Imagem: Roberto Guedes

Greve dos Técnico-Administrativos em Educação na Paraíba contra a precarização do ensino

Continuação da greve de 2024, encerrada com um Termo de Acordo que o governo federal se recusa a cumprir integralmente, a greve dos Técnico-Administrativos em Educação (TAE) ocorre desde fevereiro de 2026 em mais de 50 instituições federais brasileiras, incluindo a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Instituto Federal da Paraíba (IFPB).

A mobilização expressa as contradições estruturais do Estado capitalista brasileiro, a lógica de ajuste fiscal que subordina a educação pública às metas do capital financeiro e a precarização crescente da força de trabalho no serviço público federal.

O governo federal oferece reajustes de aproximadamente 5% aos TAE e 9% aos docentes frente a uma perda acumulada de 22,71% (entre setembro de 2016 e dezembro de 2025). Isso não é aumento; é reposição parcial das condições de reprodução da força de trabalho. O servidor busca recuperar o mínimo para manter seu padrão de vida (pagar o aluguel, alimentar a família, garantir saúde e educação para os filhos). A recusa do Estado em atender sequer essa demanda mínima não é contingencial: é política fiscal deliberada.

O orçamento discricionário das universidades federais ilustra com clareza essa política. Em 2014, as IFE dispunham de 6,7 bilhões de reais (corrigidos pela inflação). Em 2024, esse valor caiu para 5 bilhões, abaixo até mesmo do registrado nos governos Temer e Bolsonaro, no período pré-pandemia. O orçamento discricionário atual é aproximadamente 45% do que era em 2014. Para 2025, houve corte de R$ 340 milhões; para 2026, novo corte de R$ 500 milhões (7,05% dos recursos discricionários). Enquanto isso, as emendas parlamentares no MEC saltaram de 0,61% do discricionário em 2014 para 5,1% em 2024, transformando as universidades em reféns de barganhas políticas no Congresso.

A “falta de dinheiro” é uma falácia. O governo federal opera sob a lógica do teto de gastos, cortes orçamentários e do Decreto 12.448/2025, que fraciona repasses em 18 parcelas. A educação pública é subordinada às metas de ajuste fiscal impostas pelo capital financeiro, representado no Congresso pelas presidências de Hugo Motta (Câmara) e Davi Alcolumbre (Senado), que aprofundam o bloqueio orçamentário e usam emendas como moeda de troca.

Embora nacional, a greve enfrenta dificuldade em unificar a categoria em torno de uma pauta única. A própria estrutura do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PCCTAE) reproduz desigualdades que afetam a capacidade de mobilização. A adesão desigual entre setores é reflexo disso: setores mais precarizados tendem a ter menor capacidade de paralisação, pois dependem imediatamente do salário para a reprodução de sua existência. Já setores mais estáveis dispõem de mais condições materiais para sustentar uma greve longa.

As reivindicações dos TAE vão além do reajuste salarial. A jornada de 30 horas semanais e o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) questionam a organização e a valorização do trabalho no interior das universidades. A jornada de 40 horas, mantida à força, exige mais trabalho pelo mesmo salário, diluindo o valor da hora trabalhada e acelerando o desgaste físico e mental dos servidores.

A greve dos TAE de 2026 avança há dois meses em várias instituições, sem perspectiva imediata de negociação. A Fasubra organiza um Comando Nacional de Greve com comissões de Comunicação, Infraestrutura e Secretaria, mas as reuniões com o MEC ocorrem sem avanços concretos. Alguns comandos locais, como o Sintet-UFU, defendem que a greve não deve incluir novas reivindicações além do cumprimento do acordo de 2024, para não dispersar a pauta.

Diferentemente da greve docente de 2025, as aulas não são interrompidas, o que reduz a visibilidade. Em setembro de 2025, estudantes de Medicina da UFPB protestaram contra a superlotação no internato, mas essa consciência ainda não se traduziu em solidariedade ativa com os trabalhadores técnico-administrativos.

A direção da Fasubra conduz a greve nacional, mas enfrenta dificuldade para articular unidade com outras entidades, como o Sinasefe e o Andes. Na Paraíba, essa fragmentação se expressa de forma assimétrica: enquanto os TAE da UFPB mantêm a paralisação em 2026, os docentes da UEPB viram sua greve de 2025 ser encerrada em dezembro com uma proposta do governo estadual que não contemplou reajuste salarial direto e parcelou progressões com deságio de 40%. A aprovação do acordo na UEPB não refletiu unidade na categoria: 36% dos docentes votaram contra. Uma divisão interna que enfraqueceu a capacidade de pressão. A UFPB se beneficia da greve nacional coordenada pela Fasubra , enquanto a UEPB negociou isoladamente com um governo estadual que se ausentou das mesas de negociação e só cedeu sob pressão parlamentar.

O horizonte de ameaça é a Reforma Administrativa, em tramitação na Câmara dos Deputados, com um Grupo de Trabalho liderado por Pedro Paulo (PSD-RJ). A reforma pode, paradoxalmente, unificar a categoria ao ameaçar a todos indistintamente ou fragmentá-la ainda mais, ao criar mecanismos de diferenciação e precarização. A proximidade do processo eleitoral de 2026 também pesa: o governo pode tentar usar o reajuste como moeda eleitoral ou, pelo contrário, manter a intransigência para não abrir precedentes.

A greve dos TAE na Paraíba e no Brasil é parte de uma ofensiva mais ampla do capital contra o trabalho, mediada pelo Estado, que utiliza o ajuste fiscal, a reforma administrativa e a precarização como armas de destruição de direitos. Os trabalhadores do serviço público federal são obrigados a produzir mais com menos, a trabalhar mais horas por menos salário, a ver seus saberes desvalorizados e seus cargos ameaçados de terceirização.

O que está em jogo na greve de 2026 é, em última instância, a reprodução da vida dos trabalhadores. Não se trata de ganhar “privilégios”, como insinua a propaganda burguesa. Trata-se de não perder mais do que já se perdeu e de impedir que a educação pública seja destruída por um ajuste fiscal que serve aos bancos, aos rentistas e ao capital financeiro, enquanto condena milhões de brasileiros à mediocridade e à exclusão.

A greve dos TAE, nesse sentido, é uma greve de todos os trabalhadores. Sua vitória ou derrota não será apenas dos técnico-administrativos: será de toda a classe trabalhadora brasileira.

Não há saída dentro da ordem fiscal vigente. A greve não deve ser apenas por “5% ou 9%”, mas uma denúncia contra a Reforma Administrativa e o arcabouço fiscal que sequestram o futuro da classe trabalhadora. A direção da Fasubra e dos sindicatos locais (SintesPB) deve radicalizar a base e buscar a unificação com o setor docente, bem como a UNE deve articular, desde a base, os estudantes, superando a paralisia institucional.