Imagem: Freepik

O capital quer a tua vida: a jornada 996, a inteligência artificial e a barbárie do Vale do Silício

As novas startups de inteligência artificial, no coração do imperialismo norte-americano, começam a adotar a famigerada jornada de trabalho “996”, que funciona das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana, ou seja, uma espécie de jornada 6×1, com 12 horas diárias.

Essa jornada, que equivale a 72 horas semanais, foi oficialmente banida pelo regime capitalista chinês em 2021, após a repercussão de uma onda de mortes por exaustão e suicídios entre trabalhadores do setor de tecnologia, mas ainda continua existindo extraoficialmente. Nos Estados Unidos, epicentro do capital financeiro e da tecnocracia global, a mesma lógica de aumentar o tempo em que o trabalhador fica à disposição dos patrões retorna com força total, ainda que disfarçada por eufemismos como “comprometimento”, “cultura de ambição” ou “espírito de startup”.

A imprensa sindical noticiou o fato sem explorar a gravidade do fenômeno. O que temos aqui é a materialização crua da ofensiva do capital contra o tempo de vida do trabalhador. Em nome do “avanço” tecnológico e da “revolução da IA”, os patrões exigem mais tempo, mais energia, mais vida. A tecnologia, que poderia servir para reduzir a jornada e melhorar as condições de trabalho, é apropriada pelas classes dominantes como instrumento de intensificação da exploração e de expropriação de mais-valia pelos capitalistas. Não há milagre no Vale do Silício: há mais-valia extraída em tempo integral, mais produção, mais lucros, mais sangue operário.

Essa jornada de 72 horas semanais não é um detalhe, mas uma denúncia gritante da barbárie capitalista. Trata-se da negação completa daquilo que Marx chamou de “tempo livre como medida da riqueza verdadeira”. O trabalhador não vende apenas sua força de trabalho — vende sua saúde, seu sono, suas relações afetivas e até mesmo a capacidade de pensar criticamente sobre a realidade. A jornada 996 é a forma moderna da escravidão assalariada. A sua aceitação voluntária, travestida de “entusiasmo juvenil” pelas startups, não é senão a ideologia dominante impregnando o cérebro dos trabalhadores. O capital os convence de que a servidão é heroísmo e de que morrer por um algoritmo é um sinal de glória.

A China foi obrigada a reconhecer os limites do “milagre” tecnológico quando a morte bateu às portas das empresas. O movimento 996.ICU (“trabalhar 996 te leva à UTI”) revelou que, nem mesmo sob um regime repressivo, é possível ignorar indefinidamente os limites físicos da exploração. E, mesmo ali, onde o controle estatal é absoluto, a resistência operária emergiu, ainda que de forma embrionária e espontânea, como reflexo das contradições insuportáveis do capital.

Nos EUA, o retorno do 996 demonstra que o capital não tem pátria, não tem ética e não tem outro fim senão a valorização do valor. Onde houver um corpo para explorar, um cérebro para esgotar e um contrato sem garantias, ali estará a jornada 996. E, se isso ocorre no setor de tecnologia, que se apresenta como vanguarda da civilização humana, o que esperar das outras categorias? Como alertava Lênin, “o imperialismo é a fase superior do capitalismo”, e a fase superior da exploração é o que vemos aqui: a submissão completa do tempo de vida à lógica da acumulação.

No Brasil, onde a legislação limita a jornada a 44 horas semanais e onde o movimento sindical abandonou, há tempos, a luta pelas 30 horas semanais, a comparação deve acender o alerta. A burguesia nativa, serviçal do capital internacional, observa essas “tendências” com olhos atentos. Não é à toa que se intensificam os ataques à CLT: a escala 6×1, os contratos intermitentes, as tentativas de ampliar o tempo de trabalho e reduzir o descanso já foram aprovadas. A luta contra a jornada 996 é também nossa luta. Não se trata apenas de defender direitos trabalhistas abstratos, mas de combater a destruição da própria condição humana imposta pelo capital.

O papel dos sindicatos brasileiros tem sido o de fechar os olhos para essa situação. O único sindicato que comentou sobre essa prática, agora adotada por empresas dos EUA, foi o SindPD-SP, com uma nota que fala do combate à escala 6×1. No entanto, o sindicato não organiza assembleias nos locais de trabalho, pois não tem confiança nos trabalhadores. Sua direção está adaptada ao aparato sindical há anos e, por isso, não possui uma prática constante de contato com a base.

Nós, trabalhadores de tecnologia, devemos tomar o nosso futuro, e o da humanidade, nas nossas mãos. Enquanto a tecnologia estiver nas mãos dos capitalistas e sob seu controle, não teremos tempo livre. A tecnologia deve ser colocada a serviço da humanidade, e não da pilhagem do tempo de vida dos trabalhadores. Apenas sob controle operário, resultante da luta organizada da classe trabalhadora, com sua independência de classe e um programa para a transição socialista — que inclua a luta pelas 30 horas semanais e pelo controle operário das tecnologias — será possível impedir que a “inteligência artificial” sirva apenas à estupidez da ganância capitalista. A alternativa é clara: ou o tempo livre e a dignidade, ou a morte por exaustão diante de uma tela de computador. O futuro não está no Vale do Silício: está nas mãos dos trabalhadores em luta.