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Marjane Satrapi, presente!

Em meio ao atual cenário de guerra no Irã, precedido pelas manifestações das massas contra o governo e pela consequente onda de repressão por parte do regime, morre Marjane Satrapi, um símbolo da luta pela liberdade. A obra de Marjane está permeada de um combate ao regime dos aiatolás, mas em nenhum momento abandona o combate ao imperialismo; não há nenhuma vírgula de concessão ao Império. Ao mesmo tempo, não é um panfleto, pois está carregada de inovação, sensibilidade e estilo. A aproximação com os marxistas e, por consequência, com os trotskistas é notória.

Em 1969, nascia Satrapi em Rasht, no Irã. A menina, de uma família próspera da pequena burguesia, mudou-se com o pai, que era engenheiro, e a mãe, uma estilista, para a cidade de Teerã, onde cresceu tendo acesso a muita cultura e informação no seio de uma família progressista.

“Para me despertar, meus pais me deram uns livros. Eu sabia tudo sobre as crianças palestinas, sobre o Fidel Castro, sobre os pequenos vietnamitas mortos pelos americanos, sobre os revolucionários do meu país… Mas o meu livro preferido era uma história em quadrinhos chamada ‘O materialismo dialético’.” (Persépolis)

Após a Revolução Iraniana de 1979 e seu trágico desfecho, a família envia a menina para estudar na Áustria com medo da repressão. Satrapi retorna para Teerã aos 19 anos, estuda artes e decide ir novamente para a Europa, em 1993. Na década de 1990, passa a viver definitivamente em Paris e se torna cidadã francesa.

É na França que Satrapi cria sua obra mais importante, a história em quadrinhos “Persépolis” (2000 a 2003), um feito da literatura mundial, também adaptada para o cinema em uma animação que venceu em Cannes, em 2007, e foi indicada ao Oscar, em 2008. Nela, Marjane conta a sua própria história, entrelaçada com a revolução que inicia como um processo de transformação impulsionado pelos trabalhadores, que é usurpado por uma direção fundamentalista que a trai, fazendo o Irã “andar 50 anos para trás”, como afirma a mãe de Marjane no último capítulo da história.

Ao longo de uma sensível narrativa, com desenhos simples, em preto e branco, acompanhamos os impactos desse processo na vida das massas e, principalmente, das mulheres iranianas.

Em “Bordados”, de 2003, a questão da mulher é aprofundada sob outra ótica pela autora, pois é a partir de relatos pessoais de mulheres que se reúnem para bordar ao redor de um samovar, tradicional bule de chá, que as acompanhamos enquanto falam das suas experiências amorosas e sexuais. Destaca-se, tanto em “Bordados” quanto em “Persépolis”, a figura da avó de Marjane, apresentada como uma figura bastante forte e sábia, com traços nítidos de um feminismo pequeno-burguês carregado de contradições.

É a partir de personagens reais que vemos Marjane Satrapi como uma defensora incondicional da liberdade.

“A despedida foi bem menos dolorosa que 10 anos antes, quando embarquei para a Áustria: não havia mais guerra, eu já não era uma criança, minha mãe não passou mal, e minha vó felizmente estava lá… felizmente, pois desde aquela noite de 9 de setembro de 1994, só voltei a vê-la uma vez, no Ano-Novo iraniano, em março de 1995. Ela morreu em 4 de janeiro de 1996… a liberdade tinha um preço…” (Persépolis)

É preciso destacar também sua história mais sensível, “Frango com ameixas”, na qual Satrapi nos conta sobre a vida de seu tio-avô Nasser Ali Khan, que teve um fim tragicamente parecido com o de Marjane. Nasser era um músico que “resolveu morrer”, e, ao tomar essa decisão, “deitou na cama e, 8 dias depois, em 22 de novembro de 1958, foi enterrado” (Frango com ameixas). Essa “decisão” vem depois de Nasser perceber que perdeu o prazer de tocar o seu tar (um instrumento musical de cordas), mas que se conecta com a “perda” do amor de sua vida, Irâne.

Cena da adaptação para o cinema de “Frango com ameixas”

Satrapi era uma militante, uma mulher extremamente corajosa e política, o que é visível não somente em sua obra, mas também em suas ações. Em 2023, por exemplo, coordena o livro “Mulher, Vida e Liberdade”, que era o lema da revolta sem precedentes que se espalhou como pólvora pelo país em razão do assassinato da jovem Mahsa Amini pela Polícia da Moralidade por não usar véu. A coragem e a delicadeza do traço de Satrapi fizeram dela uma das mais importantes escritoras e desenhistas do século XXI.

É certo que a tristeza nos invade com a notícia da precoce morte de Satrapi, mas, aos revolucionários, a morte de um gigante deve servir para que possamos olhar o mundo a partir de seus ombros. A perda de uma mulher de tamanha envergadura deve se transformar em exemplo de força. Sua história e sua obra devem servir de impulso para que possamos lutar pela construção de outro mundo.

Marjane Satrapi, presente!