Os trotskystas e o levante comunista de 1935

O levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL) — também conhecido como Intentona Comunista — entre 23 e 27 de novembro de 1935, deve ser compreendido no contexto da intensa crise política e social que marcou o Brasil sob o governo Getúlio Vargas. Na época, os trotskystas foram críticos dessa política, defendida pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), e viram o avanço da repressão, em especial com o Estado Novo.

A ANL surgiu como uma frente política de caráter policlassista, formada por setores diversos, incluindo militantes do tenentismo insatisfeitos com Vargas, camadas médias e setores do movimento operário. Figura central nesse processo, Luís Carlos Prestes, dirigente do PCB, tem sua biografia marcada pela articulação com o tenentismo, movimento de oficiais jovens que expressavam insatisfação com a ordem política da República Velha. Prestes passou a militar no PCB em 1934, sendo parte da guinada militarista do partido.

Os trotskystas eram críticos dessa aproximação entre stalinismo e tenentismo. Organizados em torno da Liga Comunista Internacionalista (LCI), os trotskystas criticavam a ANL e o levante de 1935. Para eles, a ANL expressava a colaboração de classes e se colocava como um entrave à luta dos trabalhadores pela revolução socialista. Os trotskystas afirmavam:

“A Aliança Nacional Libertadora é uma tentativa de criar no Brasil uma corrente intermediária entre o movimento revolucionário do proletariado, representado ainda no Brasil, por força de inércia, pelo PC stalinizado e grupos circunvizinhos, e os partidos burgueses liberalóides, destroços do tenentismo etc., representantes da burguesia adiantada e da pequena burguesia.”1

Segundo a LCI, a ANL tinha como inspiração o Kuomintang, partido da burguesia chinesa apoiado pelos comunistas na revolução de 1927. Nesse processo, o Kuomintang não apenas traiu o processo revolucionário, como perseguiu os comunistas, que inclusive tinham aderido às suas fileiras. Segundo os trotskystas, a ANL era uma “invenção artificial de Kuomintang”, criada “não da própria necessidade da burguesia nacional em arrastar a massa a uma luta contra o imperialismo e o capitalismo estrangeiro, mas dos erros e fracassos da política do próprio partido que se diz representante do proletariado.”2

No começo da década de 1930, os trotskystas apontavam uma grave crise política e organizativa do PCB, resultado sobretudo de sua vinculação ao stalinismo e à política do chamado “terceiro período” da Internacional Comunista. Essa política conduziu o partido a um sectarismo extremo, que negou a possibilidade e a necessidade de frentes únicas com outras organizações dos trabalhadores, aprofundando a divisão da classe frente às ameaças autoritárias. O principal desastre provocado por essa política foi a ascensão do nazismo na Alemanha, quando o partido comunista recusou a constituição de uma frente única com o partido social-democrata alemão.

O principal desastre provocado pela política do chamado “terceiro período” foi a ascensão do nazismo na Alemanha, quando o partido comunista recusou a constituição de uma frente única com o partido social-democrata alemão / Imagem: Imperial War Museums

Os desastres provocados por essa linha política levaram a mudanças, tanto em âmbito internacional quanto nacional. O PCB oscilou para uma posição de aliança com setores da pequena burguesia, materializada na ANL. Para os trotskystas, essa postura manifestava uma transição oportunista e aumentava a confusão política entre os trabalhadores, diluindo um projeto de revolução em meio a uma frente ampla com setores contrarrevolucionários. O PCB, segundo os trotskystas,

“[…] chegou muito tarde à constatação de que as massas, no Brasil, ainda estão atrasadas politicamente. Mas ele chegou a esta constatação não por uma análise marxista, objetiva, da situação, mas, empiricamente, pelo seu próprio fracasso político, pelos próprios desastres de sua ação, quando se viu, ao fim de todos os esforços que faz, de toda a agitação, de todo o espalhafato dos últimos tempos, num beco sem saída, afastado completamente das grandes massas profundas do proletariado. E, em vez de procurar as causas verdadeiras desse fracasso e isolamento nos seus próprios erros, na sua linha política, os stalinistas caíram no extremo oposto e passaram a menosprezar a consciência política do proletariado brasileiro, a capacidade da classe operária em guiar-se politicamente pelos seus próprios interesses, tanto imediatos como históricos e revolucionários.”3

Esse processo levou a desdobramentos em elaborações teóricas. Os trotskystas afirmavam que, na compreensão desenvolvida pelos stalinistas,

“[…] a força motriz principal da revolução já não é o proletariado, mas a pequena burguesia. O instrumento principal da revolução, da realização da aliança operária e camponesa, não é mais o partido da vanguarda, o partido forjado por Lenin, o partido bolchevique, mas um ‘movimento’ de pequenos burgueses pela libertação nacional do Brasil, isto é, pela burguesia nacional.”4

No contexto do levante de 1935, o desastre da política defendida pelo PCB, produto da confluência entre prestismo, militarismo pequeno-burguês e stalinismo, ficou evidente em sua aventura militar. O levante, iniciado em Natal, Recife e Rio de Janeiro, foi rapidamente sufocado, resultando em repressão violenta que prendeu milhares de militantes, fechou organizações e aprofundou a crise do movimento operário. Segundo a LCI, “o sórdido oportunismo ideológico em que caíram os stalinistas foi coroado pelo aventureirismo golpista mais descabelado.”5

Os trotskystas criticaram o PCB tanto por seu sectarismo herdado da política do terceiro período quanto por cair na armadilha do oportunismo ao compor a ANL com setores radicalizados da pequena burguesia, em vez de manter a independência política do proletariado. Segundo os trotskystas, “quanto mais o tempo avançava, tanto mais o stalinismo brasileiro, isto é, o prestismo, marchava resolutamente para a direita, à cata de aliados, abrindo mão dos últimos vestígios marxistas, até mesmo em matéria de simples terminologia.”6

O levante de 1935 sofreu repressão violenta por parte do governo de Getúlio Vargas, que rapidamente esmagou os focos de insurreição. O movimento, que esperava ampla adesão das massas e apoio dos quartéis, fracassou rapidamente com o endurecimento da repressão militar e policial. Os trotskystas assim narraram o processo:

“[…] o golpe preparado na sombra de uma clássica conspiração de quartel foi instantaneamente reprimido, sobretudo no Rio, onde a abstenção da massa foi completa. O governo pôde esmagá-lo, assim, em algumas horas, com uma ferocidade de bandidos alucinados, antes de o proletariado poder tomar conhecimento do que se passava. A vanguarda do proletariado foi apanhada de surpresa e nada pôde fazer.”7

Embora, em alguns lugares, como em Natal, o levante tenha conseguido resistir um pouco mais do que em outras cidades, de forma geral o que se viu foi a rápida contenção dos rebeldes pelas forças de repressão do Estado. Os trotskystas assim destacavam o processo:

“No Norte, apesar de uma participação mais ativa, mas ainda assim precária, de certas camadas populares, apesar de a repressão ter sido inicialmente menos feroz que no Rio, de a rebelião ter-se prolongado mais tempo, chegando mesmo a obter considerável êxito no começo, como em Natal, onde os revoltosos se viram por alguns dias senhores da cidade, ainda assim o movimento ficou isolado, não tendo tido condições ou oportunidade para ligar-se às massas e aprofundar-se.”8

Como resultado, houve milhares de prisões de militantes comunistas, simpatizantes da ANL, trotskystas, socialistas e anarquistas, muitos dos quais sequer tinham participado diretamente do levante. As lideranças da ANL foram presas ou perseguidas, com casos emblemáticos como a prisão de Luís Carlos Prestes, em 1936, e a deportação de Olga Benário para a Alemanha nazista, onde foi executada. A repressão serviu também para justificar o aperfeiçoamento do aparato repressivo do Estado, culminando no golpe institucional que implantou a ditadura do Estado Novo, em 1937, com restrições severas à liberdade política e ao movimento operário.

As lideranças da ANL foram presas ou perseguidas, com casos emblemáticos como a prisão de Luís Carlos Prestes, em 1936 / Imagem: Autor desconhecido

As consequências para a situação política da esquerda foram desastrosas e profundas. A derrota do levante de 1935 marcou o início de um período de dispersão e desmoralização das organizações comunistas e revolucionárias no Brasil. Segundo os trotskystas, “a capitulação vergonhosa feita à classe inimiga, acrescida da ausência de participação das massas, criou uma situação de profunda desmoralização para a doutrina e a política comunista.”9

O PCB, esmagado pela repressão, deslocou-se para uma política de conciliação de classes sob a orientação stalinista em âmbito internacional, abandonando a linha da insurreição armada para priorizar alianças com setores pequeno-burgueses, o que aprofundou sua crise organizativa e política. A derrota também abriu caminho para o recrudescimento da repressão estatal, impondo duras limitações à ação das forças de esquerda nas décadas seguintes.

A repressão ao levante consolidou um período de imposição da ditadura de Getúlio Vargas, reforçando as críticas trotskystas ao PCB e ao fracasso das estratégias de frentes com setores da burguesia e da pequena burguesia. O resultado foi uma derrota amarga para o movimento operário e popular brasileiro, que ficou marcado pela repressão e pela perda de força política.

  1. “A Aliança Nacional Libertadora e a confusão do movimento operário” (25/06/1935). In: ABRAMO, Fúlvio; KAREPOVS, Dainis (orgs.). Na contracorrente da história: documentos do trotskismo brasileiro 1930-1940. São Paulo: Editora Sundermann, 2015, p. 218. ↩︎
  2. Ibidem, p. 218. ↩︎
  3. Ibidem, p. 219. ↩︎
  4. Ibidem, p. 223. ↩︎
  5. “O desastre de novembro e o naufrágio do stalinismo e do prestismo” (01/04/1936). In: ABRAMO, Fúlvio; KAREPOVS, Dainis (orgs.). Na contracorrente da história: documentos do trotskismo brasileiro 1930-1940. São Paulo: Editora Sundermann, 2015, p. 243. ↩︎
  6. Ibidem, p. 245. ↩︎
  7. Ibidem, p. 248. ↩︎
  8. Ibidem, p. 248-9. ↩︎
  9. Ibidem, p. 249. ↩︎