Imagem: Ministério da Defesa do Peru

Segue a instabilidade política no Peru

O Peru enfrenta mais um capítulo de sua crise política, com a destituição, nesta terça-feira (17), do presidente interino, o direitista José Enrique Jerí Oré, sétimo chefe de Estado desde 2016, a menos de dois meses das eleições gerais marcadas para 12 de abril de 2026. A votação, com 75 votos favoráveis, 24 contrários e três abstenções, foi impulsionada por investigações sobre encontros semiclandestinos de Jerí com o empresário chinês Zhihua Yang, dono de contratos estatais, e irregularidades na contratação de servidoras que se reuniram previamente com ele no Palácio de Governo; imagens comprometedoras o mostram de capuz e óculos escuros em lojas de produtos chineses, sem registro na agenda oficial.

Como presidente censurado pelo Parlamento, Jerí perde automaticamente o cargo executivo interino, que assumira após a vacância de Dina Boluarte, em outubro de 2025, por acusações de corrupção, como o escândalo “Rolexgate”, envolvendo relógios de luxo não declarados. Essa destituição relâmpago exemplifica a instabilidade do sistema político peruano, regido por uma Constituição que permite ao Congresso uma forma rápida de impeachment, fazendo uso de censura ou vacância por “incapacidade moral permanente”. Essa ferramenta constitucional vem sendo usada com frequência desde 2016 para derrubar seis presidentes em uma década. Jerí Oré junta-se à lista de presidentes que sofreram com essa medida. Boluarte era a vice-presidente de Pedro Castillo, eleito em 2022 com promessas de confronto ao imperialismo e nacionalizações econômicas. Castillo, contudo, amenizou seu discurso diante da pressão burguesa e do imperialismo, pavimentando sua própria queda após massacres em protestos populares e denúncias de corrupção.

Esse processo não se dá ao acaso, mas é expressão de décadas de crise econômica e social na região, agravada pelo presidencialismo enfraquecido e pelo Congresso como arena de interesses burgueses. Com José María Balcázar Zelada, agora eleito interinamente para um mandato-tampão até julho, quando o vencedor das eleições assumirá, o Peru caminha para o oitavo presidente em dez anos, sem perspectiva de estabilidade política. Os trabalhadores peruanos, traídos repetidamente por seus supostos representantes – inclusive pelo próprio partido de Castillo –, não podem depositar confiança em urnas ou elites. É urgente mobilizar suas próprias forças contra a burguesia e o Estado, construindo um poder soberano pela organização de base.