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A presidência de Trump cria uma enorme turbulência no mundo 

O texto a seguir é a primeira parte de um discurso sobre perspectivas mundiais, de 28 de janeiro, em uma reunião do Comitê Executivo Internacional da Internacional Comunista Revolucionária e publicado originalmente no dia 7 de fevereiro em marxist.com.

Como se diz nos aviões: “Senhoras e senhores, por favor, permaneçam sentados com os cintos de segurança afivelados, pois estamos entrando em uma área de turbulência”.

Faz apenas uma semana que Trump assumiu o poder. Algumas semanas antes, ele foi eleito em novembro, e toda a situação mundial se transformou.

Apenas do ponto de vista das ações de Trump, já vimos o cessar-fogo em Gaza, a ameaça de uma ação militar contra a Dinamarca — um membro da Otan e aliado dos EUA — e contra o Panamá. Vimos também a ideia de que o Canadá deveria se tornar o 51º estado dos EUA, ou seja, a anexação de um país da Otan ao norte da fronteira.

E isso é apenas para mencionar alguns fatos. O que realmente podemos observar é uma enorme aceleração do ritmo dos acontecimentos nas relações mundiais, na economia e na política. E, obviamente, isso também tem impacto na consciência coletiva.

Claro, Trump não é a causa de tudo isso. Ele é, sem dúvida, um sintoma de processos mais profundos em curso, mas, ao mesmo tempo, é um fator que acelera enormemente os acontecimentos. Não há dúvidas quanto a isso.

Além dos diversos eventos desencadeados pelas ações de Trump, também presenciamos, nas últimas semanas, uma série de outros acontecimentos: o colapso dos governos na França, na Alemanha e no Canadá. Assistimos ainda ao cancelamento das eleições na Romênia, um evento que, em qualquer outra circunstância, seria de grande relevância, mas que agora está ofuscado por acontecimentos ainda mais significativos.

Ontem, assistimos ao colapso das ações de tecnologia no mercado dos EUA. A Nvidia, uma gigante do setor, perdeu mais de US$ 600 bilhões em valor de mercado em apenas um dia. Essa foi a maior queda diária, em termos absolutos, já registrada na história por qualquer empresa.

Muitos desses acontecimentos já seriam surpreendentes por si só.

Por exemplo, houve um telefonema entre Trump e Frederiksen, primeiro-ministro da Dinamarca, sobre a ambição de Trump de anexar a Groenlândia — conversa que, aparentemente, não correu bem. De acordo com o Financial Times, que citou fontes dinamarquesas, Frederiksen afirmou que o governo ficou chocado e que agora entendia que se tratava de uma proposta séria.

E aqui está a questão: devido ao estilo de Trump, pode-se pensar que ele está apenas blefando ou dando o primeiro passo para abrir negociações. Mas ele não é apenas um influenciador de redes sociais — ele é o presidente dos Estados Unidos da América, a maior e mais poderosa potência imperialista do mundo. E, quando ele fala, pode até ser extravagante na forma como se expressa, mas suas palavras não devem ser ignoradas.

Um comentarista burguês citado pelo New York Times disse que “não se deve levar Trump ao pé da letra, mas é necessário levá-lo a sério”.

Como se tudo isso não bastasse, ontem também houve um embate entre Trump e a Colômbia. O choque foi breve, mas bastante revelador. Por razões que só ele conhece, às quatro da manhã, o presidente colombiano, Gustavo Petro, postou um tuíte protestando contra o tratamento dado aos migrantes colombianos deportados pelos Estados Unidos. Segundo ele, estavam sendo maltratados.

Do ponto de vista de Trump, essa atitude tinha um propósito simbólico: ele queria demonstrar que estava deportando imigrantes e os tratando como criminosos que mereciam ser algemados e expulsos do país.

Em resposta, Petro declarou que não permitiria a aterrissagem de dois aviões militares dos EUA transportando migrantes colombianos. Um dos aviões, aparentemente, já estava no ar.

Então, o que aconteceu depois?

Trump fez uma postagem nas redes sociais afirmando que “o presidente socialista da Colômbia, que já é muito impopular entre seu próprio povo”, decidiu rejeitar os aviões com deportados e que, por isso, ele imporia tarifas de 25% sobre todos os produtos colombianos, com efeito imediato.

Ele ainda acrescentou que retiraria os vistos e autorizações de entrada nos EUA do presidente Petro, de seu governo, de suas famílias — e até de todos os seus apoiadores! Isso significaria milhões de pessoas.

Trump fez uma série de outras ameaças, mas não ficou apenas nas palavras — começou a agir imediatamente. No dia seguinte, cerca de 1.500 pessoas que tinham agendado pedidos de visto na embaixada dos EUA em Bogotá receberam mensagens informando que todos os atendimentos haviam sido cancelados.

Petro respondeu dizendo que a atitude era inaceitável e anunciou tarifas recíprocas sobre todas as importações dos EUA. Além disso, publicou uma longa postagem nas redes sociais — não sei se você chegou a ver. Ele fez todo tipo de declaração: mencionou a tradição de Sacco e Vanzetti [anarquistas italianos infamemente executados nos EUA], chamou Trump de “dono de escravos brancos” e declarou que não apertaria sua mão.

No entanto, ao final do dia, Petro foi forçado a recuar completamente. Trump, por sua vez, fez outra postagem afirmando que havia lhe dado uma lição e que “a América voltou a ser respeitada”.

O New York Times publicou hoje um artigo sobre esse confronto. A manchete diz: “Por trás da explosão na Colômbia: mapeando as táticas de escalada rápida de Trump”, e o parágrafo de abertura destaca:

“Não houve reuniões na Sala de Situação nem chamadas discretas para acalmar uma disputa com um aliado. Apenas ameaças, contra-ameaças, rendição e um vislumbre da abordagem do presidente à Groenlândia e ao Panamá.”

Chas Freeman, ex-embaixador dos EUA, fez um comentário interessante sobre Trump. Segundo ele, Trump é um homem de negócios que não conhece nem se importa com normas diplomáticas, formalidades ou protocolos nas relações internacionais. E acrescentou que ele não é um empresário qualquer: sua formação vem do mercado imobiliário de Nova York, um setor onde não há regras éticas de nenhum tipo — tudo se baseia em intimidação e traição.

Definitivamente, esse parece ser o estilo de Trump. E agora ele é o presidente dos Estados Unidos. Naturalmente, isso tem um impacto significativo. Há, sem dúvida, um forte elemento de imprevisibilidade em suas ações, mas também existe um método em sua aparente loucura. E é exatamente por isso que precisamos analisar o que está por trás de tudo isso.

Trump sente que, em seu primeiro mandato, tentou acomodar diferentes alas do partido e trabalhar dentro das regras do Estado. Como resultado, acabou se vendo bloqueado, cercado e impedido de executar sua verdadeira agenda por aquilo que ele descreve como o “Estado profundo” — um termo que, de certa forma, carrega um elemento de verdade.

Agora, porém, ele está mais forte do que antes. Tem um controle quase absoluto sobre o Partido Republicano — muito mais do que em 2016.

Sem dúvida, Trump possui hoje muito mais poder político e está ainda menos disposto a fazer concessões ou permitir que outros ditem suas políticas. Basta observar algumas das medidas que ele tomou na última semana.

Na quarta-feira, várias autoridades do Conselho de Segurança Nacional foram afastadas — algumas colocadas em licença, outras suspensas. Essas são as pessoas responsáveis por aconselhar o governo sobre questões envolvendo o Irã, a Coreia do Norte, a Ucrânia, o Oriente Médio e uma série de outros temas estratégicos. A decisão foi tão abrupta que, segundo o New York Times, alguns dos funcionários nem sequer conseguiram sair fisicamente do prédio: seus passes de acesso foram desativados antes mesmo de serem oficialmente informados da demissão.

E então, na segunda-feira, o presidente Trump assinou uma ordem executiva suspendendo toda a ajuda externa por 90 dias, enquanto uma revisão completa é realizada. A suspensão foi total, e as pessoas que trabalham em ONGs ao redor do mundo foram instruídas a “não gastar um único centavo até novo aviso”. Isso gerou grande pânico na Ucrânia, com incertezas sobre se a medida afetaria a ajuda militar. A semana inteira foi marcada por idas e vindas sobre essa questão.

Em todos esses casos, Trump afirmou que as medidas eram necessárias para garantir que todos estivessem alinhados com suas políticas. Além disso, suspendeu todos os programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) e, não satisfeito com isso, instruiu funcionários públicos a denunciarem colegas que tentassem manter iniciativas do tipo, contrariando suas ordens. Para isso, criou um canal de denúncias sigiloso por e-mail.

Trump está em guerra com o establishment e com aquilo que ele define como Deep State (“o Estado profundo”). Isso não significa, necessariamente, que ele vencerá sempre — o aparato estatal capitalista é extremamente poderoso. No entanto, independentemente do desfecho, está claro que ele está disposto a travar essa batalha e a avançar com sua agenda, seja ela qual for.

Estamos diante de uma mudança decisiva na situação mundial, com implicações profundas.

A própria eleição de Trump, ocorrida há apenas dois meses — embora pareça muito mais tempo! —, já representou uma grande virada. A classe dominante e o establishment dos EUA usaram todos os recursos à sua disposição para impedir sua vitória, mas ele venceu. E venceu de forma convincente.

O que isso significa? Liberais, a mídia e a chamada esquerda têm repetido o discurso de que essa eleição marca uma “guinada à direita” nos Estados Unidos e faz parte de um movimento global de ascensão da direita na política.

Mas isso não explica nada. Afinal, se aceitarmos esse argumento, o que estamos dizendo? Que Biden era de esquerda? Essa seria a implicação. Vejamos a política externa: Trump foi o “candidato da paz”, enquanto Biden se posicionou como o candidato belicista. Essa questão teve um peso real no resultado da eleição, especialmente em distritos com alta concentração de eleitores muçulmanos e árabes.

É evidente que elementos reacionários impulsionaram votos para Trump. Mas, por si só, isso não explica sua vitória. Por exemplo, em vários estados onde Trump venceu ou aumentou significativamente sua votação, os eleitores também aprovaram iniciativas legislativas para proteger o direito ao aborto. Isso aconteceu, inclusive, na Flórida, onde a votação pró-aborto teve um desempenho melhor do que a chapa Harris — embora não tenha atingido o limite necessário.

O que explicamos — e acredito que está absolutamente correto — é que a principal razão para a vitória de Trump, a principal conclusão que se deve tirar, é que ele conseguiu capturar, conectar e canalizar o profundo e generalizado sentimento anti-establishment existente nos Estados Unidos.

Esse mesmo sentimento se manifesta em vários outros países capitalistas avançados, de formas diversas. Um exemplo particularmente marcante foi a reação ao assassinato do CEO da United Healthcare por Luigi Mangione. O crime em si já era significativo, mas o mais surpreendente foi a resposta do público: uma onda de compreensão e simpatia — não pelo CEO, mas por Mangione.

Ele se tornou uma espécie de herói popular. E essa reação não veio apenas de pessoas que se identificam com a esquerda, mas também de muitos conservadores e republicanos, incluindo apoiadores de Trump.

Esse é um fenômeno peculiar, não? Trump está surfando nessa onda de sentimento anti-establishment. Há uma crise de legitimidade de todas as instituições burguesas. A raiva contra as grandes corporações, contra políticos de todos os espectros e contra o próprio Estado está latente. Mas, ao mesmo tempo, ele é um bilionário. E todo mundo sabe disso. Ele se cerca de bilionários.

Esse sentimento se manifesta de forma profundamente contraditória. Mas, sem dúvida, é um reflexo dele. E a razão também é evidente: tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, vimos o fracasso absoluto da esquerda, que se mostrou incapaz de capitalizar esse clima de insatisfação.

Saímos de um período em que figuras e partidos anti-establishment de esquerda estavam em ascensão, especialmente após a crise de 2008 e os grandes movimentos anti-austeridade de 2011. Podemos citar Podemos, Syriza, Mélenchon, Corbyn, Sanders — todos falharam completamente. A falência de suas ideias reformistas ficou evidente na prática, de uma forma ou de outra.

O exemplo mais extremo foi o governo Syriza em 2015, mas também podemos lembrar o apoio de Bernie Sanders a Hillary Clinton em 2016. Eles capitularam e deixaram o espaço aberto para figuras como Trump.

O que Trump vai fazer? Nem ele próprio parece saber ao certo.

Em seu discurso de posse, declarou: “vamos fazer coisas que chocarão as pessoas”. E, de fato, as pessoas estão chocadas. Pelo menos, eu estou.

Trump também é o reflexo, a personificação de tendências mais profundas nas relações mundiais, na política global e na crise do capitalismo que precisamos explicar / Imagem: Gage Skidmore, Flickr

Fred Kempe, presidente do Atlantic Council — um think tank de direita —, afirmou que Trump “é ao mesmo tempo o produto e o produtor” de uma nova era, marcada por “mais intervenção governamental, menos cooperação internacional, mais mercantilismo, menos livre comércio e uma postura cada vez mais arrogante das grandes potências”.

O comportamento de Trump reflete essa arrogância imperial. A grande potência está deixando claro quem manda. Isso ficou evidente na maneira como ele tratou Petro.

É claro que as personalidades desempenham um papel importante na história. O materialismo histórico não nega isso — pelo contrário, o incorpora.

Ao mesmo tempo, Trump é também um reflexo — a personificação — de tendências mais profundas nas relações internacionais, na política global e na crise do capitalismo, que precisamos compreender e explicar.

Já analisamos essas tendências subjacentes no último documento de perspectivas mundiais de 2023, no manifesto da ICR, além de artigos e discussões sobre a conjuntura global. Identificamos que a situação mundial é dominada por três fatores principais:

  1. O declínio relativo do imperialismo dos EUA.
  2. A ascensão de novas potências imperialistas jovens e dinâmicas, como a China, que, no entanto, também começam a atingir seus próprios limites. A Rússia, embora de maneira diferente e até certo ponto, também se enquadra nesse processo.
  3. O aumento da autonomia de potências de médio porte, que aproveitam essa nova dinâmica para equilibrar um bloco contra o outro. Isso pode ser visto em países como Turquia, Arábia Saudita, Índia e outros.

Muito se tem discutido sobre o declínio relativo do imperialismo dos EUA e sobre a ascensão da China como desafiante à hegemonia global. No entanto, há um fator adicional que merece mais atenção e que agora se torna central na equação: a crise de longo prazo do capitalismo europeu.

Esse contexto geral nos ajuda a compreender o significado da política externa de Trump.

Há diferenças fundamentais entre sua abordagem e a de Biden. A política externa de Biden baseou-se na recusa em aceitar as limitações do poder dos EUA e, como resultado, insistiu ingenuamente na tentativa de manter a dominação norte-americana sobre o mundo inteiro.

Essa dominação existiu durante grande parte dos 30 anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, mas já não é mais uma realidade.

Um exemplo claro disso é a guerra na Ucrânia. A estratégia dos EUA era derrotar a Rússia e enfraquecê-la a ponto de impedir qualquer futura invasão que desafiasse a vontade de Washington. No início do conflito, Biden fez uma viagem marcante à Polônia, onde declarou que o verdadeiro objetivo da guerra na Ucrânia era a mudança de regime em Moscou.

No Oriente Médio, a abordagem foi semelhante. Biden concedeu essencialmente um cheque em branco a Netanyahu, aceitando todas as consequências dessa decisão — mesmo aquelas que, em certos casos, não serviam aos interesses estratégicos dos próprios EUA na região.

Em contraste, a política de Trump parte da premissa de que os EUA devem focar na defesa de seus interesses nacionais diretos. Para ele, a prioridade dos EUA está em sua esfera de influência imediata — a América do Norte. Em vez de desperdiçar recursos e vidas em guerras distantes, sem impacto direto para os EUA, o foco deveria ser o fortalecimento da posição norte-americana em sua região.

Essa perspectiva ficou evidente em sua entrevista coletiva antes da posse, quando mencionou a Groenlândia, o Canal do Panamá, o Canadá e o México como áreas estratégicas para os EUA.

Dentro dessa lógica, Trump busca encerrar tanto a guerra no Oriente Médio quanto o conflito na Ucrânia. Um de seus objetivos estratégicos pode ser, inclusive, atrair a Rússia para seu lado e afastá-la da China.

Na visão dele, essa estratégia permitiria aos EUA concentrar-se na principal ameaça à sua hegemonia global: a China. É preciso admitir que, do ponto de vista dos interesses gerais da classe dominante norte-americana, essa abordagem faz mais sentido do que a política seguida por Biden.

Alguns de vocês talvez ouçam o podcast Against the Stream. Em um dos episódios, discutimos uma entrevista de Gideon Rachman, colunista liberal do Financial Times, com Dan Caldwell, um conselheiro da equipe de transição do Pentágono sob Trump.

Trump disse que a guerra na Ucrânia nunca deveria ter começado / Imagem: ICR

O que Dan Caldwell disse naquela entrevista me pareceu extremamente interessante. Ele se apresenta como veterano do exército, tendo servido na guerra do Iraque — um perfil comum entre muitos apoiadores e conselheiros de Trump. Há uma parcela significativa de ex-militares que, politizados por suas experiências nas aventuras imperialistas dos EUA, passaram a questionar essa política.

Caldwell faz um balanço brutal da guerra do Iraque:

“Os EUA mataram até um milhão de árabes, iraquianos e sírios. Mais de 4 mil soldados americanos morreram, sem contar os milhares de contratados que também perderam a vida. Além disso, os custos financeiros foram imensos — mais de US$ 2 trilhões — e os gastos continuam porque a guerra do Iraque ainda não acabou.”

A conclusão dele é direta:

“Essa é uma política externa que ninguém pode afirmar, com sinceridade, que tornou os EUA mais seguros. E, sem dúvida, não tornou o mundo mais seguro ou estável.”

Caldwell argumenta que os EUA devem abandonar essa abordagem e se concentrar exclusivamente em seus interesses reais de segurança nacional.

Nesse momento da entrevista, Gideon Rachman, visivelmente alarmado, faz a pergunta que ecoa o pensamento liberal predominante: “Mas e a Ucrânia?”

Trump já deixou clara sua visão sobre o conflito: ele afirma que a guerra na Ucrânia nunca deveria ter começado e que Zelensky jamais deveria ter entrado nesse confronto, pois a Rússia tem muito mais tanques e poder militar. Sua lógica é simples: “Você não escolhe uma briga com um inimigo muito maior.” A abordagem de Trump reconhece os pontos fortes relativos de cada potência e defende que os EUA deveriam aceitar certas realidades estratégicas.

Voltando a Dan Caldwell. Ao ser questionado diretamente sobre a Ucrânia, ele responde sem rodeios:

“Para responder à sua pergunta, e não para evitá-la: a guerra é uma tragédia. Mas, para os EUA, se a Rússia controla ou não Donbas ou a Crimeia não é um interesse vital para nós.”

Essa perspectiva está totalmente alinhada com as declarações de Trump, que considera a guerra na Ucrânia um produto direto das provocações da Otan contra a Rússia e reconhece que Moscou tem interesses legítimos de segurança nacional na região.

Dan Caldwell coloca uma questão central de forma clara: os EUA devem ser o país mais poderoso do mundo, mas não precisam buscar a primazia global. Para ele, tentar ser a potência dominante, em vez de simplesmente manter uma posição de liderança, é o que levou os EUA à sobrecarga de responsabilidades que, paradoxalmente, os enfraqueceu. Ele afirma:

“Os Estados Unidos devem se esforçar para permanecer como o país mais poderoso do mundo. Mas, na minha opinião, isso é diferente de tentar alcançar a primazia. Não estou defendendo, abraçando ou aceitando o declínio americano. Precisamos fazer coisas para reverter o declínio, mas a busca pela primazia nos tornou mais fracos.”

Este ponto de vista é crucial para entender a abordagem de Trump à política externa, que, em muitos aspectos, reflete uma reconciliação com os limites do poder americano. Ele defende que os EUA devem focar em seus próprios interesses de segurança nacional e em suas esferas de influência, mas também reconhece que outras potências — como a China e a Rússia — têm suas próprias esferas de interesse. Dessa forma, uma negociação entre as potências seria necessária, permitindo uma redefinição das regras da ordem mundial.

Do ponto de vista de Trump, a China é o principal rival dos EUA no mundo / Imagem: Trump White House Archived, Flickr

Isso fica claro na ideia de “paz pela força” que Trump adotou, o que sugere um mundo mais multipolar, em que potências competem para garantir suas respectivas esferas de influência, assim como antes da Primeira Guerra Mundial. As implicações disso vão além da Ucrânia, uma situação da qual Trump quer se distanciar; afetam diretamente a posição dos EUA em relação a Taiwan, por exemplo.

Aqui surge a pergunta: Vale a pena para os EUA defender Taiwan contra a China? Trump já havia afirmado, em julho do ano passado, que:

“Taiwan está a 9.500 milhas de distância. Está a 68 milhas da China… e está nos custando muito dinheiro, sem retorno para os EUA.”

No podcast citado por Caldwell, ele reforça essa posição, dizendo que os EUA não devem comprometer sua segurança com Taiwan. Em vez disso, sugere que os EUA forneçam drones e defesas aéreas mais baratas, permitindo que Taiwan se defenda sem depender das custosas armas americanas para que eles pudessem impedir a China de tomá-los.

Do ponto de vista de Trump, sim, a China é o principal rival dos EUA no mundo. Não há dúvidas sobre isso. Mas isso não significa que os EUA devam se comprometer a entrar em guerra com a China por Taiwan.

Qual conclusão Xi Jinping tirará da derrota da Otan na guerra da Ucrânia? A mais óbvia: há limites definidos para o poder dos EUA.

É claro que há opiniões diferentes, mesmo dentro do campo de Trump, sobre a China. Alguns a veem principalmente como um rival econômico; outros consideram que ela já se tornou um adversário militar.

Esses são alguns dos contornos que determinam a política externa de Trump, além do fato de que ele é, antes de tudo, um homem de negócios e, portanto, está muito mais interessado em usar meios econômicos do que militares. Foi isso que vimos no confronto com a Colômbia. Ele não ameaçou enviar fuzileiros navais ou organizar um golpe militar, mas sim causar sofrimento econômico por meio de tarifas. Ele usou o poderio econômico dos EUA em relação à Colômbia para atingir seus objetivos.

O mesmo ocorreu com a Dinamarca sobre a Groenlândia. Sim, ele disse que não descartava uma ação militar, mas toda a questão foi colocada em termos de uma possível compra da Groenlândia, e ele ameaçou a Dinamarca com tarifas retaliatórias.

Trump está no comando da potência imperialista mais forte do mundo, e sua política ainda é imperialista. No entanto, ao contrário da de Biden, ela parte de um certo reconhecimento de que os EUA não são a única potência mundial e que seu poder tem limites.

Mesmo antes de assumir o cargo, Trump conseguiu um acordo de cessar-fogo em Gaza. Biden não conseguiu. Isso tem muitas implicações importantes.

A primeira é que isso é bastante inédito, pois a pessoa que forçou Netanyahu a assinar o acordo — o enviado de Trump ao Oriente Médio, Steve Witkoff — é um empresário. Assim como Trump, ele vem do mercado imobiliário e, na época em que viajava pelo Oriente Médio, era um cidadão comum, sem posição oficial. Trump ainda não estava no cargo. No entanto, foi ele quem torceu o braço de Netanyahu e o obrigou a assinar o cessar-fogo.

Esse mesmo acordo estava na mesa desde, pelo menos, maio do ano passado. O Hamas já o havia aceitado em julho de 2024. Biden pressionava por ele, mas Netanyahu começou a inventar todo tipo de desculpa e pretexto para sabotá-lo.

Uma de suas principais justificativas era que Israel precisava manter o controle do corredor da Filadélfia, uma estreita faixa de terra que separa Gaza do Egito. Netanyahu insistiu, em julho e depois em setembro do ano passado, que essa era uma questão crucial para a segurança nacional israelense. Segundo ele, as IDF não poderiam, sob nenhuma circunstância, se retirar dali, pois, caso contrário, o Hamas poderia cruzar para o Egito e usá-lo como linha de suprimento.

O acordo, porém, prevê exatamente o oposto. As IDF estão se retirando do corredor da Filadélfia e também do corredor de Netzarim, construído pelas forças israelenses para dividir a Faixa de Gaza ao meio. Isso indica que todos os protestos e sabotagens de Netanyahu não tinham nada a ver com os reféns nem com questões reais de segurança nacional, mas sim com a necessidade de manter a guerra em andamento para permanecer no poder.

As negociações sobre o cessar-fogo foram retomadas em dezembro, mas, conforme a posse de Trump se aproximava, ficou claro que elas estavam prestes a entrar em colapso. Trump disse: “Quero um acordo antes da minha posse”. O que aconteceu naquele momento? O jornal sionista liberal israelense Haaretz descreveu da seguinte forma:

“Witkoff estava em Doha, onde ocorriam as negociações, e, em certo momento, percebeu que os negociadores israelenses apenas faziam o tempo correr — não tinham intenção nem autoridade para assinar ou concordar com nada.”

Então, Witkoff ligou para o gabinete de Netanyahu e disse: “Quero uma reunião com você amanhã, sábado”. O gabinete tentou atrasar todo o processo, argumentando que a reunião precisaria ser adiada, pois era o Sabbath.

Witkoff deve ter batido na mesa e conseguido fazer Netanyahu assinar este acordo / Imagem: domínio público

De acordo com o Haaretz, Steve Witkoff deu uma resposta “salgada”, deixando claro que não se importava se era o Sabbath — o dia de descanso judaico — e que a reunião aconteceria de qualquer maneira. Não sabemos o que foi dito nesse encontro, mas Witkoff deve ter batido na mesa e conseguido fazer Netanyahu assinar o acordo.

A assinatura do cessar-fogo expôs completamente Biden. Ficou evidente que os EUA, de fato, tinham poder para pressionar Netanyahu a mudar sua política. A estratégia de Biden, de apoiar irrestritamente a campanha genocida de Israel em Gaza, não deu a Washington nenhuma vantagem sobre Netanyahu — pelo contrário.

O acordo levou a uma grande crise em Israel, ou melhor, à aceleração da crise política no país. Um dos dois partidos de extrema-direita da coalizão de Netanyahu deixou o governo, e o outro ameaçou sair.

Alguns meses atrás, Netanyahu trouxe o partido de Gideon Sa’ar para a coalizão, reduzindo sua dependência do apoio de Smotrich e Ben Gvir, os líderes dos dois partidos de extrema-direita.

O cessar-fogo também deixou ainda mais evidente que um dos principais interesses de Netanyahu na guerra era manter o conflito em andamento — e até intensificá-lo — para permanecer no poder. Sua própria sobrevivência política pessoal teve um papel central. Essa é uma das razões pelas quais ele agora tenta provocar uma guerra aberta na Cisjordânia.

Um acordo de cessar-fogo não é do seu interesse e, por isso, não há garantia de que ele se manterá. Netanyahu também declarou publicamente que recebeu garantias de Biden e Trump de que, após a primeira fase do cessar-fogo, poderia retomar a guerra em Gaza.

Nos últimos dias, o cessar-fogo no Líbano esteve à beira do colapso. A administração Trump interveio novamente para evitar que ele fosse rompido por completo.

De qualquer forma, está claro que o acordo não pode ser descrito como uma vitória para Israel, já que não alcançou nenhum de seus objetivos de guerra: libertar os reféns pela força militar e destruir o Hamas.

O exército israelense é um dos mais poderosos — se não o mais poderoso — do Oriente Médio, com acesso a tecnologia avançada, inteligência estratégica, armas de ponta, suprimentos extensivos de artilharia e assim por diante. No entanto, as IDF não conseguiram resgatar os reféns e, mais importante, não foram capazes de esmagar o Hamas, que era o verdadeiro objetivo da guerra.

Segundo alguns relatórios recentes da inteligência dos EUA, o Hamas recrutou 15.000 novos membros desde o início do conflito — aproximadamente o mesmo número de pessoas que os israelenses afirmam ter matado. Obviamente, esses novos recrutas não estão treinados nem integrados às estruturas militares no mesmo grau que aqueles mortos por Israel. O Hamas foi claramente enfraquecido, mas está longe de ter sido destruído.

O que vimos nos últimos dias? O que aconteceu assim que as IDF se retiraram? As estruturas do Hamas reassumiram o controle. Ontem, na praça principal da Cidade de Gaza, policiais do Hamas patrulhavam em uniformes limpos e bem apresentados, montando um palco para a libertação dos reféns, enquanto um grande número de homens armados demonstrava de forma ostensiva que ainda estavam no comando. Isso ocorreu na praça central da Cidade de Gaza — um local que as IDF haviam vasculhado minuciosamente para garantir que o Hamas não estivesse presente.

Isso é notável. Os combatentes do Hamas passaram meses escondidos no subsolo, em túneis, e cortaram todas as comunicações entre si por medo de serem interceptados. Agora, eles emergem, tendo recrutado milhares de novos membros, e reassumem o controle da Faixa de Gaza.

Toda essa sucessão de eventos — o ataque do Hamas em 7 de outubro, o fracasso da campanha de Israel em Gaza e a atitude cínica de Netanyahu em relação aos reféns — mais cedo ou mais tarde terá um impacto na consciência da classe trabalhadora israelense.

Por décadas, a classe dominante sionista mobilizou a população israelense em torno de suas políticas com o argumento de que a única forma de garantir a segurança e a subsistência dos judeus em Israel era por meio de um Estado forte, capaz de derrotar todos os seus inimigos. Agora, o mito de sua invencibilidade foi quebrado. Com o tempo, a ideia de que não pode haver paz sem uma solução para as aspirações nacionais do povo palestino tende a ganhar terreno.

Vale a pena perguntar: qual é a política de Trump para o Oriente Médio? [Nota: este discurso foi feito duas semanas antes da visita de Netanyahu à Casa Branca e do anúncio de Trump sobre seu plano para os EUA tomarem Gaza.]

Parece-me que seu objetivo é um acordo de cessar-fogo que leve à retomada dos Acordos de Abraão — ou seja, à normalização das relações entre a Arábia Saudita e Israel. Em sua postagem nas redes sociais reivindicando crédito pelo acordo, ele mencionou os Acordos de Abraão e declarou que Gaza não deveria mais ser um “refúgio para terroristas”.

Pelo que consigo perceber, ele provavelmente acredita que, se conseguirem impulsionar o crescimento econômico na região, todos os problemas serão resolvidos e todos ficarão felizes.

A abordagem prática e empresarial de Trump para a política provavelmente não funcionará no Oriente Médio, nem em nenhum outro lugar, por assim dizer / Imagem: Gage Skidmore, Flickr

Mas isso não é tudo o que ele disse. Agora ele está perguntando: por que não transferimos toda a população de Gaza para a Jordânia e o Egito? Podemos construir casas para que vivam em paz.

Na cabeça dele, isso faz sentido. Gaza foi completamente destruída. Levará anos para reconstruí-la, limpar os escombros, erguer novas casas e infraestrutura. Estamos falando de décadas de reconstrução a um custo altíssimo. No fundo, ele está essencialmente pensando: “por que outra pessoa não paga por isso?”

Ao mesmo tempo, ele provavelmente está pensando: “Dessa forma, posso manter a extrema-direita sionista satisfeita. Eles querem expulsar os palestinos de Gaza, então vamos dar isso a eles também.” Ele pode querer que os sauditas e os Estados do Golfo financiem essa iniciativa. Já é possível enxergar os contornos de tal plano.

No entanto, a abordagem pragmática e empresarial de Trump para a política provavelmente não funcionará no Oriente Médio — nem em qualquer outro lugar.

Não creio que a Arábia Saudita possa aceitar um acordo de normalização com Israel sem algum tipo de Estado palestino, ainda que seja um Estado pequeno e inofensivo. Não porque os governantes sauditas se preocupem com as aspirações nacionais dos palestinos, mas porque temem ser derrubados caso sejam vistos como traidores da causa palestina de forma ainda mais explícita.

Além disso, se um Estado palestino for necessário, como isso seria viável nas condições atuais, com o Hamas no controle de Gaza? Os israelenses tentaram, por 15 meses, eliminar o Hamas com uma campanha brutal — e fracassaram. Esse é, de fato, um impasse insolúvel dentro dos limites das soluções capitalistas. Essa é a única conclusão possível. E, com o tempo, a situação só se tornará mais complicada para Trump.

Quero falar brevemente sobre a Síria, pois este foi outro grande evento ocorrido nas últimas semanas de forma surpreendente e repentina.

Já analisamos a queda do regime de Assad em vários artigos. Isso fazia parte do contexto global mais amplo que descrevemos anteriormente. A Rússia estava envolvida na Ucrânia, o Irã havia sido enfraquecido no Líbano pela campanha de Israel.

A Turquia havia estabelecido uma espécie de parceria com a Rússia, forjada ao longo dos reveses que sofreu na primeira fase da Guerra Civil Síria. No entanto, Turquia e Rússia não são, de fato, aliadas. Diante do enfraquecimento relativo das potências que apoiavam Assad, a Turquia decidiu agir.

O governo turco começou pressionando Assad a chegar a algum tipo de acordo, que incluiria maior controle turco na Síria e permitiria o retorno de um grande número de refugiados sírios atualmente na Turquia.

Por algum motivo, Assad decidiu não aceitar o acordo. Ele também estava em negociações com outros países, incluindo o Catar, e sob pressão dos israelenses. Não queria firmar um compromisso com Erdogan.

Como resposta, a Turquia intensificou a pressão e, assim que o fez, todo o edifício desmoronou. O regime de Assad estava tão corroído que não havia mais sustentação.

O regime de Assad estava tão podre que não restava mais nada / Imagem: Kremlin.ru, Wikimedia Commons

Às vezes, é como um guarda-roupa de madeira tomado por cupins. Por fora, os danos não são visíveis, mas basta puxar uma porta para que tudo desabe.

O cenário pós-colapso do regime de Assad é de uma Turquia muito mais predominante, embora sem controle total sobre o país. O que vemos é a fragmentação da Síria entre diferentes potências regionais.

Israel aproveitou a situação para expandir seu controle no sul, próximo às Colinas de Golã, de onde tem visão estratégica sobre o sul do Líbano. A Turquia domina o norte, o noroeste e a capital, Damasco. Os drusos assumiram o controle do extremo sul. Os curdos mantêm o nordeste, mas sua posição é extremamente frágil.

Há uma lição a ser tirada daqui. Os curdos na Síria se aliaram ao imperialismo dos EUA e, agora, dependem inteiramente desse apoio para sua sobrevivência. Por isso, o líder das Unidades de Defesa do Povo Curdo (YPG) acabou de enviar uma carta servil a Trump, dizendo, essencialmente: “Podemos ser amigos. Somos os melhores defensores dos seus interesses nesta região.”

De maneira camarada, essa lição deve ser discutida com anarquistas e setores da esquerda no Ocidente que adotaram uma postura completamente acrítica em relação a Rojava. No fim das contas, os direitos das pequenas nações não passam de meras moedas de troca nas manobras das grandes potências.

Chegamos, então, à guerra na Ucrânia. Acredito que o Ocidente e a Otan já perderam esse conflito e que não há mais como reverter o curso da guerra. A Rússia está avançando em toda a linha de frente, e o ritmo desse avanço está se acelerando.

A cada etapa do conflito, a tentativa dos EUA de fornecer “armas milagrosas” capazes de mudar o rumo da guerra fracassou completamente. Primeiro foram os tanques Leopard, depois os HIMARS, em seguida os F-16, depois os mísseis ATACMS. Mais recentemente, foi concedida permissão para que os ATACMS fossem usados contra alvos dentro do território russo. Todas essas iniciativas falharam em alterar o desfecho da guerra.

O fator decisivo, neste momento, é a superioridade numérica das tropas russas e a incapacidade da Ucrânia de recrutar mais soldados para o front.

É claro que há outros elementos em jogo, como o esgotamento dos estoques de armamento no Ocidente e os limites da indústria militar ocidental para continuar abastecendo a Ucrânia, em contraste com a capacidade da indústria militar russa de suprir suas próprias forças.

Aliás, vale destacar um ponto interessante sobre essa questão. Alguns meses atrás, durante as discussões do Ocidente com os contratantes militares, os chefes das indústrias de defesa afirmaram: “Sim, podemos aumentar a produção. Podemos investir em novas fábricas para fabricar mais projéteis e equipamentos militares, mas isso só será viável se vocês nos garantirem contratos de longo prazo.”

Se a questão fosse simplesmente aumentar a produção pelos próximos seis meses, as indústrias de defesa do Ocidente não fariam investimentos maciços em capital fixo sem a garantia de que esse aumento na capacidade produtiva seria aproveitado no futuro. É assim que o investimento capitalista funciona.

Na Rússia, a situação é diferente. O Estado adotou uma política intervencionista na economia para garantir a vitória na guerra. O governo determina que as fábricas operem 24 horas por dia, sete dias por semana, e que entreguem o material necessário para os militares. Sejam essas fábricas estatais ou privadas, agora estão sob controle do Estado.

Isso demonstra como o planejamento estatal, de uma forma ou de outra, é muito mais eficiente do que a anarquia da economia de livre mercado – mesmo no que diz respeito à produção de armas para a guerra.

O fator crucial é a incapacidade da Ucrânia de recrutar homens suficientes para lutar / Imagem: domínio público

Esse ponto já havia sido levantado por Ted Grant durante a Segunda Guerra Mundial. Naquela época, a Grã-Bretanha estabeleceu conselhos industriais que determinavam aos empresários e donos de fábricas o que produzir, em que prazos e em quais quantidades. Na prática, isso era uma forma de planejamento estatal. Quando se trata de questões realmente sérias, os próprios capitalistas não confiam no livre mercado.

A ideia de que as sanções ocidentais paralisariam a economia russa e prejudicariam seu esforço de guerra mostrou-se completamente equivocada. A economia russa está crescendo e produzindo o suficiente para sustentar a guerra.

Considerando todos esses fatores, o maior problema da Ucrânia é sua incapacidade de recrutar homens suficientes para lutar. Essa dificuldade vem se arrastando há meses. Algumas informações começaram a vazar para a mídia ocidental, mas a realidade da situação é desastrosa.

Nos primeiros meses da guerra, houve uma onda de patriotismo, e muitos se voluntariaram para lutar, encarando o conflito como uma defesa nacional. Mas essas tropas já estão na linha de frente há anos, sem qualquer rotação. Estão completamente exaustas. No entanto, são combatentes experientes, endurecidos pelo tempo no front, que sabem como lutar – algo que novos recrutas não terão automaticamente.

Atualmente, o Estado ucraniano tem recorrido a métodos cada vez mais autoritários e violentos para recrutar soldados à força por meio do serviço de mobilização e recrutamento, o TCC. Recentemente, um escândalo no parlamento ucraniano trouxe à tona essa realidade. Um deputado do partido governista de Zelensky denunciou: “Isso não pode continuar. Os oficiais de recrutamento em Kharkiv agem como um exército de ocupação, incluindo a criação de postos de controle de filtragem.” Eles identificam homens em idade militar, os colocam à força em vans e os enviam diretamente para a linha de frente. São, essencialmente, sequestrados contra sua vontade.

Esse tipo de ação gerou resistência e revolta. Há meses, os oficiais de recrutamento passaram a usar vans sem identificação, pois a única maneira de capturar novos soldados é pegá-los de surpresa.

Um artigo do Daily Telegraph, no Reino Unido, trouxe o relato de um dia na vida de um oficial de recrutamento ucraniano. No final da entrevista, perguntaram-lhe por que fazia esse trabalho. A resposta foi direta: “Acredito que é melhor trabalhar para o TCC do que se esconder dele.” Em outras palavras, ele escolheu perseguir pessoas em vez de ser perseguido. Ser um oficial de recrutamento significa, pelo menos, evitar ser enviado para a frente de batalha, onde as chances de sobrevivência são mínimas. Esse é o verdadeiro clima que prevalece hoje na Ucrânia.

Outro exemplo desse cenário é a decisão de Zelensky de formar oito novas brigadas treinadas de acordo com os padrões da Otan, uma estratégia que, como de costume, foi altamente voltada para relações públicas, visando manter o apoio ocidental.

Uma dessas unidades foi a 155ª Brigada Mecanizada, composta por 3.500 homens. Eles foram enviados à França para um treinamento de alto nível, em um movimento que também serviu para Macron reforçar sua imagem de “homem forte”, em meio às dificuldades políticas que enfrenta internamente.

No entanto, quando a 155ª Brigada retornou à Ucrânia, foi enviada diretamente para Pokrovsk, uma das áreas mais violentas da linha de frente, onde as forças russas vinham avançando há meses. O resultado? A brigada entrou em colapso antes mesmo de disparar o primeiro tiro. Cerca de 1.700 soldados desertaram, ausentando-se sem licença. Outros 50 já haviam desertado ainda durante o treinamento na França.

O jornalista ucraniano Yuriy Butusov descreveu essa realidade em detalhes. Ele, que certamente não é pró-Rússia, publicou um longo relatório denunciando a situação caótica dentro do exército ucraniano. Além disso, um grupo de analistas militares ucranianos tem levantado pontos semelhantes.

Zelensky, no entanto, não quer ouvir a verdade, e os generais ao seu redor evitam contar-lhe a real situação no front. O resultado é uma cadeia de comando desfuncional, onde os comandantes em terra não relatam recuos ou problemas por medo de represálias. Isso torna qualquer planejamento militar inviável.

Imagine uma unidade sendo empurrada para trás de sua posição original, mas essa mudança não é reportada. A unidade vizinha, acreditando que aquela posição ainda está sob controle ucraniano, segue com sua estratégia normalmente—até que, de repente, se vê completamente cercada pelas forças russas.

O número total de soldados ucranianos que se ausentaram sem licença pode chegar a 200 mil! Desde 2022, mais de 90 mil foram formalmente acusados de deserção, a maioria deles apenas em 2024, mostrando que a taxa de deserção está acelerando rapidamente. Muitos simplesmente abandonam o front, enquanto outros saem com licença médica e nunca mais retornam às suas unidades.

O mais recente escândalo militar na Ucrânia envolve a realocação de especialistas da Força Aérea para a linha de frente como soldados de infantaria. Esses são profissionais altamente treinados no uso de drones, na detecção de mísseis e na defesa aérea, agora sendo deslocados para combates terrestres. Do ponto de vista militar, isso representa um desperdício total de capacidade operacional.

Diante desse cenário, parece improvável que a situação possa se sustentar por muito mais tempo. Do ponto de vista dialético, um acúmulo de pequenas perdas e desgastes pode, em algum momento, desencadear um colapso completo da frente de batalha.

A desmoralização no exército, que reflete o desânimo na sociedade ucraniana, se intensificou ainda mais com a chegada de Trump ao poder. Ele prometeu encerrar a guerra em 24 horas e negociar diretamente com Putin. Qual será o impacto dessas declarações para a liderança política e militar da Ucrânia? E, mais crucialmente, o que isso significará para os soldados exaustos e desmoralizados na linha de frente?

Alguns relatos na mídia ocidental indicam que muitos soldados ucranianos apoiam Trump, pois veem nele uma chance de pôr fim à guerra. Um ex-ministro ucraniano, citado pelo Politico, comentou sobre o impacto de Trump no conflito:

“Pode não ser bom — mas será muito melhor do que sob Biden… [ele] administrou a guerra como uma crise — ele pensou que se aguentasse o suficiente, a tempestade passaria. Mas não está passando. Trump assume a perspectiva de que temos que parar a tempestade. Ele não está preocupado com a forma como ela será parada.”

Essa parece ser a abordagem de Trump para encerrar a guerra. No entanto, não está claro quais medidas ele pretende adotar ou se conseguirá de fato implementá-las. O que está evidente é que, se Trump declarar que os Estados Unidos estão se retirando do conflito — algo que ele já deu sinais de querer fazer —, então a guerra estará, na prática, encerrada.

A situação atual é paradoxal: a guerra já foi perdida, mas ainda não concluída. Se os EUA interromperem o fornecimento de ajuda militar, armas e suprimentos, o colapso da resistência ucraniana será apenas uma questão de tempo.

Uma derrota da Otan na Ucrânia teria repercussões globais significativas. Diferente da retirada humilhante dos EUA do Afeganistão — onde falharam em derrotar um inimigo com capacidades militares muito inferiores —, o desfecho na Ucrânia representaria o fracasso de uma guerra por procuração de grande escala entre a Otan e a Rússia.

Além disso, a Rússia emergiria desse conflito como a única potência imperialista com um exército testado em combate e adaptado aos métodos da guerra moderna. A guerra na Ucrânia tem servido, como todas as guerras, como um campo de testes para novas táticas e tecnologias militares: o uso intensivo de drones, o desenvolvimento de contramedidas eletrônicas, a evolução de mísseis de longo alcance e novas formas de guerra híbrida.

Diante disso, a geopolítica global pode entrar em uma nova fase, onde a supremacia militar do Ocidente, antes incontestável, passará a ser desafiada de forma ainda mais concreta.

Um acordo de paz é possível? A única maneira de isso acontecer seria nos termos de Putin. No momento, a Rússia está vencendo no campo de batalha e, quanto mais tempo o conflito durar, maior será o território sob seu controle.

Quais são esses termos? Em primeiro lugar, qualquer território já ocupado permanecerá sob domínio russo. Além disso, Putin exige um compromisso formal e irrevogável de que a Ucrânia nunca ingressará na Otan e que manterá uma posição de neutralidade. Esse acordo também envolveria a redução significativa das forças armadas ucranianas.

Desde antes da invasão, Putin já deixava claro seus objetivos. Em dezembro de 2021, ele afirmou que a Rússia queria uma “nova arquitetura de segurança na Europa”. Em outras palavras, exigia o reconhecimento de seu status como potência e o fim da interferência ocidental em sua esfera de influência.

Uma derrota da Otan na Ucrânia terá um grande impacto na situação mundial / Imagem: President.gov.ua, Wikimedia Commons

No início da guerra, algumas análises sustentavam que o Ocidente não poderia permitir uma derrota na Ucrânia, pois isso representaria um golpe inaceitável ao seu prestígio. Por isso, continuariam fornecendo armas e apoio financeiro pelo tempo que fosse necessário.

Na época, minha avaliação foi diferente: imaginei que a guerra terminaria rapidamente, com um acordo sendo firmado até o outono de 2022. De fato, negociações estavam em andamento na Turquia, mas foram abruptamente interrompidas quando Boris Johnson viajou a Kiev e instou os líderes ucranianos a não assinarem um tratado de paz, garantindo que o Ocidente os apoiaria “pelo tempo que fosse necessário” até uma vitória total sobre a Rússia.

Minha previsão estava errada, e aqueles que apontavam para a intransigência do Ocidente estavam certos.

Contra qualquer lógica estratégica, as potências ocidentais insistiram em prolongar uma guerra que, há muito tempo, já mostrava ser impossível de vencer. Isso aconteceu, em grande parte, por razões de prestígio: uma vez envolvidos nesse conflito, os governos ocidentais se recusaram a admitir uma derrota. Meu erro foi superestimar a capacidade do imperialismo ocidental de agir de maneira racional e pragmática diante da realidade militar e política.

No entanto, há limites definidos — financeiros, físicos e políticos — para a capacidade do Ocidente de continuar fornecendo armas. Esses limites, em grande parte, já foram atingidos.

Quanto à questão do prestígio e ao impacto que a perda de status dos EUA terá nas relações globais, talvez Trump acredite que pode sair impune, jogando a culpa em Biden. “Esta não é minha guerra, esta não é minha humilhação. Isso é um erro, ou até mesmo um crime, cometido por Biden. E estamos nos afastando disso. Muitas pessoas já morreram.” Isso é o que ele está dizendo.

Trump também é um narcisista. Alguns sugeriram que ele quer o Prêmio Nobel da Paz! E isso não seria estranho para o comitê do Nobel; afinal, eles já concederam o prêmio a muitas figuras controversas.

Do ponto de vista de Trump, ele provavelmente acredita que, se pudesse se sentar com Putin, usaria seu charme e suas relações pessoais para chegar a um acordo benéfico para todos.

Essa foi a essência da postagem de Trump nas redes sociais: “Eu gosto dos russos. Os russos nos ajudaram muito na Segunda Guerra Mundial. A economia russa está em má situação, e eu farei um favor a Putin ao chegar a um acordo.”

Mas, obviamente, Putin não é um tolo. Ele pode ser muitas coisas, mas não um tolo. E ele conhece a realidade da situação — tanto em relação à economia russa (que está crescendo) quanto à conjuntura militar.

Trump vê a guerra na Ucrânia como um erro, um desperdício de dinheiro e tempo, e quer pôr fim a isso. Mas a realidade é mais complexa do que a simples vontade de Trump.

Ele certamente tem muita influência sobre a Ucrânia. Trump considera Zelensky um incômodo. Ele preferirá negociar diretamente com Putin e, depois, se voltar para Zelensky e dizer: “Você deve aceitar isso”.

Foi relatado que o chefe do serviço de segurança da Ucrânia, Budanov, disse, em uma reunião fechada com líderes de facções parlamentares e comandantes militares, que, a menos que negociações sérias fossem iniciadas, em seis meses a Ucrânia enfrentaria “uma ameaça existencial”. Zelensky também declarou que a proibição de quaisquer negociações com Putin, que ele próprio defendeu meses atrás, não se aplica mais a ele e que está disposto a sentar-se à mesa. Está claro que o governo ucraniano está sendo forçado a reconhecer a realidade. Eles tentarão extrair o máximo possível dessas negociações, mas têm pouca margem de manobra.

E se os europeus se opuserem às negociações ou aos termos de um possível acordo? Trump dirá: “Ok, bem, esta é a sua guerra. Sigam em frente. Estamos saindo.” A Europa não está em posição de sustentar sozinha uma guerra por procuração contra a Rússia, seja do ponto de vista econômico, político ou militar. Essas são as linhas gerais da situação.

O que tudo isso significa? Houve uma grande mudança nas relações mundiais. É também uma mudança na forma como os Estados Unidos agem.

The Economist publicou um editorial dizendo que os Estados Unidos têm agora, “pela primeira vez em mais de um século… um presidente imperialista”! Tenho certeza de que muitas pessoas no Vietnã, no Iraque, no Chile, na Venezuela e em Cuba ficarão surpresas. Obviamente, todos os presidentes dos EUA são imperialistas há muito tempo. Bem mais de um século, certamente.

Mas The Economist pode estar certa, e é o seguinte. Em todo o período desde o fim da Segunda Guerra Mundial, ou talvez até antes disso, o imperialismo dos EUA manteve a pretensão de agir em nome dos direitos humanos, espalhando a democracia e a “ordem baseada em regras”, defendendo o “princípio sagrado da inviolabilidade das fronteiras nacionais” e assim por diante.

Eles atuavam por meio de instituições internacionais “multilaterais”, aparentemente neutras, nas quais todos os países tinham voz: as Nações Unidas, a OMC, o FMI e assim por diante.

Na realidade, tudo isso sempre foi apenas um disfarce. Uma farsa. Ou os interesses do imperialismo dos EUA eram expressos por meio dessas instituições, ou simplesmente as ignoravam.

A diferença agora é que Trump não faz a menor questão de manter essas pretensões. Ele parece determinado a rasgar todo o livro de regras e expor as coisas abertamente, como realmente são. Quando diz que o Canal do Panamá e a Groenlândia fazem parte dos interesses de segurança nacional dos EUA, ele está expressando o ponto de vista da classe dominante americana sem rodeios.

A maneira como Trump fala abertamente e sem subterfúgios sobre os interesses do imperialismo dos EUA está tendo um impacto significativo na consciência global. Hoje, a maioria das pessoas no mundo consegue enxergar com mais clareza como o sistema realmente funciona e como o imperialismo opera na prática. Essas mudanças na percepção foram drasticamente aceleradas pela guerra em Gaza.

Falamos sobre o declínio relativo do imperialismo dos EUA e a ascensão da China e da Rússia como potências imperialistas no cenário mundial, mas esses processos caminham lado a lado com o declínio de longo prazo das potências imperialistas europeias — um processo que agora se acelerou enormemente. Explicamos isso em diversos artigos, incluindo nossa análise sobre o relatório de Mario Draghi sobre “competitividade europeia” e nosso estudo recente sobre a crise da indústria automobilística europeia.

A Europa enfrenta uma crise profunda, da qual não consegue escapar. Não dispõe dos meios para sair dela. A Alemanha está em recessão há dois anos, e alguns economistas burgueses preveem que essa recessão se estenderá por todo o ano de 2025 — algo sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial.

Esse processo foi acelerado de forma drástica pela guerra na Ucrânia e pelas sanções europeias contra a Rússia. Em vez de enfraquecer o esforço de guerra russo, essas sanções prejudicaram principalmente a Europa — especialmente a Alemanha.

Alguns números ilustram bem esse impacto: desde 2021, a produção industrial alemã caiu 7%, mas, nas indústrias intensivas em energia, a queda foi de 20%! A Alemanha, obviamente, foi o país mais afetado, pois dependia fortemente do fornecimento de energia russa barata.

Mas outros países europeus também sentiram o impacto. No Reino Unido, a produção industrial já vinha em declínio há anos, mas os números após o início da guerra na Ucrânia são alarmantes: a produção industrial caiu 9% desde 2021, a produção de metais caiu 35%, produtos químicos 38%, cimento 39%, e a fabricação de equipamentos elétricos desabou em impressionantes 49%! Um verdadeiro banho de sangue.

Além do impacto das sanções energéticas contra a Rússia, esse colapso reflete um problema estrutural mais profundo, que o relatório Draghi explica claramente: a competitividade da Europa está ficando para trás em relação aos EUA e à China. O capitalismo se baseia no reinvestimento do valor excedente para impulsionar a inovação tecnológica e desenvolver os meios de produção, tornando o processo produtivo mais eficiente.

Nos últimos anos, enquanto os Estados Unidos registraram algum crescimento na produtividade do trabalho, a Europa ficou muito, muito atrás. O relatório Draghi aponta que o nível de integração econômica europeia é insuficiente para competir com as enormes economias de escala e os mercados de capital dos EUA e da China.

A ideia original da integração europeia era uma tentativa das classes dominantes do continente de unirem forças para evitar serem esmagadas isoladamente. No entanto, a existência de diferentes regimes regulatórios e mercados de capital separados impede a mobilização coordenada da força econômica das diferentes burguesias europeias em um esforço conjunto. Existem poucas exceções a essa regra — a Airbus sendo uma delas.

Hoje, em um período de crise e crescente competição global entre blocos, a Europa, em vez de se unir, está sendo puxada em diversas direções. E essa tendência só tende a se aprofundar.

Um exemplo disso é a Áustria, cuja classe capitalista mantém interesses significativos na Rússia, sendo, portanto, atraída nessa direção. Outros países, por sua vez, estão cada vez mais alinhados aos EUA. Como resultado, qualquer tentativa de formular uma política europeia conjunta para enfrentar essa crise está fadada ao fracasso.

Isso fica evidente na dificuldade em estabelecer tarifas sobre veículos elétricos chineses. A indústria automobilística europeia, que emprega milhões de trabalhadores, vê os carros elétricos chineses como uma ameaça. No entanto, os países europeus não conseguem chegar a um consenso, pois alguns estão tentando atrair investimentos chineses para instalação de fábricas de veículos elétricos e baterias em seus próprios territórios, em detrimento de outros países do bloco.

Essa crise multifacetada está na raiz do crescimento dos demagogos de direita por toda a Europa. Esse não é um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos, embora a vitória eleitoral de Trump tenha acelerado significativamente o fortalecimento dessas forças na Europa. Na realidade, esse processo já estava em curso.

Apesar das diferenças — cada uma dessas formações sendo moldada por particularidades nacionais, história e características específicas — o padrão geral e as causas são semelhantes.

Vemos, por exemplo, o avanço da AfD na Alemanha, que, além de explorar o sentimento antimigratório, capitaliza a indignação contra o establishment, especialmente em relação à oposição à guerra na Ucrânia e às consequências econômicas das sanções contra a Rússia.

A vitória eleitoral de Trump acelerou enormemente a ascensão de formações demagógicas de direita na Europa / Imagem: Gage Skidmore, Flickr

No Reino Unido, já nas eleições gerais de julho de 2024, o partido de Nigel Farage, o Reform, obteve alguns avanços. Agora, as pesquisas indicam que ele já está no mesmo nível do Partido Trabalhista — e, em pelo menos uma sondagem, chegou até a superá-lo em dois pontos.

Musk está alimentando esse processo. Ele interveio de maneira semelhante a Trump, atacando Starmer, Macron e Scholz, e apoiando abertamente o AfD ao aparecer via vídeo em seu congresso nacional.

Sua intervenção foi incendiária. Musk pediu ao Rei Charles que demitisse o governo britânico e convocou o povo a se levantar contra o governo de Starmer, alegando que este, segundo Musk, estava protegendo gangues de aliciamento e “encobrindo o maior crime da história da Grã-Bretanha”.

É claro que suas intervenções são as de um indivíduo perturbado, mas ele não é apenas um bilionário dono de uma plataforma de mídia social. Ele ocupa também uma posição oficial na administração de Trump, uma função diretamente vinculada ao gabinete presidencial, mas fora da estrutura formal do estado.

Musk está atacando abertamente os líderes europeus, sem se importar com diplomacia ou protocolo, e usando sua riqueza e influência nas redes sociais para impulsionar essa mensagem.

Os liberais e a esquerda estão em pânico com isso. Levantam um clamor sobre a desinformação nas mídias sociais e o “efeito polarizador dos algoritmos”, pedindo “regulação”.

Sim, claro, há muita desinformação nas mídias sociais. Mas o que é necessário perguntar é: será que a “mídia tradicional” está repleta de informações verdadeiras? A resposta é não. Alguns de nós ainda lembram das “armas de destruição em massa” de Saddam. Além disso, por que as pessoas tendem a acreditar na desinformação nas mídias sociais? Porque há um grau tão grande de desconfiança na mídia tradicional. Eles mentiram e defenderam o sistema por tanto tempo que as pessoas agora conseguem enxergar através deles.

Os liberais, por sua vez, tentam inverter a narrativa, alegando que a eleição presidencial romena foi manipulada por meio de mensagens no TikTok financiadas pela Rússia, e que foi isso o que levou à vitória de Georgescu. Isso é completamente ridículo, e até agora eles não apresentaram nenhuma prova disso, mas, mesmo assim, a Suprema Corte cancelou o resultado do primeiro turno com base nessas alegações.

Na verdade, se fosse tão simples, por que os liberais não organizaram sua própria campanha no TikTok? A questão não é o meio através do qual a campanha foi divulgada, mas sim o conteúdo da campanha. A mensagem de Georgescu se baseou na oposição à guerra na Ucrânia, à Otan, e fez uma pergunta crucial: por que estamos gastando tanto dinheiro na guerra na Ucrânia enquanto nosso próprio povo é forçado a emigrar para a Europa Ocidental devido à falta de empregos na Romênia? E isso, obviamente, ressoou com milhões de romenos.

Este caso realmente expõe a natureza dos liberais. O que eles estão dizendo é que, se o candidato “errado” — do ponto de vista da Otan, de Bruxelas, etc. — vencer a eleição, então basta simplesmente cancelar o resultado. Essa é a essência do compromisso dos liberais com a democracia e o “direito ao voto”, sobre o qual continuam discursando, alegando que está sob ameaça devido aos demagogos de direita.

Se olharmos para a Europa, veremos o mesmo fenômeno em todo lugar. Le Pen está crescendo na França e pode, eventualmente, se tornar presidente. Farage já está à frente do Partido Trabalhista na Grã-Bretanha e pode vir a ser o primeiro-ministro, liderando uma coalizão Reformista-Conservadora. O FPÖ pode se tornar o parceiro sênior de uma coalizão de direita na Áustria. Na Alemanha, a AfD está subindo, pressionando os conservadores para suas posições ou até dividindo-os. Meloni já está no poder na Itália.

Há anos discutimos a crise de legitimidade da democracia burguesa, de suas instituições e de seus partidos estabelecidos. Isso é causado pela crise do capitalismo, que se acelerou desde 2008. Como resultado, o crescente sentimento antissistema está se refletindo na ascensão dos demagogos de direita.

A ascensão dos demagogos de direita pode ser explicada por dois fatores principais: o clima anti-establishment e o colapso, o fracasso e a falência total da chamada “esquerda”.

Qual é a resposta padrão dessa “esquerda” quando confrontada com essa situação? “Devemos todos nos unir em defesa da República, devemos nos unir para defender a democracia liberal e a liberdade de expressão”, etc. Essa é, na verdade, a pior resposta possível e acaba, de fato, ajudando os demagogos de direita. Eles podem então virar e dizer: “Olha, eles são todos iguais. Estão todos defendendo o sistema”. E, de fato, estão.

Esse é o sistema que está destruindo empregos, que é responsável pelo alto custo de vida e pelos problemas sociais em muitos países. Claro, os demagogos de direita acrescentam uma tentativa de usar os migrantes como bodes expiatórios para esses problemas.

Há fortes ilusões entre milhões de pessoas nos Estados Unidos de que Trump trará de volta os “bons e velhos tempos” do período pós-guerra / Imagem: Gage Skidmore, Flickr

A pergunta que precisamos nos fazer é: o que acontecerá quando essas formações de direita chegarem ao poder? Trump já está no poder nos EUA. Ele fez muitas promessas. Está surfando nas expectativas de milhões de pessoas que acreditam que ele realmente irá “tornar a américa grande novamente”.

O que isso significa para uma parte significativa da classe trabalhadora? Para muitos, tornar a América grande novamente significa empregos decentes e bem pagos. Isso significa que poderiam chegar ao fim do mês sem a necessidade de trabalhar em dois ou três empregos diferentes, ou ser forçados a vender plasma para sobreviver.

No entanto, isso não vai acontecer. Isso certamente não vai acontecer. Há fortes ilusões entre milhões de pessoas nos Estados Unidos de que Trump trará de volta os “bons e velhos tempos” do período pós-guerra. Isso está completamente descartado.

Eles acreditam que as políticas de Trump trarão tempos melhores.

Não está descartado que, por um curto período de tempo, algumas dessas medidas — como tarifas, que poderiam promover o desenvolvimento industrial nos Estados Unidos às custas de outros países — possam ter um pequeno impacto. Muitas pessoas também lhe darão o benefício da dúvida por um tempo. Trump pode usar o argumento de que é o establishment, o “Estado profundo”, que não está permitindo que ele execute suas políticas.

Mas, uma vez que a realidade se imponha e essas ilusões se dissipem, veremos uma mudança igualmente brusca e violenta do pêndulo para a esquerda. O profundo clima anti-establishment que impulsionou Trump ao poder se expressará do lado oposto do espectro político.

Há um artigo de Trotsky chamado “Se os Estados Unidos se tornassem comunistas“, no qual ele fala sobre o temperamento americano, que ele descreve como “enérgico e violento”: “Seria contrário à tradição americana fazer uma grande mudança sem escolher lados e quebrar algumas cabeças.”

O trabalhador americano é prático e exige resultados concretos. Ele está preparado para agir e fazer as coisas acontecerem.

Farrell Dobbs, líder da grande greve dos Teamsters em Minneapolis em 1934, passou diretamente de Republicano a líder trotskista. Em seu relato sobre a greve, ele explica a razão. Para ele, os trotskistas eram os que ofereciam as soluções mais práticas e eficazes para lidar com os problemas enfrentados pelos trabalhadores.

Vou concluir com esta questão. Temos discutido há algum tempo como há uma mudança na consciência, especialmente entre os jovens. Esse processo já estava em curso antes mesmo de lançarmos a campanha “Você é um comunista”. Existe uma camada de jovens que está tirando conclusões muito radicais, e alguns deles se consideram comunistas.

A propósito, não devemos exagerar esse fenômeno. Ainda é apenas uma camada. Mas, em termos numéricos, a quantidade de jovens que se consideram comunistas é considerável para uma pequena organização como a nossa.

Há uma nova pesquisa de opinião na Grã-Bretanha que mostra que 47% dos jovens concordaram com a afirmação: “Toda a maneira como nossa sociedade é organizada deve ser radicalmente mudada por meio da revolução.” Essa é, de fato, uma maneira bastante incisiva de formular a pergunta, e, ainda assim, ela obteve o apoio de 47% dos jovens.

A pesquisa também apresenta uma série de outros resultados interessantes. A maioria dos jovens acredita que o que é necessário é um líder forte, não vinculado ao parlamento. É claro que também há muita confusão e uma rejeição generalizada aos políticos corruptos no parlamento. No entanto, o fato de que 47% dos jovens acreditam que uma revolução é necessária para derrubar o sistema político tal como ele está organizado hoje é extremamente significativo.

Como mencionei no começo, vivemos em tempos de grande turbulência. Parece que todos na esquerda estão atolados em um clima de desespero e pessimismo. Mas nós estamos otimistas. Estamos otimistas porque entendemos os processos subjacentes em jogo.

Esses processos levarão a conflitos massivos na luta de classes. O que é óbvio é que os governos encontrarão cada vez mais dificuldades em implementar as políticas que a classe capitalista precisa para lidar com a crise. Eles não conseguem obter uma maioria parlamentar para aprovar cortes de austeridade mais profundos e ainda mais duros, pois qualquer partido que os apoiar seria derrotado nas urnas.

O Secretário-Geral da Otan, Mark Rutte, fez um discurso no Parlamento Europeu há alguns dias, onde afirmou que será necessário aumentar os gastos com defesa, e que a meta anterior de 2% do PIB não é mais suficiente. Agora, eles estão exigindo 4% ou até 5% do PIB. Na realidade, muitos países da Otan sequer atingem 2%!

Rutte acrescentou que, para atingir essa meta, será necessário cortar gastos em outras áreas. Ele mencionou especificamente os gastos sociais, as pensões, a educação, a saúde, etc. Ele disse aos parlamentares europeus que essa era uma decisão difícil que eles precisavam tomar, mas que, se não o fizessem, poderiam muito bem começar a “aprender russo ou emigrar para a Nova Zelândia.”

Claro, ele está exagerando o perigo russo para impulsionar sua agenda de aumento dos gastos militares. Há um elemento de alarmismo. A Rússia não está prestes a invadir a Europa. No entanto, a política é clara: aumentar os gastos com defesa e cortar os gastos sociais. Isso só agrava a situação já difícil que a classe trabalhadora está enfrentando.

Esta é a situação real em que nos encontramos, uma situação que já está provocando uma radicalização política massiva, parte da qual está se expressando de uma maneira muito distorcida.

Nossas forças ainda são modestas e não nos permitem intervir de forma decisiva nos eventos. Somos pequenos. Portanto, há uma certa urgência em construir nossas forças. Se conseguirmos chegar a uma organização de 5 ou 10 mil membros em um país capitalista avançado — uma organização de quadros, com raízes entre os jovens e a classe trabalhadora — antes que ocorram eventos massivos, como certamente ocorrerão, então estaremos no caminho certo.

E isso também é perfeitamente possível, se realizarmos nosso trabalho de maneira paciente e sistemática, se não perdermos a cabeça e se conseguirmos nos conectar com uma pequena, mas crescente, camada de jovens muito radicalizados, que estão buscando uma alternativa séria para lutar contra esse sistema capitalista decadente e senil.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.