Imagem: Unité CGT, X

Luta de classes na França

Na última quinta-feira (18) ocorreu em toda a França mais um conjunto de manifestações protagonizadas pela classe trabalhadora. O próprio governo estimou a participação em cerca de 800 mil manifestantes, que lutavam contra cortes no projeto orçamentário de 2026. Os manifestantes também pediam o cancelamento dos planos fiscais do governo anterior, mais investimentos em serviços públicos, aumento de impostos para os mais ricos e a reversão da reforma da Previdência, que aumentou o tempo de contribuição para se aposentar. 

Essas manifestações não se deram de forma pacífica. Cerca de 80 mil policiais foram mobilizados para conter as manifestações, incluindo unidades de choque, drones e veículos blindados. Cerca de 180 pessoas foram detidas, das quais 30 somente em Paris, onde a polícia lançou gás lacrimogêneo em várias ocasiões para dispersar manifestantes que arremessavam latas e pedras.

Na semana anterior também haviam ocorrido grandes manifestações. No dia 10 de setembro, milhares de manifestantes interromperam o trânsito, confrontaram a polícia e usaram de outros métodos de luta. Esses protestos se deram diante do crescimento da rejeição do presidente Macron e do repúdio aos cortes dos orçamentos. Foram inúmeras ações em diversas regiões da França, como em Paris, Rennes e Nantes.

Os atos começaram dois dias após o primeiro-ministro, François Bayrou, renunciar depois de não conseguir o voto de confiança no Parlamento. Na última eleição, uma frente de partidos de esquerda, a Nova Frente Popular, liderada por França Insubmissa, se tornou a maior bancada no Parlamento. Contudo, a esquerda não conseguiu maioria. Com isso, Macron vem conseguindo impor o nome de políticos de direita para o cargo de primeiro-ministro. Desta vez, foi indicado para o cargo o conservador Sebastien Lecornu. Esse é o quinto primeiro-ministro em menos de dois anos.

O movimento “Bloqueie Tudo” coordena boa parte dos protestos. Trata-se de uma ampla expressão de descontentamento organizada a partir das mídias sociais, que começou a se desenvolver em maio. Segundo pesquisas, 46% dos franceses apoiam o movimento. Esse movimento se mostra bastante contraditório, afinal seu maior apoio se encontra entre os simpatizantes de esquerda, mas estendendo-se também a mais de metade dos eleitores de extrema-direita.

O movimento está sendo comparado aos protestos dos “Coletes Amarelos” de 2018, que também enfrentou Macron, inicialmente contra o aumento nos preços dos combustíveis em função do aumento de impostos. Contudo, essa pauta foi ampliada contra as reformas econômicas baseadas na austeridade. Nestes anos, a situação se deteriorou brutalmente no país, afinal os planos de austeridade apontam para uma piora ainda maior da situação dos trabalhadores.

Nesse cenário, a esquerda se encontra perdida. Com sua longa história de colaboração com a burguesia, o Partido Socialista (PS) acaba por se limitar às negociações no parlamento. Em janeiro deste ano, chegou a votar com o governo e a extrema direita contra a moção de censura apresentada por França Insubmissa e apoiado por outros setores da Nova Frente Popular, como o Partido Comunista e os Verdes. Com isso, deixou o recado de que estava abandonando a frente de esquerda no parlamento.

Quanto ao França Insubmissa, o partido oscila entre priorizar a disputa institucional e ser um organizador das lutas. Dentro do parlamento é a principal força de esquerda e possui uma grande influência nas organizações dos trabalhadores. O partido, em grande medida, atua no sentido de, pela força das ruas, ter um de seus membros ocupando o cargo de primeiro-ministro.

Portanto, trata-se de um processo que expressa uma situação política convulsiva, como resposta da classe trabalhadora a uma situação econômica de degradação, pela qual passam as principais economias da Europa. Os trabalhadores não podem limitar suas ações a conquistar cargos na institucionalidade, confiando apenas na força de suas mobilizações.

Michel Goulart da Silva é doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), servidor técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).