Felipe Moraes, jovem negro de 29 anos, assassinado por um funcionário do Supermercado Loyola, em Santo André, região do ABC paulista

Assassinato de Felipe Moraes: quando o massacre contra a juventude negra trabalhadora terá fim?

A manhã de 26 de agosto começou com mais uma notícia alarmante e devastadora: outro jovem negro trabalhador fora brutalmente assassinado por um segurança de supermercado, sob a justificativa de “ter ido contra as exigências do funcionário do estabelecimento”. A morte do jovem de 29 anos reacende a problemática da violência vivida pela juventude negra trabalhadora e expõe a decadência do sistema capitalista.

Felipe Moraes, de 29 anos, era artista visual, percussionista, artesão, músico e capoeirista. Atuava de forma independente na cidade de Santo André, região do ABC paulista. Em depoimento, Evelyn Silva, esposa de Felipe, afirmou que seu companheiro havia saído naquela manhã para comprar pães acompanhado de seu cachorro de estimação, no Supermercado Loyola, onde trabalhava o então segurança. A motivação do crime teria sido uma suposta tentativa de Felipe de entrar no supermercado com o animal de estimação. O agente, que, segundo os familiares de Felipe, é policial e atuava como segurança para obter uma renda extra, alegou em depoimento que se “sentiu ameaçado” após o jovem se aproximar, empurrando-o, e logo em seguida efetuou um disparo contra a vítima.

Após o disparo, Felipe correu para fora do estabelecimento e pediu socorro em uma farmácia próxima. Os funcionários o atenderam e acionaram prontamente o atendimento médico. Contudo, o rapaz não resistiu ao ferimento e morreu no local.

Os casos de violência contra a juventude negra trabalhadora têm aumentado de forma exorbitante nos últimos quatro anos. Cerca de 13.829 jovens entre 15 e 19 anos morreram no Brasil de forma violenta, como mostra o Relatório da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com a Unicef Brasil. Desse total, 9.328 (82,9%) eram jovens negros e pardos, e 90% eram homens. No mesmo informe, aponta-se que, entre os jovens com mais de 15 anos, as mortes estão frequentemente associadas a situações que indicam envolvimento com a violência urbana: mais da metade dos casos ocorre em via pública, em ataques majoritariamente realizados por desconhecidos.

Quanto aos autores dos assassinatos, a FBSP indica que a taxa de mortalidade causada pela polícia contra a juventude negra trabalhadora, em 2023, foi de 2,8 por grupo de 100 mil pessoas, mas chegou a 6 entre adolescentes de 15 a 19 anos, ou seja, mais do que o dobro, com os números aumentando de maneira alarmante a cada dia. Só no estado de São Paulo, as mortes de crianças e jovens causadas pela Polícia Militar, agora comandada por Tarcísio de Freitas (Republicanos), cresceram 120% entre 2022 e 2024, resultando em 3,7 vezes mais vítimas em intervenções letais da corporação paulista.

A violência policial contra a classe trabalhadora negra não diminuiu, tampouco acabou. Ao contrário, continua dia após dia, fazendo novas vítimas nos bairros proletários brasileiros. Em 2020, com a criação do programa Olho Vivo”, implantado pelo Governo do Estado de São Paulo, a principal justificativa apresentada foi a de que “a utilização de câmeras corporais em policiais militares reduziria a letalidade policial e aumentaria a transparência das ações”. O programa, instituído sob o governo de João Doria (PSDB), ganhou fôlego no estado após mais um entre inúmeros casos de violência policial terminar em mortes.

Em 1º de dezembro de 2019, um grupo da Força Tática do 16º Batalhão Metropolitano entrou na comunidade de Paraisópolis, Zona Sul da capital paulista, durante o Baile da DZ7, o maior baile funk do estado de São Paulo, alegando que a operação tinha como objetivo “capturar dois suspeitos de roubo”. Os cinco mil jovens presentes foram cercados pela polícia, que assassinou covardemente nove deles. Seis anos depois do que ficou conhecido como o “Massacre da DZ7”, os familiares das vítimas ainda lutam por justiça e pelo reconhecimento do Estado como culpado pelas mortes.

O uso das câmeras corporais, embora apresentado pela justiça e pela mídia burguesas como a “melhor alternativa” para reduzir os assassinatos cometidos pelo braço armado do Estado, não anulou, e não anulará, o problema. Um levantamento realizado pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPESP) revelou que, de um universo de 96 casos selecionados por amostragem, houve acesso a imagens em apenas 40 ocorrências. Em metade dessas, estava disponível apenas a gravação de rotina, que possui menor qualidade de imagem e não contém áudio.

Na prática, sabemos que não há um procedimento operacional padrão seguido pelas polícias. Protocolos de abordagem são ignorados, e a força letal é usada sem pudor nem piedade, mesmo em situações em que não existe confronto. No caso de Felipe, o uso da violência promovida pelo segurança do supermercado reverbera a lógica perversa do racismo e do capitalismo: puxar o gatilho usando como critérios a cor da pele e a posição social do sujeito é considerado aceitável. Pouco importa se o indivíduo é um trabalhador ou um criminoso. Essa lógica contraditória segue a máxima: atira-se primeiro e pergunta-se depois. O que é sagrado não é a vida, mas sim a propriedade.

Felipe não tinha passagem pela polícia. Era multiartista, organizava e participava de batalhas de rima em Santo André. Tinha uma esposa que ficou em casa esperando por ele, sem poder se despedir do próprio parceiro. Tinha sonhos. Felipe, infelizmente, engrossa as estatísticas, sendo mais um jovem negro trabalhador a ter a vida ceifada pelo racismo.

“Perdi meu marido, meu melhor amigo, e não posso aguentar que isso fique impune. Felipe foi comprar pão e disse que voltava logo para tomarmos café antes de eu sair para trabalhar (…) Hoje Felipe acordou, pegou nosso cachorro e foi comprar pão sem se despedir de mim. Não pude abraçá-lo e beijá-lo antes de sair de casa, não pude ver o corpo do meu companheiro e não aguento saber que estão ferindo a imagem dele. Por favor, não deixem que mais um crime de racismo seja deturpado e transforme a vítima em culpado. Eu sempre vou te amar.” (Evelyn, em declaração publicada no Instagram)

A juventude negra trabalhadora continua a ser massacrada e escravizada pelo capital, submetida a extensas jornadas de trabalho, à precarização extrema das condições de vida e caçada pela polícia e por instituições racistas. O Estado, que matou os nove jovens em Paraisópolis e tantos outros jovens e trabalhadores, existe única e exclusivamente para atender aos interesses do capital. O racismo, mecanismo essencial para a manutenção do capitalismo junto de suas estruturas de poder, como expõe a camarada Flávia Antunes, “faz parte do sujo repertório sobre o qual se sustenta a ideia de que os miseráveis foram feitos de um ‘barro diferente’ e, portanto, é natural que sejam explorados”.

Em 29 de agosto, foi realizado um ato por justiça a Felipe, promovido pela família do artista em frente ao Supermercado Loyola. O ato, que contou com a presença de colegas de Felipe e de movimentos sociais, foi uma forma de dar uma resposta ao Estado: a classe trabalhadora anseia por justiça e pelo fim da repressão!

Defendemos amplamente a organização coletiva e a adoção massiva de coletivos e movimentos negros na luta pelo fim da escala 6×1, pelo fim das privatizações que arrastam nosso povo para a vida precária e, não menos importante, pela luta voraz pelo fim da polícia em todas as suas configurações. Venha conhecer o Movimento Negro Socialista e lute por uma sociedade socialista!

  • Justiça por Felipe Moraes! Ser negro não é crime!
  • Pelo fim das polícias! Por comitês de segurança organizados pelos próprios trabalhadores!
  • Fora Tarcísio, Derrite e sua corja assassina!
  • Pelo fim do racismo e do capitalismo!