo: o Novo Realismo na Pintura”, em 1925.

Neste Manifesto, Malevich defende que: 

“Eu me transformei no zero da forma e me puxei para fora do lodaçal sem valor da arte acadêmica. Eu destruí o círculo do horizonte e fugi do círculo dos objetos, do anel do horizonte que aprisionou o artista e as formas da natureza. O quadrado não é uma forma subconsciente. É a criação da razão intuitiva. O rosto da nova arte. O quadrado é o infante real, vivo. É o primeiro passo da criação pura em arte.”

Com isso, buscou uma arte livre da utilidade prática, a não ser a própria função de ser vista, rompendo com a imitação da natureza. Uma arte puramente humana. Intenções seguidas por El Lissitzky, autor da célebre “Derrote os Brancos com a Cunha Vermelha”, por Aleksander Rodchenko, responsável pela organização dos museus soviéticos após outubro de 1917, pelo próprio Vladimir Maiakovski e por Liubov Popova, artista central para a produção de cartazes e grafismos da agitação e propaganda bolchevique, além do incentivo e financiamento de mulheres artistas. Em defesa do Suprematismo, prelúdio para o Construtivismo, e parafraseando Lênin, Maiakovski afirmou que “não há Arte revolucionária, sem forma revolucionária”. Este era o espírito suprematista.

Já o Construtivismo Russo, amplamente conhecido, por exemplo, pela fotomontagem de 1924 de Rodchenko com Lili Brik clamando por “livros”, foi iniciado em 1919. Trata-se da síntese revolucionária dos dois movimentos precedentes. 

Seu intuito era, definitivamente, como resultado da tomada do poder pelos trabalhadores, retirar a Arte dos museus e colocá-la nas ruas. Uma arte que educasse a nova classe no poder, funcionando também como formação política. Mas não como panfletária de um idealismo proletário, e sim no sentido de Trotsky: a cultura de humanidade. 

Bolcheviques como Vladimir Tatlin, Naum Gabo, Antoine Pevsner, El Lissitzky e Aleksander Rodchenko estiveram na direção do Construtivismo, impulsionado pela industrialização e pela planificação da economia. O uso do vidro, do plástico, da madeira e do acrílico é marcante nas obras construtivistas, também simbolizando essa nova era para a arte. 

Vale lembrar que Tatlin, ainda em 1914, já havia formado um proto-Construtivismo em Paris, compreendendo a pintura e a escultura como Construções, como sua obra mais conhecida, o Monumento à Terceira Internacional. Esse monumento acabou nunca sendo construído, o que seria uma alusão à Torre Eiffel com mais de 400 metros de altura, girando em torno de seu eixo e servindo como uma antena de rádio. 

As Vanguardas Russas, em especial o Construtivismo, demonstraram a capacidade revolucionária de conectar as pessoas à Arte. Mesmo durante a guerra civil, entre 1918 e 1921, quando dezenas de exércitos capitalistas tentaram dar fim ao poder soviético, mas a cunha vermelha conseguiu golpear os brancos, 36 museus foram inaugurados pelo Estado operário-camponês, administrados por estes artistas. 

Contudo, com a ascensão da burocracia stalinista ao longo dos anos 1920, toda essa riqueza cultural foi afogada na censura e no sangue destes gênios da revolução de outubro. O Termidor contrarrevolucionário de Stalin, Bukharin, Zinoviev, Kamenev e outros burocratas transformou o Construtivismo em Realismo, uma pobre arte panfletária e prostrada ao partido. 

Toda essa degeneração da revolução, e consequentemente da arte soviética, levou Trotsky a produzir as obras já mencionadas e outros textos que educam os comunistas na luta não só por pão, paz e terra, mas também pela poesia e pela arte. Sobre o chamado Realismo Socialista do stalinismo, Trotsky escreveu:

“Não é possível contemplar sem repulsa física mesclada com horror a reprodução de quadros e esculturas soviéticas nos quais funcionários armados de pincel, sob a vigilância de funcionários armados de máusers, glorificam os chefes ‘grandes’ e ‘geniais’, privados na realidade da menor centelha de gênio e grandeza.”

E complementa: “A arte da época stalinista entrará na história como a expressão mais espetacular do profundo declínio da revolução proletária”2.

Em oposição a isso, os comunistas seguem lutando por um novo mundo. Nele, a Arte, carregada pela revolução proletária em suas veias, será livre, independente e, por isso mesmo, revolucionária como foram as vanguardas russas.

  1. Citação de Maiakovski no artigo “O mar da história é agitado: 90 anos sem Maiakovski. Uma homenagem ao poeta da revolução”, de Maritania Camargo e Bruna Machado dos Reis, na Revista Teórica América Socialista – Em defesa do Marxismo, n°17, p. 32, 2020. ↩︎
  2. Trotsky na obra conjunta com André Breton “Por uma Arte Independente e Revolucionária”, edição Paz e Terra, de 1985, p. 18. ↩︎